Treinar para jogar. A pré época e o processo. 


Por Paolo Maldini

O Bruno Fidalgo, que escreve também no seu magnífico Código Futebolístico, partilhou muito recentemente um pequeno excerto de um video de um treino de pré época do SL Benfica. Do segundo dia de trabalho (época transacta).

Video que corrobora as recentes afirmações de Rui Vitória, sobre a importância de desde o dia um se treinar para se chegar a um modelo pretendido.

O dia dois da temporada encarnada, a demonstrar o que vem sendo defendido por cá desde sempre, e que hoje tão bem os portugueses constroem. Um processo de treino direccionado para o jogo. Para que no jogo surjam as ideias e princípios que sejam comuns a todos.

Jogar para treinar, treinar para jogar. Um 7×7, que proporciona muita intervenção e muitas decisões da última linha. Só com a repetição constante (tão bem promovida pelo jogo em questão) se chega ao comportamento ideal (previamente definido e demonstrado). Só de tal forma se atinge o nível elevado que a competição requer. E não será por acaso que se consegue perceber muito claramente o processo de jogo da equipa de Rui Vitória, a forma como os jogadores se comportam de acordo com ideias e princípios comuns. Tudo nasce no treino, e desde o seu primeiro momento.

Desde o dia dois, o importante a trabalhar, são as ligações e coordenação colectiva. Não há aumentar a condição física só por si para só então se pensar no que virá. Não há trabalho técnico desenquadrado. Treina-se tudo, mas tudo em função de um bem maior. O jogar da equipa.

É na semana que tudo nasce, e o sucesso / competência de um treinador, que se mede pela capacidade que tem para aproximar as suas equipas da vitória, é algo que encontra a sua percentagem maior na criação do exercício e na integração das individualidades no modelo. O fim de semana é sempre mais aleatório, e ao treinador cabe durante a semana dar armas para que se possa ser bem sucedido, sem nunca haver garantias de que não possam surgir contrariedades e imponderáveis.

Longe vão os tempos em que os jogadores entravam em campo para jogar cada um por si. Hoje, as vitórias não dependem somente da inspiração, mas também da qualidade do trabalho.

Em equipas da natureza das que disputam várias competições, que passam por vários períodos com três jogos semanais, maior a urgência para chegar ao que se idealiza do ponto de vista táctico. Maior a importância de maximizar cada sessão de treino no sentido de operacionalizar os comportamentos que se pretendam ver reproduzidos em competição.

Fonte: Lateral Esquerdo

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Você é capaz de corrigir sem ofender e orientar sem humilhar?


O que é uma pessoa honrada? Aquela que, entre outras coisas, tem a percepção da piedade, aquilo que precisa ser resguardado na convivência. Uma pessoa autêntica tem a autenticidade grudada à piedade. Eu não posso, em nome da minha autenticidade, dizer tudo o que penso. Eu não posso, em nome da minha autenticidade, desqualificar apenas porque quero ser transparente. Ser autêntico não significa ser transparente de maneiro contínua.

Ser transparente para si mesmo? Sem dúvida, mas dizer tudo o que pensa numa convivência é ofensivo. O exemplo do menino de 5,6 anos de idade que traz o presente clássico do Dia dos Pais feito pelas próprias mãos. Chega da escola com aquelas coisas “horrorosas”, feitas com casca de ovo, palito de sorvete, que chegam a cheirar mal. “Pai, tá bonito?” É óbvio que o pai dirá que está maravilhoso naquela circunstância. A ideia do elogio ou do não elogio tem de ser circunstancializada.

Uma pessoa autêntica não aquela que é o tempo todo transparente. Se ela não tiver percepção de circunstância, ela se torna inconveniente. “Mas é assim que eu penso”. O fato de pensar assim não exime a pessoa de ser moderada. Isso não a leva a perder a autenticidade, apenas a resguardar a expressão de modo como é. Porque, como eu sou com os outros, tenho de ser de fato o que sou, mas não posso desconsiderar que outros existem. É preciso cautela, em nome da autenticidade, para não ser ofensivo. Nem descambar para o terreno da crueldade. Por exemplo, a criança chega com o presente e o pai diz: “Não está, não. Você devia ter feito uma coisa bonita”. Ora, na condição daquela criança, ela fez algo belíssimo. E é belo porque ela fez no melhor da sua condição.

Não é a mesma circunstância de um pai ou de uma mãe que percebem que a criança fez algo com desleixo. Nesse caso, não deve elogiar por elogiar, porque isso deseduca. Se um filho ou uma filha traz um desenho que pode ser precário, mas que, naquela circunstância, naquela idade, naquele modo, é o melhor que a criança poderia fazer, é preciso elogiar em alto estilo. É sinal de afeto imenso. Mas, se o desenho apresentado é resultado de um desleixo, não se deve elogiar. Eu posso dizer a clássica fase de que educa: “Você é capaz de fazer melhor do que isso que está me mostrando”. Isso é educação. O que é crueldade? Dizer: “Isso é péssimo”. Quem educa precisa corrigir sem ofender, orientar sem humilhar. Precisa conviver com essa virtude, que é a piedade.

** Trecho do Livro: Educação, Convivência e Ética: Audácia e Esperança – De Mário Sérgio Cortella. Páginas 67/69. Cortez Editora, São Paulo- SP.


Fonte: Revista Pazes

ESTRATÉGIA = TÁTICA?


Por Vitor Escudeiro

Ouvimos muitas vezes os Treinadores de Futebol a falarem de Estratégia e Tática, sendo que quem ouve e por vezes o próprio que transmite acaba por misturar os dois conceitos. Afinal a Estratégia é sinónimo de Tática?

Sun Tsu foi das primeiras pessoas a usar as palavras Estratégia e Tática no seu livro “A Arte da Guerra”, onde podemos encontrar afirmações como “Todos os homens podem ver as táticas pelas quais eu conquisto, mas o que ninguém consegue ver é a estratégia a partir da qual grandes vitórias são obtidas”, ou “A estratégia sem tática é o caminho mais lento para a vitória. Tática sem estratégia é o ruído antes da derrota.”, ou seja ambos conceitos estavam infimamente ligados à guerra.

Com a evolução dos tempos e da sociedade estas duas palavras foram sendo associadas a outras áreas: politica, económica, psicológica, empresarial e, claro está, desportiva, nomeadamente no futebol.

Centrando especificamente na aplicação destes dois conceitos no futebol, o Professor Jorge Castelo (2004) refere que a Organização Dinâmica do Jogo de Futebol assenta em 6 subsistemas: Cultural, Estrutural, Metodológico, Relacional, Tático – técnico e Estratégico – táctico. Este último refere-se à planificação que visa o desenvolvimento da equipa, desenvolvimento esse dividido em três áreas: conceptual, estratégica e tática.

Castelo defende que estas planificações, nomeadamente a estratégica e tática, têm como meta a vitória, onde a definição de objetivos, a estratégia e a tática são parte integrante do processo, sendo que a estratégia está associada à preparação da equipa (tendo em conta a equipa adversária) e a tática está associada ao jogo em si.


Podemos então concluir que a Estratégia e a Tática têm conceitos diferentes. 

A Estratégia é a planificação teórica do que devemos fazer para atingirmos um objetivo, no fundo tenta responder à questão:O Quê que eu faço para atingir determinado objetivo?” 

A Tática é a operacionalização do plano teórico da Estratégia, ou seja tenta responder à questão:Como faço para atingir o objetivo?” 

Para melhor percebermos estes conceitos termino este artigo com o exemplo que Mourinho apresentou numa aula que leccionou na Faculdade de Motricidade Humana, no qual explicou como venceu a Liga Europa.

Meta – Vencer a Final da Liga Europa;

1 dos Objetivos (para alcançar a Meta) – Criar instabilidade sobretudo mental

1 Estratégia (para o Objetivo) – não deixar o adversário sair a jogar de forma apoiada através dos médios

1 Tática (para a Estratégia) – Fechar o Central direito (de modo a que saíssem a jogar pelo Central esquerdo, mais fraco), colocar dois jogadores na posição 6 e um na posição 10 (de modo a encaixar no triângulo da linha média adversária 1+2) e assim obrigá-lo a jogar direto no avançado, onde ia acabar por dominar devido à estatura mais elevada dos seus jogadores.

Fonte: Vitor Escudeiro (Facebook)

CLAVES DEL ENTRENAMIENTO DE FUTBOL BASE EN NIÑOS


Por Alex Sanchez

El entrenamiento en el fútbol base contamos en su mayoría con jugadores menores de edad, niños que se están formando y aprendiendo cada día, por tanto el entrenamiento tenemos que tener claro una serie de puntos:
a. Ha de tener características propias que respondan a las necesidades reales del niño y del joven.b. Tiene que presentar un aspecto más educativo que competitivo y estar centrado en el niño y en el joven.

c. El árbitro tiene que ser un personaje más educativo que sancionador.

d. El reglamento y material tienen que estar adaptados a las características y actividad de los deportistas.

e. El rendimiento y aprendizajes técnicos estarán supeditados a aspectos más recreativos y de participación.

f. No tiene que ser selectivo y debe dar oportunidades de participación a todos.

g. La competición debe convertirse en un medio educativo, donde los más importante es el niño.

h. No debe presentarse una especialización a edades tempranas ni tampoco presentar sesiones de entrenamiento intensivo.

i. La importancia que puede tener este deporte como transferencia al deporte de las personas adultas.

j. Necesidad de especializar a los técnicos deportivos.(Saura, 1999)

Los menores que realizan una actividad deportiva pueden tener esta serie de ventajas:

– Mantenerse en forma y estar físicamente bien.

– Sentirse a gusto con compañeros realizando una tarea para un objetivo comun.

– Mejorar su nivel y seguir aprendiendo.

– Mejorar sus habilidades motrices, perceptivas.

– Entretenerse y disfrutar del deporte.

– Celebración por ganar o participar pensando en un fin.

– Medir sus posibilidades con los demás.

(Rodríguez, 2000)

Para la correcta actividad de los participantes en el entrenamiento es importante marcar y destacar estas funciones del entrenador o técnico deportivo:

– Dirigir las sesiones del entrenamiento.

– Enseñar conocimientos, conceptos e ideas.

– Crear un enfoque o clima positivo.

– Tomar decisiones y establecer normas.

– Liderar a los deportistas.

– Resolver los temas administrativos o burocráticos de la competición.

– Establecer las relaciones públicas y sociales adecuadas en su entorno.

– Aconsejar a los deportistas.

– Compartir algunas de las decisiones con los deportistas.

– Apoyar a los deportistas dentro y fuera del equipo.

– Analizar las actuaciones o comportamientos propios y relacionados con el equipo.

– Evaluar y tomar decisiones sobre los comportamientos de los deportistas.

– Relacionarse con el equipo directivo o responsables del equipo.

– Tener un actitud de continua actualización.

(Sabock, 1985; Hardy, 1986; Martens, 1987; Balaguer, 1994)

Para el desarrollo de los entrenamientos la figura del entrenador cobra mas importancia en los jugadores y miembros del staff aquí algunas definiciones:

El entrenador ideal, en periodos de entrenamiento, es el que es capaz de combinar un conocimiento equilibrado, la motivación y la empatía con sus atletas. Ibáñez (2007)

La competencia de un entrenador se basa en la calidad transportada a las situaciones y relaciones emergentes de entrenamiento y competición, que moldean el comportamiento y, sobre todo, que evalúa la amplitud sus adaptaciones, por lo que el oficio de entrenador es un arte de imprevisibilidad sistemática.

El entrenador tiene un porcentaje importante en la influencia y rendimiento de un jugador de fútbol, bien es cierto que durante su carrera el jugador tendrá diferentes entrenadores y equipos que no compartirán la misma filosofía de vida y de trabajo.

Por tanto hay que ser conscientes como Dt de estos cambios para prevenir al jugador con asesoramiento y preparandolos a las típicas situaciones que se dan o pueden surgir en el deporte para estar lo mejor preparado posible y hacerles frente.

Fonte: Coaching Fútbol

Velocidade: um conceito complexo e multidimensional


Por Márcio Faria Corrêa

A força é a capacidade básica para a catalogação das demais capacidades condicionais. Os movimentos cotidianos do ser humano e a efetividade para o desempenho desportivo são baseados em suas diferentes manifestações.

O tipo de manifestação se alterna ou diferencia de acordo com as exigências de cada esporte. A tendência para competir ou treinar pode ter como referência a manifestação máxima de força, rápida ou resistida. Há ainda modalidades que dependem dessas contrações alternando-se durante os exercícios de treino e competição.

A principal ideia a discutirmos nesse texto será a busca do desempenho desportivo a partir do conjunto de fibras musculares específicas que reagem aos estímulos eferentes de forma veloz ou explosiva (velocidade de movimentos de um jogador de futebol). Contração essa que determina a qualificação da velocidade de deslocamentos e da maioria dos aspectos técnico-táticos inerentes ao jogo.

Segundo GODIK e POPOV (1999) A velocidade no futebol se expressa de diversas formas. SCHMID e ALEJO (2002) citam que a velocidade é algo mais complexo do que correr o mais rápido possível. A velocidade no futebol inclui rapidez, tiros curtos, movimentos rápidos em todas as direções, a habilidade de reagir e parar rapidamente e o tempo de reação. A velocidade para jogar futebol deve ser uma combinação de rapidez, força e excelente resistência. HARRE e HAUPTMANN, citado por ACERO (2000), definem a velocidade como uma capacidade psicofísica que se manifesta por completo em ações motrizes, onde o rendimento máximo não seja limitado pelo cansaço. GROSSER, citado por ACERO (2000), define a velocidade como a capacidade de conseguir, por meio de processos cognitivos, a máxima força volitiva e funcionalidade do sistema neuromuscular, uma máxima velocidade de reação e de movimento em determinadas condições estabelecidas. Concluímos dessa forma que no futebol raramente a força (rápida e resistente) se manifesta de forma simples, ou seja, cada movimento dessa modalidade desportiva requer ações absolutamente complexas com bases técnicas e ações especificas.

No caso do futebol, a caracterização da força rápida (deslocamentos em velocidade) foge ao conceito clássico que provavelmente todos nós professores de educação física aprendemos quando iniciamos o curso. Normalmente na faculdade a grande maioria dos exemplos citados é oriunda do atletismo, onde os autores de forma simplificada citam a seguinte ideia para o trecho de 100 metros na prova de velocidade: “Nesta prova a velocidade é exigida ao extremo e atletas adaptados em bom nível são capazes de acelerar entre 0 a 60 metros, manter o ritmo da velocidade entre 60 e 80 e começar a desacelerar a partir dos 80-100 metros”.

Se você leitor, for somente fã de futebol e está acostumado a observar partidas mesmo sem nunca ter pensado em qualquer tipo de análise científica, tenho certeza que jamais deve ter visto qualquer jogador executar um “tiro” de 100, 200, 300 metros ou mais, de forma contínua e com o objetivo de buscar a velocidade linear em seu máximo desenvolvimento.
Através da interatividade que o mundo moderno nos proporciona, facilmente poderemos obter dados e resultados positivos bastante evidenciados por treinadores e cientistas do esporte. Esses profissionais por sua vez, em sua maioria, fundamentam que o treino de futebol deverá conter caraterísticas específicas de velocidade individual, assim como, a velocidade das ações de jogo a qual é dependente do sistema tático e estratégico elaborado de acordo com os objetivos de funcionamento do conjunto da equipe.

Formatar padrões metodológicos que produzam eficiência passa a ser muito claro quando analisarmos didaticamente a combinação entre as ações técnicas, a movimentação tática, a estratégia de jogo e as distâncias percorridas durante uma partida. Mesmo assim, por incrível que possa parecer ainda encontramos alguns profissionais que militam na preparação de futebolistas e que dispensem essas tendências e insistem em embasar seu “conhecimento” unicamente na própria experiência e sustentam para o treino de futebol idéias de outras modalidades, que na maioria das vezes apresentam pouquíssima relação com a base lógica da proposta que buscamos descrever até aqui.

O “NOVO” ÀS VEZES CONFUNDE E ASSUNTA

Uma das reflexões recompensadoras que tive nos últimos anos, foi essa frase que tive a oportunidade de citar em vários eventos que participei. Simples e lógica: “- Para se jogar o futebol eficiente, precisamos essencialmente qualificar a forma de treinar. Subir montanhas, rampas, escadas, saltar e acelerar na areia ou em outro local que não seja um gramado plano passa a ser um abuso à lógica do jogo e do treinamento de futebolistas. Nenhuma dessas ações ou locais citados traz qualquer essência de especificidade ou fazem parte de uma partida de futebol”.

Felizmente os novos conceitos do treinamento de velocidade (manifestação rápida da força nas ações técnicas ou deslocamentos específicos de jogo) estão gerando um consenso produtivo entre o meio acadêmico e o prático. Destaco abaixo alguns pontos importantes sob os quais devemos refletir antes de começarmos a montagem dos processos metodológicos de treino dessa capacidade.

Velocidade de percepção: Perceber as situações correntes do jogo e modificá-las o mais rápido possível, isso poderá ocorrer com bola ou sem que se toque nela.

Velocidade de antecipação: Capacidade de adiantar-se ao movimento do adversário ou do desenvolvimento do jogo.

Velocidade de decisão: Algumas jogadas não são realizadas não por falta de habilidade, mas sim por falta de decisão. Isso mostra que não é suficiente somente perceber algo, mas sim decidir rapidamente e objetivamente a ação subsequente.

Velocidade de reação: Fintar, reagir às fintas, saídas rápidas em espaços vazios, recuperar bolas mal passadas, bolas que desviam sem intenção, etc.

Velocidade de movimento sem bola (cíclico e acíclico): Deslocamentos repetidos em aceleração em espaços amplos para busca de melhor posicionamento ou movimentos em pequenos espaços compostos por ações isoladas com fintas, etc.

Velocidade de ação com bola: Inclui os componentes coordenativos e técnicos do futebol. Essa manifestação de velocidade tem por base a percepção, antecipação, decisão e reação. A qualidade elevada da técnica do esporte facilita essas ações, pois permite a condução qualificada da bola.

Velocidade de habilidade: É a forma mais complexa da manifestação da velocidade. Não é definida somente pelas ações energéticas e musculares, mas também pela condição de exercer as habilidades, codificar o raciocínio e compreender o jogo em sua totalidade.

AS DISTÂNCIAS PERCORRIDAS: QUALIFICAÇÃO E QUANTIFICAÇÃO
A evolução tecnológica vem simplificando a mensuração de maioria dos itens relacionados ao desempenho. Uma linha de equipamentos inovadores surge a cada ano e quando utilizados corretamente nos ajudam a determinar os objetivos do treino e a entendermos os resultados efetivos de nossas equipes. Uma boa filmagem, alguns aparelhos GPS, acelerômetros, fotocélulas, plataforma de salto, medidores de potência, programas adequados no computador e algumas conversões numéricas ou gráficas de imagens nos permitem mapear com muita clareza detalhes importantes sobre o consumo energético das ações musculares e paralelamente codificar cada espaço percorrido. (forma – velocidade – distância fragmentada e volume total).

ANÁLISE DAS DISTANCIAS PERCORRIDAS

Transcrevo abaixo a média de dados convergente publicados por vários autores sobre as distâncias praticadas por futebolistas de elite em uma partida. Segundo (Mohr, Krustrup e Bangsbo, 2003; Randers, Jensen e Krustrup, 2007 Thatcher; Batterham, 2004; Zubillaga et al., 2007; Barros et al., 2007; Bradley et al., 2009 e Braz, 2009). A variação das distancias está situada entre 9,1 até 11 km, no qual os jogadores de meio campo são responsáveis por uma movimentação que chega a 11 km, os defensores 9,6 km, e os atacantes 10,5km.

Seguindo um protocolo de um teste de velocidade de 30 metros, utilizando células fotoelétricas para detectar a passagem em velocidade, Coelho et al. (2011) analisou a “sprints ”de 10, 20 e 30 m. nas diferentes posições e concluiu que os atacantes nos 10 primeiros metros chegaram a 21,9 km/h, em 20 e 30m chegaram a 31,6 e 26,6 km/h respectivamente; os defensores (zagueiros e laterais) alcançaram 21,3 km/h, 31,8 km/h, 27,9 km/h nos 10, 20 e 30 m respectivamente, os meios campistas 22,3 km/h, 31,4 km/h, 26,6 km/h nos 10, 20 e 30 m respectivamente.

Essa análise quantitativa do desempenho deverá estar sempre atrelada a outros dados, pois isoladamente não demonstra o entendimento da qualidade do futebol praticado. Precisamos sempre unir a avaliação quantitativa às observações qualitativas, ou seja, se pensamos em velocidade, precisamos entender de que forma foi executado o movimento e a efetividade dessa ação em relação ao jogo. As distâncias avaliadas acima passam também a sustentar a grande diferença de métodos de treinamento entre o futebol e outras modalidades. Muito diferentemente das provas cíclicas do atletismo, (100, 200, 400, 800, etc.) um jogador de futebol não utiliza esse formato de tiros em velocidade durante uma partida e consecutivamente não requer treiná-los.

ACESSO METODOLÓGICO

As estratégias modernas para o treinamento de força-velocidade no futebol são bem simples e de fácil acesso na literatura. São elas: jogos, atividades de confrontos em superioridade numérica, exercícios com transferência (barras com alteres e cintos de tração) movimentação técnica com bola, situações táticas (transições variadas) com ou sem a bola. Exercícios são fáceis de reproduzir, copiar é algo que um leigo normalmente poderá fazer. O que diferencia o sucesso de um profissional será a base científica que a partir do conhecimento deverá ser o foco na aplicação dos itens descritos acima.

Dependendo do período da aplicação das cargas (adaptação – competição – transição) a efetividade das mesmas deverá estar diferenciada através do tempo de duração dos exercícios, características dos métodos e complexidade tática. Podemos distinguir treinos de força-velocidade basicamente em três tipos:

1– Velocidade de descolamento sem a bola em busca de espaço para recepção da mesma com a inclusão de algum gesto técnico que dê sequência de jogo ou itens de finalização.

2– Recrutamento prévio das fibras através de sobrecarga externa (barras, cintos de tração) seguidos de exercícios de disputas e “sprints” em distâncias variadas. (5,10,15, até 40 metros)

3– Requerer velocidade diretamente relacionada com a habilidade individual contra um ou vários oponentes.

Evidenciamos que os aspectos técnicos e táticos tornaram-se uma tendência dominante e irrevogável nos padrões modernos da preparação desportiva. E realmente seu peso é justificado. Se analisarmos friamente, qual função teria o desenvolvermos a capacidade de acelerar ou mesmo uma ótima potência para saltos no cabeceio, se o futebolista não conseguisse utilizar esses gestos em situações adequadas do jogo?

O treino deve potencializar o jogador exclusivamente para as situações reais de disputa. “Treino é Jogo, Jogo é treino”.

ACESSO PSICOLÓGICO E SOCIAL

A auto exigência de um comandante é algo maior do que ele poderá exigir de seus comandados. Todas as pessoas podem dar ordens, mas nem todas tem o dom ou se capacitam para fazer alguém seguir o seu comando. Não vou discorrer com profundidade sobre esse tema, pois o foco final não é esse (embora força tenha sentido amplo e não somente venha da mecânica dos músculos), mas tenho que descrever alguns pontos importantes, pois a motivação e credibilidade dos que cumprem as orientações dos que comandam deve existir senão não haverá sucesso. Vou direcionar os sete pontos abaixo (desafio diário) exclusivamente a linguagem que utilizo com grupos de jogadores de futebol.

  1. Criar um pacto de confiança mútua;
  2. Manutenção do grupo unido;
  3. Técnicas de suprimir o cansaço psicofísico; 
  4. Compartilhar a dor das derrotas e revertê-la em gana por vitórias.
  5. Manter o equilíbrio e a simplicidade com o sucesso. 
  6. Nunca esquecer o foco do trabalho; 
  7. Jamais desistir antes do final do jogo.

Comandante: Não se esqueça de criar, rever conceitos, atualizar o conhecimento, viver longe das dúvidas e nunca deixar o comando fraquejar.

A LINGUAGEM DA INTERATIVIDADE

Atualmente as pesquisas originais publicadas em livros e revistas passaram a dividir espaço com uma enormidade de fóruns que circulam na internet e que são capazes de acelerar positivamente a forma de buscar conhecimento. Esses mecanismos estão à disposição de quem souber recorrer às palavras chaves para uma boa busca. Inclusive muitos desses espaços virtuais oferecem “Download”, onde encontramos programas para controle de treinamento, quadro de exercícios, debates sobre temas, comparativos sobre equipes, dados de jogadores, formatação de jogos dedicados ao treinamento e muito mais. A necessidade de interatividade entre profissionais e estudiosos passou a ter um lugar marcante na vida dos que não querem perder o “trem” para o futuro.

REFLEXÃO FINAL: RETORNANDO A NOSSA VIAGEM

Quando o assunto é força aplicada ao contexto do futebol, observamos que tal capacidade se relaciona diretamente com os movimentos rápidos do andamento do jogo com os gestos decisivos (sprint, chute, saltos, drible) que normalmente determinam o resultado da partida. Força e velocidade são duas manifestações do mesmo componente, ou seja, NEUROMUSCULAR. A força gera velocidade e a velocidade depende da qualificação da contração muscular. A Força no futebol é interativa, nunca se manifesta de forma pura.

BIBLIOGRAFIA:

ACERO, R. M. Velocidad en el fútbol: aproximación conceptual. In: Revista Digital, Buenos Aires, ano 5, n. 25, set. 2000.

BARROS, R. et. al. Analysis of the distances covered by first division Brazilian soccer players obtained with an automatic tracking method. Journal of Sports Science and medicine, n.6, p. 233-242, 2007.

BRADLEY, P. et. al. High-intensity running in English FA Premier league soccer matches, Journal of Sports Science, v. 27, n. 2, p. 159-168, 2009.

BRAZ, T.V. Modelos competitivos da distância percorrida por futebolistas profissionais: uma breve revisão. Revista Brasileira de Futebol, v. 2, p. 2-12, 2009.

BRAZ, T.V. Modelo competitivo da distância percorrida por futebolistas na UEFA EURO 2008. Revista Brasileira de Ciências do Esporte, v. 31, n. 3, p. 177-191, 2010.

COELHO, D. et. al. Correlação entre o desempenho de jogadores de futebol no teste de sprint de 30m e no teste de salto vertical. Motriz, Rio Claro, v. 17, n. 1, p. 63-70, 2011.

GODIK, M. A.; POPOV, A. V. La Preparación del Futbolista. 2. ed. Barcelona: Paidotribo, 1999.

GOLOMAZOV, S.; SHIRVA, B. Futebol: treino da qualidade do movimento para atletas jovens. Adaptação Técnica e Científica de Antônio Carlos Gomes e Marcelo Mantovani. São Paulo: FMU, 1996.

RANDERS, M. et. al. Comparison of activity profile during matches in Danish and Swedish premier league and matches in Nordie royal league tournament. Journal of Sports Science and Medicine, n. 16, 2007. Suppl. 10

THATCHER, R.; BATTERHAM,A. Devolopment and validation of a sport-specific exercise protocol of elite youth soccer players, Journal of Sports Medicine and Physical Fitness, v. 44, n.1, p. 15-22, 2004.

ZUBILLAGA, A. et. al. Match analysis of 2005-06 Champions League Final with Amisco System. Journal of Sports Science and Medicine, p. 20, 2007. Suppl. 10.

* Pós-graduado em treinamento esportivo e em fundamentos científicos da preparação física moderna, teve passagens por clubes no Brasil, Ásia, Europa e América Latina. Participa também como palestrante em vários congressos nacionais e internacionais.

Fonte: Márcio Faria Corrêa por Universidade do Futebol

O futebol de formação na sua essência

Como o leitor mais atento do Bola na Rede já percebeu, sou um dos redactores do espaço Porto neste sítio, com alguns textos também no âmbito da “Carta Aberta a…” ou “Jogadores Que Admiro”. Porém, fui desafiado pelo diretor-geral do BnR a partilhar um pouco da minha experiência enquanto treinador de formação de futebol, quer no âmbito competitivo, quer no âmbito apenas lúdico.

Para isso, tenho de fazer uma pequena introdução sobre mim e sobre o meu trabalho, para que o leitor possa enquadrar-se na realidade da qual estou a falar. Tenho 23 anos e o curso de treinador de futebol – UEFA B (nível I) desde os meus 17 anos (no qual fui o mais novo formando nesse curso), entre várias formações de treino de guarda-redes, futebol em geral ou até de psicologia no desporto (uma área incrivelmente interessante!). Nesse contexto, e durante estes últimos 6 anos, estive sempre ligado ao futebol enquanto treinador (1 ano infantis do CCD Bairro da Conceição, Escola do Benfica de Beja, Geração de Génios – Faro e caminho para a minha 3.ª época enquanto treinador da formação do Sporting Clube Farense) e tive a oportunidade de aprender junto da formação do Real Betis Balompié (“Betis de Sevilha”) ou do Vitória Sport Clube (“Vitória de Guimarães”).Tudo isto em escalões competitivos e não competitivos, mas todos ligados à formação. Fora da formação fiz ainda parte da equipa técnica de Sub-23 do Sporting Clube Farense (equipa entretanto extinta). Actualmente, divido o meu tempo entre universidade e duas equipas: 2009 (6 anos – não competitiva) e 2006 (9 anos – competitiva). Apresentações feitas, passemos ao real motivo deste texto.


Para mim, quando falamos de formação, falamos em algo muito mais abrangente que o próprio futebol, e desde logo não me sinto “treinador” ou “mister” de meninos de 6 anos, vejo-me muito mais como um professor, alguém que está dia-a-dia a trabalhar para que, além das acções coordenativas que esperamos que os pequenotes aprendam, da introdução das regras do futebol e do objectivo gradual de evoluírem do “1×1” para “3×3” e finalmente para o futebol de “5×5”, também possam aprender regras e valores que são muito importantes nesta fase de crescimento.

Não falamos, portanto, de um “regime militar” mas sim de um aquisição de normas que devem ser seguidas para que todos se sintam parte de um grupo, de uma equipa. E nisto, dentro da minha forma de trabalhar, encaro os pequenotes como pequenos-adultos, e regi-me sempre por 3 regras: 1- quando alguém fala, ninguém mais fala; 2- se alguém quiser falar, levanta o dedinho e espera por autorização do professor e 3- quando o professor apita, ninguém continua a dar chutos na bola. São 3 regras simples e de fácil percepção para as crianças, fazendo com que se sintam adultas ao mesmo tempo que implantamos alguma autoridade e controlo entre eles, pois reservo-lhes o poder de me chamar também a atenção se eu desrespeitar alguma das regras.

Desde a minha chegada ao Sporting Clube Farense sempre me identifiquei com os pressupostos que passam pela formação: “FORMAR. Ganhar 20-0 é algo que não passa pelos principais objectivos, é preferível em certos jogos utilizar os jogadores que se calhar têm um pouquinho mais de dificuldade em relação aos colegas de equipa, de forma a motivá-los e mostrar que todos contam. Outra coisa, a importância da derrota e o saber perder também está incutido no espírito dos treinadores: mentalizar desde cedo que os homens se vêem nas derrotas torna qualquer criança mais forte e mais sensível à humildade na hora de saber ganhar.” – Este último parágrafo foi retirado de uma entrevista que concedi o ano passado ao blog “distritaldebeja”, mas que me parece que transmite bem aquilo que pretendemos dos nossos pequenotes. É importante perceber que falo apenas do futebol de formação, pois a base piramidal continua a ser aquela que move e moverá o futebol e o desporto no geral: uma grande base cria as condições para aqueles que realmente num futuro tenham apetência e condições claramente superiores possam, talvez, singrar e serem jogadores de um outro patamar. E nisto posso acrescentar que na formação do Sporting Clube Farense vemos os nossos treinadores da formação (até ao escalão de infantis) com “plantéis” compostos por uma média de 25/30 jogadores.

É mais difícil de trabalhar? Sim. Mas é mais desafiante e sentimos que estamos realmente a fazer um bem maior à sociedade e ao futuro de meninos que acarretam o lema “És de Faro, és Farense” e sonham poder vestir a camisola de leão ao peito. Posso ainda acrescentar (devidamente autorizado) que o regulamento do nosso clube prevê a formação de duas equipas por escalão e, dentro daquilo que é a nossa linha de pensamento, dar a oportunidade igual a todas as crianças, tendo também em conta que existem sempre 4/5 meninos que se destacam e que, naturalmente, acabam por jogar um pouquinho mais.

E nisto olhamos para as equipas em redor da nossa cidade e deparamo-nos com duas tristes realidades: equipas que não aceitam certos meninos com mais dificuldade pois o lema é “ganhar e golear a todos custo” e vemos outras que não conseguem sequer formar um escalão por falta de jogadores, pois os pais preferem ver o filho jogar menos mas estar no Farense a ir para um clube de uma dimensão um pouquinho menor mas jogar o dobro ou o triplo do tempo e assim equilibrar o acentuado diferencial que vemos entre certas equipas. Mas a culpa não é das crianças, e vou agora abordar aquele que é, para mim, o maior mal da formação: os pais.

“Treinadores de bancada”, “Mourinhos de café” ou “Mestres da táctica” são coisas com que diariamente os treinadores têm de lidar, e não existe nada pior que estar a dar um treino ou estar num jogo e ouvir os pais a mandarem o seu “bitaite” para o filho, dizendo coisas que, na grande maioria dos casos, não fazem sentido. É preciso perceber que um pai/mãe não vai à escola dizer que o professor está a ensinar mal, e no treino desportivo deveria ser igual! Um treinador para os pais depende dos resultados, mas na realidade isso é um factor que, na formação, pouco nos importa.

É melhor ganhar que perder, é certo, mas existem valores bem maiores que esses. Como em tudo, existem excepções, e ao longo destes anos tenho lidado com pais/mães fantásticos mas também “apanhei” pessoas egoístas, más por natureza e sem qualquer sentido de responsabilidade perante a formação, e aí como podemos transmitir aos meninos certos valores como o “pede desculpa ao colega e ajuda a levantar”, quando o mesmo chega no final do jogo ao pé do pai/mãe e ouve “fizeste bem, da próxima bate mais forte”, ou ouvir da bancada nomes que são dirigidos ao treinador e que se sabe que é o que vão transmitir ao pequenino em casa. Mas este é um problema que só terá solução quando existirem condições como nos três grandes: os pais não podem assistir aos treinos e nos jogos, caso levantem demasiados a voz no sentido de melindrar a dignidade de alguém, são proibidos de frequentar as instalações desportivas desse mesmo clube. E sabemos que é uma realidade ainda impossível de se concretizar em clubes financeiramente menos apetrechados.


Posto isto, existe uma reflexão que acho importante para todos aqueles que, directa ou indirectamente, participam na formação dos pequenotes: quero ter um Cristiano Ronaldo em casa ou uma criança que, consoante a sociedade mais ou menos padronizada em que vivemos, consiga crescer dentro dos valores básicos e que possa, um dia, singrar em algo que o faça realmente feliz? Se conseguir ser os dois, fantástico! Mas todos sabemos que não é assim que funciona. No fundo, o maior prémio que um professor/treinador/pai ou mãe pode ter é um grande SORRISO na cara de uma criança que com pouco está feliz e sentir que fez algo de bom por nos ver como seu reflexo.

Da minha parte, continuarei a seguir as minhas 3 regras fundamentais e a fazer o meu trabalhinho junto daqueles de que mais gosto e com os quais me sinto bem: os meus pequenotes.

Não sendo eu um treinador-modelo e tendo a humildade de saber que tenho muito mais para aprender do que para ensinar (muito mais!), sinto que sigo as linhas de orientação mais correctas durante o meu trabalho, e tal como os meus pequenotes no final dos treinos, vou sempre embora com um sorriso na cara e feliz, mesmo que o dia não tenha sido o melhor de todos.


Obrigado ao BnR pela oportunidade que me deu de partilhar um pouco da realidade que vivemos e parabéns por esta excelente iniciativa, que espero que se possa alastrar a mais treinadores das formações deste país, quem sabe, numa nova rubrica?

Fonte: Bola na Rede

Então e os miúdos?


Por Gonçalo Borges


Em Portugal existe a necessidade de se realizar uma reflexão séria acerca do nosso futebol de formação. Para já têm sido produzidas variadíssimas críticas, opiniões e algumas acções. Umas mais construtivas do que outras – e aqui há que saber sempre inserir o devido filtro. Contudo, e após tudo isto (e mais um par de botas), chegamos à conclusão de que na realidade a mudança ainda não foi operada, e que essa reflexão tem sido sobretudo evitada por quem mais a deveria fomentar.

Actualmente – olhando as seleções nacionais como um exemplo –, paira no ar um ambiente “perigoso”, pois parece que após o Mundial 2014 as coisas já se estão a recompor por si mesmas de forma autopoética. Entre diversos factores, este ambiente justifica-se pela saída de Paulo Bento, pela chegada de Fernando Santos e pelas acções revitalizadoras deste último na Selecção A.

Por sua vez, a selecção de sub-21 apurou-se somente com vitórias para o Europeu da respectiva categoria e parece que existe por cá uma geração de atletas com menos de 23 anos que se apresenta altamente promissora. Mas atenção, sem o devido acompanhamento e as respectivas oportunidades, esta geração mais recente poderá acabar tristemente banalizada como as duas anteriores (e inclusive uma delas produziu uma equipa campeã da Europa em sub-16). Convém por isso recordar que nada está assegurado sem sustentabilidade e uma aposta real nos jovens.

Pelo caminho os títulos do futebol de formação no passado servem também de almofada para o sustento de uma certa sensação de que mais tarde ou mais cedo vamos voltar a ter atletas de altíssimo nível. Enfim, assenta-se numa lógica – brutalmente errada – de que “se já houve, há de voltar a haver”.

No seio de tantas sensações, emoções e fluxos, perdeu-se a oportunidade de repensar seriamente o futebol de formação em Portugal e os modelos que o asseguram. E isto é muito grave (!). Olhou-se para o futebol sénior de forma ruídosa, mudou-se um departamento médico federativo e criou-se mais uma ilusão de falso bem-estar. Acima de tudo, e pior do que qualquer outra coisa, “varreu-se” da memória colectiva que os êxitos do nosso futebol no passado dependeram em muito de um trabalho sustentado e organizado metodologicamente na formação. E não de um belo acaso que nos caiu dos céus. Curiosamente esse trabalho desapareceu de forma consistente há mais de dez anos e só agora se deu pela sua falta.

É evidente que nos “três grandes” do nosso futebol os projectos de formação desportiva e social se mantêm relativamente actuais, bem organizados e ao cuidado de profissionais competentes. Mas o nosso futebol não existe somente na realidade desportiva e social de Porto, Benfica e Sporting. Aliás “essa coisa” do futebol de formação em Portugal vai dos convívios entre escolinhas de futebol até à Selecção Olímpica (sub-23).

Jogo entre Benfica B e Carregado em Juniores B sub17 / Fonte: ADC Somos Nós


Tudo isto existe numa complexidade tremenda em que apenas um focar em três clubes e num par de selecções não permite retirar qualquer conclusão clara. E dada essa complexidade, será mais útil neste texto olhar para alguns pontos que se apresentam eminentes pela sua urgência e gravidade. De antemão convém notar que não existem receitas infalíveis nem milagres, mas existe necessidade de pensar e repensar a realidade.

Um dos primeiros focos deverá ser a “humanização” do futebol jovem. A prática do futebol é executada por seres humanos. Logo, o trabalho deve ser orientado também por esse princípio. A natureza e as condições do jovem atleta devem ser respeitas e analisadas. Cada atleta e cada colectivo apresentam problemas específicos relativamente a si mesmos. Um jovem atleta está inserido num contexto desportivo e social e o seu papel e estatuto não se reduzem ao pontapear uma bola para o interior de uma baliza. Não se pode reduzir os atletas e as equipas a meros objectos de lazer ou de competição.

O futebol de formação não é “puro lazer” nem é meramente competição. Em Portugal é urgente reconhecer o espaço que se reserva para este fenómeno, pois a ideia de “puro lazer” ou a competição exacerbada têm gerado resultados negativos por culpa da ausência de modelos de formação adequados às idades e aos níveis de maturação dos jovens.

Um dos grandes desafios para o nosso futebol de formação é também a questão da criatividade. É fundamental que os nossos jovens se sintam confortáveis e confiantes mas sobretudo que sejam criativos. É evidente que existem princípios e subprincípios que devem ser interiorizados. Mas em Portugal já se “castrou” demais. Nos últimos quinze anos, castraram-se os atletas ao máximo tendo transformado os mesmos em máquinas tácticas que cumprem na ocupação do espaço e na leitura de jogo mas que tecnicamente já não desequilibram como antes. Restam hoje Ronaldo, Nani e Quaresma.

Em Portugal é essencial compreender que a relação com a bola e a criatividade são aspectos que não se podem anular. Os nossos jovens serão sempre mais fortes no futuro se hoje for realizado um trabalho assente em situações de jogo reduzido e no consequente estímulo das competências técnicas, tácticas e psicológicas. Por outro lado, serão mais banais se continuar a vigorar uma política de forçar os jovens a devorar princípios de jogo e estratégias aos nove anos de idade.

Muito haverá por debater e analisar, mas não se pode colocar de parte a reflexão sobre a mentalidade com que se tem abordado o futebol de formação. Raramente se olha para o futebol de formação como um momento, lá está, de formação desportiva e social. Olha-se antes como quem olha para a final de um Campeonato do Mundo: como pura (e dura) competição. Um exemplo de como há algo que está errado é o facto de serem dadas coberturas jornalísticas orientadas apenas para os resultados e para a arbitragem. Como uma cobertura de há alguns dias atrás, num dos principais jornais desportivos nacionais, onde a página dedicada ao futebol de formação era quase inteiramente dedicada ao árbitro e à sua actuação num jogo. Então e os miúdos?

Fonte: Bola na Rede

Ajax, uma revolução na formação


Por João Almeida Rosa

O Bola na Rede sentou-se lado a lado com Paulo Bento, Domingos Paciência, José Couceiro, Ricardo Sá Pinto e muitos, muitos outros, no Fórum do Treinador em que se debateu o que às vezes falta debater no jornalismo desportivo: o futebol propriamente dito. Falou-se de lesões e das formas de as evitar, das experiências e virtudes dos treinadores portugueses que vão para o estrangeiro, da tecnologia e de como os treinadores a podem incorporar nas suas funções mas foi Ruben Jongkind, responsável pelo desenvolvimento de talentos da formação do Ajax, quem emprestou as mais interessantes ideias. Sobre a forma como é e como será a formação daqui em diante, o membro da estrutura do Ajax apresentou ideias como a divisão dos jovens em três grupos de desenvolvimento (Sub-7/Sub-12, Sub-13/Sub-16, Sub-17/Sub-21) ao invés dos escalões utilizados na Europa, a implementação de treinos na rua e de Futsal, para os sub-12 ou o acompanhamento aos jovens por três mentores, focando o desenvolvimento no individual ao invés do colectivo.

O Ajax sempre foi uma referência na formação. Provavelmente, dado os resultados apresentados, seria um dos clubes no mundo que menos necessidade teria de mudar. Mas, como todos aqueles que se querem manter no topo, o Ajax não se contenta com o sucesso passado e, ao olhar para dentro, altera e inova.

Os grupos de desenvolvimento

Ruben Jongkind surpreendeu ao apresentar uma nova forma de divisão sectorial: Sub-7/Sub-12, Sub-13/Sub-16, Sub-17/Sub-21 em vez dos escalões muito mais restritos que, por norma, não permitem a confluência de jovens com mais de dois anos de diferença. Qual o objectivo do Ajax? Promover às crianças estímulos competitivos maiores e dificuldades acrescidas. Em Portugal, Sporting, Benfica e Porto têm equipas infinitamente superiores às restantes (os resultados provam-no). Mas essa superioridade não estagna o desenvolvimento dos jovens? Não se tornariam melhores se competissem com equipas de um valor competitivo equivalente ao seu? Se pensarmos, as crianças que actuam nos grandes portugueses, no final de uma época… jogaram apenas 4x contra equipas de qualidade similar à sua. Se os jovens são promovidos aos escalões acima dos seus? Sim, claro. Mas, no caso do Ajax, essa promoção não acontece apenas para os dois ou três melhores jogadores, mas para todos. E não acontece apenas no momento de um jogo em específico, mas de forma regular.

Os treinos na rua e de Futsal

“Em Portugal é normal jogar em campos reduzidos. Na Holanda não. Estamos a mudar isso”. Se o Futsal é uma modalidade que predomina muito mais em Portugal e Espanha, comparativamente com os outros grandes países europeus futebolisticamente falando, também é verdade que cá não há o hábito de colocar jogadores de Futebol a praticar Futsal para o seu desenvolvimento. O benefício consiste em tentar inverter o cada vez menor tempo de prática em idades inferiores, visto que no futebol de rua ou no Futsal cada jogador tem um tempo de actividade directa (com bola ou, se sem ela, a disputá-la) muito superior ao Futebol de 7 ou, principalmente, ao de 11. Mais do que componentes tácticas ou físicas, em idades mais baixas os aspectos fundamentais a ser trabalhados são os técnicos, e nada há melhor para o desenvolvimento desses aspectos do que o tempo de prática. Nesse sentido, diz Ruben Jongkind, “há sempre um parque de estacionamento livre“. Para além disso, o Futsal e o Futebol na rua significam tornar cada vez mais rápido o raciocínio e a tomada de decisão, pela intensidade que o pouco espaço confere ao jogo.

Ruben Jongkind, no Fórum do Treinador / Fonte: Facebook do Fórum do Treinador


Os mentores

Uma das ideias menos expectáveis terá sido a de que o foco do desenvolvimento nos jovens se centra no individual e não no colectivo. A razão, disse o holandês, é simples. “Um plantel inteiro nunca se estreou na equipa principal, chegam lá individualmente”. Por isso, o plano passa por colocar três profissionais, cada um na sua área predilecta, à volta do jogador e esperar que ele, desta forma, tenha todas as condições para não depender de factores externos que o possam prejudicar. Um treinador com quem se dá mal, por exemplo. Assim, os mentores têm um grupo de cerca de dez jogadores de diferentes idades (mas do mesmo grupo de desenvolvimento, conforme foi explicado anteriormente) e, uma vez por semana, orientam uma sessão de treino integrada pelos seus jovens… de diferentes idades. Outro dos objectivos e fundamentos é que “mais olhos analisam melhor” e, com vários mentores envolvidos, há uma maior capacidade de correcção de erros e de consequente evolução para os jogadores. No fim, tudo se trata de evolução. “A nossa forma de pensar mudou do ganhar para o desenvolver. Se o melhor jogador dos sub-17 deve ir aos sub-19, vai. Se perdemos, é igual. Chegámos a jogar com jogadores sub-15 na equipa sub-19″, encerrou Ruben Jongkind.

A alimentação de que a formação também precisa

Sobre a formação mas não só, o Ajax também planeia lançar os jogadores que não forma… ou que não forma desde início. Só no seu país, o clube de Amsterdão revelou que trabalha com mais de 40 equipas amadoras e 25 mil jogadores. Segundo diz, se “há menos peixe, tem de se pescar melhor”. O mesmo será dizer que, com o crescimento do scouting nos restantes clubes a coincidir com uma regressão do tempo de prática dos jovens, o Ajax tem de se aplicar para conseguir atrair os melhores jovens que ainda não estão nos maiores clubes holandeses. Para isso, o clube já sugeriu à federação holandesa aumentar as compensações aos clubes amadores em caso de transferências de forma a possibilitar a esses clubes condições que lhes permitam continuar a desenvolver bons talentos, mais tarde muito rentáveis para clubes como o Ajax ou PSV, mas que só o serão se desenvolvidos com qualidade na sua fase mais embrionária da formação.

Perante estas quatro questões fundamentais na formação do Ajax, uma das mais bem cotadas no mundo, resta a questão: e em Portugal, fariam sentido as mesmas medidas e a mesma linha de pensamento? Jongkind disse que em Portugal se olha mais para o resultado na formação e “que é uma forma de ver as coisas”. É a correcta? O tempo dirá se esta reformulação na academia do Ajax vai dar os seus frutos ou se não, mas o espírito inovador e a coragem para mudar terá de ser admitida aos dirigentes do Ajax que, sobretudo, não pretendem dormir nos louros passados.

Fonte: Bola na Rede

O regresso da moda do 3-4-3


Antonio Conte apostou no 3-4-3 no Chelsea em 2016/2017. E essa opção tática valeu-lhe o título da Premier League. Quase como uma praga, a opção começou a ser plasmada pelos principais rivais e promete agora espalhar-se a outras ligas.

Voltando atrás no tempo, e procurando o paralelismo nacional, Manuel José foi o grande percursor do modelo 3-4-3 no nosso país, quando ao leme do Boavista optou por esta inovação tática. Estávamos em 1991. Um líbero, que era o campeão do mundo sub-20, Rui Bento, era a chave deste desenho tático. O modelo foi opção durante algum tempo e até outros tentaram copiá-lo. Porém, no nosso país, acabou por não vingar a médio e longo prazo.

Mais de 25 anos depois, assistimos a um renascimento deste desenho tático, tudo graças a um homem: Antonio Conte. O técnico italiano é uma espécie de pai adoptivo. Ou um pai do Frankenstein, que fez renascer o monstro. Como aqui demos conta há alguns meses, depois de um início titubeante na Premier League, Conte preferiu moldar a equipa às suas ideias e não o inverso, como tinha acontecido naquele primeiro mês ou dois nos comandos dos blues. Usou o sistema que já lhe tinha garantido sucesso em Itália, quer na Juventus, quer na seleção italiana, onde apesar de nada ter ganho, atingiu os quartos-de-final do Euro 2016, só caindo nos penalties contra os campeões do mundo, a Alemanha.

O sucesso da aposta no 3-4-3 foi tal que rapidamente assistimos a um plasmar do modelo tático nos principais rivais. O Tottenham foi o primeiro a assumí-lo e curiosamente teve a mesma maré de excelentes resultados desde então, conseguindo mesmo um surpreendente segundo lugar que há muito era uma miragem para os Spurs. Depois foi o Liverpool de Klopp, que privilegiava outro sistema, quer no Dortmund, quer nos primeiros tempos nos Reds. José Mourinho acabou por também usar este esquema algumas vezes, e até o francês Arsène Wenger terminou o ano a jogar em 3-4-3, curiosamente levando a melhor ao criador do monstro, na final da Taça de Inglaterra, em pleno Estádio de Wembley.

Falta referir Pep Guardiola e o seu Manchester City. Só que o técnico catalão é um caso à parte. Sempre inovador nos seus esquemas táticos, já usou várias vezes este esquema, mas ao contrário dos demais, parece não o fazer por copiar o sucesso alheio, mas sim porque na sua cabeça fervilham esquemas e opções diferenciadas, tendo no Bayern de Munique chegado a usar defesas com apenas dois homens ou usando defesas a três mas onde só um era central!

A moda pegou e parece pronta a disseminar-se a outros países. Se em Inglaterra parece que os big six parecem ir manter a aposta, na Alemanha já vimos um Dortmund várias vezes a jogar assim na temporada passada. Em Itália, o esquema nunca morreu desde Conte, e Allegri na Juve continua a usá-lo por vezes, como aconteceu na última final da Champions em Cardiff. O renascido AC Milan também parece possuir trunfos para esse esquema e não surpreenderá se a opção acabar por ser essa.

Em Espanha a moda parece não pegar, apesar do Barcelona já ter por vezes apresentado esquemas similares, aproveitando a polivalência de alguns dos seus centrais, em determinados momentos de jogo. E cá em Portugal, olhando para a pré-época, Jorge Jesus já testou o esquema, talvez porque Matthieu, um lateral-esquerdo de origem entretanto convertido em central, possa cumprir este papel híbrido do terceiro central que em fase ofensiva pode abrir mais no corredor, libertando o lateral-esquerdo para missões mais ofensivas.


A chave do sucesso de 3-4-3

Moda ou não, venha para ficar ou seja como muitas modas, que rapidamente passam à história, o 3-4-3 é uma realidade atual e a chave do seu sucesso está em dois factores: os laterais e os centrais.

Comecemos pelos laterais. Ambos têm de ser verdadeiros extremos. Rápidos e com capacidade para um vaivém constante, capazes de desequilibrar no último terço sem descurar a competência na cobertura defensiva. No momento ofensivo, os laterais são quase alas, juntando-se aos extremos que podem assim procurar terrenos mais interiores, ou combinar com eles quando mais abertos no flanco.

Pegando no original de Conte no Chelsea, Victor Moses, um proscrito que andava perdido em empréstimos sucessivos por clubes do meio de tabela da Premier, assumiu o lado direito. Ele que é um avançado mas que tem um pulmão inesgotável e assinalável capacidade física. No lado oposto o espanhol Marcos Alonso, um lateral esquerdo de origem com grande pulmão e cuja altura o torna decisivo nas bolas paradas. A maior propensão ofensiva de Moses permite que muitas vezes o 3-4-3 de Conte seja híbrido, com Azpilicueta agora adaptado a central a abrir na direita, permitindo a Moses ser ala e Pedro ou Willian a jogar mais por dentro próximo de Diego Costa. Na esquerda isso acontece menos, com Hazard a abrir sempre mais na ala.

Em relação aos centrais, é fundamental que pelo menos um, senão mesmo os dois mais abertos, possam cair na linha e funcionar como alas. Azpilicueta fá-lo na perfeição, dado ser lateral, por exemplo. Ou na Juve, com Chielini e Barzagli, ambos centrais, mas com boa capacidade de adaptação ao corredor quando necessário.
Este sistema acaba por privilegiar o corredor central, dado haver pelo menos 2 médios centro e 2 avançados (quando um dos extremos faz os movimentos interiores), ou mesmo três se ambos os extremos procurarem o jogo interior recorrentemente. E isso leva-nos à análise da aplicabilidade deste sistema ao futebol português.

Ao contrário de Inglaterra, onde existe mais espaço e onde as equipas pequenas, salvo raras exceções, não optam por encostar as linhas e fecharem-se por completo na defesa, em Portugal são raras as equipas abaixo dos 5 ou 6 primeiros que não vai ao terreno dos grandes com os 11 jogadores no seu meio-campo. Ora este sistema, como acabámos de referir, privilegia o jogo interior, o que contra estas equipas poderá revelar-se infrutífero.

Se olharmos para os três grandes, uma das claras explicações do sucesso dos tetracampeões nestes últimos anos é a sua maior valia nos extremos em comparação com os rivais. É muitas vezes por aí que o jogo se desequilibra. O Sporting com Gelson na época transacta, ainda que apenas do lado do jovem extremo, conseguia gerar a maioria dos seus desequilíbrios ofensivos.

Ora num esquema de 3-4-3 como Jesus parece agora querer testar, Gelson terá que jogar mais por dentro muitas vezes, onde se sente menos à vontade e onde tem menor capacidade de desequilíbrio. E os próprios laterais não parecem encaixar neste sistema. Ou melhor, o direito, pois Piccini, do que é dado a ver, não aparenta ter tão desequilibrador ofensivamente. Ao contrário de Coentrão, que encaixaria que nem uma luva, assim como Matthieu, que pode abrir na esquerda e fazer de lateral nas subidas do caxineiro.

Irá Jesus para a frente com os testes e lançar esta opção tática na Liga NOS 2017/2018? Temos sérias dúvidas que o faça. E em fazendo, que se revele uma fórmula de sucesso. Pelo menos à luz dos jogadores de que dispõe atualmente. Mas como o mercado promete ser animado até 31 de agosto, pode ser que as vendas e compras podem ter em conta esta desenho tático.

Fonte: Bom Futebol

Impor ou adaptar? Demissão de Roger e o dilema da “nova safra” de técnicos


Por Leonardo Miranda

a gente se propôs, desde o primeiro momento, a transformar a equipe do Atlético-MG. A proposta inicial foi encontrar esse equilíbrio necessário. Manter a produção ofensiva, mas criando alguns mecanismos para que gente chegasse nesse equilíbrio maior entre as ações com e sem a bola.” Roger Machado

A entrevista é de março, mas revela muito sobre o julho no qual Roger Machado foi demitido do Atlético-MG. Antes de mais nada, não, este não será mais um texto pregando paciência e acusando diretorias de resultadismo. Na frieza dos placares, Roger foi o técnico da Era Daniel Nepomuceno com maior aproveitamento – 60,46%. Sua demissão se deve a uma série de coisas – que serão menos o foco desse texto.


A demissão do ex-Grêmio nos leva a um importante debate sobre a “nova safra” de técnicos brasileiros que ocupa cargos de destaque e 2016 e 2017: Roger Machado, Eduardo Baptista, Zé Ricardo, Rogério Ceni, Antônio Carlos Zago…. todos demitidos ou questionados. Carille e Jair Ventura sobrevivem empregados pelos resultados. Além da idade e da pecha de “promissores“, algo é comum a todos: o apego a um molde de como o time deve jogar (o modelo de jogo) e a tentativa de fazê-lo acontecer a todo custo, não importando o contexto e o momento de onde estão.

A relação aqui não é apontar o dedo e dizer se alguém é bom ou ruim, mas sim investigar a equação entre o que um técnico é gabaritado a fazer e o que o clube e contexto no qual ele se insere espera dele. No início do ano, quando Roger, Zago, Baptista e Ceni foram contratados, o clube apostou na capacidade deles de construir um estilo de jogo. O período para solidificar e salientar esse estilo foi a pré-temporada e o início do estadual, até os testes mais duros chegarem em abril e maio. O que os clubes esperavam é que esse estilo estivesse impresso e solidificado lá para junho, junto ao Brasileiro. Não aconteceu, portas abertas e… será que tudo foi feito como os técnicos precisavam que fosse feito?

Contratações e o tempo

São Paulo, Inter e Atlético sofreram bastante pelas contratações. Não pelos nomes, mas pela incapacidade de formar e fechar um elenco ainda em janeiro, no crucial período da pré-temporada. Era de suma importância ter todos os jogadores juntos, jogando juntos, recebendo os mesmos treinos e tentando entender o complexo modelo que seus treinadores queriam. Roger, por exemplo, foi receber Adílson só em fevereiro, e mal pôde contar com Roger Bernardo. A salada que fizeram com Ceni, vendendo meio time e contratando outro logo após o término do estadual, foi de doer. E no Inter, a cada mês chegava um jogador – Carlos, Cirino, Pottker, todos parecidos entre si e sem resolver o problema crônico de construção que Guto Ferreira tem até hoje.

Acontece que esses treinadores prezam por um modelo de jogo e não saem dele. Ter o elenco todo em janeiro era a garantia de que todos entendessem os conceitos e ideias de Roger na defesa, algo que nunca aconteceu, ou que Marcinho e Maicosuel pudessem ser os alas do 3-4-3 de Ceni. A cada treino, um novo entendimento. A cada jogo, subsídio para corrigir erros e procurar melhoras. Perder Luiz Araújo ou não ter volantes de construção prejudicava e muito o que eles haviam pensado. O caso do Inter é ainda pior: um elenco mal construído, mal estruturado e psicologicamente abatido.


Fabio Carille disse, na coletiva após os 2×0 no Allianz Parque, que o grande diferencial do Corinthians foi ter uma ideia de jogo na reapresentação em 2017, e que colocou que o sucesso do time dependia de ter o elenco fechado já naquele dia. A liderança não é fruto do acaso.

A capacidade de se adaptar a um contexto

O exemplo do Inter nos leva a um outro questionamento: será que é tão importante assim se fixar a um modelo de jogo, sabendo das dificuldades que qualquer clube brasileiro tem pela frente? Se o Colorado tinha um elenco feito para contra-atacar (Edenílson, os pontas já citados, laterais de velocidade…), não era hora de entender esse contexto e procurar adaptar o modelo de jogo à realidade? Primeiro, precisamos entender uma noção básica: ninguém controla o contexto ao seu entorno. Pressão, lesões, pouca adaptação…o acaso no futebol está aí e sempre se faz presente. Técnicos não conseguem controlar os resultados de suas equipes, mas certamente têm total controle aos processos de treino, às análises de jogo e ao modelo de jogo.

Ao se deparar com um contexto diferente daquilo que imaginaram, Roger, Zago, Ceni e Baptista “travaram“. Não por incapacidade, mas por não ser aquela a bucha que eles iam resolver quando assinaram o papel. Ou por entender que não, eles não precisavam resolver buchas. Talvez o jogo de troca de passes que Roger tanto preze não funcione com um elenco com peças verticais como Robinho, Fred e Cazares. Por que não adaptar o modelo e procurar mais velocidade, estimular mais um jogo vertical e de passes agudos como Cazares gosta? Se Zé Ricardo tem em seu elenco uma montanha de meias lentos e de muito passe, por que não alterar o modelo para encaixar esse passe e unir com as poucas peças de profundidade que dispõe?


A grande questão não é manter ou não a convicção. Todos temos convicções e todos somos fiéis a elas, em maior ou menos grau. A questão aqui é se adaptar com o que se tem, mesmo que esses limões não rendam aquela limonada ideal. O fato é: no Brasil, ninguém vê o processo, apenas o resultado. O modo como as coisas são feitas não é tão importante quando a coisa em si. Não seria melhor para o técnico, pessoa e ídolo Ceni se o São Paulo jogasse “fechadinho”? Baptista poderia ter deixado as triangulações e a chegada de área para melhorar sua imagem perante aos palmeirenses. E Zago, coitado, cercado de boas intenções ao tentar um Inter que atacasse na Série B (onde o Inter só vai atacar, oras), podia ter apostado mais no jogo físico e no 1×0 pra calar esse Beira-Rio chato. Saiu vaiado e poucos entenderam suas reais intenções. Não foi erro, ninguém disse que eles precisavam trocar pneu com o carro a mil por hora.

Construir ou se adaptar? Quem responde?

Construir um modelo de jogo ou se adaptar? Procurar impor suas ideias a todo custo ou se conciliar com o ambiente e o que o jogador consegue fazer com mais facilidade? A resposta não é óbvia, e certamente os técnicos “da nova safra” encontrarão a medida certa ao longo de novas experiências de trabalho. Mas quem deveria ter em mente exatamente o que, quando, onde e como quer e procurar quem consegue entregar exatamente isso, construindo ou adaptando, é a direção de seu clube. Enquanto isso, a moela de técnicos no Brasileirão continua, procurando o famoso “encaixe” vir. Quando vem…

Fonte: GloboEsporte.com