Chega de saudosismo! Romantizar o passado impede o futebol brasileiro de olhar pra frente

A queda da seleção sub-20 no Sulamericano deu voz ao saudosismo e prega uma volta ao passado. Mas que passado é esse?

A desclassificação da seleção sub-20 ao Mundial deu voz a uma ideia comum no Brasil em derrotas no futebol: o clamor pelo passado. Frases como “não há mais talentos como antigamente”, “ninguém mais sabe driblar” e “o futebol moderno destruiu os craques” tecem uma rede de clichês de raciocínio simples: o futebol brasileiro é gigante por natureza e era melhor no passado.

Craques desfilavam em campo, estádios estavam sempre lotados e o jogo era belo e artístico. Se tudo era melhor antigamente, basta podar aquilo que se apresenta como moderno para retomar a vitória: menos ciência, mais empirismo. Menos estudiosos, mais boleiros. Menos tática, mais alegria. Conservar ao invés de progredir. Voltar às origens.

Um rápido resgate mostra que essa visão mal-humorada, crítica e agressiva com o futebol é uma constante há pelo menos 70 anos. A seleção já não agradava a ninguém em 1970, ano do tri-campeonato mundial no México. O teor das críticas antes da Copa eram as mesmas de hoje: não há time titular, o treinador escala errado, convoca errado…

E o futebol moderno, que robotiza os jogadores e deixa o jogo chato? Já aprontava das suas em 1973, quando essa reportagem denunciava: a retranca vai acabar com o jogo! O discurso é o mesmo: a tática aprisiona o talento, deixa o jogo quadrado, tira a arte e a beleza. Não fazia nem 3 anos que o Brasil chegara em seu auge e já se reclamava…

E aqui, três anos antes da primeira conquista mundial de 1958, que a Folha de São Paulo relata que o futebol europeu estava progredindo mais que o sulamericano?

Se o Brasil é realmente o país do futebol e o passado era muito melhor que o presente, porque os relatos desse mesmo passado soam exatamente como hoje?

Porque a ideia de que o futebol brasileiro é o melhor do mundo, na prática, nunca existiu. O futebol romântico e talentoso como imaginamos é uma construção. O país passava por mudanças na década de 1930. Oligarquias perderam o poder no governo Vargas. A escravidão havia terminado há 40 anos. O país era pobre, desestruturado e desigual. Era preciso criar um sendo de unidade. Algo positivo, que justificasse a desestrutura da sociedade e amenizasse tensões raciais num momento onde imigrantes da Europa e negros, filhos de ex-escravos, estavam à margem da sociedade. 

O futebol cai como uma luva nesse propósito na Copa de 1938. Foi o sociológo Gilberto Freyre, no artigo “Football Mulato”, que descreve o “jeito brasileiro de jogar” como alegre e artístico. O “mulato malandro”, vindo das ruas, seria capaz de superar a estrutura do europeu. Ele era alegre, ousado, criativo. Ele “driblava as adversidades” , termo que importamos para o cotidiano. Nasce daí a ideia que o talento e o individual superam tudo num país desestruturado e profundamente desigual. 

A romantização da esculhambação

A pior mazela do futebol brasileiro é a romantização da esculhambação. Se o talento e a malandragem resolvem problemas complexos, não há a necessidade de processos e estruturas no futebol. Treinar pra quê, se o craque faz tudo? Tempo para montar a equipe pra quê, se basta ter qualidade técnica. Estrutura na base? Moleque tem é que sofrer, jogar como se estivesse na rua, “sentir o jogo”. Não! Meninos de base precisam de salário em dia, estrutura, estudo. Precisam de processo, com início, meio e fim. Precisam sentir o jogo dentro de campo, não sentir fome fora dele.

Ao criar uma suposta superioridade frente ao europeu por questões genéticas e raciais, a ideia de Freyre também estabeleceu uma régua impossível de ser atingida: a de que o futebol brasileiro sempre é favorito. Tudo que não for vitória é zebra. Toda Libertadores ou Estadual é a mesma coisa. Nasce daí o clientelismo do torcedor, que vai ao estádio não para apoiar o time, mas em troca unicamente da vitória. As direções reprisam o comportamento: demitem sem critério e contratam sem convicção esperando o encaixe ou a boa fase. O brasileiro nunca acreditou em processo porque sempre achou que as coisas acontecem por vontade divina (caem do céu) ou são feitos individuais (a ideia do sebastianismo).

Até as próprias iniciativas de inovação que o Brasil teve – e foram muitas! – ficaram em segundo plano por essa cultura. A principal aconteceu em 1968, quando João Saldanha reuniu técnicos e preparadores para pensar o futebol brasileiro e preparar terreno para mais conquistas após o vexame na Copa de 1966. O diagnóstico era o mesmo de hoje: faltava estrutura nos clubes, profissionalismo e formação de base. Falcão foi chamado para a seleção em 1990 com o mesmo intuito. Mano Menezes também, em 2010. Todos demitidos.

O futebol brasileiro não precisa de menos ciência. Não precisa de menos tática. O Barcelona não meteu 4 a 0 no Santos e a Alemanha não fez 7 a 1 porque driblaram mais. Mas sim porque confiaram em processos, na ciência e num mínimo de razão. Precisamos de mais estrutura, mais investimento na base, mais pedagogia de rua. Mais pessoas com coragem de mudar ideias antigas. Porque achar que tudo era melhor antigamente impede de nos ver o que importa: o futuro.

Fonte: Painel Tático – Globo Esporte por Leonardo Miranda

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Jogos Reduzidos no treino de futebol

UTILIZAÇÃO DE JOGOS REDUZIDOS NO TREINO DE FUTEBOL: “HÁ RELAÇÕES ENTRE O COMPORTAMENTO TREINADO E O OBSERVADO NO CONTEXTO COMPETITIVO?

O jogo de Futebol é caracterizado por sua natureza essencialmente tática, o que significa que os jogadores têm de adaptar constantemente suas ações às diversas demandas situacionais apresentadas pelo jogo a cada instante. Devido a essa característica, os jogos reduzidos têm sido amplamente utilizados em treinamentos com o intuito de simular cenários específicos do jogo e, consequentemente, induzir o jogador a adaptar seu comportamento, de modo a perceber as características do ambiente (ex.: espaço disponível, posições e movimentos dos companheiros e adversários) em um determinado instante e agir de maneira mais eficaz ao deparar-se com situações semelhantes em uma partida [1].

Para isso, diversos estudos publicados em periódicos científicos especializados têm investigado o efeito de diferentes configurações de jogos reduzidos, tanto em relação ao número de jogadores envolvidos (ex.: 3×3, 4×3, 6×4, etc.), quanto nas dimensões da área utilizada para a atividade (ex.: 10x15m, 20x25m, etc.), com o intuito de verificar de que forma essas alterações afetam o comportamento e o desempenho dos jogadores em cenários diversos [2–4]. É importante ressaltar, no entanto, que apesar de diversos destes estudos terem verificado mudanças nas dinâmicas comportamentais dos jogadores em função das diferentes alterações aplicadas aos jogos reduzidos, não se pode afirmar com convicção que as características relacionadas ao comportamento tático verificadas nas atividades de jogo reduzido são similares às observadas no contexto de uma partida formal (11×11).

Neste sentido, um estudo publicado recentemente pelo Núcleo de Pesquisa e Estudos em Futebol (NUPEF), juntamente com colabores de Portugal e Inglaterra (link para acesso gratuito ao artigo: https://www.frontiersin.org/articles/10.3389/fpsyg.2018.02550), indica, baseado na leitura e análise de resultados de diversos artigos científicos, que alguns comportamentos (ex.: padrões de movimentação) observados em jogos reduzidos não se assemelham àqueles verificados em jogos de 11×11 [5]. Por exemplo, Frencken e colaboradores analisaram, em dois estudos distintos, o padrão de comportamento de jogadores, a partir da variabilidade da movimentação dos “centroides” das equipes (posição média dos jogadores de linha de uma equipe em um dado instante) em um jogo com configuração 4×4 e em uma partida competitiva [6,7]. A partir da análise dos resultados de ambos os estudos pode-se inferir que a movimentação dos centroides das equipes possui padrões diferentes, se comparadas as situações em jogo reduzido e em partida competitiva. Na situação de jogo reduzido, observou-se que os centroides se cruzaram na maior parte das oportunidades de gol, enquanto no jogo formal os centroides das duas equipes envolvidas não apresentaram essa característica, ou seja, a hipótese de que as equipes tendem a aglomerar-se próximas à baliza onde uma oportunidade de gol está ocorrendo ou sendo concluída foi confirmada somente em situações de jogo reduzido.

Em suma, percebe-se a necessidade de estudos que analisem jogos formais (11×11) de futebol a partir da utilização de variáveis que permitam que treinadores e pesquisadores possam assegurar-se da representatividade de uma atividade de treino que visa simular uma situação real de jogo, através da comparação do comportamento observado na tarefa em jogo reduzido e em cenário similar no contexto competitivo. Essa representatividade pode ser assegurada a partir da análise do nível de “fidelidade da ação” [8], através da medida e comparação de dados de comportamento e desempenho táticos (ex.: porcentagem de ações corretas de determinados princípios táticos fundamentais [9]) entre a situação do jogo formal que se deseja reproduzir e a atividade de jogo reduzido pretendida. O intuito de garantir a representatividade de uma atividade de jogo reduzido é, obviamente, de que o treinador tenha certa segurança de que os padrões de comportamento que pratica com seus jogadores no treino sejam reproduzidos com a mesma eficiência nas competições.

REFERÊNCIAS

[1]    Aguiar M, Botelho G, Lago-Peñas C, Maçãs V, Sampaio J. A Review on the Effects of Soccer Small-Sided Games. J Hum Kinet 2012;33:103–13.

[2]    Owen A, Twist C, Ford P. Small-sided games: the physiological and technical effect of altering pitch size and player numbers. Insight 2004;7:50–3.

[3]    Castelão D, Garganta J, Santos R, Teoldo I. Comparison of tactical behaviour and performance of youth soccer players in 3v3 and 5v5 small-sided games. Int J Perfomance Anal Sport 2014;14:801–13.

[4]    Dellal A, Owen A, Wong DP, Krustrup P, van Exsel M, Mallo J. Technical and physical demands of small vs. large sided games in relation to playing position in elite soccer. Hum Mov Sci 2012;31:957–69. doi:10.1016/j.humov.2011.08.013.

[5]    Santos R, Duarte R, Davids K, Teoldo I. Interpersonal Coordination in Soccer: Interpreting Literature to Enhance the Representativeness of Task Design, From Dyads to Teams. Front Psychol 2018;9:1–6. doi:10.3389/fpsyg.2018.02550.

[6]    Frencken W, Lemmink K, Delleman N, Visscher C. Oscillations of centroid position and surface area of soccer teams in small-sided games. Eur J Sport Sci 2011;11:215–23. doi:10.1080/17461391.2010.499967.

[7]    Frencken W, Poel H de, Visscher C, Lemmink K. Variability of inter-team distances associated with match events in elite-standard soccer. J Sports Sci 2012;30:1207–13. doi:10.1080/02640414.2012.703783.

[8]    Stoffregen TA, Bardy BG, Smart LJ, Pagulayan R. On the Nature and Evaluation of Fidelity in Virtual Environments. In: Hettinger LJ, Haas MW, editors. Virtual Adapt. Environ.  Appl. Implic. Hum. Perform., Mahwah, NJ: Lawrence Erlbaum Associates, Inc.; 2003, p. 111–28.

[9]    Teoldo I, Guilherme J, Garganta J. Para um futebol jogado com ideias: Concepção, treinamento e avaliação do desempenho tático de jogadores e equipes. 1st ed. Curitiba: Appris; 2015.

Fonte: Load Control por Prof. Ms. Rodrigo Santos

Formação ou Deformação?

Nos dias que correm, é consensual a importância do Futebol, como um meio de proporcionar aos jovens um desenvolvimento/formação multilateral e harmonioso, bem como um modo de os afastar de determinados malefícios bem presentes no nosso quotidiano.

Mas a prática do Futebol, não é o suficiente para termos no futuro Homens bem formados, sociáveis, cumpridores e respeitadores das leis e regras da sociedade. A um jovem praticante de Futebol, não é apenas necessário ensinar-lhe as regras, os gestos técnicos e as acções tácticas, é necessário sobretudo incutir-lhe valores que o orientem e auxiliem na sua própria vida.

Em suma, o Desporto deve ser utilizado como um forma de educar e formar.

Contudo, assistimos por vezes à desvalorização desse carácter educativo e formativo do Desporto, onde observamos atitudes pouco abonatórias para essa mesma formação. E são essas atitudes que irão ser consideradas como padrão por esses mesmos jovens, quer no Futebol, quer no seu dia-a-dia.

É por esta razão que quando ouço falar em formação, ou conceitos associados, opto por uma postura renitente, pois por vezes assistimos não à formação mas sim à
“deformação” de jovens atletas.

É com a constatação destas situações, que julgo que a palavra formação, tem sido utilizada de forma muito leviana, formação é muito mais que um “Chavão” bonito de aplicar, é um conjunto de princípios a que todos os agentes desportivos terão que obedecer. Entre os quais se destacam:

  • O jovem atleta não é um adulto em miniatura, sendo errada na maioria das vezes comparações, adaptações e transferes do desporto sénior para actividade desportiva do jovem;
  • Não colocar os “interesses” dos dirigente/treinadores/pais à frente dos objectivos e motivações do jovem;
  • No processo de formação do atleta, há que respeitar e conhecer o seu processo de maturação, pois existem fases ideais para o desenvolvimento de determinadas capacidades e habilidades;
  • Todo o processo de treino, deverá ser orientado pela diversidade de estímulos e experiências, evitando deste modo a especialização precoce;
  • Promover os valores do espírito desportivo e fair-play, respeitando as regras, os árbitros, os colegas e os adversários;
  • Incutir o gosto e o prazer de praticar uma actividade desportiva;

Com estas pequenas observações e princípios, pretendo deixar um documento orientador para uma formação correcta e equilibrada dos nossos jovens, Homens do amanhã.

Formação sim! Mas com qualidade.

Fonte: Futebol de Formação por Filipe Pereira

Raciocinar o jogo, por Xavi Hernadez

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Xavi foi outrora, em campo, aquele que representava a inteligência no jogo de futebol. Maestro de uma das melhores equipas de sempre, hoje dedica-se à reflexão e treino do jogo de futebol, e afirmo que estará no topo do futebol mais tarde ou mais cedo.

O que desde inicio da criação do site vou defendendo, é o raciocinar o jogo de futebol, e daí o próprio nome deste espaço. Porque no final de contas, tudo se inicia no cérebro. E o cérebro também se treina e ensina, dentro do campo.

“Tens de melhorar a inteligência do jogo e focar-te no talento. Tudo depende dos treinadores, obviamente. Mas hoje, nas sessões de treino, há 60% de treino físico e 40% dedicados à parte técnica. 0% do tempo é dedicado ao pensamento do jogo, à sua interpretação. Não podes entrar num campo de futebol apenas com motivação, como ‘vamos!’, ‘come on!’. Isso ajuda, mas não é tudo. A mente é a coisa mais importante para trabalhar no futuro do futebol. O futebol é um desporto no qual tens de ver o que está a acontecer ao teu redor para encontrar a melhor solução possível. Se não te relacionas com os outros, não sabes nada e não podes fazer nada. Há que aprender o espaço-tempo. O que faz a diferença no futebol hoje em dia? O talento. E o que é o talento? É a possibilidade de controlar o que fazes e o que os outros fazem, porque jogas com a cabeça e não apenas com os pés. Adoro o Usain Bolt, é um grande atleta. Fisicamente, ninguém se aproxima. Ninguém corre mais rápido que ele. Mas com todo o devido respeito… ele nunca fará qualquer diferença num campo de futebol. Porquê? Porque não podemos suplantar a velocidade mental e a inteligência do jogo com habilidades físicas. É impossível. Eu sempre tive a vontade, a curiosidade, para entender o que está a acontecer no campo. ‘Porquê? Como? Onde?’ Estas são perguntas com que eu me questiono constantemente e continuarei a fazê-lo quando me tornar treinador. Há jogadores profissionais que não entendem o que está a acontecer no campo. Simplesmente porque não foram treinados para desenvolver o seu talento, para pensar sobre o que está a acontecer com eles. Verratti, por exemplo, joga com o cérebro, com os neurónios. É pequeno, não é rápido, mas é inteligente, joga muito como eu. Se não jogasse com a cabeça, nunca dava nada no futebol.”

Xavi Hernandez

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Fonte: Raciocinar o Futebol por Leandro Silva

Psicólogos en los vestuarios del fútbol base, un proceso imparable

Cada temporada son más los clubes de categorías inferiores y las escuelas deportivas que incluyen en su organigrama una figura que no solo ayuda a mejorar el rendimiento en el campo de juego.

Me he dado cuenta de que la cabeza hay que entrenarla. No solo es prepararse físicamente. Para soportar la presión, también hay que trabajar, aunque yo nunca había pensado en entrenar la cabeza, la verdad. Cuando un jugador escucha la palabra psicólogo, al principio te tira para atrás, pero me di cuenta de que necesitaba ayuda. Te viene bien hablar, soltar todo lo que llevas dentro y hacerlo especialmente con personas que están preparadas para eso». En una entrevista con ABC, el exmadridista Álvaro Morata, ahora en el Chelsea, ponía ante el espejo mediático la relevancia del psicólogo, pero también el recelo que siempre ha generado en el fútbol profesional una figura que cada vez está también más arraigada en las categorías inferiores y en las escuelas deportivas. 

Juan Pedro NonayJuan Pedro Nonay

«La figura del psicólogo está en mitad de ese proceso de integración plena en el fútbol y, seguramente, dentro de unos años esté tan normalizada como lo está hoy día, por ejemplo, la del analista táctico o la del preparador físico. Se ha avanzado mucho con la normalización de la presencia del psicólogo en el cuerpo técnico de equipos de alto rendimiento, como Joaquín Valdés en el Barcelona y en la selección española, y también con el testimonio de deportistas de fama mundial como Álvaro Morata, Carolina Marín, Ruth Beitia o Andrés Iniesta sobre su experiencia positiva al trabajar con ellos. Aunque algunas personas del mundo del fútbol puedan sentir cierto recelo respecto a nuestra figura, cada vez se toma con más naturalidad que haya un psicólogo dentro de un cuerpo técnico o en la estructura de un club, aunque queda camino por recorrer», explica a este periódico Juan Pedro Nonay, psicólogo de la AD Colmenar Viejo.

Camino por recorrer

Para la plena integración de esta figura en el fútbol semiprofesional y amateur, sin embargo, quedan aún muchos pasos por dar, corrobora Juan Momparler, psicólogo y coach del deporte acostumbrado a trabajar con equipos de categorías inferiores. «Los problemas físicos parecen siempre más importantes o más urgentes que los problemas mentales. Por ejemplo, un jugador de fútbol con un esguince no puede jugar, porque la lesión le imposibilita para jugar de forma correcta. Pero sí puede jugar con ansiedad, aunque esa ansiedad le supere y sea incapaz de dar un pase correcto. Ese jugador termina por dar un rendimiento muy por debajo de lo que se espera de él y acaba sustituido. Luego se dice que no está centrado, que se ponga las pilas, que debe cambiar de actitud, pero no se trabaja en ello», lamenta en su conversación con ABC.

José Luis LineraJosé Luis Linera

Pero la presencia de los psicólogos es un proceso imparable. «La sociedad ha tenido cierto estigma con la palabra psicólogo. Esto ha sido extrapolado al mundo del deporte en general, donde el trabajo ha radicado durante décadas en lo técnico, táctico y físico, siendo reacios a abrirse a otros campos como es el mental. Afortunadamente la psicología deportiva lleva años haciendo un gran trabajo tanto de investigación como de campo para dar a conocer la importancia del trabajo psicológico en los deportistas, por lo que poco a poco nos está llevando a la integración con deportistas a nivel individual, en clubes o federaciones», afirma José Luis Linera a ABC. Él vive el día a día y las preocupaciones de un club de Segunda división B porque es el psicólogo del Atlético Sanluqueño. «No existe realmente tanta diferencia en los aspectos que trabajamos en un club de Segunda B o en uno de mayor entidad. Durante la temporada solemos trabajar en factores como la cohesión de grupo y también centramos el trabajo en aspectos como la atención, concentración, comunicación, nivel de activación de los deportistas, entre otros. También es cierto que los deportistas, ante todo, son personas y pueden tener problemas de cualquier índole que le afecten en su rendimiento deportivo; cuando esto ocurre trabajamos como canalizar esos sentimientos, pensamientos y emociones para poder asesorar u orientar al deportista en su búsqueda de soluciones y equilibrio personal». 

Juan Arsenal entrenador del Linares DeportivoJuan Arsenal entrenador del Linares Deportivo

Habituados a manejar la preparación física, técnica e incluso psicológica de los vestuarios, los entrenadores también son cada vez más receptivos a la presencia de especialistas que les ayuden a fortalecer la mente de sus jugadores. «Para mí, en un equipo es tan importante la preparación física, como la técnica, la táctica y la psicológica, ya que el talento del jugador depende mucho de su propia confianza mental en hacer y sacar lo que lleva dentro», afirma Juan Arsenal, entrendor del Linares Deportivo, a ABC. Su equipo es el único de Tercera división, y de todo el fútbol español, que ha ganado esta temporada todos los partidos como local sin recibir ni un solo gol. «De nada sirve un jugador muy bien preparado si no se atreve a hacer lo que lleva dentro, yo intento trabajar mucho ese aspecto», añade.

El factor económico

Juan Arsenal, como muchos otros entrenadores, son víctimas de las limitaciones económicas que asfixian al fútbol modesto. En los equipos profesionales, la figura del psicólogo está ya plenamente integrada en los cuerpos técnicos, pero, en los clubes semiprofesionales y de categorías económicas, el presupuesto es muy ajustado y no siempre llega para poder contratar la ayuda de un especialista que trabaje la mente del futbolista. «Siempre he intentado meter en mi cuerpo técnico un profesional de la materia, pero a los clubes modestos les cuesta tener que afrontar este gasto extra», reconoce el preparador del conjunto andaluz.

La presión no entiende de economía y es igual para todos los futbolistas. «En los equipos superprofesionalizados existe mucha presión, pero eso no supone que en el resto de clubes y categorías no la haya. Es una presión diferente en términos cuantitativos y cualitativos, pero no deja de influir en el contexto en que se mueven estas entidades. Por ejemplo, la diferencia de ingresos económicos directos o indirectos es radicalmente distinta si el primer equipo de un club está en Preferente, en Tercera División o en Segunda División B. Y como en líneas generales estamos hablando de clubes muy limitados económicamente, esto acaba suponiendo una fuente de presión para todos los estamentos, desde el presidente hasta los jugadores y técnicos, generalmente el eslabón más débil de la cadena», recuerda Juan Pedro Nonay. «Hablamos de contextos en los que se genera una presión psicológica y contar con un psicólogo deportivo, que ayude a los implicados a gestionar situaciones que pueden ser muy estresantes, es una ventaja».

Juan Momparler

Juan Momparler

La visión sobre los condicionantes económicos para la entrada definitiva de los psicólogos en el fútbol es compartida por Juan Momparler, que ha trabajado en Tercera división con el Olímpic de Xátiva. «En equipos de alto rendimiento y en escuelas deportivas la figura del psicólogo es imprescindible. En equipos amateurs o de categorías inferiores, no, porque el presupuesto del que disponen es muy limitado. No les llega para un psicólogo, pero tampoco para un fisioterapeuta o un médico», asegura.

En Segunda B, muchos jugadores compaginan el fútbol con sus trabajos. «Los futbolistas de estas categorías, normalmente, toman el fútbol como su principal trabajo. Sin embargo, muchos de ellos lo compaginan con otro trabajo, pero el fútbol no les supone una presión añadida, todo lo contrario. Este aspecto también se trabaja a nivel mental buscando que el deportista sepa gestionar y separar ambas situaciones, dándole a cada momento su lugar e importancia», matiza Linera, el psicólogo del Atlético Sanluqueño. Uno de los clubes de Segunda B que cuenta en su organigrama con esta figura. 

Formación y valores

Para Juan Momparler, «en equipos de alto rendimiento, tener un psicólogo es lo que marca la diferencia hoy en día. No se trata sólo de trabajar en momentos de dificultades, también de desarrollar y entrenar a los jugadores en herramientas que les ayuden a mejorar en diversos aspectos que se relacionan directamente con su rendimiento, con su salud mental y con su sensación de bienestar. En escuelas deportivas es más importante si cabe, ya que estamos hablando de la educación de los más pequeños. El fútbol, como deporte, es una herramienta muy potente a la hora de formar personas e inculcar valores, los cuales les van a ser de gran utilidad a los niños tanto dentro como fuera del campo. Una buena educación es la base de una persona adulta autónoma y feliz».

Juan Pedro Nonay explica a ABC las variables de la labor de un psicólogo en un equipo de fútbol. «El trabajo del psicólogo deportivo depende principalmente de dos variables. En primer lugar, de las funciones que tenga asignadas desde su club: no es igual el trabajo de un profesional cuya función sea la de apoyo para la gestión de la cantera (por ejemplo a través de su trabajo con los entrenadores o las familias de los jugadores) que el formar parte del cuerpo técnico de un equipo buscando optimizar, desde la perspectiva psicológica, el trabajo del entrenador y el rendimiento de los jugadores, de manera directa o indirecta», asegura el responsable de la AD Colmenar Viejo.

«Lógicamente, el segundo aspecto a tener en cuenta es que cada intervención tiene sus propias características y objetivos. Podemos encontrar jugadores o entrenadores desmotivados que solicitan la ayuda del psicólogo, o técnicos que quieren mejorar la cohesión de su equipo o su manera de dar charlas prepartido. También podemos ayudar a futbolistas que desean mejorar su rendimientoa través de herramientas como la práctica en imaginación (coloquialmente conocida como visualización), o a jugadores con problemas de concentración o de autocontrol. En los clubes formativos, los psicólogos también realizan talleres con padres para prevenir o paliar comportamientos conflictivos en la grada, o incluso facilitan la recuperación de jugadores lesionados».

Pero la ayuda que prestan los psicólogos deportivos a los chavales va en ocasiones más allá del fútbol. «En ocasiones, las familias recurren al psicólogo del club al notar una bajada de rendimiento escolar o problemas de comportamiento. En casos así, el psicólogo también presta ayuda y asesora ante situaciones en las que el entorno del niño o niña pueden llegar a sentirse desorientados, e incluso derivarles a otro tipo de profesionales en caso necesario», concluye Juan Pedro Nonay.

Fonte: ABC Fútbol por Jorge Abizanda

Modelo de jogo e criatividade tática: duas faces da mesma moeda?

Notas prévias: (1) o texto foi originalmente publicado, em 2015, no blogue Linha de Passe (http://linhadepasse.blogspot.com); (2) está particularmente direcionado aos treinadores que atuam na etapa “Início e Desenvolvimento do Rendimento no Futebol”, i.e. dos Sub-14 aos Sub-19 (FPF, 2018).

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No âmbito do treino do futebol, a expressão “modelo de jogo” tem sido amplamente difundida nos últimos anos, sobretudo em Portugal e nos países lusófonos. O advento e a notoriedade adquirida pela Periodização Tática – modelo de planeamento utilizado por José Mourinho, André Villas-Boas, Vítor Pereira, Carlos Carvalhal, entre outros – assim o determinaram. O conceito de modelo de jogo remete-nos para uma série de princípios que concedem organização nas diferentes fases e momentos do jogo (Delgado-Bordonau & Mendez-Villanueva, 2012). Entre muitas outras variáveis, o modelo de jogo está subjacente à filosofia do treinador/equipa técnica e pode, segundo diversos autores da especialidade, ser adotado ou criado. Esta modelação é, em primeira instância, obra do treinador e que, posteriormente, será interpretada e aplicada pelos seus jogadores.

(foto de Jorge Carrilho)
(foto de Jorge Carrilho)

Por sua vez, a criatividade tática é algo que está inerente ao desempenho dos jogadores em contexto de jogo. De acordo com o investigador alemão Daniel Memmert (2014), a criatividade tática é definida como a criação/execução de diversas soluções para problemas em grupos específicos de indivíduos ou em situações de jogo coletivas, que podem ser consideradas como surpreendentes, raras e/ou originais. Esta criatividade tática, também associada ao conceito de inteligência tática, é cada vez mais acreditada pelos treinadores de elite como uma característica fundamental do jogador no futebol contemporâneo.

O problema que tenho identificado através da observação sistemática, de inúmeras entrevistas e com o qual também me debato em todas as sessões de treino, resume-se a uma singela questão: até que ponto a definição e a operacionalização de um determinado modelo de jogo não constrange a criatividade tática dos jogadores?

Na minha perspetiva, são duas faces da mesma moeda e algo sobre o qual o treinador/equipa técnica deve(m) ponderar em permanência ao longo da época desportiva. Como conceder organização, sem condicionar a capacidade criativa dos nossos jogadores?

Atentemos ao exemplo que consta na Figura 1.

Figura 1. Exemplo da hierarquização e da fragmentação dos princípios de jogo na fase de organização ofensiva.

O treinador pretende que a bola circule rápido de zonas de maior concentração de jogadores oponentes para outras zonas menos congestionadas. Para isso, prepara os jogadores para aumentar a área da equipa em largura (subprincípio 1: amplitude) e que haja, pelo menos, três linhas de passe relativamente ao portador da bola (subprincípio 2: soluções múltiplas). Até aqui, parece-me tudo muito razoável. Quando começamos a fracionar os subprincípios em mais sub-subprincípios e sub-sub-sub-etc., deixo de concordar. É precisamente neste ponto que eu entendo que o excesso de regras/normas de ação (modelação comportamental) compromete a criatividade tática dos jogadores.

Temos um princípio bem definido (“circular a bola para longe da zona de pressão adversária”), mais dois subprincípios adicionais e é com essa matéria que, no treino, o treinador/equipa técnica deve(m) propor tarefas para que os jogadores, individual e coletivamente, encontrem soluções (descoberta guiada) para cumprirem os princípios estipulados e que estão consubstanciados no modelo de jogo.

Deste modo, conseguiremos tirar o máximo proveito das duas faces da moeda (modelo de jogo e criatividade tática) num processo que requer, por um lado, o desenvolvimento dos jogadores e da equipa e, por outro lado, a obtenção de resultados em competição.

Referências

Delgado-Bordonau, J. L., & Mendez-Villanueva, A. (2012). Tactical periodization: Mourinho’s best-kept secret? Soccer NSCAA Journal, 3, 28-34.

FPF Portugal Football School (2018, 13 de julho). Etapas de desenvolvimento do jogador de futebol – Níveis de desempenho. Retirado de https://www.fpf.pt/News/Todas-as-notícias /Notícia/news/17281

Memmert, D. (2014). Tactical creativity in team sports. Research in Physical Education, Sport and Health, 13(1), 13-18.

Fonte: Futebol de Formação por Carlos Almeida

José Mourinho em exclusivo para a Men’s Health

No futebol a honestidade é uma má qualidade. Tenho que ficar calado, dizer apenas o que as pessoas querem ouvir e não o que realmente penso e não posso ir contra o sistema e as instituições

José Mourinho anda em maré de azar e acaba de ser despedido do Manchester United.

Sobre o treinador português já foram escritos oceanos de tinta, ditas algumas verdades e publicadas muitas mentiras. Agora chegou o momento da verdade: um frente a frente em exclusivo com a MH para falar de tudo… menos sobre futebol. Recorde esta entrevista exclusiva que o treinador português deu à Men’s Health na altura em treinava o Real Madrid.

– Costuma dizer que só as suas duas famílias (mulher e filhos e os seus jogadores) é que conhecem o verdadeiro José Mourinho. Qual a imagem que tenta passar para o resto do mundo?
Revelo a imagem que tenho de revelar: a face de treinador, de vencedor, de alguém que gosta de desafios e de competir. Estou num cargo tremendamente exigente, quer pelos adeptos, quer pelos adversários e a minha imagem é a imagem de um homem que tem de fazer o melhor que pode para ser bem-sucedido. Prefiro reservar as outras facetas para as minhas “duas” famílias, pois sei que elas sentem isso quase como um privilégio. Fora desse ambiente “familiar”, sou apenas um homem do futebol. Nada mais.

– Muitas vezes passa para os adversários a imagem de um treinador antipático. Sente que é necessário ter “inimigos” para fortalecer o grupo?
É melhor. Não é fulcral, mas é melhor. Especialmente quando estamos a ter sucesso, pois existe sempre a tendência para relaxar um pouco quando tudo está a correr bem. Assim, se ouvirmos os boatos à nossa volta, os murmurinhos e sentirmos que estão à espera que relaxemos para nos apanharem, isso nunca vai acontecer. O termo “inimigo” é algo que não faz sentido na minha vida pessoal, mas no futebol sim. Mesmo em crianças competimos uns com os outros, queremos ganhar e levar a melhor aos nossos amigos que, nesses breves instantes durante um jogo de berlinde, se transformam em “inimigos”, pois desejam o mesmo que eu: vencer. Esta sensação de competição no futebol é boa, faz-nos sentir vivos, com a adrenalina ao máximo que é algo que o nosso corpo precisa. É por isso que para mim é muito mais difícil preparar um jogo pequeno, pois nos jogos grandes todos querem dar o seu melhor e nos jogos menos mediáticos existe a tendência para encarar com maior facilitismo. É aqui que surgem as desagradáveis surpresas, pois ao contrário de nós os adversários estão sempre motivados e disputam cada lance como se fosse o último. E esta motivação extra faz toda a diferença.

– É fácil ser-se um líder?
É algo natural, algo que nasce connosco. E nesta profissão é essencial. Quando entro no campo de treinos sei o que sou e sei o que as pessoas esperam de mim. Assim, desde que começo a trabalhar que sei que tenho de liderar em diversos aspetos e a pressão é algo que não me assusta. A verdade é que quando estou de férias, sinto falta de tudo isto.

– É difícil dissociar a vida profissional da familiar?
É difícil para as outras pessoas. Quando vou jantar com a minha família, por exemplo, há países em que as pessoas nos deixam em paz e há outros em que as pessoas não se conseguem controlam e interrompem-nos o jantar para uma fotografia, um autógrafo ou um aperto de mão. Para mim é fácil afastar-me da vida profissional quando estou com a família, existem é pessoas que não me facilitam essa tarefa.

– Os planteis atuais são como inúmeras empresas: uma mescla de nacionalidades. Como se consegue reunir tantas culturas diferentes em torno do mesmo objetivo?
Para começar é preciso ter-se um pouco de sorte, pois não é possível mudar por completo a personalidade de uma pessoa. Desta forma, antes de enfrentar uma nova temporada tento saber o máximo sobre todos os elementos que vão pertencer ao meu grupo. E antes de se comprar um jogador o processo é exatamente o mesmo: saber tudo sobre a sua personalidade, maneira de ser, o seu caráter e tudo o resto. É por isto que digo que é necessário ter uma pontinha de sorte para poder liderar uma equipa que tem um objetivo em comum: ganhar. Quando estamos perante uma equipa de trabalho recheado de individualistas e egocêntricos que colocam os objetivos pessoais à frente dos coletivos torna o trabalho muito mais difícil.

– Considera-se então um treinador com sorte…
Tenho tido imensa sorte na minha carreira. No Chelsea, por exemplo, metade do meu plantel era africana, algo único que formava uma família incrível. De um lado estavam 12 jogadores provenientes de países africanos como o Gana, Costa do Marfim, Camarões ou Congo e, do outro, mais 12 jogadores que vinham do resto da Europa. As nacionalidades são diferentes, mas a vontade de vencer era mesma. Contudo, há aspetos que como treinador não posso descurar, tais como falar com eles no idioma local: se estiver em Espanha temos todos de falar Espanhol, se estiver em Itália terá de ser italiano, etc., pois o facto de não haver outro idioma no balneário coloca todo o plantel a remar na mesma direção. No meu caso, uma vez que trabalhei em vários países permitiu-me aprender outros idiomas que é o ideal para ter conversas privadas com eles, fora do grupo. Comunicar na língua deles nos diálogos mais sérios é muito importante para estabelecer outro tipo de relação e de proximidade.

– “Quem só percebe de futebol não sabe nada de futebol”. O que realmente quis dizer com esta afirmação?
Para sermos realmente bons na nossa profissão não nos podemos colocar limites. Quando disse esta frase, o que queria dizer é que, para além do futebol, é importante estarmos por dentro de outras áreas que complementam este desporto, como bioquímica, biologia, estatística, anatomia, liderança e outras mais. Sabendo um pouco sobre tudo conseguimos ser muito melhores no que fazemos e isso permite-me ganhar ainda mais o respeito dos meus jogadores. Demonstro-lhes que não me limito a dizer em que posição vão jogar no próximo jogo, mas sim que estou alguns níveis acima da simples cultura de jogo e que isso os vai ajudar a alcançar os objetivos coletivos e pessoais.

– A necessidade de ser o melhor aguça o engenho. O que faz para se reinventar?
Tenho um objetivo que é tentar ser o primeiro treinador a vencer a Liga dos Campeões com três clubes diferentes, conseguir ser campeão nos três campeonatos mundiais mais importantes (Inglaterra, Itália e Espanha) e, mais tarde, conquistar algo pela primeira vez com a Seleção Nacional. Todos estes objetivos estão relacionados com o futebol, mas todos eles são diferentes e difíceis de alcançar. Isto mantem-me concentrado e motivado.

– O que pensa de tantas tatuagens e mudanças de penteado dentro de um balneário de elite?
Prefiro não pensar, pois se me ponho a pensar fico maluco. (risos) A única coisa com que me preocupo é que isso não dificulte a tarefa dos meus jogadores. Se tiver o corte de cabelo mais estranho do mundo mas conseguir ver a bola, então tudo bem. O problema é quando os jogadores “inventam” demasiado e começam a jogar desconfortáveis. Quanto às tatuagens, há vinte anos eram raríssimos os jogadores que ostentavam tatuagens, mas agora são uma moda, mais ou menos como as redes sociais. Temos que nos adaptar às mudanças e, como treinador, não posso entrar nesta “guerra” com eles, pois já sei que vou perder. E se é para perder, mais vale nem tentar. É que eu nunca entro numa “guerra” para perder. Nunca!

– Qual a sua opinião relativamente à depilação masculina?
Tudo depende de pessoa para pessoa. Há quem o faça e quem não considere sequer essa hipótese. Pessoalmente, apenas desfaço a barba. Sou um homem que nasceu em 1963, por isso há muitas coisas que não consigo mudar na minha mentalidade. Mas também não critico nenhuma tendência, filosofia ou gosto pessoal, pois sei que o mundo mudou completamente e sou eu que tenho de me adaptar. Se daqui a uns anos o meu filho quiser fazer algo diferente do que eu faço, não sou eu que o vou criticar. Assim sendo, apenas vou continuar a barbear o rosto, nunca irei pintar o cabelo e as minhas pernas vão permanecer com pelos até ao fim dos dias.

– Atualmente, parece que a imagem de um treinador consegue ser mais importante que o currículo. O look é essencial para esta profissão?
Quantos treinadores mundiais existem que têm estilo que nunca mais acaba, usam penteados da moda e óculos de massa? Imensos! Parece que hoje em dia é tudo o que importa. Quantos deles ganharam alguma coisa? Zero!
O estilo, a maneira como nos vestimos, a idade e uma cara bonita ou feia nunca vão ganhar um jogo. É a nossa qualidade como treinadores e a qualidade dos nossos jogadores que ganham jogos. O futebol não está relacionado com a imagem, apenas com as qualidades e capacidades de cada um.

No museu do Chelsea F.C., ao lado de todas as taças e troféus conquistados pelo clube, está agora o seu “famoso” sobretudo. Orgulhoso?
Esta história é curiosa. Na última vez que o Chelsea foi campeão, foi feito um leilão com o intuito de angariar fundos para uma fundação de apoio ao cancro nas crianças e pediram-me para leiloar o sobretudo Armani que vesti durante essa época inteira. Houve um senhor que quis ficar com o sobretudo (e que pagou bastante por ele) mas que depois de o comprar, passado algum tempo, sentiu que o casaco não lhe pertencia, mas sim à história do clube do seu coração, e ofereceu-o ao museu para permanecer junto das botas de Frank Lampard e da camisola do Didier Drogba. Afinal de contas foi a primeira vez na sua história que o Chelsea foi campeão inglês.

É o conforto ou uma imagem que tem de transmitir que dita a roupa que escolhe para usar no dia-a-dia?
O conforto, sempre o conforto. Não me visto para que as outras pessoas digam que estou bem ou mal vestido, mas sim para me sentir confortável. É muito provável que um dia me vejam com um bom fato e os melhores sapatos como, horas a seguir já esteja vestido com um fato de treino. Qualquer que seja a minha opção, a regra é uma: sentir conforto. Apenas e só.

– Se tivesse que escolher o outfit ideal da cabeça aos pés, quais seriam as suas escolhas em termos de marcas?
Antes de mais, quanto é que essas marcas me pagam para responder a esta pergunta? (risos) Contudo, não tenho qualquer problema em dizer que em termos desportivos que vestiria adidas da cabeça aos pés. Já o fazia quando era miúdo, fazia-o quando tinha de pagar para isso e gastei bastante dinheiro nesta minha “mania” antes de ser patrocinado pela marca, por isso agora acho bem que sejam elas a pagar-me. E com juros! (risos). Em termos sociais, sou um homem Armani, pois como encontro facilmente o que gosto nas lojas desta marca, escuso de andar às voltas nas outras lojas à procura do que quero.

– Existe algum luxo que o José Mourinho não dispense?
Relógios. Acredito que é a joia masculina por excelência. Mas como estou à espera de fechar um negócio, não posso revelar a minha marca preferida.

– Provavelmente deve ser uma das pessoas que passa mais tempo em aviões e hotéis. Que dicas dá em termos de cuidados pessoais masculinos em viagem?
Hotéis, aeroportos, estádios de futebol… conheço-os todos à volta do mundo. Posso dar as melhores dicas sobre tudo isto, agora sobre cuidados pessoais é muito mais complicado. Tal como a maneira como me visto, o importante é sentir-me confortável. Ainda para mais tenho a vida facilitada, pois não gosto de perfumes. Nunca uso. Tomo vários duches por dia, até demais! De resto, levo sempre na minha mala um champô, um bom creme hidratante para o corpo, outro para o rosto e como uso máquina de barbear nem preciso de levar gel e lâminas. Mais simples seria impossível.

– O que é mais complicado: treinar ou educar os seus filhos?
Nenhuma das duas tarefas é fácil. Mas é óbvio que sinto muito maior responsabilidade com os meus filhos, mas sinto-me um privilegiado, pois como não passo muito tempo em casa fico com a melhor parte deles. A mãe é que tem de lidar com a educação e as tarefas mais complicadas, é o meu grande apoio. Sinto que que sou mais o pai que brinca do que o pai que educa. No Real Madrid é diferente, digamos que sou mais o pai “mauzão” para os meus jogadores.

– Quais os valores que o José Mourinho faz questão de lhes incutir?
Eu a e a minha mulher apenas desejamos que sejam um bom rapaz e uma boa rapariga. É importante fazer-lhes ver que o mundo não é apenas o micromundo em que vivem. Tentamos ao máximo dar-lhes as melhores condições para serem o que quiserem ser, nada mais. Não desejo que sejam desportistas de elite apenas porque estou ligado ao desporto, nada disso. Pretendo exatamente o contrário, que estudem e que sejam o mais honestos, educados e simpáticos possível. Infelizmente, existem pais que pensam que a escola é um obstáculo para os filhos, uma vez que acreditam que estar na escola os impede de passar mais tempo a jogar à bola. No meu caso, é exatamente o oposto: se gostam de jogar à bola que o façam o mais que puderem, mas a escola virá sempre em primeiro lugar.

– Qual o seu maior defeito enquanto treinador?
Ser honesto. No futebol a honestidade é uma má qualidade. Tenho que ficar calado, dizer apenas o que as pessoas querem ouvir e não o que realmente penso e não posso ir contra o sistema e as instituições. Por tudo isto, a minha honestidade é o que me causa mais problemas como treinador.

Fonte: Men’sHealth

Modo de marcação: os seus tipos, perseguições e referências

Com o desenvolvimento do futebol, está sendo possível notar de que as equipes têm realizado diferentes tipos de marcação. Além disso, para se referirem à marcação, estão usando diferentes nomenclaturas, como “por encaixe”, “com perseguições” e com “referência do espaço”. O que seriam esses termos? Aliás, há diferentes tipos de marcação, de perseguição e de referência? Mas não é só marcar o adversário? Pois é, estamos num ponto que está “em desenvolvimento” para compreensão dos brasileiros.

Marcação por encaixe no setor? Mas Roberto tem que marcar Jadson e por isso perseguiu o jogador corintiano, oras.

A frase acima é repetida inúmeras vezes aqui no Brasil. Onde quer que você vá, sempre vai ouvir uma frase desse tipo. No entanto só há um tipo mesmo de marcação? Vou começar pelo começo. Para marcar há tipos de marcação (por encaixe, zonal ou individual), distância da perseguição realizada (curta, média ou longa) e a referência da marcação (espacial, a bola ou jogador). Para facilitar o entendimento, a tabela abaixo foi realizada:

Acima estão os modos de marcação. Parece que não é simplesmente marcar.

Para ser o mais didático possível, irei começar pela primeira colocada na tabela acima: o tipo de marcação. Vale notar de que o tipo de marcação pode-se variar dentro da mesma equipe, pois pode haver jogadores marcando por zona enquanto que outros marcando por encaixe e, ainda assim, o time como um todo se entender. O tipo de marcação, geralmente, é o um dos modos que pode variar dentro de uma mesma equipe.

1) Por encaixe: quando a marcação é por encaixe, a equipe ou o jogador encosta no adversário para marcá-lo que aparece próximo a ele. Esse tipo de marcação normalmente é usado nas “peladas”. Normalmente, a marcação por encaixe vem com o termo “por setor” em algumas análises, o que significa a mesma coisa: encosta no adversário que estiver dentro do seu setor.

No caso da imagem acima, que é do Atlético-PR de Cristóvão Borges, percebe-se praticamente todos os jogadores do Furacão e todos realizando a marcação por encaixe no setor (representada pelos traços azuis), pois quase todos se aproximaram de algum jogador do Fluminense.

2) Zonal: essa é marcação que funciona com relação à zona que o jogador que está defendendo está. Nesse tipo de marcação, a troca do marcador geralmente ocorre rapidamente, pois como o jogador atacante está constantemente em movimento e o defensor vai marcá-lo quando ele aparecer na sua zona, quando o atacante vai para a zona de seu companheiro, há troca de marcador.

Na marcação por zona, o time defensor se posiciona para que as zonas fiquem claramente separadas, como é o caso do Atlético-PR de Cristóvão Borges no fim de sua passagem pelo clube paranaense.

3) Individual: aqui o mesmo jogador defensor encosta no mesmo adversário e o persegue para todo o canto. Esse tipo de marcação está ficando cada vez mais raro no futebol, mas foi possível notar na semifinal da Copa do Mundo de 2014.

De Jong marcou individualmente Messi na semifinal da Copa do Mundo FIFA 2014. Veja o holandês marcando o argentino em campo defensivo.

Aqui em campo ofensivo.

E aqui, mesmo com Messi “fora do jogo”, De Jong estava ao seu lado. Era marcação individual!

Nos tipos de marcação, normalmente as pessoas estão confundindo os tipos de marcação por encaixe e por individual, apesar de haver diferenças. No caso da marcação por encaixe, encosta-se no jogador adversário que estiver mais próximo, podendo assim ser qualquer adversário. Já no caso da individual, é sempre o mesmo defensor perseguindo o mesmo adversário. Não há muita brecha para mudança no caso da individual e, por isso, se chama individual.

Agora continuando os modos de marcação, vamos ao tópico das perseguições.

1) Curta: na perseguição curta, o defensor persegue o adversário por curta distância. Esse tipo de perseguição normalmente é usado na marcação zonal, pois persegue-se o adversário por curto espaço para que haja a troca de marcador na próxima zona.

2) Média: na perseguição média, o defensor persegue o adversário por uma distância não tão curta, mas também não tão longa. A perseguição média normalmente não faz com que o defensor troque de faixa de campo enquanto realiza a perseguição ao adversário.

Acima as faixas do campo. No caso da perseguição média, os defensores não acabam trocando de faixa durante a perseguição, pois acabando trocando de marcador quando estiver bem próximo de acontecer a mudança de faixa.

3) Longa: na perseguição longa, o defensor persegue o jogador adversário onde quer que o atacante vá. Nesse tipo de perseguição, há trocas de faixas, mas não se troca o marcador até que a jogada “morra”. Essa perseguição é normalmente usada nas peladas.

Aqui um exemplo de perseguição longa: Lucas, o lateral-direito do Palmeiras, encaixa em Hernandez, o extremo esquerdo do Atlético-PR, e vai realizar a perseguição longa. Repare onde ele inicia a perseguição.

E veja aqui onde ele termina: no lado esquerdo do seu campo! Mesmo ele sendo o lateral-direito alviverde, ele acabou perseguindo o adversário que correu até o outro lado do campo, mudando de faixa de campo. Isso é perseguição longa.

No caso das perseguições, normalmente, é difícil de notar quando é uma perseguição média ou longa e, por isso, acaba-se denominando como perseguição média/ longa. Como aqui se trata somente da perseguição do defensor em relação à trajetória do atacante, esses tipos de perseguição podem aparecer em todos os tipos de marcação (por encaixe, zonal e individual).

Para terminar os modos de marcação, há também a referência para quais os defensores irão se movimentar.

1) Espacial: aqui a referência é o espaço do campo. Desse modo, a marcação será mais intensa quando o adversário entrar no espaço do defensor. Normalmente, a referência espacial é utilizada no modo de marcação zonal e quando há uma organização de posicionamento defensivo.

2) Bola: aqui a referência é a bola. Assim sendo, pressiona-se o adversário que estiver com a bola independentemente se o defensor está na sua zona de posicionamento defensivo ou não. Pois se a bola está com o adversário, deve-se pressioná-lo até recuperá-la.

O Chile de Sampaoli realizava como referência a bola para marcar o adversário. Veja que pela imagem, Vidal está fora do seu posicionamento inicial, mas mesmo assim está pressionando o adversário com a bola.

3) Jogador: aqui a referência é o jogador. Desse modo, para onde o jogador for ou ficar, o defensor irá se posicionar de acordo. Assim sendo, quando a referência é o jogador, a equipe defensora pouco apresenta um posicionamento defensivo organizado, pois o adversário pode levar os defensores para onde ele quiser.

Fonte: Medium por Caio Gondo

Reflexões sobre o momento de transição defensiva e posse de bola

A transição defensiva é hoje um dos momentos-chave, sobretudo para as equipas que procuram ter bola, com os seus jogadores mais projectados, oferecendo largura, procurando a profundidade e garantindo jogadores entre as linhas adversárias.

Sendo a transição ofensiva o momento de jogo onde se marca mais golos, fruto de uma Organização Ofensiva que deixa mais espaços nas costas, pela equipa estar mais aberta na procura do golo, é no momento da perda de bola que as equipas devem ter especial atenção. Sobretudo quando se comanda uma equipa que é constantemente obrigada a ter que assumir o jogo com bola. Por exemplo, equipa x baixa no terreno, a equipa y é obrigada a projectar-se. Mas para se projectar, para assumir, deverá ter em conta o momento em que perde a bola.

Uma reacção à perda de bola deverá ser treinada, tal como todos os outros momentos de jogo. No entanto, o factor psicológico do jogador é claramente diferente. Tenho a bola? Estou concentrado para atacar a baliza adversária. Perco a bola? Será que vou estar tão concentrado para rapidamente reagir a essa perda? No alto rendimento vemos imensas situações onde a perda de bola, a transição defensiva é feita com pouca intensidade. Intensidade leia-se a reacção e posterior  ocupação de espaços.

(RINUS MICHELS E JOHAN CRUYFF)

Noutros tempos, para mim a melhor equipa de sempre, ou aquela que tive oportunidade de presenciar, o Barcelona de Guardiola, apresentava uma qualidade incrível no seu momento de organização ofensiva. No entanto, e não menos importante era de realçar, sublinhar e anotar, o momento de perda de bola, transição defensiva, por parte dos homens de Pep. A rápida pressão ao portador da bola e também às linhas de passe tornava o jogo muito complicado para os adversários. Com percentagens altíssimas de posse de bola, e quando o adversário tinha a bola em sua posse era sobretudo no momento de transição ofensiva, que rapidamente era abafado pela equipa do Barcelona…Dava um total controlo sobre o jogo e sobre o adversário pelos homens da Catalunha.

E esse controlo vai ao encontro da importância, que eu dou no meu ponto de vista pessoal, ao facto dos jogadores serem obrigados a jogar juntos. A jogar perto. A oferecer linhas de passe ao portador da bola num espaço não muito grande. Ou seja, se no momento de Organização Ofensiva tenho vários homens na zona da bola para a manter e procurar o caminho para o golo, o que acontece quando perco a bola? Terei vários homens onde a bola foi perdida, e se todos reagirem pro-activamente após a perda, as probabilidades de sucesso serão necessariamente maiores.

(GUARDIOLA E SARRI)

O jogar em posse, o procurar controlar o jogo com a bola é também procurar defender.  Porque com a bola sou eu que escolho os caminhos a seguir. Sou eu que determino onde – provavelmente – poderei perder a bola. E se garantir superioridade numérica no momento onde tenho a bola, essa superioridade manter-se-à no momento em que a irei perder. Engane-se aqueles que pensam que ter a bola é o objectivo. Não é! Ter a bola é o caminho a seguir. O caminho a seguir para vencer e controlar os diferentes momentos de jogo. E por fim, ter a bola, porque todos aqueles que jogam, cresceram a querer ter a bola, a quererem ser protagonistas. Todos podem ser. Em todas as posições. E quanto mais tiver a bola, mais prazer darei aos jogadores de jogar o jogo. O prazer de criança que nunca deveremos apagar de um jogador, aliás – e repito, numa visão pessoal – deveremos sim exponenciar essa criança dentro de um conjunto de regras e organização.

Fonte: Raciocinar o Futebol por Leandro Silva

Esquema tático e suas variações: até onde os números do esquema são mesmo representativos no campo?

Desde o boom da análise tática na internet no Brasil, o primórdio de tudo era achar o esquema tático do time e continuar a análise através dos “números de ônibus”: “O esquema tático da equipe é 3–5–2, defende 5–3–2 e ataca 2–3–5. Ah, e agora mudou para o 4–1–4–1”. Mas esses números realmente acontecem nessas fases de jogo? Como que realmente define o esquema tático? Essas numerações em ação defensiva e na ofensiva representam mesmo o que acontece no campo?

Em suas primeiras temporadas no City e assim como foi no Barcelona e no Bayern de Munique, os times de Guardiola eram muito conhecidos por atacarem no 3–2–5 ou 2–3–5. Mas, afinal, isso realmente existia em campo ou era para facilitar a transmissão da mensagem? E seguindo a ideia do texto, no fim dele, falarei sobre a tal linha de 6 que apareceu no Brasil faz um tempo.

Antes de partir sobre, por exemplo, o 2–3–5 de Guardiola, precisamos ir para a base teórica do texto todo: como se define o esquema tático de um time? É a partir desta resposta que teremos o conceito de tudo.

Esquema tático já foi o tema central de dois textos daqui (se você perdeu, estão este e este), mas eu mesmo percebi que faltou um fator primordial para que o leitor não tivesse mais dúvida de como definir o esquema tático da equipe. O esquema tático de uma equipe é definido por quem tal jogador se interage mais dentro da partida. Essa interação é relacionada com a movimentação de quando o jogador e o time estão sem a bola, enquanto que a equipe e o jogador estão com a bola, o termo mais adequado seria associação. Mas como é essa tal interação?

Essa interação é relacionada com quem tal jogador se movimenta de acordo com o movimento ofensivo e defensivo da equipe. De maneira mais simples: se um jogador se movimenta de acordo com o movimento do outro do mesmo time, esses dois jogadores estão se interagindo! E maneira ainda mais simples e colocando com um exemplo: se um volante vai e o outro fica, e ambos se movimentam juntos e alinhados na maior parte do tempo, eles estão se interagindo e, assim, o esquema tático da equipe há, pelo menos, um “2” nele. Isso é interação!

Hoje em dia, a interação mais fácil de perceber é na linha defensiva: facilmente se nota que há uma linha com quatro defensores, e todos eles se movimentam de acordo com o outro defensor. Com isso, há uma interação entre quatro jogadores e, assim, há um número “4” dentro do esquema tático da equipe.

E é a partir desta definição, temos como definir todos os esquemas táticos possíveis que forem aparecer no futebol! Se um time que tem quatro jogadores que se interagem mais no meio do campo do que com o seu centroavante, temos que um número “4” no esquema e, se a equipe tiver uma linha defensiva com quatro jogadores, o esquema tático do time é provavelmente o 4–1–4–1 e não o 4–3–3 (para mais detalhes sobre as diferenças do 4–1–4–1 e do 4–3–3, veja aqui) E assim segue.

Neste momento do texto cabe uma reflexão: então como se define o esquema tático da equipe com quem os jogadores mais se interagem entre si, hoje em dia, os esquemas com três zagueiros são todos começados com um número “5”, certo? Quase isso.

O Chelsea de Antonio Conte é um dos exemplos mais clássicos de estudo para uma linha de 5. Mas, afinal, o esquema tático da equipe era o 3–4–3 ou o 5–4–1?

Por definição, se define as “linhas” de um esquema tático da maneira com quem os jogadores mais se interagem dentro da partida. Diante disso, temos que o mesmo time e com os mesmos jogadores diante de dois diferentes adversários pode apresentar dois esquemas táticos diferentes, no entanto, os esquemas são bem próximos. Veja em exemplo.

Peguemos, novamente, o Chelsea da imagem acima de Antonio Conte. Diante de um time que se defende muito mais do que ataca, os Blues teriam com que Moses e Alonso se interagindo muito mais com Kanté e Drinkwater do que com Azpilicueta, Christensen e Rudiger, já que o Chelsea pouco entraria em ação defensiva e poucas vezes o time teria de fato cinco defensores flutuando de um lado para o outro e se interagindo. Contra este adversário, o esquema tático dos Blues seria, sim, o 3–4–3. Já o pensamento contrário teria o resultado inverso: como Moses e Alonso iriam se interagir mais com Azpilicueta, Christensen e Rudiger do que Kanté e Drinkwater, o esquema tático seria o 5–4–1. Viu como a palavra “mais” faz diferença? E ela faz muita diferença para todas as reflexões seguintes!

“Ah, mas o esquema tático do Cruzeiro é o 4–2–3–1!”. “Não! O esquema mesmo é o 4–4–1–1!”. Os dois estão completamente errados? Não. Depende de quem os jogadores mais se interagiram dentro da partida.

Com esta linha de pensamento, a gente vai para um próximo levantamento: e aquelas situações de que o comentarista fala de que tal time joga em um esquema, defende em outro e ataca num terceiro? Isso realmente existe? Sim, eles de forma para elucidar e de demonstrar de maneira mais rápida realmente funcionam, mas para você que já viu de que para definir um esquema tático de uma equipe se considera com quem os jogadores mais se interagem, todos esses números existem? Seguindo, esta linha de pensamento, todos esses números não existem e, mais: só existe o número do esquema tático!

O Real Madrid de Zinedine Zidane joga no 4–3–1–2, se defende no 4–4–2 e ataca no 4–3–3. Quais desses números realmente existe no campo? Aquele no qual os jogadores mais se interagiram na partida!

Mas, ah, o time ataca sim no 2–3–5 porque os pontas abrem e os meias centralizam, e, assim, forma um 5 na frente junto com o centroavante”. É, mas, em ação ofensiva, o desenho tem que ser necessariamente este em todo o momento? Ninguém pode “desmanchar” os números? Sim, claro que pode! E aliás, em ação ofensiva, deve-se desmanchar os números! Uma vez que há adversários e esses querem neutralizar o ataque, a movimentação e a ocupação dos espaços vazios são fundamentais para poder atacar. E com isso, até em ação ofensiva, o tal “o time ataca em tal número” pouco existe e os jogadores pouco se interagem entre si! Mas entendo que é para elucidar e passar a mensagem mais rapidamente, porém, o número em si não existe de fato no campo! Não tem como um jogador se interagir mais com diversos e em várias fases do jogo! Ele só se interage mais com alguns na média geral da partida!

“Ah, o Paulinho no Barcelona avançava tanto que virava atacante e mudava o esquema tático do time”. Mudava? Se Paulinho interagiu mais com Suarez do que Rakitic e Busquets naquele jogo, o esquema tático era um, mas como Paulinho só avançava na fase ofensiva e nas demais ele se interagia com Rakitic e Busquets, o esquema tático do Barcelona tinha três no meio, sendo um deles, o brasileiro.

Com o exemplo de Paulinho no Barcelona, já matamos muitas situações das quais, como por exemplo: “Ah, mas o lateral avançou tanto pelo meio que ele fez o time mudar de tal esquema para outro”. Não! “Ah, mas o volante se enfiava entre os zagueiros quando o seu time era atacado e isso fazia o time ter uma linha de 5”. Não! “Ah, mas o centroavante recuava tanto para buscar a bola que fazia que o seu time passasse a não ter atacante”. Não! Você percebeu que em todas essas situações caem na mesma situação de Paulinho no Barcelona? Em todas, tal jogador só se movimentava em uma fase do jogo enquanto que nas demais não! Como temos quatro fases de jogo, logo, na maior parte do tempo, o jogador se interage mais com outros, o esquema tático não foi alterado!

E a linha de 6?

E por fim, uma situação que apareceu em tempos recentes no Brasil: afinal, o time se defende com uma linha de 6? Esta situação vai envolver os conceitos de interagir mais e a interação.

Isso que o Corinthians de Fabio Carille era uma linha de 6?

Vamos por partes antes de responder a pergunta. Partindo de que com quem os extremos se interagiram mais dentro de um jogo e, se caso, o time que usasse os extremos voltando até o fim fosse muito mais atacado do que atacando, poderia se dizer que sim, existe a tal linha de 6, mas não, a linha de 6 não existe! Voltemos para a definição de interação:

Essa interação é relacionada com quem tal jogador de acordo com o movimento ofensivo e defensivo da equipe. De maneira mais simples: se um jogador se movimenta de acordo com o movimento do outro do mesmo time, esses dois jogadores estão se interagindo!

Agora pense nas equipes que teoricamente se defende com uma linha de 6: com quem os extremos que voltam até o fim se interagem com relação a outro companheiro do seu time? Eles flutuam e se movimentam lateralmente junto com a linha defensiva ou só estão lá atrás por causa dos laterais adversários que subiram muito e simultaneamente? Os extremos se interagem junto com o meia central ou os seus defensores? Aqui nem entra a questão de interagir mais, mas sim o conceito de interação! Como os extremos só estão lá por causa dos laterais adversários que subiram juntos e não flutuam e nem se relacionam junto com os seus defensores, a linha de 6 não existe! Não tem nem sequer interação entre eles para começar a cogitar um número para eles!

No mesmo jogo do flagrante anterior, vejam com quem Romero e Léo Jabá se interagiam de fato: com o seu meia! Diante disso e dependendo da partida, poderia se dizer que havia uma linha de 3 no meio de campo do Corinthians, mas não havia e não há uma linha 6!

Por fim, antes de definir qualquer “linha de ônibus” de tal equipe, sempre lembre dos conceitos de interação e com quem o jogador se interage mais na partida. Com esses conceitos bem claros, pode-se definir qualquer esquema tático em qualquer jogo de futebol.

Fonte: Medium.com por Caio Gondo