I Congresso Brasileiro dos Jogos Esportivos Coletivos (Outubro/2018)

Data: 19, 20 e 21 de Outubro 2018

Local: Brasília – DF

Inscrições e informações: www.lcbjec.com.br

Organização: GEEFE / GESPORTE / UFMG

Apoio: CREF7 / Journal of Health Connections

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Desigualdade social afeta o acesso às atividades físicas

Os benefícios da prática esportiva e de atividades físicas são amplamente conhecidos em variados âmbitos da sociedade. As AFEs comprovadamente promovem melhorias na saúde, cognição, sociabilidade, além do aumento na qualidade de vida de modo geral. Não obstante a quantidade significativa de benefícios, apenas 30% da população brasileira é ativa.

O relatório divulgado pelo PNUD indica que o sedentarismo de 70% da população brasileira não é resultado isolado da falta de estímulos à prática esportiva e de atividades físicas, mas sim de desigualdades sociais que afetam sensivelmente o acesso da população à possibilidade das práticas.

Os dados mostram que disparidades em fatores sociais como gênero, classe social, etnia, nível de escolaridade e faixa etária são preponderantes na divisão entre praticantes e não praticantes das AFEs. Os homens tem 28% mais chances de praticar esportes do que as mulheres. Pessoas com mais de cinco salários mínimos praticam o dobro de esportes e atividades físicas que pessoas com renda de até meio salário mínimo. Brancos praticam 12% mais AFEs que os negros.

O papel das Escolas na cultura da prática esportiva e atividades físicas.

O panorama escolar demonstra que desde muito cedo as diferenças socioeconômicas afetam as relações que os jovens estabelecem com a prática esportiva e de atividades físicas. Segundo o responsável pela direção acadêmica do relatório, o Prof. Dr. Fernando Jaime González, é papel das escolas a democratização do acesso ao conhecimento sobre as AFEs.

Apesar dos diferentes problemas que podem ser registrados em relação à disciplina Educação Física na atualidade, está claro que, quando suas aulas asseguram aprendizagens valiosas sobre as práticas corporais, esses conhecimentos têm um peso enorme no vínculo que as pessoas estabelecem com o mundo das AFEs para o resto da vida”, declarou González.

O especialista da ONU aponta ainda que as condições necessárias para o desenvolvimento da Educação Física de qualidade devem ser garantidas. Para isso é necessário que as escolas tenham maior aderência ao conceito Escola Ativa, uma evolução do movimento Nova Escola que ganhou força no Brasil no início do século XX através do manifesto redigido por Fernando de Azevedo.

O conceito Escola Ativa defende que muito mais que depender de iniciativas governamentais, as escolas devem ter participação ativa das comunidades e da iniciativa privada, com programas que incentivem a prática esportiva e de atividades físicas não só na grade curricular, mas também em contraturno e aos finais de semana, e abertas à comunidade.

O Programa Cultivar está alinhado ao conceito de Escola Ativa. O sistema oferece materiais práticos, didáticos e pedagógicos especializados em Educação Física e incentiva a cultura das AFEs nas escolas e comunidades.

Fonte: Guarani Sport

“Estás de castigo… Mas vais ao treino”

Frequentemente os Treinadores de Futebol nos Escalões de Formação lidam com crianças e jovens que, fora do âmbito futebolístico, mas no seu quotidiano, têm atitudes menos correctas, ou, com maior frequência, têm desempenhos escolares aquém das suas capacidades ou das expectativas dos seus Encarregados de Educação.

No final de cada Período Escolar (nas pausas de Natal, da Páscoa ou de final de ano) chegam as notas escolares, as reuniões de pais com os professores, uma ou outra má notícia acerca da avaliação/desempenhos e, quase que invariavelmente, a primeira atitude dos Encarregados de Educação é a aplicação de castigos. Alguns Encarregados de Educação têm a tendência de castigar os filhos, obrigando-os a deixar o Futebol, ainda que por vezes, de forma temporária. Disciplina é um fator determinante para qualquer educação, mas será esta a forma correcta de educar?

É discutível que os “castigos” funcionem ou façam parte do processo correcto de educar ou mostrar o que é certo ou errado. Certo é que se torna necessário ter “bom senso” na hora de aplicar o castigo adequado em cada situação, porque ele só funciona se tiver uma conotação educativa e não punitiva.

Como fundamentar a quebra um compromisso assumido pelo atleta para com um grupo (no início da época), justificando a falha com outro compromisso tido com os Encarregados de Educação? Será que existem hierarquias de compromissos ou acima de tudo existem compromissos que invariavelmente devem ser honrados?

Ora, quando um atleta no início do ano ingressa numa equipa, automaticamente sabe quais são os seus compromissos a nível de presenças aos treinos e aos jogos. O desempenho escolar e o mau comportamento, não podem servir para “rasgar” esse compromisso, porque haverá várias partes lesadas, para além do próprio atleta. É desde pequeninos que se lhes deve mostrar a importância da ética profissional que passa por assumir e cumprir todos os compromissos!

Mens sana in corpore sano”, esta expressão utilizada já no tempo dos romanos, afirmava que somente um corpo saudável pode produzir ou sustentar uma mente sã.

A falta do atleta nos treinos e jogos, durante um período, poderá ser um factor que não ajuda a mente e o seu desempenho escolar. Então será que retirar a ida aos treinos/jogos é positivo?

Cada caso é um caso, mas é reconhecido que em muitos dos atletas nestas idades a auto-estima apresenta-se como um aspecto essencial na construção da sua personalidade. Jovens com uma baixa auto-estima poderão criar sentimentos de culpa ou de inferioridade prejudiciais ao seu desenvolvimento. Por outro lado, depois de vários treinos de ausência, o atleta irá perder novos conhecimentos ministrados nos treinos. Provavelmente, quando regressar, irá voltar com mais problemas, principalmente a nível físico e de interação com a equipa, o que poderá levar a que  “perca o comboio” até ao final de época. A ausência desse elemento da equipa irá também causar algumas alterações no próprio grupo. A obtenção de, por exemplo, piores resultados desportivos poderá originar a culpabilização e responsabilização do colega que faltou e que daria “jeito” naquele jogo.

Cabe aos Pais pensar na melhor estratégia para evitar que aquele mau comportamento ou resultado sejam repetidos. Falando sobretudo como Treinador, penso que existem outras formas de actuar sem utilizar “castigos” que lembram vingança. Deverão fazer entender ao jovem que existem prioridades e que a prática de Futebol não será por certo a mais importante. Há que criar regras (em conjunto), menos penalizadoras para ele e que, quando aplicadas, resultam de uma decisão que transcende a exclusiva responsabilidade dos Encarregados de Educação. No “fim da linha” poderá haver as “represálias”, mas com maiores benefícios para a saúde do atleta (como por exemplo, tempos de televisão, computadores ou telemóvel) e sem pôr em causa “outros compromissos”! Cabe a cada Encarregado de Educação, que conhece melhor o atleta, saber se será mais positivo o uso de incentivos ou de castigos! Por conhecimento de causa, muitas das vezes basta auxiliar na planificação das actividades onde se inclui os tempos de estudo!

O desporto é importante para o crescimento do jovem atleta. Conciliar o Futebol com os estudos será o mais importante para o seu desenvolvimento enquanto atleta e como pessoa!

Fonte: Futebol Apoiado por Rui Gomes

“Um jeito de jogar todo errado”: as vicissitudes dos futebóis de rua

Investigar a pluralidade de práticas futebolísticas ativadas no dia-a-dia pressupõe compreender não só a construção intrínseca destas práticas, mas também suas relações com a cidade e as apropriações que os praticantes do jogo de bola fazem do espaço urbano, principalmente nos usos que fazem da rua.

Em alguns bairros periféricos de São Paulo – mas nem todos, tendo em vista a crescente consolidação das diferentes periferias paulistanas – ainda é possível notar, constantemente, a presença das crianças nas ruas, sozinhas ou em grupo, brincando ou mesmo trabalhando. A “pista”, termo utilizado pelos garotos e garotas da Cidade Líder, bairro da Zona Leste de São Paulo, para se referirem às ruas do bairro e da cidade, quase sempre estava ocupada às tardes ao longo da semana. Seus praticantes enfrentam vários adversários: os oponentes no jogo; os carros, adversários no uso da rua; os vizinhos, contrários ao barulho que vem da rua; as mães, inimigas do tempo gasto nesse espaço.

Certo dia, durante o período de trabalho de campo para a pesquisa de mestrado (Spaggiari, 2009), observei três garotos esperavam ansiosamente a chegada da bola, que ficara presa no quintal de uma casa. Quando a bola chegou, apareceu também o goleiro, que rapidamente se colocou em frente a um portão de garagem. Usavam paredes ou portões de casa como gols para jogar “três dentro e três fora”; alocavam quatro tijolos no asfalto como pequenas traves para jogar “linha”; e distribuíam-se no espaço para jogar “bobinho”. Recriava-se, portanto, regras, técnicas e fundamentos, enquanto outros conceitos futebolísticos eram readaptados: escanteio, lateral, tiro de meta, pênalti e infrações.

As regras eram definidas por todo o grupo, o que as tornavam flexíveis de acordo com os participantes, bem como em relação aos ambientes de jogo. Quando uma partida era desigual, parava-se o jogo, as equipes eram escolhidas novamente e iniciava-se uma nova disputa. O resultado do jogo estava sempre em discussão, pois as contagens das equipes destoavam. Adicionavam-se certas normas, algumas mais importantes que as outras: o goleiro só podia pegar a bola com a mão dentro da área; só valia gol rasteiro; não contava gol feito em tabela com carro estacionado; goleiro podia jogar na linha; trocava-se de goleiro quantas vezes quisessem e quando desejassem; a bola era do adversário se caísse na casa dos vizinhos ou em cima do telhado; e quem chutasse a bola para longe é quem pegava.

São muitas as diferenças entre as práticas espetacularizadas e a prática de rua, tal como pensou Wacquant (2002), quando diferenciou as práticas do boxe profissional e da briga de rua: o primeiro, segundo o autor, requer um conjunto de dispositivos incorporados através do treinamento; já a luta de rua não exigiria tal comprometimento. Contudo, era possível perceber naquela prática futebolística de rua a competição, seriedade, brincadeira, aspectos lúdicos e às vezes até dinheiro envolvido.

Essa prática de rua se assemelha à “pelada”, identificada por Damo (2007) na matriz bricolada. Para alguns interlocutores da Cidade Líder, pelada e futebol de rua são quase iguais. Para outros, porém, futebol de rua é diferente da pelada. Para explicitar as diferenças, o cronista Luis Fernando Veríssimo enumera quais seriam as regras do futebol de rua (veja o curta abaixo):

Pelada é o futebol de campinho, de terreno baldio. Mas existe um tipo de futebol ainda mais rudimentar do que a pelada. É o futebol de rua. Perto do futebol de rua qualquer pelada é luxo e qualquer terreno baldio é o Maracanã em jogo noturno. Se você é homem, brasileiro e criado em cidade, sabe do que estou falando. Futebol de rua é tão humilde que chama pelada de senhora (Veríssimo, 2006, 49).

Tal definição era partilhada por Vitor, morador do bairro e ex-aluno da escolinha de futebol do CDC Cidade Líder:

Vitor: Futebol de rua, rua é rua. Rua não dá para jogar direito porque é muito apertadinha. É muito estreita a rua. Mas o futebol de pelada é melhor porque tem espaço, aí você já começa a fazer o que você quer fazer com a bola, então é legal futebol de pelada.

E: Futebol de várzea é diferente de futebol de pelada?

V: Futebol de várzea já é diferente porque é, tipo, um compromisso. Pelada, você não tem muito compromisso e a várzea você já tem, porque você está ali cheio de futebol competitivo. Para vencer já é mais responsabilidade. Desde pequeno eu jogava futebol e gostava de jogar futebol, eu sempre quis ser jogador de futebol. Eu me lembro que entrei na escola com sete anos, aí eu chegava em casa e já ia jogar. Minha mãe tinha que me chamar no campinho porque eu não ia fazer lição de casa, ficava até escurecer.

Aprende-se muita coisa jogando futebol na rua, mas o que se aprende não é o principal. Essa era uma ideia compartilhada pelos diferentes atores envolvidos com a escolinha de futebol do CDC Cidade Líder. Criticavam a espontaneidade e as desobrigações atreladas ao futebol de rua e à pelada, culpando-os por manias e ‘vícios’ – “um jeito de jogar todo errado”, afirmou um dos treinadores locais – ostentados pelos garotos nos treinos e jogos dentro da escolinha.

Vale destacar, contudo, a importância das outras práticas acionadas na rua. Pude observar a prática de inúmeros jogos e brincadeiras nas ruas da Cidade Líder: esconde-esconde, bola de gude, pipa, pega- pega. Não era comum, mas vi, em alguns momentos, jogos de taco nas ruas do bairro. Alguns garotos confirmaram que as constantes corridas no jogo do taco ajudam a jogar futebol.

Contudo, o universo da rua não é exclusivamente das brincadeiras das crianças. Em junho de 2007 observei a soltura de balões em uma rua do bairro por um grupo de baloeiros, por volta de sete homens adultos, que me explicaram, um pouco relutantes, o processo de construção dos balões, visto que se trata de uma prática ilegal. Motivo pelo qual privilegiaram destacar as dificuldades atuais da atividade, que levaram à necessidade de formação de agrupamentos de baloeiros.

Contra tudo e todos, a rua permanece, portanto, como um espaço tradicional não só da prática futebolística, mas das práticas lúdicas (corporais, esportivas, festivas) no cenário urbano paulistano, há muitas décadas.

Bibliografia

DAMO, Arlei S. Do dom à profissão: a formação de futebolistas no Brasil e na França. São Paulo: Hucitec/Anpocs, 2007. 359 p.

SPAGGIARI, E. Tem que ter categoria: construção do saber futebolístico. Dissertação de Mestrado – Universidade de São Paulo (USP). Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas São Paulo. 2009.

VERISSIMO, L. F. “Futebol de rua”. In: COELHO, E (Org.). Donos da bola. Rio de Janeiro: Língua Geral, p. 49-51. 2006.

WACQUANT, Loïc. Corpo e Alma: notas etnográficas de um aprendiz de boxe. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 2002. 294 p.

Fonte: Ludopédio por Enrico Spaggiari

Treinador sim, técnico não

Não foi a primeira vez que veio parar em minhas mãos um panfleto de uma grande franquia de metodologia de ensino de esporte alardeando aos quatro ventos que o professor não precisava mais perder tempo preparando aulas. A extraordinária metodologia já havia padronizado tudo, do currículo à aula, da seleção de materiais para cada unidade de ensino a como o professor deve utilizá-los, da vestimenta à forma com que o professor recebe seus alunos…

Uma organização exemplar; uma ordem admirável; uma otimização do tempo invejável; o professor deveria se preocupar apenas em ser legal e aplicar o método. Para que pensar? Bobagem! Alguém já pensou pelo professor/treinador. Assim além de ganhar tempo (podendo dar, literalmente, mais aulas), corre-se menos riscos de errar “no remédio e na dose”, é só seguir a bula, além do fato de que qualquer um pode aplicar, basta saber ler (e não precisa interpretar), independente de sua formação, dedicação, competências e anseios profissionais.

Será que podemos atribuir a denominação treinador ou professor para um indivíduo que, desvalorizando a profissão, é um mero instrutor e aplicador de técnicas pré-estabelecidas?

Paulo Freire, nosso maior pedagogo, patrono da educação brasileira, em seu livro, cujo o título inspira esta crônica: “Professor sim, tia não”, tece uma bela defesa e valorização do professor em decorrência de um cenário de quase execração pública e falta de respeito em todos os sentidos: do financeiro ao social, do científico ao profissional.

Concomitantemente, tenho me enriquecido muito com a leitura atenta do livro da professora Maria Amélia Santoro Franco, “Pedagogia como ciência da educação”. Muitas reflexões, questionamentos, afirmações, contradições, ressignificações surgem, permitindo-me a todo o momento defender a pedagogia do esporte, enquanto área sustentada pela pedagogia, e a construção e consolidação do processo de formação de treinadores esportivos, por sua vez equivalente à formação de professores e pedagogos.

Com a influência de Franco, penso a pedagogia como ciência da prática educativa, a qual tem como objetivo maior a humanização da sociedade, comprometida com a emancipação do homem – à medida que esse aprende a ler/interpretar o mundo -, e com a liberdade – ao passo que o homem aprende a viver e conviver com dignidade, sem os grilhões que o aprisiona na caverna de Platão.

A pedagogia, como ciência, tem por objeto de estudo a prática educativa, sendo a práxis educativa uma das suas principais preocupações. Práxis entendida enquanto a intencionalidade que dirige e dá sentido à ação. Ação reflexiva, consciente, que se efetiva na intervenção planejada, com pleno e seguro conhecimento sobre o objeto, visando à alteração da realidade e sua transformação.

A práxis educativa cabe ao professor crítico e reflexivo!

Por esse motivo que um instrutor nunca será um professor. Ele apenas é um aplicador alienado de tecnologias educacionais, um reprodutor de procedimentos didáticos, um controlador sustentado e apoiado pelo sistema, que prima pela manutenção do status quo (pois têm interesses). Imbuído por uma racionalidade técnica impõe a ordem, acreditando ingenuamente que o ser humano é uma máquina programável e o mundo um sistema fechado, linearmente controlado por quem detém o poder.

Essa mesma reflexão cabe e deve ser feita no âmbito da Pedagogia do Esporte.

Defendo que um treinador é um professor, logo sua formação é equivalente, e deve ser robusta o suficiente para que impregnado por teorias e enriquecido por experiências práticas, transforma continuamente sua atuação em práxis educativa.

Apoiado apenas em experiências nunca teremos um treinador, mas apenas um técnico, equivalente ao instrutor. Por não saber o significado de sua intervenção, muito menos o compromisso com a transformação da realidade, logo é usado para manter alguma coisa a alguém.

No futebol, muitas vezes esse técnico ganha muito dinheiro e prestígio, mas é apenas um técnico instrumental. Ao invés de práxis desenvolve a poiéses, ação que não modifica, apenas adestra, mantém.

Estabelece a ordem, mascarando-a em desordem, como, por exemplo, vemos no cenário futebolístico brasileiro a ciranda dos técnicos (e alguns poucos treinadores), que sobrevivem bem (e também ajudam outras “peças” nessa engrenagem), mudando continuamente de clubes, pois é interessante a muita gente (de diferentes áreas) que assim continue o progresso da comunidade ludopédica, caminhando do nada a lugar nenhum.

Infelizmente, no futebol brasileiro, o treinador é o diferente no sistema, o subversivo, o perigoso, pois pode acabar com o emprego dos técnicos e seus tratadores. Por isso precisa ser eliminado no ninho. O que justifica o quase total descaso em promover uma possível qualificada formação.

Contudo, minha esperança ainda persiste, pois consigo ver alguns treinadores sobrevivendo em meio aos muitos técnicos em nosso futebol. E digo, é muito fácil identificar e diferenciar um técnico de um treinador, quer seja no processo de iniciação, especialização e, mesmo, no futebol profissional, basta um olhar atento e um pouco de bom senso.

Por exemplo, o técnico dá treino de repetição de chutes; o treinador ensina a lógica do chute em diferentes contextos; o técnico adestra o gesto de passar; o treinador cria condições para o jogador aprender sobre as linhas de passes; o técnico se preocupa apenas com a execução do movimento; o treinador com a dinâmica do movimento em ambientes representativos de jogo; o técnico modela taticamente sua equipe; o treinador com os princípios táticos cria ambientes de aprendizagem, empoderando seus jogadores; o técnico prioriza atividades analíticas; o treinador valoriza o jogo; o técnico apenas vê o jogo; o treinador estuda o jogo; o técnico é intuitivo; o treinador é reflexivo; o técnico é submisso ao sistema; o treinador tende a ser subversivo; o técnico trata o jogador como objeto; o treinador como ser humano; o técnico é apenas prático-operacional; o treinador é teórico-prático ao mesmo tempo que prático-teórico; o técnico treina jogadores; o treinador forma seres humanos que jogam; o técnico cobra resultado; o treinador cobra empenho; o técnico reage; o treinador planeja e reflete; o técnico reproduz; o treinador cria e inova; o técnico entende o mundo de forma simples; o treinador de forma complexa; o técnico vive da rotina num mundo mecânico e linear; o treinador da imprevisibilidade advindo de um mundo complexo e não linear; o técnico habitua-se com fazeres; o treinador cresce e desenvolve saberes;  o técnico é impregnado de poiéses; o treinador é práxis imanente …

Desse modo, a práxis educativa desenvolvida pelo treinador se estabelece nas relações contínuas entre a familiarização e o estranhamento (dúvidas, conflitos…) de todo o processo de formação, entendendo que a formação é permanente, contínua e problematizada tanto para os treinadores quanto aos jogadores.

Essa formação exige constante reflexão sobre a prática e teoria, logo professores e treinadores podem ser ao mesmo tempo os pedagogos do processo (dependendo de formação para tal), ou podem receber o apoio de pedagogos do esporte. A função do pedagogo do esporte se perfaz na mediação entre a teoria e a prática (e vice-versa), gerando ambiência para emancipação do treinador.

Portanto, cabe ao pedagogo do esporte, para além de um coordenador metodológico, mediar toda essa reflexão-ação, ação-reflexão, por meio de sua práxis pedagógica (diferente da práxis educativa do treinador). Se estabelecendo enquanto agente crítico-reflexivo da práxis educativa, desenvolvida pelo treinador, auxiliando-o no processo de conscientização de suas teorias e aplicações didático-metodológicas, muitas vezes implícitas, das quais emergem saberes pedagógicos em meio aos contínuos constrangimentos provocados pelos processos de aprendizagem, treinamento e competição.

Fonte: Universidade do Futebol por Alcides Scaglia

“Cultura e formação acadêmica produzem jogadores melhores”, diz Mauro Silva

Contratado pela Federação Paulista para se preocupar exclusivamente com os atletas, o tetracampeão mundial Mauro Silva admite que o futebol de hoje já é muito diferente do que era antes, inclusive em seu tempo de meio-campista. O atleta dos dias atuais precisa ter o aspecto cognitivo cada vez mais elevado e ter nível acadêmico, social e cultural melhores para uma leitura correta do jogo dentro e fora das quatro linhas, onde os desafios também são outros.

É para estimular esse entendimento que Mauro Silva lidera, pelo segundo ano seguido, um seminário de formação de atletas na Federação Paulista, agendado para terça-feira. Nesta entrevista, o vice-presidente de integração de atletas explica qual a ideia que pretende levar aos clubes sobre quais são, na avaliação dele, as principais demandas do futebol do século 21.

Veja as declarações de Mauro Silva:

Objetivo do seminário

Já tivemos no ano passado esse seminário de base, voltado ao desenvolvimento humano. Muitos clubes têm apenas a preocupação de só formar tecnicamente e deixam a questão humana e acadêmica em segundo plano. Quanto mais se investe no cognitivo, você melhora o profissional, ele consegue se relacionar melhor, tem maior controle emocional e sabe administrar a carreira. Se você for olhar na base de um clube, só 2% se tornam atletas e 98% são cidadãos normais. Quanto mais você investe no homem, mais acerta no atleta.

Como as federações interferem no processo

Hoje já tem o selo de clube formador que é um certificado importante para a base, que dá garantia ao processo de formação para o clube não perder jogadores. O segundo programa que temos é de avaliação da excelência de gestão em São Paulo em que o segundo critério é a base. Assim, quanto melhor for, mais incentivos têm nesse programa de excelência. É uma forma de fazer com que os clubes entendam que base não é despesa, é investimento. Eu sou um caso, de quem veio do interior, do Bragantino, até a seleção.

Atletas de melhor nível

O futebol de hoje é muito diferente do passado. Daqui uns anos, vai ser diferente também. Quanto mais você investir na formação do atleta, dar estímulo ao cognitivo dele, a uma tomada de decisão mais rápida por meio de estímulos em idades iniciais, melhor. Todo conhecimento, toda cultura e formação acadêmica, tudo é estímulo. Até música, artes, outros esportes, são coisas que ajuda o jogador a ser um profissional melhor. Pensando na formação do atleta é bom, mas na sociedade também. Os atletas de fato são poucos, mas o papel do futebol é melhorar a sociedade, ser uma ferramenta de transformação. Eles podem ser técnicos, preparadores físicos, jornalistas, então você prepara bem os profissionais, todo investimento vai ser importante.

Entidades precisam estimular a formação

Acho que sim, totalmente, isso cabe às entidades que administram o futebol, a elas cabe o fomento. O que aconteceu é que antigamente era uma formação natural, dos jogadores na rua. Hoje, com as cidades grandes, perdemos isso. A metodologia de formação é importante, temos as escolas de futebol aqui, procuramos formar os treinadores, qualificar a área. Vamos melhorar o nível de formação dos treinadores, hoje temos curso de treinador da CBF homologado pela Conmebol.

Na Alemanha, jogador trocou jogo da Champions League por uma prova escolar

É um processo de desenvolvimento humano, vamos falar disso no seminário. Termos cada vez mais um nível melhor de educação para se valorizar. O garoto até  no Brasil poderia gerar comentários, do tipo ‘nossa, vai estudar‘. Mas, pela importância dos europeus nisso, por lá não acontece. Vamos avançar nessa direção, temos essa consciência de que precisamos de um futebol melhor, com profissionais com essa formação. Essa é a nossa preocupação.

Fonte: UOL Esporte por Dassler Marques

Curso: Treino e suas ferramentas

Capacitação Área da Saúde (Ed. Física e Fisioterapia)

Local: Goiânia Go

20h de curso

PROGRAMAÇÃO DO CURSO

DIA 01 – Horário 8:00h às 17:00h

✔Sistemas de Avaliação;

✔Correção de Movimentos;

✔Soltura Miofascial;

✔Análise, conceitos,métodos e sistema.

Preparação Física Educacional;

✔Vivência pratica do Warm up e suas variações utilizando os conceitos de mobilidade e estabilidade;

✔Exercícios inteligentes.

DIA 02 – 8:00h às 17:00h

Treinamento de performance

✔Agilidade;

✔Coordenação;

✔Velocidade;

✔Força funcional;

✔Potência;

✔Força rápida.

Planificação das sessões de treinamento

✔Volume x Intensidade;

✔Fácil e de resultado;

✔Forma prática e eficiente;

✔Planejando sua sessão de treino;

Informações: (11) 99388-4994

As atividades de treino no futebol de formação: Evidências científicas

Introdução

Agora que a época 2017/2018 dá o pontapé de saída, penso que é o momento ideal para todos refletirmos sobre as nossas atividades práticas enquanto treinadores. Há alguns meses atrás, num curso de treinadores de futebol na Associação de Futebol do Algarve, discutia-se o estado do futebol de formação na região. A principal ideia que foi lançada pelo coordenador técnico (prof. José Borges), e a qual aqui subscrevo, é que antes de criticarmos a falta de espaço para treinar, a escassez de bolas ou coletes, o reduzido número de jogadores no plantel ou o «resultadismo» dos dirigentes, etc., devemos pensar no que podemos fazer para potenciar as condições e as circunstâncias existentes e que, no fundo, constituem a nossa realidade. O repto serviu de mote a este artigo e que tem como objetivo apresentar algumas evidências científicas sobre as atividades propostas pelos treinadores de futebol de formação nas sessões de treino. Em última instância, pretende-se que o texto estimule a reflexão e promova uma implementação mais cuidada e qualitativa do instrumento mais poderoso que o treinador dispõe para intervir e potenciar o seu contexto: o exercício de treino.

As atividades de treino no futebol de formação: Evidências científicas

Nos meandros do treino desportivo, a brecha entre a ciência e a prática tem vindo a estreitar-se nos últimos tempos. A investigação tem tomado mais atenção às determinantes da performance e ao desenvolvimento da perícia no desporto e, inversamente, os treinadores estão mais interessados nas aplicações práticas que advêm da ciência. Nesta secção foram selecionados três artigos muito interessantes para entendermos a problemática das atividades propostas pelos treinadores nas sessões de treino, designadamente, ao nível do futebol de formação. Contudo, as evidências disponíveis não se esgotam nos trabalhos a seguir retratados.

Ford, Yates e Williams (2010) investigaram as atividades de treino propostas por 25 treinadores do futebol de formação em Inglaterra, nos escalões etários Sub-9, Sub-13 e Sub-16, a trabalhar em três níveis distintos de prática: elite (n = 9; academias de formação de clubes profissionais da FA Premier League), sub-elite (n = 9; centros de excelência de clubes profissionais ingleses) e recreativo (n = 7; clubes amadores e semiprofissionais ingleses). Os investigadores definiram dois tipos de atividades essenciais, cuja terminologia será utilizada ao longo do texto:

Formas de treino, que incluem situações de treino físico, exercícios técnicos analíticos e circuitos técnico-físicos;

Formas de jogo, compostas por jogos reduzidos/condicionados e situações jogadas como, por exemplo, 2v1+Gr.

As conclusões foram, no mínimo, alarmantes: em média, cerca de 65% do tempo das sessões foi destinado a formas de treino e os restantes 35% a formas de jogo (figura 1).

Figura 1. Percentagens de tempo da sessão despendido em formas de treino (cinzento) e formas de jogo (preto), em função do escalão etário – «age» (a) e do nível de prática – «skill» (b) (Ford et al., 2010).

Conforme podemos observar, independentemente do escalão etário e do nível de prática (mesmo no nível de elite!), os treinadores ingleses despenderam mais tempo das sessões de treino em exercícios que são considerados como menos relevantes para a aprendizagem efetiva das diversas componentes do jogo de futebol. Não nos iludamos, são as formas de jogo que permitem que os jovens desenvolvam efetivamente as ações específicas da modalidade. Por um lado, estas atividades são capazes de replicar fidedignamente as exigências da situação competitiva; por outro lado, por serem tarefas mais representativas, permitem o estabelecimento e a afinação de relações funcionais entre a perceção do envolvimento (i.e., bola, espaço, companheiros de equipa, adversários, etc.) e a execução de ações motoras inerentes à resolução dos problemas contextuais do jogo. Neste sentido, invoco a velha questão do pianista: não aprende a tocar a correr à volta do piano!

Nesta mesma linha de investigação, o estudo de Hornig, Friedhelm e Güllich (2016) contou com a participação de 102 jogadores alemães: 52 profissionais da Bundesliga (18 pertencentes à seleção alemã) e 50 amadores a atuar entre a 4ª e a 6ª divisão do país. O propósito do trabalho foi fazer uma análise retrospetiva (1) dos volumes de prática organizada de futebol ao longo das suas carreiras, incorporando a microestrutura da prática (proporções de treino físico, exercícios analíticos e formas de jogo), (2) da prática informal do jogo (i.e., prática não organizada com fins de lazer) e (3) do envolvimento noutras modalidades desportivas. Dentro da microestrutura da prática organizada, os autores evidenciaram que o treino físico aumentou ao longo das etapas de desenvolvimento: infância (≈13%), adolescência (≈14%) e idade adulta (≈23%), ao contrário do reportado para as formas de jogo: infância (≈52%), adolescência (≈45%) e idade adulta (≈40%) (figura 2).

Figura 2. Proporções de treino físico (cinzento), exercícios técnicos (preto) e formas de jogo (branco) em contexto de prática organizada nos clubes pelos jogadores profissionais da Bundesliga (incluindo os convocados para a seleção principal da Alemanha) (Hornig et al., 2016).

Curiosamente, os jogadores convocados para a seleção nacional alemã diferiram dos jogadores amadores ao despenderem mais tempo em prática informal de futebol durante a infância; neste período da vida e ao longo da adolescência experienciaram, também, mais modalidades desportivas, apresentando um maior ecletismo. Por sua vez, a especialização no futebol ocorreu mais tardiamente, com volumes mais elevados de prática organizada somente a partir dos 22 anos de idade. A conclusão destaca que os jogadores que atingiram patamares de rendimento mais elevados acumularam, comparativamente ao observado noutros estudos do mesmo âmbito, menores volumes de prática organizada em clubes/escolas de futebol, embora registando proporções mais significativas de atividades de jogo nas suas mais diversas valências (na rua, no treino, na escola, etc.).

Mais recentemente, a Austrália adotou um currículo nacional para o desenvolvimento de futebol em que, consoante o estágio de desenvolvimento do praticante, assim varia o tipo e a proporção de atividades propostas pelos treinadores à criança/jovem. Não sendo um país de referência nesta modalidade, creio que a ideia não deve ser desvalorizada, nem tão pouco considerada como descabida, até porque teve por base evidências científicas e a tentativa de uniformizar e qualificar os procedimentos técnico-práticos dos treinadores em todo o país. O’Connor, Larkin e Williams (2017) tentaram perceber quais as implicações deste novo currículo nas atividades propostas pelos treinadores na prática e os resultados mais curiosos para este artigo constam na figura 3.

Legenda: «Individual» (atividades individuais); «Paired» (atividades em pares); «Drills» (exercícios técnicos); «SSG» (jogos reduzidos); «Large Games» (jogos de maiores dimensões, ou seja, similares ao jogo competitivo).

Figura 3. Número de treinadores que utilizaram cada tipo de atividade, ao longo das diversas partes da sessão, nas etapas de aquisição de habilidades (a – 10 aos 13 anos de idade) e de treino de jogo (b – 14 aos 17 anos de idade) (O’Connor et al., 2017).

Em termos genéricos, os treinadores prescreveram mais formas de jogo nas sessões de treino (40.9%), sendo o restante tempo destinado a inatividade (31%), formas de treino (22.3%) e transições entre exercícios (5.8%). O tempo de inatividade foi criticado pelos autores e justificado pelas inúmeras paragens dos exercícios, por parte dos treinadores, para ceder instruções/feedbacks. Na estrutura das sessões, os treinadores propuseram mais formas de treino no início (5.4% de atividades individuais e 15.1% de exercícios analíticos), progredindo para formas de jogo em fases mais adiantadas da sessão (15.3% de jogos reduzidos e 24.8% de jogos de maiores dimensões).

A ideia fundamental a reter é a unanimidade da importância das atividades de jogo na formação e aperfeiçoamento de competências específicas do futebol. Em primeiro lugar, o tempo útil de prática também tende a ser mais elevado através do jogo. Em segundo lugar, a literatura científica sobre aprendizagem e desenvolvimento motor sustenta que a interferência contextual, a variabilidade e a aleatoriedade típicas das atividades jogadas promovem o desenvolvimento da tomada de decisão e da inteligência de jogo, facilitando a retenção e a aprendizagem a longo prazo, quando comparadas com outro tipo de atividades como, por exemplo, as formas de treino (O’Connor et al., 2017).

Conclusão

Em plena era da tecnologia e da comunicação, qualquer treinador tem um acesso quase ilimitado a exercícios de treino que, não raras as vezes, são aplicados indiscriminadamente a praticantes com idades e níveis de prática distintos e descurando as particularidades do envolvimento. A adequação dos exercícios aos objetivos formativos, compreendendo as implicações da sua implementação ao nível das necessidades e motivações das crianças/jovens, é uma tarefa nuclear para qualquer treinador desportivo. A própria ciência corrobora a pertinência do lema «aprender a jogar, jogando» ou, alternativamente, «ensinar o jogo através do jogo». De facto, estruturar uma sessão pode compreender um sem número de configurações, contudo, o grosso da prática deve ser destinado ao jogo pelos motivos anteriormente referidos. Como pode haver diversos «futebóis», também poderá haver inúmeras formas de jogo, bastando para tal manipular variáveis como o número de jogadores, as dimensões do espaço, as relações numéricas, o número e as dimensões de balizas/alvos, definir setores/corredores/zonas restritos ou de circulação obrigatória, etc. Isso não implica que exercícios de preparação geral e analíticos sejam completamente descurados. Não, podem e devem ser propostos, mas convém compreender que não são os meios mais propícios para potenciar e modificar o nosso contexto. E a realidade do treinador de formação passa sempre por conseguir transformar o potencial humano através do jogo de futebol.

Referências

  1. Ford, P. R., Yates, I., & Williams, A. M. (2010). An analysis of practice activities and instructional behaviours used by coaches during practice: Exploring the link between science and application. Journal of Sports Sciences, 28(5), 483-495.
  2. Hornig, M., Friedhelm, A., & Güllich, A. (2016). Practice and play in the development of German top-level professional football players. European Journal of Sport Science, 16(1), 96-105.
  3. O’Connor, D., Larkin, P., & Williams, A. M. (2017). Observations of youth football training: How do coaches structure training sessions for player development? Journal of Sports Sciences. doi: 10.1080/02640414.2016.1277034.

Fonte: Futebol de Formação por Carlos Almeida

Tomada de decisão do jovem jogador

O futebol é feito de decisões e quem melhor decide, mais perto está da vitória. Mas para além de decidir bem, importa também decidir rápido.

Aprender a decidir bem e rápido é um processo que deve ser efetuado nas primeiras idades de aprendizagem do jogo. Cabe ao treinador de formação fomentar este processo, não só nos seus treinos mas também em competição.

Para que o processo de tomada de decisão do jovem atleta seja integrado corretamente, o jogador precisa de errar e de perceber que decidiu mal. Mas isto não é suficiente. Precisa de perceber também qual seria a decisão (ou leque de decisões) mais correta(s) a tomar. É aqui que entra o formador.

O treinador deve deixar o atleta decidir (mesmo que a opção tomada não seja a que mais beneficia a equipa naquele momento) e intervir a posteriori, seja para felicitar o atleta pela boa decisão tomada, ou para mostrar quais seriam as melhores soluções para determinada situação, sendo que nunca deve interferir à priori e decidir pelo atleta.

Hoje em dia, infelizmente, este fenómeno ocorre com regularidade na formação de futebol em Portugal. Seja pelos exercícios apresentados no treino, pelo excesso de feedback por parte dos treinadores ou até pela interferência dos pais ou encarregados de educação, o atleta sente dificuldades em adquirir um processo de tomada de decisão sólido.

Através de conversas com outros treinadores, conjugadas com a observação de diversos treinos de formação, tenho constatado que a formação em Portugal tem muito para evoluir naquilo que toca aos exercícios apresentados em treino. A maioria dos exercícios realizados em treino são meramente analíticos, e que em nada contribuem para a aprendizagem da tomada de decisão (e de outros conteúdos que não são aqui abordados) por parte do jogador. É necessário recriar situações idênticas às de jogo, onde os jovens atletas tenham de tomar decisões o mais idênticas possíveis àquelas que realizam em competição. Esta deverá, no meu ponto de vista, ser a linha orientadora para a criação de exercícios por parte de qualquer treinador de formação. Depois do exercício criado, há agora que direcionar o feedback para intervir da melhor forma no processo de aprendizagem do jogador.

O feedback é, na minha opinião, o instrumento mais forte a favor do treinador para que este possa intervir no processo global de aprendizagem do atleta. Mas tudo o que ocorre em excesso, perde o seu eventual valor positivo. Não é de todo raro encontrar treinos de formação onde a tomada de decisão é completamente roubada aos atletas devido ao excesso de feedback por parte dos treinadores. “Finta, finta!”, “Passa, o colega está sozinho, passa!” ou “Vamos remata!” são palavras proferidas a alto e bom som, seja durante os treinos, seja durante a competição, que, efetuadas com regularidade, anulam qualquer possível tomada de decisão por parte do jogador. Não que não devamos, por exemplo, incentivar os atletas a rematarem quando estes se encontram isolados para a baliza, mas este tipo de feedback deve ser regulado com muita precaução. Passar um exercício (ou até mesmo um jogo de competição) a enunciar este género de feedbacks, a curto prazo retira toda a autonomia à equipa passando esta a ficar completamente dependente do treinador e quando o mesmo deixa de transmitir feedback os atletas sentem-se perdidos em campo. Já a longo prazo o jogador pode vir a demonstrar graves lacunas no que ao processo de tomada de decisão diz respeito.

Outro fator que condiciona bastante a tomada de decisão do atleta é a intervenção exterior à equipa: a intervenção dos pais ou encarregados de educação. Esta é, na maioria das vezes, muito difícil de controlar por parte do treinador, pelo que este deve encontrar estratégias para que os seus atletas o ouçam apenas a si e aos colegas de equipa. Chamar o jogador à atenção, fazendo-o compreender que o que importa são os colegas e o treinador, isto de forma a que os pais percebam este processo, pode em muitos dos casos diminuir esta intervenção exterior. Basta dirigirmo-nos a qualquer jogo de formação, seja nas idades mais tenras ou mesmo nos últimos escalões de base, e facilmente verificamos que a grande maioria dos pais passa o jogo inteiro a dar indicações ao seu pupilo, como se de um experiente treinador se tratasse. Possivelmente fazem-no na melhor das intenções, mas estão a prejudicar gravemente o seu educando. A interferência dos pais pode até ser mais grave que o caso de excesso de feedback do treinador, pois o jovem tem nos pais o fator máximo de obediência e por vezes até mesmo inconscientemente, podem prejudicar a sua tomada de decisão.

Concluindo, aos treinadores cabe a criação de contextos o mais idênticos possíveis ao jogo formal, direcionando o feedback para a aprendizagem do atleta, mas intervindo sempre a posteriori no que diz respeito ao processo de tomada de decisão. Aos pais cabe apenas abrir as portas do desporto aos seus filhos e apreciar a felicidade dos pequenos ao decidirem fazer aquilo que mais gostam … jogar futebol!

Fonte: Futebol de Formação por André Reis