Invista na qualidade da informação

Em virtude das competições, os treinadores são submetidos a constantes avaliações. Há um lado positivo nisto: trabalha-se, de jogo a jogo, atentamente, para se obter um desempenho melhor da equipe. Isso desencadeia algo inevitável: a cada treino, tudo o que se faz interessa. Nada pode ser feito de modo negligente. Por isso, entre outras tantas coisas, é um excepcional exercício para o desenvolvimento diário do treinador e dos jogadores.

Sob essa atmosfera, a da exposição e construção diárias de um modo de jogar da sua equipe, os treinadores não deveriam temer a pressão por resultados, mas a falta de organização, de identidade da equipe, que é construída (ou destruída) no treino. Não há como transferir responsabilidade: se a equipe não se organiza ao longo do processo de treino e, por isso, não enfrenta bem os diferentes momentos do jogo, a falha é do treinador. E não tem essa, por exemplo, de o time ser bom de ataque posicional, mas deficiente de jogo de linha-goleiro (ou vice-versa)! A equipe precisa mostrar competência em todas os momentos do jogo.

Essa questão da organização tem a ver com a relevância da componente tático-estratégica, que expressa o modo como a equipe joga, considerada uma “supra” dimensão dentre as dimensões do rendimento nos jogos esportivos coletivos. Isso não reduz a importância das dimensões condicional, técnica e emocional, mas denuncia que é a tática que as solicita. Significa dizer que o jogador decide para onde correr, decide para quem passar a bola, decide se vai ou não se arriscar. Pense: do que adiantaria jogadores que suportam a demanda física do jogo (dimensão condicional) se não sabem para onde e quando correr (dimensão cognitiva)? Logo, é a informação que controla a energia. Anote aí: ter informação para enfrentar o jogo faz toda a diferença e isso é construído nas práticas de treino, nas análises de jogo, sempre entre o treinador e os jogadores e entre estes, de jogo a jogo.

A qualidade da informação, criada e transformada diariamente entre o treinador e seus jogadores e entre estes, constitui-se fator determinante para que o time “corra certo”, “passe certo”…

Observe que eu não falei do resultado final de jogo (vencer ou perder) como parâmetro para se definir a qualidade do treinador, mas mencionei o desempenho da equipe, sua consistência tática, como se comporta, as informações com que joga.

Ainda que seja plausível o raciocínio de que ter um treinador perspicaz, jogadores inteligentes, certo volume qualitativo de treino e, por isso, ver aumentada a chance de uma performance melhor para a equipe, preciso fazer uma ressalva: mesmo organizada, uma vez exposta ao jogo, ao caos do jogo, a equipe pode perder. Isso não significa que tanto faz perseguir a organização e que se está à deriva, mas que o jogo é subversivo, indomável, um genuíno “cavalo selvagem”.

Para concluir: o treinador consegue planejar e controlar o treino. Nesse sentido, deveria investir tudo na qualidade da informação, criada e transformada diariamente entre aquele e seus jogadores e entre estes. Isso se constitui em fator determinante para que o time “corra certo”, “passe certo”, ou seja, jogue organizado. É uma medida metodológica inteligente para preparar a sua equipe para a subversão do jogo.

Fonte: Pedagogia do Futsal por Wilton Santana

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Treinamento Esportivo e Mental: teorias e intervenções práticas no esporte de rendimento

Público alvo: Estudantes e profissionais de Psicologia, Educação Física e áreas afins

Inicio: Agosto 2018

Duração: 4 meses

Realização: Espaço Integrar

Inscrições e informações: (31) 3347-5909 / 98664-7281 ou espacointegrar@hotmail.com

O ambiente criativo de ensino no futebol: a metodologia de treino

Compreender o papel da metodologia auxilia o treinador a sistematizar, organizar e transmitir o conhecimento que adquire.

Para criar um ambiente de treino, o treinador/professor deve ter know-how das metodologias de treino, e dentro delas, de suas ramificações – as abordagens de ensino. Sem o conhecimento da metodologia, o treinador, principalmente o menos experiente, perde muito tempo experimentando tarefas e atividades não representativas para aquele conteúdo que deseja ensinar ou incongruentes com o perfil do grupo de jogadores com o qual trabalha.

No meu entendimento atual, um ambiente criativo de ensino no futebol tem as seguintes características metodológicas:

Metodologias: baseadas nas teorias ecológico-sistêmicas, das quais derivam a pedagogia não-linear e a literacia motora. Apostaria na utilização de metodologias centradas no ensino do futebol por meio do jogo. Pois o jogo é uma metáfora do processo criativo: é desafiador, problemático, é incerto de acontecimentos exatos. O jogo é, por assim dizer, um processo em que precisamos criar para solucionar problemas e, portanto, solucionar problemas para aprender.

Abordagens de ensino: são derivadas das metodologias de ensino e corresponde a didáticas e métodos a serem utilizados como ferramentas de ensino para promover o ambiente de jogo e que servem de background para o desenvolvimento das tarefas de treino, para que estas possam ser a catálise do desenvolvimento dos jogadores. São exemplos de abordagens de ensino do jogo:

  • teaching games for understanding
  • constraints-led approach
  • pedagogia da rua
  • periodização tática
  • periodização de jogo
  • metodologia da participação entre outras…

O Estilo de Ensino: é influenciado pela personalidade do treinador. Alguns traços característicos de personalidade foram correlacionados à treinadores criativos. A audácia, empreendedorismo e a propensão à aventura e desafios são traços que podem predizer a criatividade e o engajamento do treinador em ajudar os jogadores como um mentor, incentivando-os a explorar e descobrir suas capacidades e potencialidades. Outro traço característico encontrado é a auto-eficácia, que consiste na confiança e convicção de uma pessoa ser capaz de cumprir uma tarefa, característica que o treinador deve ter para modelar comportamentos intencionalmente no ambiente de ensino.

O treinador: utiliza-se de constrangimentos para elaborar tarefas de treino que guiem o comportamento dos jogadores para a descoberta de soluções que o ambiente de jogo oferece. O treinador também age no intermédio das relações do meio com os jogadores e deles com as tarefas.

A Sessão de Treino: momento de encontro do treinador com o grupo de jogadores no qual acontece a práxis. Os métodos e didáticas são colocados em prática pelo treinador, tendo em vista que previamente este selecionou alguns tipos de jogos, modificou a realidade destes jogos para dar ênfase em algum conteúdo tático e ajustou a complexidade ao perfil do grupo de jogadores.

As Tarefas de Treino: são um conjunto de variáveis estruturais e funcionais, que aliadas a um objetivo, devem levar o jogador a adaptar-se e a descobrir a lógica da sua participação e da participação dos seus companheiros para atingir a meta e a lógica inerente ao jogo: vencer, ganhar pontos, obter vantagem sobre a equipe oponente.

Tendo em vista estas considerações acima, a metodologia de treino é importante para o treinador saber sistematizar o conjunto de conhecimentos técnicos, organiza-los e transmiti-los através de preceitos didáticos que entende serem mais eficazes.

Na próxima coluna, vale a pena aprofundar um pouco mais sobre este último item, as tarefas de treino. Até a próxima…

Fonte: Bruno Pasquarelli por Universidade do Futebol

“Sonhei, lutei, não alcancei…”

Tenho conversado com um número considerável de atletas que estão desiludidos com o seu percurso. Sonharam, lutaram, mas não alcançaram o que queriam, por alguma razão.

Nunca duvidei de uma coisa, podemos chegar a qualquer lugar que nos proponhamos a chegar, então comecei a “investigar” o porquê de tanta gente com muita vontade, ter falhado em alcançar os seus objetivos.

Nesta “investigação” encontrei 3 tipos de comportamentos que estes atletas tiveram, que lhes afastou dos seus sonhos:

OBJETIVOS FORA DE TEMPO

Por vezes o problema não é o objetivo que traças, é o tempo que te dás para alcançá-lo. Querer chegar a determinado patamar fora de tempo, faz com que, quando chegue esse tempo, em vez de estares motivado porque já conseguiste alguma coisa, ficas desiludido porque não estar onde achas que deverias estar.

QUEREM MAIS, MAS NÃO FAZEM MAIS

Todos querem ser o Cristiano, o Jordan ou o Phelps… Poucos querem fazer o que eles fizeram. Poucos querem ser os primeiros a chegar, os últimos a sair, os que treinam nas folgas, os que correm o quilómetro extra…

Ou aumentas o teu processo, ou diminuís o teu sonho.

FIZERAM MAIS, MAS NÃO FIZERAM MELHOR

Por último, temos os que até decidiram fazer mais, mas não necessariamente melhor. Em algum momento as suas estratégias não estavam a funcionar, e em vez de redefini-las, insistiram com mais intensidade nela.

Já Einstein dizia que a definição de insanidade é fazer as mesmas coisas e esperar resultados diferentes.

Como dizia ao início, acredito que conseguimos fazer tudo a que nos proponhamos, mas não só porque acreditamos e queremos. A habilidade mental para sabermos o como, o quando, e o quê, na medida certa, na hora certa, da forma certa, é tão importante como a intensidade, paixão e determinação que colocamos no que fazemos.

O equilíbrio entre o treino e o descanso é o que constrói o físico do atleta.

O equilíbrio entre a ação e a reflexão é o que constrói o desenvolvimento dos nossos processos em excelentes resultados.

Fonte: Nádia Tavares / O Desportista por Futebol de Formação

Existem pais hooligans no desporto jovem? Muitos…

Berros contra tudo e todos, invasões de campo, jogos interrompidos por tareias nas bancadas. Já se viu de tudo e o Observador ouviu relatos de seis treinadores de futebol, voleibol e basquetebol.

Pouco passava das 11 da manhã. Era domingo, Dia dos Namorados, e essa manhã até começou com mel. Uma adepta da equipa da casa — um clube tradicional de Lisboa contra um dos grandes — recebeu um ramo de rosas pela mão de um coração com pernas (a sério). Sorrisos, muitos vídeos para partilhar nas redes sociais e graçolas para a pombinha, era assim a disposição durante os primeiros minutos daquele jogo de iniciados (miúdos com 13, 14 e 15 anos). Depois, com o temporal que prometia chegar, bateu à porta o primeiro golo dos visitantes. E o furacão no verbo…

— Se ele não tem colhões para jogar, não o mete!!

— Esta cultura de dar a bola aos outros… É a coisa mais estúpida que já vi!

— É isso, deixa-o lá dentro! Levas meia dúzia hoje para ver se abres os olhos…

— Vamos é todos para o Colombo, ó caralho!

— Se ele fosse bom não estava aqui…

Foi mais ou menos assim durante toda a partida, com os decibéis desenvergonhados. Ao intervalo, houve uma pausa para o farnel, com Favaios, tinto e sandes. Faltavam 20 minutos para o meio-dia, com o temporal a cerrar os dentes e os chapéus de chuva a lembrarem os escudos dos espartanos do filme “300”. O recomeço do jogo devolveu o tom áspero àquela gente. Os miúdos, lá dentro, mantinham a compostura, pediam desculpa quando davam um toque no adversário, só queriam jogar à bola. Não bastava a tareia que estavam para levar, que só pararia nos nove, como também continuariam a ouvir gritos, críticas e até ameaças à integridade física de um fiscal de linha aquando da marcação de um penálti:

— Eles treinam a sério, pá! Não andam aqui a brincar como este, a brincar à apanhada e depois não sei o quê…

— Oh Rodrigo! Joga! Não é só chuto para a frente, man

— [Prrrii, penálti] Foi fora da área, ó filho da puta!

— Mas estes palhaços de merda têm de fazer isto!? Estão a ganhar, estão a ganhar. Mas há necessidade disto!? Os miúdos a levar quatro…

— Estes gajos só estão bem quando levarem nos cornos [cerra o punho, a menos de dois metros do fiscal de linha]. Não viste, pá!? Não fazes parte da equipa de arbitragem? Só estão bem quando levarem…

— Eii, tem calma, pá. Então os miúdos não jogam nada e a culpa é dos árbitros?

E lá terminou, nos 9-1. Os mais novos dão apertos de mão e seguem para o banho, com os olhos cravados no chão. Os mais velhos encolhem os ombros e descem à terra, a adrenalina serenou. “Toda a gente sabe e conhece o panorama desportivo em Portugal, como existem muitos comportamentos completamente inaceitáveis dos pais em relação aos treinadores e em relação à prática desportiva dos filhos”, explica ao Observador Carlos Neto, professor e investigador da Faculdade de Motricidade Humana. “O foco dos pais está centrado na performance desportiva e não na vulnerabilidade do próprio praticante.

É preciso não confundir a beira da estrada com a Estrada da Beira. Este comportamento não é o da maioria das pessoas que vão ver jogos de crianças e adolescentes. Os pais não são os maus da fita, querem obviamente o melhor para os filhos, mas há muitos que perdem a cabeça. Durante o jogo descrito em cima, houve uma ocasião em que se percebe o efeito dessas palavras azedas. Um miúdo alheou-se do jogo durante uns segundos e olhou para a bancada com olhos enigmáticos, o que até levou um pai a comentar “ele ainda te manda é para o caralho”. Fica a dúvida se o rapaz sentia revolta, vergonha ou angústia e impotência. Ou se estava apenas sem rumo. É que muitas vezes as indicações e ordens dos pais, que batalham com as do treinador, confundem os atletas, minam a autoridade e eventualmente prejudicam o miúdo. O Observador ouviu seis treinadores de futebol, voleibol e basquetebol para entender melhor o papel deste tipo de pais no desporto jovem.

“Basta o pai começar aos gritos e ele começa logo a tremer. Depois não sabe o que fazer. Fica com medo”

Vítor Silva passou muitas horas de quase 15.330 dias a formar miúdos. “Meninos”, como prefere dizer. Este homem entregou-se à causa vai para 42 anos e continua a viver irrequieto com o que rodeia o desporto jovem. Voluntário na Cercica, numa Aldeia SOS e na Santa Casa da Misericórdia, recebeu em 2013 a Medalha de Mérito do Comité Olímpico Português, pelos serviços relevantes prestados ao desporto nacional.

Passou mais de uma década no Estoril Praia, clube que há pouco tempo abandonou. “O Estoril está a formar meninos para o futebol, não é o futebol para os meninos. Não estava para isso.” Vítor criou um modelo, prioridades, focos, regras e, lá mais para a frente, aprendeu o “processo de surdez”.

Os pais acham que o seu filho joga sempre melhor do que os outros que lá estão”, explica. Esta será a génese de todos os comportamentos questionáveis que se veem pelo país fora, seja em bancadas de um campo de futebol ou num qualquer pavilhão. Ou seja, é transversal a todos os desportos.

Eu tinha uma regra: quando o pai interfere no jogo, de uma forma visível, o menino sai. ‘Estou farto de dizer para ele estar calado’, chegaram-me a dizer miúdos. Se o pai diz joga para a esquerda ou centro, faz aquilo, faz assado, à segunda vez vou tirar o menino. Depois explico-lhe muito bem: o pai é muito amigo dele, mas neste caso não está a ser.” Esta estratégia levou os miúdos do clube canarinho a dizerem entre eles “com este não pega”, por isso é seguro dizer que os pais foram, de certa maneira, educados. “Uma vez, em Vila Franca, eles estavam lá em cima a dar gritos que se ouvia no campo, a 500 metros, se calhar… É uma doença autêntica!

“Uma vez em Vila Franca, eles estavam lá em cima a dar gritos que se ouviam no campo, a 500 metros, se calhar… É uma doença autêntica!”

Vítor Silva

O primeiro passo, diz Vítor Silva, é compreender e definir a filosofia da formação. “O desporto não é só para aqueles que jogam bem. O que interessa é a entrega, andar de cabeça levantada. Muitas vezes, o menino é o que o pai lhe diz em casa. E diz-lhe de tudo, que não devia ter saído, que devia ter sido assim… A criança fica baralhada.” O treinador entregava um livrinho aos jovens, nos quais ensinava e explicava o porquê de jogarem na tal posição e os princípios de jogo. “Nunca se falava no que é melhor [jogador], porque se ganha e perde… Fala-se, sim, na capacidade de se entregar à dificuldade.”

Vítor tentava aproximar os pais — “sem os pais não fecha o triângulo” –, dando-lhes documentos, marcando três a quatro reuniões por ano. “No primeiro ou no segundo jogo, os pais iam ao balneário para ouvir a conversa antes do jogo, para perceberem que eles nem estavam a ver bem, nem sabiam o que a equipa queria para aquele jogo.” Depois, não havia conflito com a escola: quem falha treinos para estudar, não será riscado da convocatória.

Este homem não tem dúvidas: “Se tivéssemos aqui o Mourinho, o Guardiola e mais quatro ou cinco, se calhar havia diferenças [nas decisões]. Os pais podem ler muito e ver muitos jogos, mas não é possível comportarem-se assim. O prejuízo vai cair sobre o menino. Basta o pai começar aos gritos e ele começa logo a tremer. Depois não sabe o que fazer. Fica completamente a tremer, com medo.”

“O prejuízo vai cair sobre o menino. Basta o pai começar aos gritos e ele começa logo a tremer. Depois não sabe o que fazer. Fica completamente a tremer, com medo”

Agora, Vítor está no Talaíde, “com miúdos de bairros mais complicados de Lisboa”, por ser mais preciso ali. “Tudo isto é muito diferente. Uma coisa é o Estoril, outra é isto. A maioria dos pais não quer saber de nada. É gravíssimo. Um menino vem ter comigo e diz-me ‘eu vou embora’ e ‘nestas equipas há poucos ciganos e muitos pretos’. Isto dito por uma criança de oito anos.” Lembrando a realidade do Estoril, esboça a primeira gargalhada: “É preciso ter alguma firmeza. É que por terem vidas boas julgam que os treinadores sem aquilo [futebol], coitados, morriam à fome”.

Neste clube mais modesto é complicado levar à risca a tal regra de tirar um jovem caso o pai esteja mais exaltado. É que no futebol de 7 tirar um ou dois, não havendo mais ninguém para entrar, torna-se uma tarefa difícil. “Temos de entrar num processo de surdez. Claro que depois falamos, explicando o que poderá acontecer. Tem de haver esta postura de falar com os pais, sem isto [o triângulo] fechar não vai correr bem. Depois juntam-se os estudos e relatórios que fazemos — uma trabalheira! A criança beneficia com isso.”

“Quando o miúdo falhou, o pai levantou-se, encostou-se à grade e gritou: ‘És uma merda!’”

No basquetebol a coisa não fica mais pacífica. Quem o diz é Ricardo Reis, de 36 anos, atualmente a treinar as juniores do Queluz. “Já vi pais a entrar em campo para agredirem árbitros. Já vi pais a agredirem-se”, conta, ressalvando que tais cenas aconteceram no basquetebol masculino.

No feminino nota-se menos, há um grande sentimento de proteção dos pais. Ainda há umas semanas, fiquei a ver o jogo dos iniciados masculinos na bancada e fiquei ao lado de um pai e fiquei chocado. O miúdo estava dentro de campo, mas não se estava a divertir. Estava a ser terrível para ele. O miúdo até é dotado e tem capacidades técnicas, mas não conseguia fazer nada, porque o pai estava a colocar-lhe uma pressão em cima…”, lembra.

E continua: “Quando o miúdo falhou um lançamento na passada, o pai levantou-se, encostou-se à grade e gritou: ‘És uma merda! Hoje não jantas, não te vou dar jantar!’ Era um menino de 11, 12 anos. São muito poucos estes casos, mas acontecem. E isso depois tem influência em tudo, nas aulas também. Ir para o basket passa a ser castigo”, explica.

Por norma, vemos pais que foram jogadores, que acabam por transferir para os filhos as frustrações deles. Queriam ter uma grande carreira e não conseguiram, então obrigam os filhos a seguir basket, querem que vinguem e sejam grandes jogadores. Esta pressão é muito mais evidente nos clubes que têm grande historial e palmarés.”

“Por norma, vemos pais que foram jogadores, que acabam por transferir para os filhos as frustrações deles. Queriam ter uma grande carreira e não conseguiram, então obrigam os filhos a seguir basket, querem que vinguem e sejam grandes jogadores. Esta pressão é muito mais evidente nos clubes que têm grande historial e palmarés.”

Ricardo Reis

Pedro Marques jogou basquetebol dos 8 aos 23 anos e nunca viu grandes filmes tristes, mas centra a atitude negativa dos pais nos árbitros. “Tinhas de tudo: os que não iam aos jogos, como os meus, os que iam para cumprir o sacrifício semanal e os que até se interessavam e aprendiam o suficiente para ir para a mesa de jogo e se insurgiam com os árbitros”, conta ao Observador. “Eu acho que o futebol nisso é capaz de ser um caso à parte porque, bem ou mal, toda a gente sabe os mínimos para duvidar de certas decisões. No basquetebol, que não faz parte da cultura portuguesa, é preciso um processo de aprendizagem para se refilar com razão.”

Marques representou as Oficinas de S. José, por isso, explica, não existia a pressão e dinâmica de clubes como Algés, Benfica, Queluz, Belenenses ou Barreirense. Num desses pavilhões, as tabelas chegavam a ser abanadas e a sua equipa alvo de cuspidelas. “Não sei se algum pai pensa em fazer do filho uma mina de ouro, como no futebol, até porque nenhum basquetebolista português é rico ou reconhecido”, desvaloriza.

“Mais tarde fui árbitro, quando não havia ninguém, e cheguei a parar o jogo, com a polícia a pedir-me para não responder aos pais.”

Nós tínhamos um pai que era ao contrário”, recorda Pedro Marques, de 28 anos. “Ele ameaçava o filho que o tiraria do basquetebol se ele continuasse a ser excluído por fazer as cinco faltas. De resto, não havia nenhum pai muito chato. (…) Mais tarde fui árbitro, quando não havia ninguém, e cheguei a parar o jogo, com a polícia a pedir-me para não responder aos pais. É a velha história: não tendo eu pernas e idade para isso, e sabendo o que sei hoje, vou moldar o meu filho à imagem do meu sonho.”

Pedro recorda também o caso de um colega que chegou a ser rival, que depois conseguiria atingir o estatuto de profissional naquele desporto. “O pai dele, nosso conhecido, e militar de carreira, era meio avariado. Como a coisa estava negra para eles (no Atlético), e provavelmente porque achou que o filho estava a levar muita cacetada — fazes o que podes com os gigantes –, refilou tanto com o árbitro que o jogo parou. O árbitro mandou a polícia identificá-lo. Não sei se isto obriga a ir à esquadra, mas não voltam a entrar no pavilhão, isso é certo.”

“No basket acontece uma coisa com muita frequência: os árbitros, caso não sintam segurança, têm a possibilidade de parar o jogo para pedir ao responsável para dizer a uma pessoa para sair do pavilhão. Vejo isso quase todos os fins de semana”

No basket acontece uma coisa com muita frequência”, explica Ricardo Reis. “Os árbitros, caso não sintam segurança, têm a possibilidade de parar o jogo para pedir ao responsável para dizer a uma pessoa para sair do pavilhão. Vejo isso quase todos os fins de semana.”

É possível educar os pais? Ricardo Reis acredita que é “impossível”, que terá de partir do bom senso. “No início de cada época, faço uma reunião com os pais, para perceberem os seus limites. Um pai que tem determinados comportamentos na bancada legitima qualquer coisa que o filho faça no campo. O exemplo vem de cima. Vê-se facilmente miúdos a entrarem em confrontos, vê-se miúdos a responder aos treinadores. É isso que acontece em casa. E nas bancadas.”

“Os pais são uns índios, mas em relação aos árbitros”

Sarah Saint-Maxent tem 24 anos e foi treinadora, até recentemente, de voleibol feminino. “Os pais são uns índios, mas em relação aos árbitros. Têm uma frustração muito grande. Diria que isso é transversal aos outros desportos. O árbitro está muito a jeito para ouvir”, explica.

Os pais das minhas jogadoras eram bastante civilizados, elas eram novas. Quando passamos para escalões mais velhos — juvenis e juniores –, aí é uma grande peixeirada, em direção às próprias filhas, adversárias, treinador e árbitro. É o que estiver mais à mão”, conta. Sarah considera que há menos ofensas gratuitas nos pavilhões, precisamente porque estes estão fechados e porque se ouve muito mais, sendo fácil identificar as pessoas. “Entre pais, irmãos, avós e amigos, os pais são claramente a pior assistência”, considera.

Como não tinha carteira de treinador, ficava do lado dos pais na bancada. Por isso, acho que havia mais contenção. É diferente, não dizem as mesmas coisas”, sublinha.

“Os pais das minhas jogadoras eram bastante civilizados, elas eram novas. Quando passamos para escalões mais velhos, juvenis e juniores, aí é uma grande peixeirada. Em direção às próprias filhas, adversárias, treinador e árbitro.”

Poderá a atitude dos pais refletir-se nos comportamentos dos filhos? “Depende da personalidade dos miúdos. Quando dei treinos no Belenenses, quanto mais tímidas eram, pior reagiam aos pais a mandar bocas. Notava-se que algumas miúdas ficavam incomodadas, menos confiantes. O jogo delas às vezes mudava. Na hora do remate, por exemplo, faz muita diferença, porque se nota que a crítica reflete-se no jogo delas. Para outras, é igual ao litro ouvirem coisas. Há ainda aquelas que dizem que a única voz que manda é a do treinador. É uma coisa com a qual elas têm de aprender a lidar.”

“Há jogos em que se perde o controlo por berros que os pais mandam contra árbitros, colegas e adversários”

Bernardo Vaz, de 29 anos, tem alguns anos de experiência no futebol jovem e sénior e já viu de tudo. “Existem todos os tipos de pais: os desportistas e com fair-play — mesmo que o filho não jogue muito, estão lá a apoiar; há também aqueles que dizem mal de tudo e todos, até dos próprios filhos; outros que para eles o filho é o maior e devia jogar sempre, portanto o culpado é o treinador; e outros que estão sempre com falinhas mansas para ver se o filho é titular — pagam cervejas e até almoços ou jantares.

A influência, apesar de tudo, era normalmente positiva, diz. “Mas alguns pais colocavam bastante pressão no filho — ‘tens de jogar mais!’, ‘remata!’, ‘burro!’. Outros, infelizmente, nem apareciam”, conta. “Nós tentávamos que existisse uma boa relação com todos, pais incluídos. Muitos miúdos já eram amigos fora de campo e os pais conheciam-se, o que facilitava. Organizávamos dois, três jantares por ano.”

“Há pais que incentivam a violência: o miúdo leva uma porrada e o pai diz para lhe dar também. Já vi a andarem à tareia na bancada, o que fez com que o filho subisse à bancada para ‘proteger’ o pai. Vê-se pais a queimarem [criticar duramente publicamente] os filhos — ‘não jogaste nada’, ‘és muito fraquinho’.

Bernardo Vaz

Os capítulos infelizes são muitos e variados. “Há pais que incentivam a violência: o miúdo leva uma porrada e o pai diz para lhe dar também. Já vi a andarem à tareia, o que fez com que o filho subisse à bancada para proteger o pai. Vê-se pais a queimarem [criticar duramente publicamente] os filhos — ‘não jogaste nada’, ‘és muito fraquinho’. Em alguns casos é em tom de brincadeira, mas há miúdos muito frágeis a nível psicológico e isso reflete-se. Os pais deviam saber isso melhor do que ninguém!” E há mais: ofensas ao treinador ou o caso de um pai, conta Bernardo, que invadiu e interrompeu o treino para pedir justificações por o filho ser suplente, porque era muito melhor do que o que jogava.

“É complicado educares adultos. As atitudes podem dever-se a várias situações: problemas no trabalho, no casamento, há problemas com o álcool (já apanhei alguns). Penso que, de certa forma, até são os próprios filhos, sendo mais inocentes, que podem fazê-lo, chamando-os à razão e mostrando vergonha pelo comportamento”, explica.

Rui Silva, de 31 anos, coincidiu com Bernardo Vaz num dos clubes e não tem dúvidas: os pais respeitam cada vez menos quem tem responsabilidade sobre os filhos — treinadores e professores. “Em casa, o jogador não tem qualquer impulso positivo do pai, sobre ter de respeitar o treinador”, diz.

“Os pais, muitas vezes, não têm o distanciamento necessário para saber o que o filho pode dar. Exercem influência negativa na atividade do filho, quando essa é apenas lúdica. Enquanto o treinador diz uma coisa, o pai diz outra. Para uma criança, fica complicado perceber a quem deve obedecer. Essa luta de esferas é uma grande complicação para o treinador conseguir afastar a voz do pai.”

“Vieram-me dizer no final que havia pais lá em cima na bancada que me tinham estado a chamar todos os nomes e mais alguns. Não teria feito nada, o problema é a imagem que passam aos filhos”

Rui Silva lembra alguns episódios da época em que era treinador de iniciados, nomeadamente na parte final de um jogo em que apostou na tática 3-2-5. “Vieram-me dizer, no final, que havia pais lá em cima na bancada que me tinham estado a chamar todos os nomes e mais alguns. Não teria feito nada, o problema é a imagem que passam aos filhos. Os próprios pais, que supostamente deveriam ter uma postura pedagógica, são os primeiros a perder o raciocínio lógico.”

Impensável aos seus olhos foi o que aconteceu quando era jogador, algo que não é assim tão improvável ver-se pelos campos do país. “Houve um jogo que foi interrompido porque os pais estavam à porrada na bancada. Acabou por ser decidido na secretaria. Na segunda volta, os clubes optaram por jogar à porta fechada.” Noutra ocasião, Rui chegou a mandar o pai de um colega calar-se: “Há jogos em que se perde o controlo por berros que os pais mandam contra árbitros, colegas e adversários. É um péssimo exemplo que dão”, esclarece.

“Só com uma campanha focada e global, a nível nacional mesmo. Só envergonhando quem faz isso, filmando, é que se consegue mostrar às pessoas a figura ridícula que fazem.”

Haverá solução? “Só pode ser através do bom senso. Só com uma campanha focada e global, a nível nacional mesmo. Só envergonhando quem faz isso, filmando, é que se consegue mostrar às pessoas a figura ridícula que fazem. Aquilo que se vê nos estádios nos seniores, o descarregar de adrenalina, faz-se também nos jogos de crianças. Não se justifica.”

Os maiores prejudicados, segundo as pessoas ouvidas pelo Observador, são sempre as crianças. “Perdem a sensação de autoridade. Como na escola, antes havia o ‘se o professor diz, o pai está do lado dele’, agora a situação reverteu-se. Com o treinador é a mesma coisa”, explica Rui Silva. “Os treinadores fazem um esforço para impor essa relação de autoridade e de respeito com os jogadores, mas os pais vão minando, com várias ações. Essas atitudes geram também frustração. Pior: podem criar uma geração inteira de gente insubordinada que terá dificuldades a nível laboral, ao deixar de saber ouvir e respeitar as instruções dos outros.”

Fonte: Observador por Hugo Tavares da Silva

Programa Executivo FGV/FIFA/CIES de aperfeiçoamento em Gestão de Esportes

Brasil – 10ª EDIÇÃO – 2018-2019

CRONOGRAMA: de Agosto de 2018 a Agosto de 2019

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Fonte: CIES

Saída Lavolpiana: o que é, quem a criou e suas “variações” atualmente

Uns anos atrás, um tipo de saída ficou muito conhecido e ficou sendo utilizada por muitas equipes durante muito tempo: a tal saída Lavolpiana. No entanto, todos esses times teriam usados essa saída com o intuito para qual ela foi criada? E por que esse nome é tão diferente? E, por fim, como esse tipo de saída tem sido utilizado de maneira ampla recentemente?

Saída Lavolpiana? O que seria isso?

Antes de descrever o que seria uma saída Lavolpiana, vou te mostrar quem é o fundador deste tipo de saída de jogo.

Ricardo La Volpe nasceu em Buenos Aires em 1952, atualmente, técnico do Jaguares do México é o criador da saída desta publicação e, por isso, que a saída de chama “Lavolpiana”. La Volpe, quando jogador, jogou em times e na seleção da Argentina e, também, em equipes mexicanas. Já como técnico, ele comandou prioritariamente clubes mexicanos, inclusive a Seleção Mexicana, em sua carreira.

Imagem de Ricardo La Volpe de quando chegou ao Jaguares.

Mas como um tipo de saída que acontecia no México passou a ser conhecida mundialmente? A resposta passa por Josep Guardiola e a Copa do Mundo de 2006.

Quando Guardiola se aposentou em 2006, ele passou a ter tempo para ver e estudar o que acontecia em diferentes países. Ele mesmo afirmou em seu livro de que o seu modelo de jogo é baseado naqueles aspectos táticos que mais o agrada, e um desses aspectos, durante toda sua passagem no Barcelona, foi a saída Lavolpiana. Em um desses estudos durante a Copa do Mundo de 2006, Pep Guardiola viu o jogo entre o México e a Argentina e ficou admirado com a maneira com que o México saía facilmente do seu campo defensivo com a bola no chão. Aquele México era comandado por Ricardo La Volpe.

Depois de dois anos da Copa do Mundo de 2006, Guardiola assumiu o elenco principal do Barcelona. Em cinco anos, ele, seu elenco e seu modelo de jogo mostraram ao mundo diferentes aspectos táticos de futebol, entre eles a saída Lavolpianda. Diante do sucesso daquele Barcelona, a saída Lavolpiana ficou conhecida mundialmente e passou a ser reproduzida.

Um dos exemplos de saída Lavolpiana usada no Barcelona de Guardiola: Busquets se enfiou entre os zagueiros Piqué e Abidal.

Mas afinal, o que seria uma saída Lavolpiana?

A saída Lavolpiana foi criada com intuito de facilitar a saída de jogo pelo chão e de gerar superioridade numérica atrás dos atacantes adversários. Como muitos times naquela época usavam dois atacantes, a saída que Ricardo La Volpe encontrou foi recuar um dos seus jogadores e, então, alinhar-se aos dois que estavam sendo pressionados pelos atacantes adversários. Como totalizando o número de jogadores do time que estava com a bola dava três, a saída Lavolpiana é também conhecido como a “saída de 3”.

Tendo dois atacantes pressionando dois jogadores em campo defensivo, para facilitar a saída de jogo e aumentar as chances de sair pelo chão, La Volpe recuou um dos seus outros jogadores.

Continuando o raciocínio, como não havia espaço para que este terceiro jogador pudesse entrar entre os dois que estão fazendo a saída, outros mecanismos característicos da saída Lavolpiana são a liberação dos lados dos campos e abertura do trio que irá se formar. Isso tudo tem algumas intenções.

Para recuar um jogador, dois avançaram e outros dois abriram espaço para o recuo ser possível.

Uma das intenções da saída Lavolpiana é ter um jogador atrás da linha dos atacantes adversários em cada faixa do campo. Devido a isso, há possibilidades de sair pelo chão em qualquer uma dessas faixas, pois dois jogadores só conseguem fechar, no máximo, duas faixas de campo.

E agora, com o portador da bola tendo uma opção de passe para trás, uma invertendo o lado e outra a frente, como o atacante irá pressioná-lo e ter grandes chances de desarmá-lo? E mais, como o outro atacante vai continuar a pressão na saída de bola adversária, se agora ele tem duas linhas de passes para marcar sozinho? É, parece que a bola irá sair pelo chão.

Com o portador da bola tendo três opções de passes, dificilmente o passe será realizado erroneamente.

E isso não é tudo. A saída Lavolpiana também tem a intenção de atrair o adversário para o campo defensivo e, então, gerar linhas de passes seja invertendo o lado, ou achar algum jogador livre perto do meio-de-campo. As chances de haver uma saída pelo chão são realmente grandes.

Na imagem acima, há, pela demonstração 3, a representação de quando há uma linha de passe invertendo o jogo, e pela demonstração 4, quando há uma opção pela faixa central.

E você reparou no detalhe de que até agora não citei de que necessariamente a saída Lavolpiana é realizada por dois zagueiros e o “1° volante”? Pois é, e ela não precisa mesmo. Como a intenção é gerar maior facilidade na saída de jogo pelo chão, ela pode-se ser realizada com quaisquer três jogadores. Claro que o mais comum é quando o tal “1° volante” recua entre os zagueiros, mas veja se estas situações não entram nas mesmas intenções e movimentações anteriormente descritas:

O próprio Guardiola em seu Barcelona havia demonstrado situações diferentes para uma saída Lavolpiana: Abidal, lateral-esquerdo, era quem fazia o lado esquerdo dos três jogadores enquanto que Piqué, zagueiro, fazia o lado direito.

Como os goleiros estão passando a fazer mais parte da saída de jogo, por que não incluí-los na saída Lavolpiana?

Hernani, conhecido “2° volante” do Atlético-PR, recuou para fazer uma saída Lavolpiana e olha para onde ele recuou: para o lado direito! Como o restante do time se movimentou de acordo com todas as outras movimentações que caracterizam uma saída Lavolpiana, esse recuo de Hernani não se pode considerar que o Furacão realizou uma saída Lavolpiana? Sim! Claro que pode!

Assim como o Barcelona de Guardiola e outros casos acima demonstrados, a saída Lavolpiana deixou de ser usada somente através do recuo do “1° volante”, mas, sim, de maneira ampla, pois bastam ter quaisquer três jogadores, após a sua equipe ter se movimentado para tal.

E para responder a última pergunta de abertura deste texto: todos os times que utilizaram essa saída teriam a feito com o intuito para qual ela foi criada? A resposta é não! Desde 2010, a saída Lavolpiana passou a ser usada e, algumas vezes, usada porque estava na “moda”. Diante de tantos esquemas que iniciam a sua marcação com somente um atacante (como o 4–2–3–1, 4–1–4–1 e etc), o recuo de um jogador para auxiliar a saída foge de uma das intenções iniciais de uma saída Lavolpiana que é de gerar superioridade numérica atrás dos dois atacantes adversários. Como se tem só um jogador pressionando dois jogadores do time com a bola, a superioridade já está feita.

Precisaria mesmo desse recuo de Thiago Motta entre os zagueiros para gerar superioridade numérica atrás da linha do atacante adversário? Oras, em dois zagueiros tem mais jogadores do que em um atacante (Imagem retirada do blog Dissecando Futebol ).

Enfim, a saída Lavolpiana foi criada com intuito de facilitar a saída de jogo pelo chão e de gerar superioridade numérica atrás dos atacantes adversários, devido a isso é que se procura ter três jogadores, um em cada faixa do campo, atrás de dois atacantes. E no caso de três jogadores, é melhor ter o jogador do centro mais atrás do que os outros dois, pois assim facilita ter a opção de virada rápida pelo chão e pelo alto.

Fonte: Caio Gondo (Medium)

A história da geração perdida

Todos eles, Ronaldinho Gaúcho, Kaká, Robinho e Adriano são, uns mais outros menos, jogadores históricos. Como dizer que são a geração perdida? O redator é louco, só pode.

De trás pra frente, é até relativamente simples montar um caso para Adriano. Um 9 com um canhão no pé esquerdo, um monstro, um armário, cheio de categoria, com o faro do gol. Por anos tido como legítimo sucessor de Ronaldo. De bolso cheio como poucos, e com problemas psicológicos e familiares tão próprios a qualquer ser humano, no entanto, ele deixou de ser um atleta, e isso o futebol de elite, o de primeiro nível, não permite. O prometido, aquele que comandaria a ofensiva brasileira na África do Sul, no Brasil, e quem sabe na Rússia, acabou mesmo só como um pedacinho do fiasco na Alemanha.

Explicar o caso Robinho também não é desafio impossível. O 7 que deslizava em campo, ponta-moleque o qual, nascido em casa deles, ousavam comparar a Edu, até mesmo Pelé. Ao deixar o país, trocando de camisa branca, ninguém riu de seu desejo de se tornar o número 1. Ao discurso não faltava humildade, sobrou foi o sincero, o espontâneo de um sonho, ao qual todos têm direito. Mais um ‘R’ com aquela aura de gênio? Dali pra frente são as coisas do futebol, alguns bons anos na Europa, a reserva questionável em 2006, a estrela minguante em 2010. Atacante tático; endurecido. A habilidade nunca ninguém negou, penteava, balançava, mas deslizar já mais não. As compensações, porque artilheiro-artilheiro nunca foi e, se não pôde fazer mágica, preferiu entregar tática. Bom jogador, Caio? Bom jogador. Gênio? Ahn… não. Craque? Dá horas de ótima discussão.

Ah, mas agora chegamos nos mais intrincados, os dois que realmente chegaram lá.

Kaká. Uma arrancada como a de, como a de quem? O leitor sabe, daqueles jogadores que têm aquela assinatura, aquela uma característica completa e comprida, incomparável e imparável. Como Garrincha puxando à direita torta, ou Robben à esquerda reta. Uma certa jogada que muitos fazem, mas que certo jogador faz a seu próprio modo, melhor. Do alto de seu quase 1.90m, então, uma força explosiva que parte e ameaça, desde o campo de defesa, cobrir o campo inteiro com pisadas estrondosas. Defensores encostavam nele; caíam. Kaká tinha um físico especial como o de Ronaldo Fenômeno, mas, diferente deste, sem isso não conseguia ser brilhante. Tinha, sim, tudo, visão, inteligência, poder de finalização. Só com seu arranque e em seu auge físico, porém, o 8 era capaz de dominar o mundo; e como mostra também a história de Nazário, parece que o corpo humano não foi feito para suportar esse tipo de estrutura físico-performática por muito tempo. Conforme a base de seu jogo era avariada por lesões, perdia-se o líder que a Seleção Brasileira precisava para a próxima década.

Finalmente, o bam-bam-bam, o ás da turma: o Lendário. Na primeira metade da carreira, especialmente a partir de sua plenitude na virada do século, Ronaldinho Gaúcho, jogador de futebol, inventou um outro jogo, que só ele sabia jogar. Sim, ele estava ali, dentro de um campo de futebol, cercado de jogadores de futebol e, no entanto, as coisas que ele criava superavam qualquer devaneio de quem quer que tenha inventado esse jogo chamado futebol. Qualquer outro jogador que já foi alcunhado de mágico, mago, bruxo, diante dele faria questão de abandonar o apelido, em reverência à lenda de Ronaldinho Gaúcho. Seu estilo, o modo que exercia seu jogo, assegura-lhe lugar de honra dentro do panteão de gênios históricos do esporte. Talvez tenha sido por causa disso, por seu gênio, e por ter alcançado o topo do topo, que subitamente cessou o fogo do 10. Para quem ousou desafiar a perfeição, os limites da plástica, pode ser que realmente não houvesse mais para onde ir, onde mirar. A exemplo de Ronaldo Nazário, e diferente de Kaká, mesmo à meia-bala o Gaúcho é um artista, a cada toque, a cada movimento. Mas ele não perseguiu a longevidade daquele nível absurdo. Veja o contraponto de Zidane, único da época páreo a Ronaldinho; aos 34 ele carregava a França à final da Copa de 2006 – mesma idade do Gaúcho na Copa de 2014, da qual o brasileiro passou longe, sambando.

Gaúcho. Kaká. Robinho. Adriano.

Junte tudo isso em uma mesma Seleção, um dos anos-chave é 2006. Nenhum dos quatro jogou perto do que podia naquele time. Cada um a seu tempo, os quatro foram mudando, e seus jogos, cada um sob seu próprio mistério, deteriorando. Adriano, o Imperador que decidiu se recolher às ruas da infância. Robinho, o profeta de Pelé que virou… um ótimo jogador. Kaká, o nobre cavaleiro que perdeu sua armadura. E Ronaldinho, um deus – que foi descansar um pouco mais cedo.

Conforme essa geração magnífica se perdia nas veredas do futebol e da vida, a Seleção sofria, a Seleção sofreu, e com ela o Brasil. O outro ano-chave é 2014. Nessa Copa, Ronaldinho, como se disse, tinha 34 anos. Kaká, 32. Robinho, 30. Adriano, 32. Em um universo paralelo, em que esses quatro não tivessem rompido tão bruscamente com seus auges, bom, é simples: nesse mundo não existe 7 a 1.

PS: E você, acha que essa é mesmo uma geração perdida? E será que existe a relação entre ela e o 7×1, ou o redator está mesmo maluco?

Fonte: Na Furquilha

1° curso online en rondos

Me gustaría invitarte a participar del primer curso online que estaré realizando en Rondos: 5 Fundamentos para crear videos de Fútbol, el próximo miércoles 21 de marzo.

En él, estaré compartiendo, de manera teórica y práctica, 5 de los Fundamentos que tengo en cuenta a la hora de realizar mis videos. Crearemos un video de fútbol en vivo, para que luego puedas incorporar esas ideas a tus propios videoanálisis.

Fonte: Rondos.Fútbol

Será o Empoli a Escola de Treinadores italianos?

Já toda a gente que segue o blog percebeu que nutro um especial apreço por Sarri. Pela sua enorme paixão por futebol, que o levou a deixar o seu trabalho na banca para se dedicar aos relvados; pelo seu feitio e estilo peculiares que o levam a protagonizar algumas cenas caricatas como ter um dos seus assistentes a servir-lhe café durante os treinos, fumar durante os jogos ou ser fiel ao seu fato de treino; mas principalmente pelo estilo de jogo que impõe às suas equipas. Estilo esse que as catapulta para um patamar superior, levando os próprios jogadores a mostrar um rendimento muito acima do que vinham mostrando até então. É, para mim, e por larga margem, o melhor treinador italiano da actualidade.

E toda esta admiração começou quando ele treinava um pequeno clube da região da Toscana, homónimo da cidade onde está sediado – o Empoli. O clube que equipa de azul, presidido por Fabrizio Corsi, tem reunido ao longo do tempo um conjunto de jogadores com características bastante interessantes, desde Hysaj, Zielinski, Sapponara, Mario Rui, Tonelli, Verdi etc e mais recentemente Bennacer, ex jovem estrela do Arsenal, Krunic e Zajc etc. (sobre os quais me irei debruçar mais adiante). E conseguiu juntar a estes leque interessante de jogadores, treinadores que tem vindo a subir a pulso na carreira.

Primeiro Maurizio Sarri, atualmente no topo da tabela com o seu Nápoles que compete com a toda poderosa Juventus, num feito verdadeiramente incrível e, na minha opinião, até um pouco desprezado. No Empoli, protagonizou uma subida de divisão em 2014 da Serie B para a Serie A, tendo na época seguinte conseguido o 15º lugar na primeira divisão italiana. Apresentava um futebol positivo, atrativo, onde chamava à atenção a qualidade da sua linha defensiva, com comportamentos de excelência no controlo da profundidade e largura, colocação dos apoios etc. O Empoli utilizava geralmente um 4x3x1x2 com um futebol bastante vertical e penetrativo no corredor central. Um médio ofensivo com grande qualidade técnica e criativo, um médio defensivo capaz de auxiliar na construção sob pressão e laterais cautelosos, não desequilibrando a equipa em prol de uma maior solidez defensiva para além de auxiliarem também na primeira fase de construção.

Seguiu-se-lhe Marco Giampaolo, sugerido pelo próprio Sarri para o suceder no comando da equipa toscana. Também ele era, até então, um treinador com uma carreira feita nas divisões inferiores. Aproveitando a base deixada por Sarri, Giampaolo partiu para uma boa época no Empoli conquistando o 10º lugar na Serie A. Usando um 4x3x1x2 novamente, os azuis da Toscania voltaram a apresentar um futebol de controlo do jogo, penetrando com trocas de bola rápidas, desorganizando o adversário e criando situações de finalização. Pelo caminho potenciou vários jovens entre os quais Zielinski e Leandro Paredes, hoje no Nápoles e no Zenit respectivamente. As exibições da equipa valeram ao italiano de origem suíça uma transferência para a equipa da Sampdoria onde continua a conseguir boas exibições e resultados.

Numa tentativa de prosseguir com o mesmo estilo, o nome seguinte foi o do adjunto de Sarri e Giampaolo. Porém, com Martusciello a equipa perdeu qualidade que tinha na construção de jogo e no capacidade da linha defensiva. Consequentemente, a progressão vertical a que as equipas do Empoli nos tinham vindo a habituar foi-se perdendo.  E com esta perda de qualidade vieram os maus resultados e uma nova descida à Serie B.

Mas ambicionando voltar aos tempos do bom futebol e dos resultados positivos para almejar a subida à primeira liga, a direcção presidida por Fabrizio Corsi apontou Vincenzo Vivarini, que trabalhara com Sarri e Giampaolo no Pescara, como treinador principal, pensando talvez que as ideias seriam próximas. Vivarini tentou uma abordagem com 3 centrais e dois alas e um meio campo pouco criativo, num esquema tático que fugia à matriz do Empoli. Esta opção acabou por resultar em alguns resultados positivos, tendo alcançado o primeiro lugar na oitava jornada. Porém, com uma qualidade de jogo que não convencia totalmente a direcção e sem criar muitas oportunidades de finalização,  o resultado final foi uma quebra ao nível de pontos que os colocou no quinto lugar. Algo precisava de mudar para que o Empoli se aproximasse novamente da luta pela subida directa à Serie A.

Foi então que alguém sugeriu à direcção o nome de Aurelio Andreazzoli, ex-adjunto de Spalletti, Luis Enrique, Zeman e Rudi Garcia na Roma. O técnico de 64 anos estava sem clube desde o final da época passada, coincidindo com a mudança de Spalletti para o Inter de Milão. Adjunto de Spalletti (técnico que também começou a sua carreira como treinador no Empoli) por mais que uma ocasião e durante muitos anos, Andreazzoli estava identificado com o futebol de domínio pretendido pela direcção toscana. Começou então a introduzir algumas alterações que se tem vindo a verificar certeiras. Regressou ao 4x3x1x2 característico do Empoli, com várias trocas de bola rápidas e penetrativas. O portador da bola sempre com várias opções de passe vertical que permitem a progressão rápida no terreno de jogo. Gosto pela posse de bola como forma de assumir o controlo de jogo e procura da criação de situações de finalização. E com o gosto pela posse vem a necessidade de utilizar jogadores cuja qualidade técnica permita desmontar blocos cada vez mais compactos. É aí que surge o lugar especial guardado neste esquema para o médio ofensivo. Com Sarri e Giampaolo foi Sapponara que assumiu a responsabilidade. Andreazolli viu em Zajc as características necessárias para desempenhar a função.

Miha Zajc, jovem médio esloveno de 23 anos, parece ser daqueles jogadores especiais. Com toques de magia verdadeiramente empolgantes, o médio que era um habitual suplente com o ex-técnico Vivarini, assumiu-se como peça chave do modelo de jogo de Andreazolli.

Capaz de desmontar defesas adversárias com um simples toque, Zajc apresenta uma visão de jogo assinalável, com criatividade de sobra. É ele a peça que permite ao Empoli furar a última linha adversária. Seja a oferecer um apoio frontal, seja a desequilibrar com os seus passes em rutura, seja numa simples tabela, o esloveno parece sempre encontrar a melhor solução naquele contexto. Faz das zonas densamente povoadas do terreno, como é o espaço em frente aos defesas contrários, o seu habitat natural, parecendo verdadeiramente confortável em tais situações. A aposta do recém apontado técnico nele só lhe veio trazer ainda mais confiança para que, inserido num modelo adequado às suas características, seja o verdadeiro desequilibrador da equipa. Desde a chegada de Andreazolli na vigésima jornada, o camisola 6 já esteve directamente ligado a golos (sendo o marcador ou assistindo) em 10 ocasiões em 8 jogos. Um registo absolutamente estonteante que para além de ser um registo individual, funciona também como certificado de qualidade do modelo idealizado pelo seu técnico.

A Zajc junta-se na frente de ataque um avançado muito interessante embora já com 30 anos. Francesco Caputo leva já 20 golos em 28 jogos e demonstra muita capacidade em associar-se com os colegas de modo a criar situações de finalização mais favoráveis. Atrás de Zajc aparecem mais dois jovens muito interessantes jogando como interiores. Krunic leva já 24 anos mas apresenta qualidade no transporte de bola, bom físicamente e parece saber defenir bem situações de transição. Bennacer é um promessa do futebol argelino que fez parte da sua formação no gigante inglês Arsenal. Muita qualidade técnica, capacidade de se associar, usando bem os apoios para progredir. Marcou este golo sensacional há bem pouco tempo.

As alterações introduzidas por Andreazzoli vieram então dar um novo fôlego a um Empoli que pretende voltar a jogar ao mais alto nível. O futebol positivo que tem vindo a praticar vem recompensar a ambição e audácia em apostar em nomes novos, que pretendem jogar um bom futebol, entreter o adepto e ao mesmo tempo aproximar a equipa da vitória. Esta atitude já deu ao futebol italiano o reconhecimento nos palcos maiores da qualidade de Maurizio Sarri e Marco Giampaolo. Já deu em tempos também oportunidade a um jovem Spalletti para começar a sua já interessante carreira. Colocará também agora aos olhos do mundo a qualidade de Andreazzoli?

PS: Apesar do tempo ser escasso, pretendo seguir mais atentamente esta equipa do Empoli. A amostra que vi é, para já, ainda curta. Pelo que poderei estar a ser erroneamente induzido a algumas conclusões. Ainda assim há algumas coisas que tem vindo a aparecer sucessivamente sendo isso indicador de que é algo trabalhado. Para além disso, a qualidade de alguns jogadores referidos acima parece ser inegável também. Ainda assim, deixo sempre aqui a salvaguarda da necessidade de ver uma maior amostra.

Fonte: O Meio Campo por Jorge