Bullying no futebol de formação

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O bullying é um problema sério e bastante frequente no desporto jovem, nomeadamente no futebol de formação.  Antigamente, os treinadores, e até os pais, encaravam o bullying como “coisas de miúdos”. Felizmente, os tempos mudaram e, hoje em dia, todos concordam que não há lugar para tal, no desporto.

O que é o bullying?

Bullying é o comportamente agressivo, intimidativo e repetido, entre crianças, e jovens, de idade escolar, que envolve um desequilíbrio de poder, real, ou percebido, tendo como finalidade causar um dano físico, ou psicológico, a outra pessoa.

Existem três tipos principais de bullying. No futebol de formação, e no desporto jovem, em geral, as formas mais comuns de bullying verbal são o insulto, chamar nomes e ameaça de violência a outro jogador. O bullying social inclui a exclusão de outro atleta, de forma propositada, boatos, conversas que prejudicam e magoam, e envergonhar o atleta, em frente aos outros. O bullying físico inclui murros, chapadas, tropeções, bater na cabeça, bater com a toalha, cuspir, roubar e fazer gestos com as mãos.

Quais os efeitos do bullying?

Independentemente da forma como acontece, o bullying tem um impacto físico, e emocional, terrível nos mais jovens. As vítimas de bullying sentem-se magoadas, zangadas, com medo, isoladas, envergonhadas e sem esperança.

As vítimas de bullying correm um risco maior de desenvolver problemas de saúde mental, como depressão e ansiedade. Além disso, as cicatrizes causadas pelo bullying podem persistir durante muito tempo, no futuro, e podem predispor um jovem a desenvolver problemas psicológicos, na vida adulta.

Quem são as vítimas de bullying?

Imagem: http://feszulos.blog.hu/2017/08/29/ne_sportoljak_mert_kover_vagyok

Alguns fatores colocam as crianças num risco maior, mas nem todas, com essas características, sofrerão bullying. Geralmente, os jovens jogadores que sofrem bullying são encarados como diferentes dos seus colegas de equipa (por exemplo, com excesso de peso, ou abaixo do peso, uso de óculos ou orientação sexual) e são percebidos como fracos ou incapazes de se defenderem. Eles também tendem a ter baixa auto-estima, são menos populares, do que os outros, têm poucos amigos, não se dão bem com os outros e são vistos como irritantes ou antagónicos.

Quem são os autores de bullying?

Nenhum fator isolado coloca uma criança em risco de se envolver no bullying, mas alguns jogadores, que são mais propensos a intimidar os outros, estão bem ligados aos seus colegas de equipa, têm poder social, estão excessivamente preocupados com a sua popularidade e gostam de dominar, ou comandar, os outros. Outros, são mais isolados dos seus colegas de equipa, têm baixa auto-estima e não se identificam com as emoções, ou sentimentos, dos outros. Tendem a ser agressivos, ou facilmente frustrados, têm problemas em casa, ou na escola, têm dificuldade em seguir regras, vêem a violência de maneira positiva e têm amigos que intimidam os outros.

O que os treinadores devem ensinar aos jovens jogadores, sobre o bullying?

Imagem: http://www.vancourier.com/sports/pledge-to-stop-bullying-in-sport-1.8547826

Como parte das suas responsabilidades de segurança desportiva, os treinadores devem assumir um papel proativo na redução da probabilidade de ocorrência de bullying. Além disso, os treinadores devem dedicar tempo, e esforço, para educar os jovens jogadores sobre o bullying o que inclui ensinar-lhes:

(a) o que é o bullying,

(b) o que fazer, se eles forem alvo de bullying

(c) o que fazer, se eles forem testemunhas de bullying

As reuniões de equipa, que geralmente são curtas e realizadas regularmente, oferecem uma excelente oportunidade para a educação. Nas reuniões, os treinadores podem implementar as recomendações para promover o entendimento dos atletas sobre o bullying, o que acabará por ajudar a sustentar os esforços de prevenção ao longo do tempo.

É aconselhável proporcionar uma oportunidade para os atletas se expressarem promovendo, por exemplo, discussões sobre o bullying através de perguntas abertas, como as seguintes:

  • O que é, para ti, o bullying?
  • Já tiveste medo de ir a um treino, ou jogo, porque estavas com medo do bullying? O que fizeste para tentar mudar as coisas?
  • Tu, ou os teus colegas de equipa, deixaram outras crianças de fora das atividades, de propósito? Achas que isso foi bullying? Porquê ou porque não?
  • Já assististe a jogadores da tua equipa a serem intimidados? O que sentiste?
  • O que costumas fazer, quando assistes a situações de bullying?
  • Já tentaste ajudar alguém que estava a ser intimidado? O que aconteceu? O que farias se acontecesse outra vez?

Ao liderarem as discussões, os treinadores devem garantir aos jogadores que estes não estão sozinhos, ao abordar quaisquer problemas que possam surgir.

Os jogadores devem ser incentivados a falar com o treinador, se sofrerem de bullying, ou virem outros a serem intimidados. O treinador pode dar conforto, apoio e conselhos, mesmo que eles não consigam resolver o problema imediatamente.

Ajudar os jogadores, a lidarem com o bullying:

Falar sobre como enfrentar os bullies. Dar dicas, como:

  • Olhar para o bully e dizer “pára” com uma voz calma e clara
  • Tentar usar o humor e rir, o que pode fazer com que o bully seja apanhado desprevenido
  • Se a fala parece muito difícil, ou não é segura, a vítima não deve reagir. Em vez disso, deve ir embora e ir ter diretamente com o treinador

Falar sobre estratégias para se manterem em segurança. As estratégias podem incluir:

  • Falar com os treinadores sobre o problema, para que eles possam ajudar os jogadores a fazer um plano para parar o bullying
  • Evitar situações em que o bullying ocorra
  • Ficar perto dos treinadores, já que a maior parte do bullying acontece quando os adultos não estão por perto

Incentivar os jogadores a ajudarem outras pessoas que sofrem bullying. A assistência pode envolver:

  • Deixar o bully saber que tal comportamento é uma violação da política de tolerância zero do treinador
  • Criar uma distração ou concentrar a atenção noutra coisa
  • Ajudar o jogador, que está a ser intimidado, a escapar da situação
  • Encontrar o treinador, ou pedir a um colega para encontrar o treinador, o mais rapidamente possível
  • Ser gentil com o jogador intimidado, o que ajuda muito para que ele saiba que não está sozinho

Fontes:

Rosinski, Allan, 4 Ways to Prevent Bullying in Youth Sports

Smoll, Frank, What to teach young athletes about bullying, Psychology Today, 2017

Smoll, Frank, Disciplinary Problems and Bullying in Youth Sports, Psychology Today, 2015

Fonte: Futebol de Formação por Vera Moreira

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O Talento no Desporto – Da Identificação à Qualidade da Exposição

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Bom dia caro Leitor,

O desporto é o reflexo da sociedade em que estamos inseridos. No contexto social de hoje, onde o imediatismo predomina, muitas são as vezes em que utilizamos a palavra “talento” para classificar um individuo que demonstra um conjunto de aptidões para o desenvolvimento de uma atividade especifica. A própria sociedade parte em busca desse talento – vejamos por exemplo, os mais diversos programas de “caça talentos” que encontramos nos écrans da televisão – querendo que o mesmo seja de rápida identificação, pois a cultura do “aqui e agora” não permite esperas.

Vivemos, portanto, num contexto de procura por um resultado rápido e de uma orientação motivacional que também nos leva nesse sentido, onde o fator tempo nem sempre é respeitado como deveria ser. Será que essa pressa não poderá condicionar o desenvolvimento do talento, ou mesmo precipitar a sua identificação?

Direcionando a atenção para o contexto desportivo, percebe-se desde logo, que esta atividade torna-se num reflexo de representação da sociedade em geral. Encontramos por vezes nas páginas dos jornais, crianças (de 8/10 anos) a serem alvo de destaque, tendo como manchete “O novo Messi”, ou como sendo uma garantia de futuro para o clube, onde com a idade que tem, ainda deveria apenas estar a brincar á modalidade, que de facto tanto adora.

Outro aspeto a ter em consideração é a origem do talento. Será inato? Será desenvolvido mediante um conjunto de fatores em que o contexto e as suas condições também terão de entrar nesta equação?

E em relação ao tempo. Devemos partir em busca do talento e rotular desde cedo os mais aptos? Ou permitir o máximo de exposição á prática por parte da criança?

Qual o papel dos diferentes agentes desportivos, como treinadores, pais e dirigentes neste processo de identificação e desenvolvimento do talento?

Vamos então debruçarmo-nos sobre o tema.

O Talento

Coyle (2012), num dos seus livros sobre a temática associada ao talento, destaca um fator que na atualidade é consensual para o desenvolvimento do talento – A motivação. Referindo que o talento começa em pequenos e poderosos encontros que estimulam a motivação e vinculam a nossa identidade a uma pessoa ou grupo de alto desempenho. Isso é chamado de ignição, e consiste num minúsculo pensamento de mudança do mundo e que ilumina a nossa mente inconsciente dizendo-nos: eu poderia ser eles.

Este momento de pertença por parte do individuo ao contexto onde está inserido e a correta perceção das suas habilidades, indicam que poderá então caracterizar-se como a tal ignição que promoverá uma visão de futuro e um compromisso ajustado com o nível de exigência necessário para que o talento se desenvolva.

Porém esta visão do individuo como ser biopsicossocial, onde as suas habilidades são resultado das suas características biológicas,mas também das suas capacidades psicológicas e sociais – Isto é, a relação entre o individuo e todo o contexto onde está inserido – nem sempre esteve presente nos estudos que se fizeram no decorrer do tempo.

Vamos então perceber como foi a evolução do pensamento sobre tema…

Recorrendo a uma breve pesquisa sobre a palavra “talento”, pode perceber-se que esta palavra tem origem na Grécia antiga, sendo uma palavra para designar uma unidade de moeda. Á posteriori foi integrado no sistema monetário romano, sendo esta composta de ouro ou prata. Ou seja, esta palavra sempre esteve associada a valor, a algo distinto e com substrato de significância, mantendo sempre consistente este significado que desde a Grécia Antiga lhe foi atribuído.

Já no decorrer do Sec. XX, entre as décadas de 50 a 70, o talento era identificado e justificado pela grande influencia da genética, favorecendo exclusivamente as determinantes biológicas, Esta linha de pensamento veio a concluir-se como ineficaz, pois este fator não permitia predizer com a precisão desejada que os atletas no futuro obteriam desempenhos de destaque.

O final do seculo XX constituiu uma mudança de paradigma no que ao estudo e aplicação de programas de deteção de talento diz respeito. Deixou-se de parte a exclusividade do fator hereditário, onde o talento era considerado inato e começou a considerar-se o fator “contexto”. O contexto onde ocorre a exposição da prática, sendo este essencial para o desenvolvimento da performance do individuo.

Neste período já percebemos a lógica do desenvolvimento, da evolução, da importância dos programas de treino e de todo o contexto ambiental que está como base no desenvolvimento do talento.

Mais do que negar a existência de eventuais influências genéticas, destacava-se, nesta fase,  um papel determinante para o contexto onde ocorre o desenvolvimento para explicar as diferenças intra-individuais no desempenho.

Esta linha de pensamento foi decisiva na forma como se passou a perceber e conceber o talento, sendo que as variáveis, contexto (treino e prática), social (influência de pais, treinadores, colegas, entre outros) e psicológica (ex. tipo de motivação), ganharam claro destaque nesta temática.

Após esta breve viagem sobre as linhas de pensamento traçadas no decorrer do tempo vamos a algumas questões práticas que estão associadas ao talento, nos nossos contextos de atuação prática

Talento: Inato ou Adquirido

Para começar, destaco a frase de Garganta (2006) , cada individuo é diferente dos demais, sobretudo na forma como responde aos processos de formação. Ao acreditar-se no inatismo do talento põe-se em causa o papel da aprendizagem, do treino e da capacidade transformadora que, por definição, os qualifica.

Vamos então colocar isto na prática. Apesar da objetividade da frase, nem tudo o que se encontra cientificamente validado tem o devido transfere para o contexto prático nas atividades que realizamos. Por isso, no contexto desportivo, ainda é muito usual ouvirmos de treinadores, dirigentes e demais agentes expressões como “O talento? Ou tem ou não tem.”. Conduzindo-nos de novo para as décadas de 50 a 70. Todo este pensamento base irá sem dúvida influenciar a qualidade de exposição da criança á pratica desportiva, bem como na sua motivação, confiança e compromisso, colocando-os  precocemente com o rótulo do mais ou menos apto.

Esta linha desajustada de pensamento pode fazer com que  muitos jogadores ou candidatos a jogadores vejam as suas possibilidades comprometidas ou reduzidas quando os treinadores não lhes reconhecem talento suficiente e não apostam confiadamente neles.

O Fator Tempo

Vivemos numa sociedade com pressa de resultado, de rotular e categorizar elementos essencialmente ligados ao sucesso, não só no desporto como em outra qualquer área de atividade. Será esta pressa propulsora ou limitadora no que concebe o desenvolvimento e exposição adequada da criança em contexto de treino?

Vamos de novo ao pensamento de Garganta (2009), que refere que numerosos programas de deteção de talentos, baseados na ideia de que as competências para jogar consistem na presença ou ausência de determinados atributos inatos ou aptidões naturais, esgotam-se no esforço de identificação precoce dos mais capazes, na esperança de que os melhores de hoje sejam também os mais aptos no futuro. Tais práticas têm levado a que, não raras vezes, se negligencie o processo essencial de desenvolvimento dos praticantes ao longo da sua vida desportiva.

O que poderemos e retirar daqui? Sem duvida que esta  é uma abordagem considerada imutável, desacreditando-se nas respetivas possibilidades de evolução e menoriza-se a importância da imprescindível atualização de habilidades e competências através do processo de formação.

Com esta rotulagem, os considerados mais aptos terão consequentemente acesso a uma estimulação superior, influenciando também os seus níveis de motivação compromisso e confiança.

Cada individuo tem a sua individualidade e deveremos ter isso em consideração, pois a função dos treinadores é ter perceber os conteúdos dos modelos teóricos em cima enaltecidos. Enriquecendo o contexto e as tarefas, de modo a que a exposição á pratica seja o mais rica possível. Sempre com o fator tempo como base.

Desenvolvimento do Talento

Enriquecer o contexto de prática com conteúdos e tarefas que favoreçam a evolução do atleta, tendo em consideração a linha do tempo e o princípio da individualidade. Onde a qualidade de conteúdos promovam no atleta uma exposição enriquecedora, ajudando no seu processo de crescimento com algumas competências essenciais ao desenvolvimento do talento.

Competência – Assimilação e acomodação de padrões comportamentais que permita ao atleta desenvolver a sua percepção de competência e habilidades para fazer face aos estímulos do jogo… o tal aprender o jogo, aprender a jogar.

Autonomia – Indicar caminhos mas essencialmente expor o atleta numa busca pelas tomadas de decisão mais eficazes para aquilo que o contexto pede no momento.

Relacionamento – Promoção de habilidades de integração, adaptação e envolvimento humano dentro do contexto desportivo.

Falamos então do enriquecimento do contexto que envolve as várias áreas do treino, sendo esta capacidade de desenvolvimento de habilidades estimulada por um conjunto de técnicos que, planeiam, avaliam e monitorizam o processo de treino. Numa abordagem que deve ser multidisciplinar.

Fonte: Futebol de Formação por Luis Parente

A composição corporal e o tipo de treino na ocorrência de lesões musculares no jovens futebolistas

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A composição corporal dos futebolistas é diferente comparativamente aos não futebolistas e dentro dos futebolistas a composição corporal também varia de acordo com a posição em campo. Neste sentido e por se reconhecer que o alto IMC e a reduzida %MG representam um perfil padrão de risco de lesão em jovens futebolistas, surge a pertinência da análise séria desta questão.

O futebol de formação, quer queiramos quer não, exige, cada vez mais, resultados desportivos e quanto mais abrangente for a monitorização dos fatores inerentes, mais perto se tornará o percurso até esses mesmos resultados. Muito se tem falado acerca da dissociação da prática do exercício físico no futebol com a saúde dos praticantes, certo é que as lesões são recorrentes e a preocupação da avaliação da composição corporal sistemática e rotineira ao longo da época é vista como um suporte ao desempenho e à promoção de saúde dos praticantes.

As lesões no futebol representam um entrave nos resultados dos jogos, sendo diretamente proporcional ao aumento dos golos. Destacando-se entre as lesões mais frequentes, as lesões musculares, nomeadamente as contusões.

Associando as lesões musculares no futebol com o treino, sugere-se que, uma melhor compreensão de como as cargas de treino se relacionam com as lesões podem auxiliar no tratamento dos lesionados.

A Composição Corporal, representa, por sua vez, uma associação direta ao rendimento do jovem futebolista, havendo cada vez mais preocupação no perfil padrão ideal de composição corporal dos praticantes, associando-se aos clubes diversos agentes “externos” com vista, por exemplo, ao controlo alimentar adaptado ao exercício de alto rendimento.

Relacionando a composição corporal, as lesões e o treino, será pertinente perceber que as diferenças na simetria muscular são precursoras de lesões e na recuperação das lesões, a avaliação permanente da composição corporal indicia a fase de recuperação e pode estimar o tempo da própria recuperação. Com o treino ao longo da época desportiva verifica-se que, é no último terço da época que, os futebolistas aumentam e diminuem a %MM e a %MG, respetivamente, de uma forma significativa, podendo estar relacionado com o maior número de lesões ocorridas nesta fase da época desportiva, ou seja, as lesões musculares podem estar relacionadas com a composição corporal dos futebolistas e/ou com o tipo de treino relacionado, sendo que, a composição corporal, por si só, pode estar relacionada com o tipo de treino realizado e o tipo de treino realizado pode estar relacionado com as lesões ocorridas e/ou com a composição corporal dos futebolistas.

Na análise de jogo, a importância do registo dos golos, da % de posse de bola, dos remates enquadrados, das substituições, etc., é, naturalmente, importante para a evolução performativa da equipa e dos praticantes, contudo, o registo das lesões, o tipo, o momento de jogo (minuto) e a forma como ocorreu, aliado à posição em campo, à idade, ao estilo de vida e à composição corporal, permitiria uma analise mais direcionada ao bem-estar do praticante e eventual minimização de lesões musculares não traumáticas.

O transfere de todas esta preocupações para o futebol de formação é emergente. Não se pode querer crescer rapidamente nos aspetos técnicos, táticos e físicos sem os monitorizar constantemente e, sobretudo, sem perceber o impacto que a “exigência” que se impõe para os treinar terá na constante ocorrência de lesões musculares, implicando a médio/longo prazo na vida adulta do atual jovem futebolista.

Referências Bibliográficas

Bune, V., Hráský, P., & Skalská, M. (2015). Changes in Body Composition, During the Season, in Highly Trained Soccer Players. The Open Sports Sciences Journal , 18-24.

Dengel, D., Bosch, T., Burruss, P., Fielding, K., Engel, B., Weir, N., et al. (2013). Body Composition and Bone Mineral Density of National Football League Players. Journal of Strength and Conditioning Research , 1-6.

Gerosa-Neto, J., Eduardo, F., Buonani Silva, C., Zapaterra Campos, E., Araujo Fernandes, R., & Forte Freitas Júnior, I. (2014). Body composition analysis of athletes from the elite of Brazilian soccer players. Motricidade , 10, 105-110.

Kemper, G., van der Sluis, A., Brink, M., Visscher, C., Frencken, W., & Elferink-Gemser, M. (2015). Anthropometric Injury Risk Factors in Elite-standard Youth Soccer. Sports Med , 1-6.

Lima, C., Martins, M., Liberali, R., & Navarro, F. (2009). Estudo Nutricional e Composição Corporal de Jogadores de Futebol Profissional. Revista Brasileira de Nutrição Esportiva , 562- 569.

Ryynanen, J., Junge, A., & Dvorak, J. (2013). The effect of changes in the score on injury incidence during three FIFA World Cups. Br J Sports Med , 47: 960-964.

Windt, J., & Gabbett, T. J. (2016). How do training and competition workloads relate to injury? The workload-injury aetiology model. Br J Sports Med .

Professor/Treinador André Santiago

Fonte: Futebol de Formação por André Santiago

Tempo! O fator chave para as equipas de sucesso.

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Olá caro leitor!

Como agentes ligados direta ou indiretamente ao desporto, conseguimos desde logo perceber que a principal diferença entre um grupo de trabalho – onde os indivíduos partilham um espaço em comum, apresentam objetivos definidos, papeis distribuídos, regras e estratégias – e uma equipa de alto rendimento desportivo se centra no fator tempo! Tempo para conhecer, partilhar momentos, partilhar experiências, criar ligações de interdependência, essencialmente na execução da tarefa mas também fora dela.

Sei que a coesão de tarefa terá sempre prioridade e maior enfoque na produtividade, mas quando a essa interdependência juntamos a coesão social (os elementos fora do contexto de trabalho interagirem, saberem das vidas extra laborais dos seus pares, preocuparem-se com o outro), há um plus… pois se eu me preocupo contigo fora das quatro linhas, garantidamente que me irei superar numa transição defensiva para te ir ajudar no corredor lateral, por exemplo.

Sérgio Conceição na última entrevista grande entrevista que deu á comunicação social destacou aspetos fundamentais para a construção da equipa coesa na tarefa e socialmente.

Como base tenho de destacar esta citação “Não admito que um capitão não tenha conhecimento que um colega seu foi pai há três meses, isto para mim não é possível“. Essa e outras situações fizeram com que o treinador do FC. Porto desenvolve-se um conjunto de normas que privilegiassem o coletivo, o seu crescimento de tarefa e social e a sua estabilidade.

Destaco aqui apenas uma:

  • Não permitir a utilização de telemóveis em zonas associadas á tarefa desportiva“. Com esta medida, para além da componente do rendimento – pois utilizar e aceder a informação fora do contexto de tarefa em momento de tarefa desfocaliza do trabalho, penso que o Sérgio aqui também pretendeu que houvesse mais proximidade, comunicação, partilha e conhecimento entre os jogadores.

É com esta norma que o treinador do FC. Porto criou, tendo como medidor a sua observação inicial da equipa, que partimos na linha do tempo… esse fator-chave que um grupo de trabalho necessita para ser uma equipa de alto rendimento desportivo de sucesso. Vamos perceber quais a fases pela qual um grupo passa e qual a abordagem do treinador nesses mesmos momentos.

A Psicologia do Desporto, no seu vasto trabalho de investigação sobre equipas e as suas lideranças, destacam quatro fases pelas quais um grupo de atletas passa no decorrer de uma época desportiva, até se tornarem equipas de alto desempenho, sendo as mesmas:

  • Formação
  • Turbulência
  • Normalização
  • Rendimento

Formação

Esta fase corresponde ao inicio da época desportiva, essencialmente no período da pré-época. Estamos naquele momento em que há atletas novos, que procuram integrar e dar-se a conhecer. Muitos de países e culturas diferentes, com objetivos e expectativas distintas para o projeto que se inicia. Tudo novo, muita ambição, muito desconhecimento.

Vamos destacar aqui algumas características base da fase de formação:

  • É a fase dos atletas se darem a conhecer e estabelecerem as primeiras interações;
  • Os atletas tentam perceber se de facto começam a pertencer ao grupo e qual o papel que lhes é atribuído;
  • Depois de cada atleta encontram o seu lugar no grupo, começam a colocar-se á prova as relações interpessoais construídas. Mesmo aquelas formadas entre os lideres ( atleta-atleta) ou inclusive atleta-treinador);
  • Os atletas menos identificados com os grupos e os valores que começam a ser construídos, poderão começar a achar complicado criar relações positivas com os outros atletas;

Papel do Treinador na fase de Formação

Nesta fase o treinador tem a responsabilidade de ajudar a criar vínculos sólidos entre os atletas. Promover estratégias de caráter social (convívios, almoços…) e de tarefa (atividades de TeamBuilding), poderão ser boas estratégias a adoptar.

Destaco aqui também dois erros que por vezes são comuns nesta fase, sendo determinante o treinador evitar comete-los:

  • Ignorar a equipa (é essencial o treinador manter as vias de comunicação abertas. Perceber nesta fase quais as motivações e expectativas dos atletas e da equipa. No sentido de recolher informação e perceber as necessidades a trabalhar nesta, e nas fases seguintes)
  • Procurar ser adorado em vez de respeitado (quanto a este aspeto ressalvo um ditado antigo que levo comigo para a vida “mais vale cair em graça do que ser engraçado”). Criar empatia, desenvolver trabalho e criar a distancia necessária para o efetuar com eficácia.

Turbulência

Esta é uma fase que se caracteriza pelo conflito. Surge quando o treinador já analisou as características de cada atleta e possui já uma ideia geral do que será o seu papel dentro da equipa.

Por vezes catalogamos o conflito como uma palavra distante do crescimento de uma equipa. Porém, estes momentos são essenciais para a sua evolução. Choque de ideias, confrontações e posicionamentos distintos são essenciais para manter o grupo alerta, atento e fora de uma linha de conforto que por vezes nos distrai do essencial.

Características base da fase de turbulência:

  • Esta segunda fase tem como ponto-chave o choque de posições entre os atletas e o treinador;
  • Fase dos conflitos internos, depois do treinador e os atletas terem estabelecidos os seus papeis e status dentro de grupo;
  • Em muitos casos, poderão surgir mesmo conflitos corporais em contexto de treino, devido á competição entre os atletas pelos papeis e status dentro do campo;

Papel do Treinador na fase de turbulência

  • Comunicar de forma direta, honesta e objetiva com os atletas, acerca das avaliações que fazem ás suas características (aspetos a manter, desenvolver, eliminar e acrescentar), bem como ao papel que executam dentro da equipa. Essa informação permanente ajuda a reduzir incertezas no atleta, visto que essa incerteza é a principal fonte de stress nesta fase.

Normalização

A fase da turbulência acaba com a compreensão e aceitação dos papeis estabelecidos aos elementos do grupo. Começa a criar-se um clima de pertença e identidade á equipa.

Características base da fase de normalização:

  • Durante esta fase a cooperação e solidariedade são as palavras-chave;
  • Ao contrario das fases anteriores em que o enfoque do atleta estava no bem-estar pessoal, na fase de normalização os atletas – mesmo tendo os seus objetivos pessoais – trabalham juntos para alcançar os objetivos coletivos.
  • A coesão de grupo é desenvolvida nesta fase, quando os atletas apresentam o coletivo como prioridade;
  • Os papeis atribuídos aos atletas conferem estabilidade, sendo que os mesmos devem ter um valor de contribuição para que o atleta se sinta útil e valorizado durante a época;

Papel do Treinador na fase de normalização

  • Normas definidas, papeis distribuídos e a equipa a funcionar estavelmente… a caminho da consolidação. Nada melhor para que nesta fase o treinador se preocupe também com os aspetos de coesão social e de tarefa. É a fase essencial para promover ações pois o grupo está orientado para o alcance dos objetivos coletivos, estando totalmente receptivo para esse tipo de atividades e conteúdos.

Rendimento

Esta é a fase onde a cereja está no topo do bolo. É o ponto máximo da evolução de um grupo para uma equipa de alto rendimento desportivo. O grande desafio desta fase é mesmo… permanecer nesta fase e não retroceder!

Características base da fase de Rendimento:

  • Corresponde ao estado ideal no que diz respeito a níveis de desempenho desportivo;
  • Os atletas, nesta fase, encontram-se totalmente coesos depositando todas as energias no sucesso da equipa. Sentem-se parte dela… veem a equipa como uma unidade!;
  • Neste momento não há conflitos nem estruturais (papeis), nem interpessoais (sociais);
  • Os jogadores ajudam-se uns aos outros, dão opiniões, partilham feedback, superam-se e são solidários em campo. O sucesso da equipa é o principal objetivo;

Papel do Treinador na fase de Rendimento

Aqui estamos perante duas preocupações que o treinador deve ter na gestão desta fase. Proporcionar a cada atleta feedback sobre o seu jogo e garantir que todos os elementos da equipa se sintam integrados e parte ativa do grupo.

Fonte: Futebol de Formação por Luis Parente

Não matem a criatividade de nossos jovens futebolistas

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A criatividade é uma característica psicológica importante para se chegar ao topo. O desenvolvimento do pensamento criativo é reconhecido como um recurso essencial para atingir e manter um desempenho superior no futebol, existe, no entanto, pouco conhecimento do seu papel no campo desportivo. Os resultados de alguns estudos mostram que os desenvolvimentos desportivos e recreativos num ambiente de resolução de problemas são benéficos para o desenvolvimento do pensamento criativo. Além disso, parece que a chegada ao alto nível está positivamente associada à criatividade.

Hoje em vários terrenos de futebol espalhados por esse mundo fora, vemos muitos treinadores com atletas de tenra idade a dar demasiadas instruções para dentro de campo. Algumas equipas de sub-10/11 parecem os seniores em termos de conceito tático.

Será este o futuro do jovem jogador? Será isto o futuro do jogador português? Quem não têm saudades de um Figo ou de um Ronaldinho?

Não será mais importante para uma criança de 11,12,13 anos ter um desenvolvimento de criatividade que lhe permita realizar situações de 1×1 quando se encontrar em dificuldades, conseguindo resolver essas situações sozinho.

Alguns treinadores quando vestem essa pele obrigam as suas equipas a jogar a um 1 ou 2 toques, no entanto quando toca a parte de recrutar, escolhem sempre aquele que se destaca, pelos seus dribles e arrancadas.

Não será então isto uma contra-evidência que o mesmo treinador que obriga a sua equipa a jogar a um toque, escolha posteriormente os jogadores que precisam de ser criativos para ultrapassar um adversário.

Será que estamos a caminhar para um futebol previsível? Que podemos fazer para mudar isto?

Alguns artigos, dizem-nos que a criança tem de ser estimulada e desenvolvida a nível cognitivo e criativo, pois este processo irá trazer inúmeras vantagens para resolver situações no contexto do jogo. Por isso treinadores, não descurem essa parte, deixem se de ser tão pragmáticos com a crianças, deixem as divertir-se (de maneira planeada e com objetivos criativos concretos) mas sobretudo deixem as experimentar um leque variado de situações.

Não mecanizemos o treino em tão tenra idade, senão daqui a uns anos teremos jogadores robotizados no campo.

Memmert e Roth, 2007. The effects of non-specific and specific concepts on tactical creativity in team ball sports, 2007.

Fonte: Futebol de Formação por Filipe Alves

Momentos e sub-momentos do jogo… uma proposta

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Como prometido no passado, publicamos a nossa interpretação do jogo de futebol e proposta para a sua sistematização.

Em primeiro lugar poder-se-á questionar a relevância de sistematizar o jogo de e interpretá-lo teoricamente. Apesar do próprio jogo mostrar caminhos e promover a auto-aprendizagem, potenciar essa aprendizagem com outras ferramentas, é para nós fundamental, nomeadamente no papel de treinador. Neste sentido, um modelo simples que explique os momentos do jogo e a sua ligação, garantirá uma enorme ajuda à compreensão do jogo e ao seu ensino aos jogadores.

Isto, independentemente da idade e nível de jogo em que trabalhamos, uma vez que vão surgindo diversos exemplos de alto e baixo conhecimento do jogo em todos os escalões etários e níveis competitivos. Porém, o jogador não se constitui como o único destinatário deste trabalho. Todos os que gostam do jogo, e desejam compreender um pouco mais a sua complexidade e dinâmica, acreditamos que vão encontrar nesta sistematização um caminho acessível.

Para o próprio treinador, não só permite, a partir daqui, uma organização mais complexa das suas ideias de jogo (princípios, comportamentos, acções, etc.) dentro de cada sub-momento do jogo, como também lhe permite categorizar exercícios de treino face à interpretação da sua dominância. Consequentemente, esta proposta, possibilita ainda ao treinador ou ao analista catalogar videos de acções de jogo da sua equipa ou de terceiras de forma acessível. Este tem sido um trabalho que temos desenvolvido, o qual já nos possibilitou uma biblioteca que ultrapassou o milhar de vídeos, e que entre outros objectivos, servirá para ilustrar os comportamentos de jogo defendidos no tema do nosso projecto, a publicar futuramente – Modelo de Jogo Idealizado.

A sistematização do jogo de Futebol já leva uma considerável história. Desde o momento em que outras modalidades contribuíram para o desenvolvimento da teorização do jogo, destacando-se os trabalhos de Friedrich Mahlo,  Leon Teodorescu e Jean-Grancis Grehaigne, passando pelo contributo fundamental em Portugal de Carlos Queiroz e Jesualdo Ferreira, quando em 1983 apresentaram uma proposta de sistematização do jogo de Futebol, à actual visão do jogo sob quatro momentos fundamentais: Organização Ofensiva, Transição Defensiva, Organização Defensiva e Transição Ofensiva, que entretanto se generalizou.

Momentos do jogo

A nossa proposta surge, não só de uma necessidade de desconstruir os momentos de organização para que sejam mais facilmente entendidos e treinados, como principalmente explicar os momentos de transição, os quais, apesar de actualmente aceites e reconhecidos pela sua importância capital no jogo, geram no entanto, ainda muitas dúvidas e por vezes interpretações erradas.

Explicando-a concretamente, a partir dos quatro grandes momentos de jogo, criámos três sub-momentos para cada um deles. Nos momentos de Organização, sentimos que a proposta de Queiroz e Jesualdo continua a garantir resposta para as necessidade desses momentos do jogo. No entanto, necessitámos de distingui-los de forma mais objectiva, uma vez que nos fomos apercebendo de visões muito díspares do que seriam a construção, criação, finalização e em oposição, o impedir a construção, impedir a criação e impedir a finalização.

Assim, no momento de Organização Ofensiva, identificado pela cor verde, entendemos os três sub-momentos:

  1. Construção: quando ambas as equipas se encontram dentro da sua organização para atacar e defender e quando a bola se encontra fora do bloco da equipa que defende.
  2. Criação: quando a equipa que ataca consegue penetrar no bloco da equipa que defende e surge perante a última linha adversária ou a última linha e mais um médio em contenção. A excepção é quando a equipa que ataca procura um jogo mais directo, de ataque à profundidade, ou seja, de passe directo para o espaço entre a última linha de quem defende e o seu Guarda-Redes, o que acaba por se configurar como uma situação de último passe, independentemente do grau de dificuldade superior da acção. Neste sub-momento, integram-se também todas as situações de bola parada ofensivas que poderão permitir um último passe ou cruzamento e finalização. Devemos referir que compreendemos as opiniões que distinguem as situações de bola parada como um quinto momento do jogo, porém a nossa interpretação é que, independentemente do jogo estar parado ou em movimento, se uma equipa está organizada para defender essas situações e a outra para atacar, então estarão dentro da sua Organização Defensiva e Organização Ofensiva, respectivamente.
  3. Finalização: todas as acções que visam o momento final de ataque à baliza adversária, portanto, a acção individual ofensiva de remate, independentemente da superfície corporal envolvida. Aqui também se integram as situações de bola parada ofensivas que poderão permitir um remate directo à baliza. Importa ainda referir que a finalização pode até surgir quando a equipa que ataca tem pela frente todo o bloco adversário ou parte do mesmo. Contudo, se quem ataca conseguiu chegar ao remate, esses momentos de organização defensiva adversários falharam de alguma forma.

Em oposição o momento de Organização Defensiva, identificado pela cor vermelha, sub-divide-se em três sub-momentos que irão procurar garantir oposição aos anteriores comportamentos ofensivos:

  1. Impedir a construção: os momentos em que a equipa que defende procura não permitir a entrada da bola no interior do seu bloco. Os comportamentos de pressing, quer seja alto, médio ou baixo, são um bom exemplo para este sub-momento defensivo.
  2. Impedir a criação: quando a equipa que defende não consegue impedir que a bola entre no interior do seu bloco e a sua última linha é a penúltima barreira entre si e a sua baliza. Ou então as acções que visem impedir ou interceptar um passe longo e directo para o espaço entre a última linha da equipa e o seu Guarda-Redes.
  3. Impedir a finalização: quando toda a equipa, menos o Guarda-Redes, foi ultrapassada. Portanto, contrapondo ao sub-momento ofensivo de Finalização, aqui, a última barreira é o Guarda-Redes e os seus comportamentos de defesa da baliza.

Esta proposta de distinção entre os momentos de construção e criação, parece-nos altamente pertinente. Durante muito tempo apercebemo-nos que muitos autores e treinadores identificavam estes sub-momentos / fases pelo espaço do campo onde as equipas atacavam e defendiam. Essa interpretação parece-nos errada, uma vez que uma equipa pode estar em construção junto à sua área ou perto da área adversária, pois nos dois casos, perante por exemplo adversários que respectivamente defendam com o seu bloco, posicionado alto ou baixo no campo, poderá estar com todos os jogadores adversários ainda por bater. Por outro lado, uma equipa que posicione a sua última linha alta no campo, um momento de ruptura ou último passe de quem ataca pode surgir ainda no meio-campo de quem ataca. Deste modo, a correlação dos sub-momentos ofensivos e defensivos com espaços no campo está para nós desfasada da realidade que é o jogo. Então, a relação entre as duas equipas, e se quem defende ainda está usar toda a sua organização defensiva ou apenas parte da equipa, e se ao contrário, quem ataca ainda tem duas / três linhas adversárias para ultrapassar ou apenas uma, parece-nos uma visão mais aproximada da interacção e realidade dinâmica que o jogo promove, e assim um melhor caminho para distinguir esses sub-momentos ofensivos e defensivos do jogo.

Mas será nos momentos de transição que a nossa proposta pretende ir mais longe. Independentemente da interpretação dos sub-momentos / fases, da Organização Ofensiva e Defensiva, já Carlos Queiroz e Jesualdo Ferreira procuraram sistematizar essas estruturas complexas do jogo. Há cerca de 15 anos atrás, com a difusão e aceitação dos momentos de transição, surgiram então mais dois momentos do jogo para compreender. Neste âmbito tem surgido alguma confusão de conceitos, e simultaneamente sentimos a necessidade de interpretar a Transição Defensiva e a Transição Ofensiva de forma a encaixar-lhes comportamentos e acções, para posteriormente explicar a sua lógica aos jogadores e trabalhá-los pelo Modelo de Jogo que cada treinador idealiza. Neste sentido, sentimos ainda a necessidade de lhes atribuirmos uma lógica sequencial teórica, tal como sucede nos dois momentos de Organização.

Desta forma, para o momento de Transição Defensiva, para nós representado pela cor amarela, propomos os três sub-momentos:

  1. Reacção à perda da bola: os instantes, ainda no centro de jogo, imediatos à perda da bola. Os comportamentos defensivos a adoptar nessa situação. Para a maioria dos treinadores, o objectivo fundamental será não só tentar de imediato a recuperação da bola, mas não permitir ao adversário a possibilidade de contra-atacar. Portanto, impossibiltá-lo ou atrasá-lo em sair com a bola dessa zona de pressão e procurar espaços para desenvolver o contra-ataque.
  2. Recuperação defensiva: na tal lógica sequencial, se o adversário conseguiu sair da zona de pressão, independentemente dos jogadores fora do centro de jogo (primeira zona de pressão) já deverem está a fechar a equipa e a recuperar o seu posicionamento defensivo, neste sub-momento, torna-se ainda mais importante a recuperação do máximo número de jogadores, contemplados pela organização defensiva da equipa, para trás da linha da bola. Alguns poderão até estar a compensar companheiros, mas a urgência é não permitir espaço nem número vantajoso ao adversário para desenvolver situações de contra-ataque. A própria falta táctica pode ser contemplada neste sub-momento do jogo.
  3. Defesa do contra-ataque: se ambos os sub-momentos anteriores da transição defensiva falharam, então, antes das acções de defesa da baliza do Guarda-Redes, a equipa tem ainda a possibilidade de defender o contra-ataque adversário. Perante relações numéricas diferentes, poderão ser adoptados comportamentos que poderão reduzir as possibilidades de sucesso de quem ataca. Tal como, em oposição, o contra-ataque, estas são situações muito trabalhadas no Futsal, dada a quantidade de situações deste género que surgem nesse jogo. Porém, se no Futebol elas não só surgem, como são decisivas nos desfechos dos jogos, porque não devem também ser alvo de treino?

Em oposição ao momento de Transição Defensiva, surge então o momento de Transição Ofensiva, para nós representado pela cor azul, e ao qual propomos três sub-momentos:

  1. Reacção ao ganho da bola: em oposição à reacção à perda da bola, surgem neste sub-momento os comportamentos e acções de quem recuperou a bola, e a procura de sair da primeira zona de pressão adversária. Seja ela realizada por um jogador ou por mais. Se possível, alcançá-la no sentido da baliza adversária, porém, em muitos momentos, esses espaços encontram-se fechados e portanto será necessário garantir outras soluções e uma boa decisão do jogador com bola. A eficácia na reação ao ganho da bola e na saída da zona de pressão influenciará os sub-momentos seguintes da transição ofensiva, que aqui, provavelmente, já não surgem numa lógica sequencial, mas sim como alternativas de decisão.
  2. Contra-ataque: se a equipa conseguiu sair com eficácia e rapidamente da zona de pressão, poderá encontrar espaço e / ou uma relação numérica com o adversário interessante para optar pelo contra-ataque. Nesse caso, é nosso entender que deverá explorá-lo na larga maioria das situações, procurando as suas vantagens, pois parece-nos mais difícil ultrapassar uma boa organização defensiva adversária. As excepções irão surgir por influência da dimensão estratégica. Neste caso, por exemplo, quando uma equipa se encontra com uma vantagem mínima no resultado ou numa eliminatória, está a poucos minutos do final do jogo, e não lhe interessa explorar uma situação de contra-ataque, que em caso de insucesso irá, provavelmente, lhe retirar na resposta do adversário alguns jogadores da sua organização defensiva, e mais importante, porque privilegiando a posse de bola, não só poderá descansará com bola, como retirará a possibilidade de atacar ao adversário.
  3. Valorização da posse de bola: se após a saída da zona de pressão a equipa não encontrar espaço e / ou uma relação numérica interessante para atacar a baliza adversária, deverá evitar a decisão de contra-atacar numa situação desvantajosa e possivelmente perder a bola. Ao invés, deve assim garantir a sua posse, ganhando tempo para se reorganizar para atacar, procurando esse momento seguinte do jogo para criar desequilíbrios na organização adversária.

Pelas ideias apresentadas, propomos a seguinte representação gráfica dos momentos e sub-momentos do jogo:

Momentos e Sub-Momentos do jogo.

Interpretando o jogo desta forma, para nós não faz sentido catalogar uma equipa como “uma equipa de contra-ataque” ou uma “equipa de ataque organizado“. Todas as equipas têm de saber jogar em todos os momentos e sub-momentos, para que possam responder às necessidades circunstanciais que o jogo lhes vai apresentando. Contudo, partindo deste modelo, cada treinador, acreditando nas suas ideias, procurando uma adaptação à qualidade, cultura e características individuais dos jogadores com quem irá trabalhar, poderá desenvolver o jogo idealizado, de forma a responder a estes momentos e sub-momentos, o que consequentemente potenciará o seu jogo para mais ou menos tempo nalguns destes momentos e sub-momentos. Assim, procurando ir aos extremos, acreditando num jogo curto e apoiado ou longo e directo, na defesa zona ou na defesa individual, todas as ideias podem ser concebidas a partir deste modelo.

Sentimos ainda que a nossa proposta não se esgota no jogo de Futebol e que poderá ter transfer para outros desportos colectivos, nomeadamente os com características de invasão do meio-campo adversário.

Fonte: Futebol de Formação por Ricardo Ferreira

Estão os pais preparados para acompanhar o filho no desporto?

sem título

É notório que as crianças estão a começar cada vez mais cedo a praticar futsal. Clubes e academias, estão mais abertos a receber crianças ainda de muito tenra idade, o que no meu entender não sendo uma garantia, é sem dúvida nenhuma, uma ajuda para que apareçam mais praticantes de qualidade no futuro.

É importante e desejável, que os pais quando decidem inscrever o seu filho no futsal, tentem entender qual terá de ser o seu papel na vida desportiva do seu filho e ao mesmo tempo tentar entender o contexto do futsal nessa idade especifica. Deve no meu entender, haver essa preparação, para que os pais possam corresponder ao que o filho espera e que vai necessitar, ter os pais próximos, a apoia-lo e encorajar para trabalhar, para aprender, para evoluir.

Naturalmente, que um praticante erra algumas vezes e numa idade baixa, porque a fase é de primeiros contactos com a modalidade e de aprendizagem, os erros aconteçam com mais frequência.

É necessário ter a consciência, que muitas vezes o impacto do erro na criança será muito grande, porque há um constante desejo de querer fazer tudo bem, e quando não o conseguir pode sentir que não é capaz, que comprometeu a sua equipa e/ou até que desiludiu os seus pais. Comportamentos como choro, como o silêncio podem acontecer e nestes momentos os pais podem e devem ajudar.

Não é dizer ao filho que agiu bem, porque ele sabe que falhou, é antes encoraja-lo para continuar, fazendo-lhe ver que haverá outra oportunidades para ele demonstrar que é capaz.

Defendo pais de tipo “encorajador”, e nunca pais que lamentem e que estejam constantemente a “bater” nos erros cometidos pelo filho. Muitas vezes, tal é a frustração que sentem pelo erro do filho que se esquecem de dar importância à evolução nem que seja ela mínima, porque se ela acontece o caminho está a ser correcto.

Importante é também, que os pais tenham a noção das qualidades e das debilidades técnicas do seu filho, tendo a coragem de assumir que pode haver crianças da mesma idade ou até mais novas com maior habilidade. Árbitros, colegas, adversários, treinadores e até adeptos, não têm qualquer culpa de haver crianças com mais habilidade que o seu filho. Inscrever um filho numa atividade é acreditar também que o seu filho está a aprender e vai evoluir com treino e com tempo.

Como já referi, as crianças querem acertar sempre, querem ser sempre bem sucedidas, querem mostrar o que aprenderam, querem mostrar que são “boas”, querem fazer o melhor, atingir as vitórias e muitas vezes querem agradar os pais para depois sentir o carinho e o apoio dos mesmos.

Repito, os pais tem que em todos os momentos encorajar o seu filho a trabalhar para melhorar, mostrando sempre que é possível melhorar e fazer sempre melhor, esse é, no meu entender, o caminho.

Os pais precisam também de ter a noção do papel do treinador, uma pessoa que entra nesta fase na vida do seu filho. Não quer isto dizer que os pais se afastem, bem pelo contrário, os pais devem ser uma figura presente, devem tentar sempre que possível e/ou necessário dialogar com o treinador, mostrando total confiança no seu trabalho e até tentar perceber de que forma deve encarar a vida desportiva do seu filho, por exemplo, entender a importância que é dada à vitória, entender que deve haver tolerância com o erro, entender que são sempre importantes as pequenas demonstrações de evolução que o seu filho vai mostrando, etc., e depois perceber onde pode ajudar ambos, o seu filho e o treinador.

Devem os pais também, ter atenção à sua conduta na bancada. Quer para com o seu filho, quer para com um outro elemento qualquer.

É verdade, que um simples abanar de cabeça após uma acção menos conseguida do seu filho durante o jogo, pode deitar abaixo o seu filho, sim porque acontece muitas vezes as crianças olharem para a reacção do pai na bancada, e era ideal que logo aqui pudessem receber um gesto de incentivo e nunca de desilusão, de critica.

Devem ter igualmente em atenção, que qualquer comportamento através de injurias, agressões etc., para com adversários, árbitros, adeptos, além do mau ambiente que cria no pavilhão, vai deixar o seu filho embaraçado, podendo ver o seu filho optar por desistir do futsal ou até assumir o comportamento do pai e fazer igual.

É por tudo isto importante que os pais pensem, se informem, porque sai beneficiado o jogo, a modalidade mas acima de tudo o seu filho. Os pais não podem querer usar o seu filho como um meio de se afirmarem, o seu filho tem as habilidades que tem, pode desenvolve-las com maior ou menor dificuldade pode ter colegas com mais habilidade, mas nada disso impede a criança de ter o direito de praticar futsal, de aprender e de ter o apoio dos pais.

Os pais, têm que ser antes de tudo amigos presentes, sempre que possível, aquele que encoraja e valorizar o seu filho quando o vê a trabalhar para se superar, quando vê o seu fllho dedicar-se para ser amanhã melhor que hoje e quando vê o seu filho assumir uma postura de desportista mantendo um relação saudavel com árbitros, colegas, treinadores e adversários.

Não poder estar presente fisicamente na bancada em todos os momentos, como seria ideal, não significa que não possa manter conversas com o filho até com o objetivo de perceber como está o seu filho a viver o desporto e encoraja-lo a trabalhar sempre mais.

Acreditem todos os pais, que vale a pena, para não dizer que devia ser obrigatório, deixar muitas outras coisas para trás para poder acompanhar de perto a vida desportiva do seu filho, seguindo sempre comportamentos adequados, relembro de encorajamento, e nunca de super protecção ou de critica excessiva…

Todos sabem que são capazes e todos querem ajudar… eu sei disso!

Fonte: Futebol de Formação por Gonçalo Mendonça

O modelo de jogo: eixo nuclear do processo de treino em futebol

Autores

Valter Pinheiro, Bruno Baptista – Instituto Superior de Ciências Educativas/Metodologia TOCOF

Introdução

Nos primórdios da periodização do treino de futebol, a dimensão física assumia grande relevo, relativamente às restantes vertentes do jogo.

Os inícios de época baseavam-se no desenvolvimento das capacidades condicionais, porque se acreditar que estas eram a base para o restante desenvolvimento dos atletas. Por isso, era usuais os treinos na praia e em pinhais, locais descontextualizados da realidade do Jogo. Vivia-se à base do conhecimento científico produzido pelos autores dos desportos individuais, pelo facto de não existir investigação que servisse de suporte aos jogos desportivos coletivos. É por isso que acreditamos não ser lícito criticar negativamente o que se fazia outrora, porque a informação disponível era parca.

Todavia, uma nova forma de pensar o treino foi surgindo, dando cada vez maior destaque à dimensão tática do jogo, sem esquecer as demais dimensões, porque todas elas são vitais para o jogo. Rapidamente se compreendeu que a dimensão física é apenas mais um contributo na melhoria do rendimento dos atletas, mas que todavia, deveria levar em conta a lógica organizacional do jogo.

O Modelo de jogo, ou seja, os princípios que organizam a equipa durante a partida, passou a assumir-se como o eixo central e nuclear na organização de todo o processo de treino.

Com este artigo, procuraremos abordar o que é, em nosso entender, o Modelo de Jogo, quais os seus constituintes e como se constrói.

1. Qual é a nossa concepção de Modelo de Jogo?

A este respeito, Carlos Carvalhal, conceituado treinador português, refere que Modelo de jogo é um conceito muitas vezes utilizado no futebol, mas a esmagadora maioria das pessoas que o utiliza não sabe verdadeiramente do que está a falar. Há ainda quem confunda Modelo de Jogo, com Sistema Tático ou até mesmo Esquemas táticos, revelando uma grande confusão conceptual.

Quando falamos em Modelo de jogo referimo-nos a um conjunto de princípios (comportamentos) que resultam na organização de uma equipa dentro do contexto do jogo, ou seja, um conjunto de pautas que ajudem os atletas a saberem o que devem fazer em cada um dos quatro momentos do jogo de futebol (organização Ofensiva, Transição Defensiva, Organização Defensiva e Transição Ofensiva). Significa que com este conjunto de princípios, cada atleta estará preparado para saber com exatidão o que deve fazer e como fazer a cada momento, expressando uma Unidade Coletiva de pensamentos.

A expressão máxima do Modelo de Jogo atinge-se quando num dado momento do jogo, todos os atletas “pensem” da mesma forma, agindo em conformidade com aquilo que pensaram.

Atentemos no seguinte exemplo de uma equipa que joga em contra ataque: – após a recuperação de bola pelo jogador da posição 6,  os atletas mais adiantados, procurarão dar linhas de passe em profundidade, permitindo ao jogador 6 realizar um passe em rutura;

Pensemos noutro exemplo de uma equipa que utilize a zona pressionante para defender:

-ao entrar em transição defensiva, o atleta mais próximo do portador da bola deve realizar contenção ao seu portador, e os seus companheiros mais próximos deverão pressionar o espaço circundante, para que o comportamento de pressão seja uma expressão coletiva e não um ato individual.

Estes dois exemplos ilustram bem que quando existe um Modelo de Jogo definido, quando existe uma forma de jogar que é pensada coletivamente, as equipas revelam um potencial que é capaz de as estimular para melhores resultados desportivos.

Tomando como exemplo o funcionamento do corpo humano, podemos entender o Modelo de Jogo como sendo o cérebro e os atletas como os músculos, ou seja, para que os movimentos sejam fluidos e coordenados é necessário que haja uma boa indicação do Sistema Nervoso Central e uma correta entreajuda entre os diferentes grupos musculares, em que para se efetuar um movimento é necessário que alguns se contraiam e outros se alonguem.

Pensemos na seguinte analogia:

  • Para que haja uma flexão do antebraço é necessário que num dado momento o sistema nervoso central dê indicação ao bíceps para se contrair e ao tríceps para se alongar. Se este trabalho for coordenado, o movimento resultará fluido.
  • No caso de uma equipa que jogue em ataque posicional, para que este movimento surta efeito é necessário que num dado momento, o atleta que tem a posse da bola, tenha um colega a dar cobertura ofensiva (linha de passe segura) e outros colegas em mobilidade. Quando mais coordenados estiveram os atletas, mais fluida sairá esta movimentação.

Deste modo, o Modelo de Jogo deve expressar a forma como as equipas querem atacar e defender, o que pretendem fazer em cada um destes momentos.

Quando atacamos: 

-procuramos chegar à baliza adversária com paciência através de muita posse de bola?

-ou após a recuperação de bola, procuramos chegar rapidamente à baliza adversária, através de um passe em ruptura?

E quando defendemos?

-procuramos recuperar rapidamente a bola, pressionando o portador da bola e os espaços circundantes?

-ou após perder a posse da bola, pressionamos o portador, apenas para que a equipa se possa organizar num bloco baixo?

É esta organização coletiva que potencia a qualidade da equipa, bem como, de todos os atletas, de modo individual.

1.1 O Modelo de Jogo e a Criatividade individual

Tudo o que se escreveu anteriormente pode levar o leitor a pensar que o Modelo de Jogo é uma “Lei castradora” da criatividade de cada atleta.

No entanto, acreditamos que o Modelo de jogo, ou seja, o jogar organizado de uma equipa, “abre” mais espaço para o desenvolvimento da criatividade dos atletas. É sabido que o ato criativo comporta uma série de riscos. Por exemplo, uma tentativa de drible por parte de um atleta, pode acarretar uma perda de bola. No entanto, se a equipa jogar de modo organizado, e se existir uma cobertura ofensiva ao atleta que tentou o drible, a possibilidade de se recuperar rapidamente a bola é maior. Logo, quanto melhor for o modelo de jogo (entenda-se, organização da equipa), maior a possibilidade dos atletas criativos poderem expressar a sua individualidade, sem que a mesma prejudique o coletivo.

A criação do Modelo de Jogo deve respeitar a criatividade individual de cada atleta.

2. Constituintes do Modelo de Jogo

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Figura 1 – (Elaborado por Pinheiro e Baptista, 2013)

A figura 1 representa os diferentes constituintes do Modelo de Jogo. Já referimos anteriormente que o mesmo se deverá assumir como um conjunto de princípios que deverão orientar os atletas nos diferentes momentos do jogo de futebol, expressando esta forma uma lógica de pensamento unitário.

Deste modo, o Sistema Tático assume também um papel importante na definição do Modelo de Jogo. É importante não confundir estes dois conceitos que aparecem muitas vezes como sinónimos.

O Sistema Tático é a estrutura organizacional da equipa no campo, construção estática, normalmente identificável no início do jogo. O Sistema Tático faz parte do Modelo de Jogo, no entanto não deve ser castrador do mesmo.

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Figura 2 – Sistema Tático 1:4:3:3

Outro dos aspectos que faz parte integrante do Modelo de Jogo é a definição dos esquemas tácticos. Estes, são situações de bola parada, como por exemplo, os livres, os pontapés de canto, os lançamentos de linha lateral ou as grandes penalidades. Cada vez mais este tipo de situação assume particular relevância ao nível do Alto Rendimento, não devendo, por isso, ser descurado.

Quando falamos em Esquemas Táticos, não nos referimos apenas aos ofensivos, ou seja, à maneira como vamos marcar os pontapés de canto ou os livres a nosso favor. É também importante o treino dos Esquemas Táticos defensivos, ou seja, como abordar uma situação de pontapé de canto contra a nossa equipa.

3. Como construir um Modelo de Jogo?

A construção de um Modelo de Jogo é uma tarefa complexa que exige conhecimentos teóricos e práticos. Por isso, na hora de abordar a sua elaboração, os treinadores deverão ter em atenção os seguintes aspectos: a sua Ideia de Jogo, os jogadores disponíveis, a cultura do clube e a opinião da equipa técnica.

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Figura 3 – Construção de um Modelo de Jogo (por Pinheiro e Baptista, 2013)

3.1 A Ideia de Jogo do Treinador

Cada treinador representa uma Ideia de Jogo, um pensamento concreto sobre a forma de organizar a equipa em campo.

Esta Ideia de Jogo do treinador resulta das múltiplas experiências que vai acumulando, ora como ex jogador, ora como treinador.

A experiência como jogador não se assume como condição sine qua nom para se poder “abraçar” a carreira de treinador. Contudo, é bem verdade que as experiências acumuladas enquanto praticante, influenciam o treinador, quer seja de modo positivo ou negativo. É por isso que ao construir uma Ideia de Jogo, o treinador arrastará consigo todos os conhecimentos provenientes da sua prática desportiva, quer seja para incorporá-los, ou até mesmo para rejeitá-los.

A experiência acumulada enquanto treinador assume também grande importância, pois a forma como se encara o jogo no início da carreira, não será certamente a mesma, depois do avolumar de anos de prática. Por isso, toda a experiência prática, torna o treinador mais capacitado para a elaboração de um Modelo de Jogo. No entanto, nem só de experiência vive o treinador, mas também de todo o conhecimento científico publicado em livros e revistas da especialidade. Por isso, o treinador deverá procurar estar constantemente actualizado, fazendo sucessivos up grade.

A participação em colóquios e debates deverá assumir-se como uma prática corrente na vida do treinador.

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Figura 4 – Ideia de Jogo do treinador (por Pinheiro e Baptista, 2013)

3.2 Jogadores Disponíveis

O treinador de futebol é como um chefe de cozinha, devendo procurar construir a melhor receita (equipa), com os ingredientes que lhe são disponibilizados (jogadores).

Em alguns casos o treinador pode escolher alguns dos jogadores que pretende para dar corpo ao seu Modelo de Jogo, no entanto a maioria deles são lhe impostos, por já se encontrarem na estrutura do clube.

Assim, se lhe for dada a possibilidade de contratar jogadores, o treinador poderá escolher aqueles que reúnem as características tácticas, técnicas, físicas e psicológicas que melhor se enquadrem com as suas ideias de jogo.

Caso contrário, cabe ao treinador analisar as qualidades e defeitos de todos os seus atletas e relacionando esse potencial com a sua ideia de jogo, criar um Modelo.

No fundo, compatibilizar as suas ideias com os atletas que tem à sua disposição. Não compreendemos que se possa construir um Modelo de Jogo à priori sem levar em linha de conta o “material humano” que se tem. As ideias do treinador devem “casar-se” com os atletas que tem à sua disposição, sob pena de o Modelo de Jogo se assumir como uma “arquitectura teórica” incapaz de ser reproduzida em campo.

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Figura 5 – Plantel Possível

Logo, o treinador deverá partir do campo das possibilidades na hora de elaborar o seu Modelo de Jogo, partindo dos atletas que de facto tem à sua disposição.

3.3 Cultura do Clube

Concordemos ou não, a grande verdade é que ao integrarmos a estrutura de um clube de futebol, transportamos a nossa ideia e filosofia de jogo, mas, no entanto, o clube tem um historial que importa ter em consideração.

Em alguns clubes, existe mesmo um historial de sucesso associado a uma determinada forma de jogar, que desta forma assumiu uma relevância inimaginável na massa associativa. Por isso, é certamente uma tarefa hercúlea entrar dentro de uma estrutura e procurar impor um estilo de jogar diferente daquele que em anos anteriores conduziu ao sucesso. No entanto, não nos pareceu um erro metodológico procurar impor uma forma de jogar completamente diferente da preconizada anteriormente, desde que tenhamos em consideração tudo o que poderá comportar essa decisão.

Se procurarmos implementar uma Filosofia de Jogo diferente e se não tivermos sucesso no imediato, o risco de sofrer a pressão da massa associativa é muito maior. No entanto, acreditamos que o treinador deverá ter a capacidade de correr riscos, até porque a vida é um contrato de riscos.

Normalmente, os treinadores de sucesso são aqueles que têm a capacidade de assumir riscos, impondo um processo de liderança com um impacto tão forte que levam os liderados a aceitarem facilmente o que lhes é proposto.

Apesar disso, continuamos a acreditar que ao chegar a um clube, o treinador deverá ser capaz de entender o historial do clube, as potencialidades da sua massa adepta e analisar os pressupostos que levaram o clube a ter sucesso em determinadas épocas desportivas.

4. Quem deve participar na elaboração do Modelo de Jogo

Partindo do princípio que as equipas técnicas são constituídas de forma pluridisciplinar, onde intervêm técnicos com diferentes valências e competências, acreditamos que o Modelo de Jogo deverá ter a participação de todos.

É bem verdade que o processo de construção do Modelo de Jogo deverá sustentar-se na figura do Treinador Principal, pois é este o rosto da equipa técnica.

Todavia, parece-nos despropositado que na hora de decidir a forma de jogar, não sejam ouvidos todos os elementos da equipa técnica.

Repare-se na situação do treinador de guarda-redes: se uma equipa desejar jogar em contra ataque, a função do Guarda Redes é de suma importância, quando é este que faz a transição ofensiva. Por isso, acreditamos que faz todo o sentido o treinador de guarda-redes ter uma voz activa na definição da Ideia de Jogo. Contudo, voltamos a referir que deverá ser o treinador principal a tomar a decisão final, sem no entanto deixar de dar voz aos seus adjuntos.

5. Conclusões:

Não gostaríamos de terminar este artigo sem tecer alguns comentários em jeito de conclusões:

-O Modelo de jogo deverá potenciar os aspectos positivos de cada um dos elementos que compõem a equipa. Assim, se temos um lateral direito que é rápido a subir com a bola, deveremos potenciar esse tipo de situações. Se temos um atleta fantástico na cobrança de livres à entrada da área, devemos exponenciar o aparecimento de situações dessas.

– Todavia, o nosso modelo de jogo também deverá ser capaz de “esconder” as debilidades de alguns dos elementos da equipa. Deste modo, se temos um guarda redes com dificuldades em jogar fora da baliza, não devemos permitir cruzamentos para a nossa área. Se temos um defesa central com dificuldades na progressão com bola, deveremos evitar iniciar o ataque na sua zona.

O modelo de jogo não deverá ser uma construção teórica imposta à partida, mas antes, um conjunto de comportamentos que são aprendidos e apreendidos de forma ativa e consciente por parte dos atletas.

6. Bibliografia Consultada

Garganta, J.; Cunha e Silva, P. (2000). O jogo de futebol: entre o caos e a regra.

Revista Horizonte: Revista de Educação Física e Desporto,16, (91),5-8.

Greco, P.J. (2007). Tomada de decisão nos jogos esportivos coletivos: o conhecimento táticotécnico como eixo de um modelo pendular. Revista Portuguesa Ciências do Desporto, 7,16-16.

Greco, P.J. & Souza, C.R.P. (1999). Iniciação esportiva universal e o treinamento da percepção. Em: Silami, G.E.; Lemos, M.L.K. e Greco

Gréhaine, J.F.; Godbout, P. e Bouthier, D. (2001). The Teaching and Learning of Decision Making in Team Sports. Quest, 53 (1), 59-76.

Tavares, F.( 2002). Análise da estrutura e dinâmica nos jogos desportivos. In: Barbanti, V. J.; Bento, J. O.; Amândio, A. C. (Org.) Esporte e atividade física:

interacção entre o rendimento e saúde. São Paulo: Manole.

Fonte: Futebol de Formação por Valter Pinheiro

Da Iniciação à Alta Competição: Formação integral do futebolista

Começo o meu contributo para o Futebol de Formação (FDF) por fazer uma análise geral sobre aquilo que deverá ser o foco de intervenção e conteúdos concretos de quem trabalha em futebol de formação.
O primeiro ponto essencial é percebermos qual o principal objetivo do futebol de formação. Tal como indica o nome e tendo em conta que estamos a falar de futebol e de formação, teremos que afirmar que o principal objetivo é a formação de futebolistas na sua plenitude no que se refere às suas competências técnicas, táticas, físicas, psicológicas e sociais para o futebol sénior em determinado contexto. É dentro do âmbito do desenvolvimento do futebolista que irei desenvolver esta minha primeira crónica.

A formação de um futebolista deverá ser integral. Parto do princípio que por trás de um grande atleta, está um grande homem. Aliado a isto teremos de considerar que nem todos os atletas de formação se tornarão atletas no futebol sénior, aspeto ao qual é impossível fugir. Desta forma considero que a formação integral de um futebolista está na virtude do desenvolvimento da formação em três grandes vetores:
1- Formação Intelectual/Escolar
2- Formação Social, Moral e do Caráter
3- Formação Física e Desportiva.

Figura1
Figura 1 Os três vetores da Formação Integral do Futebolista

1- Formação intelectual/Escolar.
Relativamente a este vetor é fundamental a ligação a estabelecer entre escola e clube. Uma academia de futebol deverá ter a preocupação em que os seus atletas tenham a capacidade de conciliar futebol com escola. Sem abdicar de nenhum deles, deverão existir intervenientes num clube de futebol que ajudem os atletas a organizarem o seu tempo junto dos pais e junto das pessoas que tutelam o seu desempenho nas escolas. Neste âmbito a comunicação é fundamental e deverá ser da responsabilidade de um gabinete psicopedagógico que nos dias de hoje poderá ser um aspeto fundamental de desenvolvimento de uma academia. A grande importância da Formação Intelectual/Escolar para o futuro dos atletas tem a ver com:
– Dar aos atletas ferramentas para poderem seguir uma vida fora da carreira do futebol, uma vez que apenas uma pequena percentagem chega ao futebol profissional e uma percentagem ainda mais pequena chega ao mais alto nível
– Dar aos atletas ferramentas a serem utilizadas no dia em que a carreira de futebolista terminar.

Figura2
Figura 2 Relação Atletas Formação e Atletas Profissionais

2- Formação Social, Moral e do Caráter.
Passando agora para a Formação Social, Moral e do Caráter é importante se definir qual a linha a seguir. Percebermos quais os valores que o futebol representa. Penso ainda que a este nível a reflexão deveria passar pelas entidades que tutelam o futebol no país e definir normas e maneiras de estar no futebol. Ser criada uma cultura do futebol português e formas de punir com quem não seguisse com as normas, definirem um regulamento interno e serem rigorosos no seu cumprimento.
Aceitarmos que uma criança só será um bom adulto se for uma criança feliz. Percebermos que há valores que não poderemos deixar de lado na formação de um atleta, nomeadamente o companheirismo, desportivismo, fair-play, amizade, competitividade, ambição. É fundamental que os agentes que trabalham no futebol de formação percebam que há valores e regras a cumprir que são mais importantes do que vencer o jogo, uma vez que podem ser transmitidos para a vida do futebolista. Para que isto seja possível há dois pontos muito importantes a investir:

– Ética dos Treinadores. Os clubes também aqui devem seguir normas de comportamento e de “saber estar”. É necessário deixar de valorizar os resultados desportivos na formação, usando-os como meios de formação dos atletas e das equipas e não como fins. Isto é, o treinador deverá usar o resultado desportivo como meio de motivação e incentivo para os jogadores que deverão ver o jogo como momento de avaliação da sua evolução. As regras e as lições de moral que poderemos dar aos jogadores podem vir a ser mais importantes para a sua formação do que a vitória num jogo.

– Ética dos Pais. Cada vez mais se justifica que os clubes tenham pessoas especialistas a lidar com esta temática. Eventualmente a criação de um gabinete de apoio seja fundamental para tratar dos casos mais complicados e para transmitir aquilo que é a forma de estar de um pai que quer o melhor para o seu filho. Que tipos de preocupações deverá ter um pai? Que tipo de incentivos deverá dar um pai a um filho? Tudo isto são questões que influenciam a Formação Social, Moral e de Caráter dos atletas.

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Figura 3 Comportamentos dos Pais e Treinadores (referências) influenciam comportamento dos Atletas

3- Formação Física e Desportiva
Por fim, o ponto da Formação Física e Desportiva.
O aspeto fundamental nesta área é definir o conjunto de conteúdos e competências que deveremos ensinar aos nossos atletas. Este conjunto de competências, por um lado deverá ser bem definido e restrito para os atletas aprenderem o modelo de jogo que se pretende para o clube. Por outro lado, este modelo deverá ser alargado o suficiente para criarmos jogadores com capacidade de adaptação a diversos contextos, com armas para poderem jogar de várias formas diferentes e com um desenvolvimento atlético geral que lhe permita suportar as exigências físicas e mentais da competição e do futebol federado.

Figura4

Figura 4 Componentes da Formação Física e Desportiva do Jogador de Futebol

De acordo com o esquema apresentado, na minha opinião este vetor da formação do jogador de futebol tem uma grande componente central: Princípios do Modelo de Jogo. O jogo é o centro de tudo, não é mais importante que as qualidades técnicas, físicas, psicológicas, porém estas qualidades fazem sentido apenas dentro daquilo que é o modelo de jogo, o futebol coletivo.
Numa lógica de formação, e tendo em conta o futebol sénior que é caraterizado por um clima de incerteza acentuada (constantes mudanças de treinador, várias formas de jogar, jogadores trocam de clubes constantemente), penso que este modelo de jogo deverá ser aberto e apresentar múltiplas soluções aos atletas. Ou seja, não deverá ser aprendido apenas um sistema e a forma de jogar deverá ter alguma variabilidade, deverá ser dada enfase a vários micro-princípios que estejam ligados e que sejam a forma de chegar aos mesmos macro-princípios de formas diferentes. Talvez possa dizer que o Modelo de Jogo no futebol de formação deverá ser mais estável (e não estático…) a nível de macro-princípios, mas variável ao longo do tempo no que toca a meso-princípios e micro-princípios, de forma a que os atletas ganhem mais armas para chegar ao mesmo fim.
As ações técnicas individuais deverão ter uma grande incidência na aprendizagem nos escalões mais baixos e deverá ter uma componente geral numa fase inicial e, mais à frente, começam a fazer sentido apenas em ligação com os princípios do modelo de jogo.
Passando para os princípios gerais (ex. º: procuram superioridades numérica, evitar inferioridade numérica…) e específicos (ex. º: contenção, coberturas…) estes servem como a base para dar sentido ao jogo de futebol e assumem especial relevância na formação do jogador. Sem eles dificilmente o atleta compreenderá o jogo e conseguirá adquirir os princípios específicos do modelo de jogo com os quais estão constantemente em estreita ligação.
As capacidades psicológicas são o suporte emocional que um indivíduo necessita desenvolver para poder chegar cada vez mais longe e suportar as exigências da alta competição. Os atletas têm um perfil psicológico variado, contudo existem capacidades que devem ser comuns como a capacidade de trabalho, a ambição e a competitividade.
As ações técnico-tácticas coletivas (desmarcações, dobras, desdobramentos, permutas) são também desenvolvidas dentro daquilo que é o modelo de jogo, havendo uma estreita relação entre si. Contudo fazem parte do desenvolvimento geral do jogador de futebol.
Por fim o desenvolvimento das capacidades físicas como a resistência, força, velocidade, coordenação e flexibilidade que têm sempre associada uma expressão fisiológica devem ser desenvolvidas de uma forma transversal ao longo do percurso de formação do jovem. As idades sensíveis para desenvolvimento de cada capacidade devem ser respeitadas sob consequência de se perder a janela temporal de podermos dar alguns recursos aos atletas.
Existe também uma componente de desenvolvimento motor harmonioso com o objetivo de prevenção de lesões associado a estas capacidades físicas, para além do objetivo de melhoria do rendimento desportivo (tornar os atletas mais resistentes, mais velozes, mais fortes) de forma a poderem cumprir ou acrescentar algo àquilo que é o modelo de jogo da equipa. Digamos que servem para dar mais armas aos atletas para poderem colocar ao serviço da equipa.

Figura5

Figura 5 Continuidade e avaliação ao longo do processo
Aproveito para concluir com dois aspetos fundamentais representados pela imagem anterior.

A questão da continuidade. A formação é um processo de vários anos onde a palavra
continuidade deverá estar sempre presente. Contudo acrescento outra ideia: O processo de formação não deve ser igual em todos os escalões. Deve antes ser complementar e deve-se completar de forma complexa, em que os conteúdos de um escalão servem de base para os conteúdos dos escalões seguintes.
O segundo aspeto refere-se com a forma de avaliação e monitorização de todo este processo que poderá ser tema de artigos futuros deste site. Hoje em dia muitos clubes trabalham, mas não avaliam ou avaliam pouco. Sem avaliar estamos sempre sujeitos à falha humana e a erros metodológicos no treino. É necessário avaliar, refletir, colocar os atletas a refletirem de forma a potenciarem os seus pontos fortes e minimizar os seus pontos fracos.

Fonte: Futebol de Formação por Filipe Antunes

Chega de saudosismo! Romantizar o passado impede o futebol brasileiro de olhar pra frente

A queda da seleção sub-20 no Sulamericano deu voz ao saudosismo e prega uma volta ao passado. Mas que passado é esse?

A desclassificação da seleção sub-20 ao Mundial deu voz a uma ideia comum no Brasil em derrotas no futebol: o clamor pelo passado. Frases como “não há mais talentos como antigamente”, “ninguém mais sabe driblar” e “o futebol moderno destruiu os craques” tecem uma rede de clichês de raciocínio simples: o futebol brasileiro é gigante por natureza e era melhor no passado.

Craques desfilavam em campo, estádios estavam sempre lotados e o jogo era belo e artístico. Se tudo era melhor antigamente, basta podar aquilo que se apresenta como moderno para retomar a vitória: menos ciência, mais empirismo. Menos estudiosos, mais boleiros. Menos tática, mais alegria. Conservar ao invés de progredir. Voltar às origens.

Um rápido resgate mostra que essa visão mal-humorada, crítica e agressiva com o futebol é uma constante há pelo menos 70 anos. A seleção já não agradava a ninguém em 1970, ano do tri-campeonato mundial no México. O teor das críticas antes da Copa eram as mesmas de hoje: não há time titular, o treinador escala errado, convoca errado…

E o futebol moderno, que robotiza os jogadores e deixa o jogo chato? Já aprontava das suas em 1973, quando essa reportagem denunciava: a retranca vai acabar com o jogo! O discurso é o mesmo: a tática aprisiona o talento, deixa o jogo quadrado, tira a arte e a beleza. Não fazia nem 3 anos que o Brasil chegara em seu auge e já se reclamava…

E aqui, três anos antes da primeira conquista mundial de 1958, que a Folha de São Paulo relata que o futebol europeu estava progredindo mais que o sulamericano?

Se o Brasil é realmente o país do futebol e o passado era muito melhor que o presente, porque os relatos desse mesmo passado soam exatamente como hoje?

Porque a ideia de que o futebol brasileiro é o melhor do mundo, na prática, nunca existiu. O futebol romântico e talentoso como imaginamos é uma construção. O país passava por mudanças na década de 1930. Oligarquias perderam o poder no governo Vargas. A escravidão havia terminado há 40 anos. O país era pobre, desestruturado e desigual. Era preciso criar um sendo de unidade. Algo positivo, que justificasse a desestrutura da sociedade e amenizasse tensões raciais num momento onde imigrantes da Europa e negros, filhos de ex-escravos, estavam à margem da sociedade. 

O futebol cai como uma luva nesse propósito na Copa de 1938. Foi o sociológo Gilberto Freyre, no artigo “Football Mulato”, que descreve o “jeito brasileiro de jogar” como alegre e artístico. O “mulato malandro”, vindo das ruas, seria capaz de superar a estrutura do europeu. Ele era alegre, ousado, criativo. Ele “driblava as adversidades” , termo que importamos para o cotidiano. Nasce daí a ideia que o talento e o individual superam tudo num país desestruturado e profundamente desigual. 

A romantização da esculhambação

A pior mazela do futebol brasileiro é a romantização da esculhambação. Se o talento e a malandragem resolvem problemas complexos, não há a necessidade de processos e estruturas no futebol. Treinar pra quê, se o craque faz tudo? Tempo para montar a equipe pra quê, se basta ter qualidade técnica. Estrutura na base? Moleque tem é que sofrer, jogar como se estivesse na rua, “sentir o jogo”. Não! Meninos de base precisam de salário em dia, estrutura, estudo. Precisam de processo, com início, meio e fim. Precisam sentir o jogo dentro de campo, não sentir fome fora dele.

Ao criar uma suposta superioridade frente ao europeu por questões genéticas e raciais, a ideia de Freyre também estabeleceu uma régua impossível de ser atingida: a de que o futebol brasileiro sempre é favorito. Tudo que não for vitória é zebra. Toda Libertadores ou Estadual é a mesma coisa. Nasce daí o clientelismo do torcedor, que vai ao estádio não para apoiar o time, mas em troca unicamente da vitória. As direções reprisam o comportamento: demitem sem critério e contratam sem convicção esperando o encaixe ou a boa fase. O brasileiro nunca acreditou em processo porque sempre achou que as coisas acontecem por vontade divina (caem do céu) ou são feitos individuais (a ideia do sebastianismo).

Até as próprias iniciativas de inovação que o Brasil teve – e foram muitas! – ficaram em segundo plano por essa cultura. A principal aconteceu em 1968, quando João Saldanha reuniu técnicos e preparadores para pensar o futebol brasileiro e preparar terreno para mais conquistas após o vexame na Copa de 1966. O diagnóstico era o mesmo de hoje: faltava estrutura nos clubes, profissionalismo e formação de base. Falcão foi chamado para a seleção em 1990 com o mesmo intuito. Mano Menezes também, em 2010. Todos demitidos.

O futebol brasileiro não precisa de menos ciência. Não precisa de menos tática. O Barcelona não meteu 4 a 0 no Santos e a Alemanha não fez 7 a 1 porque driblaram mais. Mas sim porque confiaram em processos, na ciência e num mínimo de razão. Precisamos de mais estrutura, mais investimento na base, mais pedagogia de rua. Mais pessoas com coragem de mudar ideias antigas. Porque achar que tudo era melhor antigamente impede de nos ver o que importa: o futuro.

Fonte: Painel Tático – Globo Esporte por Leonardo Miranda