O que é padrão de jogo?

No país onde é normal pedir a mudança de técnico, por mais contraditório que seja, também é normal reclamar que o time não tem padrão de jogo. Ninguém consegue alterar muito do que foi feito anteriormente de um dia para outro em uma só pessoa, imagina, então, em um elenco com cerca de 30 jogadores. Mas quando afinal que um time tem padrão de jogo? Aliás o que é padrão de jogo?

Por exemplo, o Corinthians em 2017 teve um padrão de jogo claro desde o início do ano.

Antes de começar o texto propriamente dito pelo título, é bom ressaltar de que padrão de jogo é diferente de proposta de jogo, que é diferente de modelo de jogo. De forma resumida, proposta de jogo é aquilo o que o time está fazendo de acordo com o placar e/ou a quantidade de jogadores em campo. Por exemplo: se está atrás do placar, a proposta da equipe é propositiva, do contrário, é reativa. Já o modelo de jogo é aquilo o que a equipe toda treina para poder em prol do jogo como um todo. Por exemplo: o Avaí de Claudinei Oliveira treina para que o time procure estar sempre atrás da linha da bola e compactado para que a equipe tenha mais facilidade em contra-atacar com a grande velocidade e efetividade que tem.

Para saber mais sobre as diferenças entre proposta de jogo e modelo de jogo, clique no texto abaixo:

Agora sim voltando à intenção deste texto. Padrão de jogo é o conjunto das ações coletivas que uma equipe faz repetidamente partida após partida. Se algo é repetido jogo após jogo, aquilo se torna um padrão. Mesmo porque padrão é aquilo o que normalmente é realizado, não é mesmo?

Tal como o Cruzeiro de Mano Meneses, as equipes comandadas por esse técnico normalmente apresentam um sistema defensivo compacto e veloz nas coberturas defensivas. Desse modo, um dos padrões de jogo dessa Raposa de Mano é esse.

Aqui vale uma reflexão: se o seu time costumeiramente apresenta as mesmas ações coletivas jogo após jogo, mas ainda não tá vencendo a partida, o que falta nele é padrão de jogo ou efetividade? Tomemos como exemplo o atual Coritiba de Marcelo Oliveira.

Desde o seu Cruzeiro bi-campeão brasileiro, Marcelo Oliveira monta a sua equipe com a intenção de abrir o jogo para cruzar a bola para algum dos muitos jogadores que entram na área adversária simultaneamente cabecear a bola. Foi assim no Cruzeiro, no Palmeiras, no Atlético-MG e, agora, no Coritiba.

O Coritiba de Marcelo Oliveira em 2017.

O Cruzeiro de Marcelo Oliveira em 2014.

As situações, os movimentos e as intenções são as mesmas em todas as equipes que Marcelo Oliveira passa desde o seu Cruzeiro bi-campeão brasileiro. Ou seja, é um dos padrões de jogo do jogo que Marcelo Oliveira busca em suas equipes. Agora, se essa assim como outros padrões de jogo que esse técnico busca são tão efetivos atualmente quanto foram em 2013 e 2014, aí já é outra história. Mas há o padrão!

Agora vale uma reflexão: quando um técnico que altera um jogador do seu time titular para jogar somente determinada partida, o técnico está mudando o padrão de jogo da sua equipe?

Um dos jogadores que normalmente não é titular com o atual técnico do Atlético-PR é Lucas Fernandes. Ele ter iniciado a partida contra o Bahia alterou ou não o padrão de jogo da equipe?

Antes de responder a pergunta vale mostrar o que está sendo considerado como estratégia atualmente. Hoje em dia, alterar um jogador da equipe titular para determinada partida ou até mesmo trocar de posicionamento de um jogador para determinado jogo é chamado como estratégia de jogo. Essas alterações apresentam os mais diversos motivos, como: atacar um jogador com características que o time adversário demonstra mais fraqueza, colocar um jogador que defenda melhor do que outro, ter um jogador mais alto para ganhar as bolas lançadas que caem no setor…

Enfim, por isso que colocar um jogador que normalmente não joga como titular ou, também, alterar de posicionamento ao longo de jogo é tratado como estratégia de jogo. Um exemplo bem recente foi o que aconteceu com Romero no último Corinthians e Grêmio no Campeonato Brasileiro. No começo do jogo, esse jogador paraguaio jogou aberto na esquerda e, ao longo do segundo tempo, ele foi para a direita, lado que o Grêmio estava atacando com mais frequência. E como Romero tem mais capacidades defensivas do que os seus companheiros de posicionamento, foi ele quem foi jogar de extremo direito.

Até o início do segundo tempo, Romero jogou aberto na esquerda.

Já à partir de uns 15 minutos, o paraguaio passou a jogar na direita devido à estratégia de jogo que Carille identificou necessária para ao que a partida demonstrava.

Agora respondendo a pergunta que abriu essa parte do texto: não! Alterar somente um jogador ou colocá-lo em outro posicionamento ao longo do jogo não altera o padrão de jogo da equipe. O padrão é uma ação coletiva que se repete e repete ao longo de um jogo. Se algum jogador passou a jogar naquele posicionamento, e o time continuou apresentando as mesmas ações coletivas, o padrão não mudou! O que mudou foi a característica daquele jogador naquela situação.

Colocar um jogador com característica diferente altera praticamente só o que acontece naquela faixa de campo, mas o todo da equipe não é afetado. Tomemos como exemplo novamente o mesmo jogo anteriormente citado: desde o início do trabalho de Fábio Carrile, o Corinthians apresenta uma situação bem peculiar: a tal linha sustentada. Jogar com a linha sustentada é manter a linha defensiva o máximo de tempo possível próxima e formada. Para tal, os demais jogadores apresentam maneiras para manter o time adversário neutralizado. No caso do Corinthians, os dois extremos abrem mais e, assim, mantém a linha defensiva sustentada. Agora olhe o que aconteceu com a equipe ao ter Romero fora do seu posicionamento na esquerda e, devido à estratégia de jogo, indo para a direita.

No início do ano, o Corinthians se defendia com a linha sustentada e com os dois extremos bem aberto.

Hoje em dia, Romero passou a atuar mais na esquerda, mas devido à estratégia do jogo contra o Grêmio foi para a direita e a equipe do Corinthians manteve a mesma ideia de linha sustentada. Ou seja, é um dos padrões de jogo do time.

Fonte: Medium por Caio Gondo

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As diferenças entre sobra, líbero e cobertura

Desde a reutilização de três zagueiros na Copa do Mundo de 2014, o assunto três zagueiros voltou a ser debatido em programas esportivos, nas conversas e nas mesas de bares. Em dois textos antigos, você já viu que o funcionamento defensivo desses três zagueiros, atualmente, se comporta através de uma linha somada com os alas (veja ele aqui e aqui). No entanto ainda ouvimos os termos, líbero e sobra, quando se trata de times com três zagueiros. Afinal quais são as diferenças entre líbero, sobra e cobertura?

Na Flórida Cup de 2018, o Fluminense atuou com três zagueiros, assim como havia ensaiado em 2017. Será que há sobra e líbero no comportamento defensivo desses zagueiros?

Antes de concluirmos se ainda existe “líbero e sobra” nos três zagueiros atualmente, é necessário sabermos o que seria exatamente um líbero e uma sobra. Para tal, vou voltar no tempo e mostrar de onde que o “boom” do líbero iniciou.

Na temporada de 1968/69, o Bayern de Munique conquistou uma Bundesliga depois de um jejum de 37 anos. Entretanto o maior marco histórico no futebol mundial não foi a quebra do jejum, mas, sim, do jogador de apenas 23 anos que estava no elenco. Deste título, iniciara a Era de Franz Beckenbauer como jogador de futebol.

Beckenbauer foi capitão do título da Copa do Mundo de 1974 pela Alemanha e marcou o início de uma nova posição no futebol.

Com a conquista da Copa do Mundo de 1974, pelo o que ele vinha fazendo em um dos históricos Bayern de Munique e pelo alto nível que estava jogando, por jogar posicionado atrás de dois zagueiros, Kaiser, que é a alcunha de Beckenbauer, difundiu ao mundo o que é seria “líbero”.

Com os outros dois zagueiros marcados com um traço vermelho, veja como Franz Beckenbauer se posicionava: ele sempre ficava atrás dos dois! Era a posição de líbero sendo mostrado ao mundo!

Vale uma curiosidade histórica aqui. A posição de líbero não começou com Beckenbauer! Entre os anos de 1930 e 1940, o técnico austríaco, Karl Rappan, diante do cenário de marcação individual e de algumas equipes já ensaiando jogar com quatro atacantes (o 4–2–4 iria ser oficialmente começado no começo dos anos 50), Karl Rappan jogava com uma linha de quatro defensores com cada um marcando um dos atacantes do time adversário e colocava um quinto defensor atrás desta linha de quatro. Era os primórdios do líbero.

Já em 1947, o técnico italiano, Nero Rocco, se adequou ao cenário tático da época e colocou esse defensor “a mais” atrás de uma linha de três defensores, já que na época era comum o WM (o que hoje seria conhecido como 3–2–2–3). E foi aqui que a posição “líbero” foi batizada, pois em italiano a palavra “livre” é conhecida como libero e como Nero Rocco falava tanto “libero, libero”, aqui no Brasil, a posição acabou ficando conhecida como “líbero”.

Como o zagueiro “a mais” tinha a função de cobrir os demais, ele ficava livre e sem nenhum adversário marcando individualmente. Como ele ficava livre e Nero Rocco falava “libero, libero”, o brasileiro pegou e transformou a palavra em “líbero”.

Como a Copa do Mundo de 1970 foi a primeira copa televisionada, tudo o que seria muito diferente do que estava sendo feito do que o normal iria fazer um “boom” no mundo todo a partir dali. E assim foi logo na copa seguinte com a Alemanha de Franz Beckenbauer. Por isso que o mundo todo passa a realmente conhecer através de Kaiser na Copa na Alemanha.

Voltando ao texto. Então temos que o líbero é uma posição de um defensor atrás de outros defensores (podendo ser dois, três ou até quatro como foi em seus primórdios). Ou seja, líbero é uma posição assim como é atacante, meio-campo, zagueiro e lateral!

Já que a sua função era de cobrir todos os defensores que estivesse em sua frente, se posicionar atrás facilitaria a realização da sua função. Essa parte é meramente física: tem como um zagueiro ao lado de somente um conseguir cobrir os demais com facilidade? Não. Então por isso que o “líbero” se posiciona atrás de todos. E ao se colocar bem atrás dos demais defensores e como ele ficava para pegar o que sobrava do combate entre defensores e atacantes, aquele posicionamento tático ficou conhecido como sobra.

Um jogador que ocupou a posição de líbero em alto nível foi Diego Lugano no São Paulo de 2005. Veja como ele se posiciona atrás de seus dois zagueiros (marcados com um traço vermelho) e ficava ali para conseguir cobrir os dois da mesma forma. Ao se posicionar ali, Lugano ficava na sobra de seus zagueiros.

Agora com os termos líbero e sobra bem diferenciados, restou somente mostrar o significado de cobertura.

Cobertura, no futebol, é a colocação para que um defensor (agora, aqui, o termo defensor se refere a todos os jogadores do time que está sem a bola) possa dar combate ao adversário, assim que ele se desvencilhe de outro defensor. Em termos mais fáceis ainda: cobertura pode ser feita por todos os defensores que estão entre a bola e a sua própria meta, além do defensor que está pressionando o portador da bola.

Aqui temos um exemplo de possíveis coberturas: além do defensor que está pressionando o portador da bola, o Corinthians tem seis possibilidades de cobertura no lance. Já que todos, uns com mais facilidade e outros com mais dificuldades, podem dar combate ao portador da bola caso ele se desvencilhe do defensor que o pressiona.

Agora que o termo cobertura ficou claro, cabe duas reflexões quanto ao líbero. A primeira delas é de que como o líbero sempre se posiciona atrás dos zagueiros, naturalmente, o líbero estará apto a fazer uma cobertura. Já que sempre ele estará posicionado na sobra e de modo a fazer a cobertura para todos os defensores (lembra que ele se posiciona atrás para facilitar essa cobertura para todos os defensores?).

Outro jogador que jogou como líbero em anos recentes foi Edmilson na Copa do Mundo de 2002. Veja como se posiciona atrás de Lúcio e Roque Júnior, entre a bola e o gol brasileiro e, assim, se tornando uma opção de cobertura caso o jogador alemão fosse em direção ao gol.

Assim como já foi dito anteriormente, todos os defensores que estão entre a bola e o gol, sem contar com o defensor que está pressionando o portador da bola, estão disponíveis a fazerem a cobertura. Desse modo, no caso da imagem acima, temos que Lúcio e Roque Júnior também podem fazer a cobertura! Assim, pode-se concluir de que a cobertura pode ser feita por qualquer defensor entre a bola e o gol e não necessariamente somente pelo líbero!

Agora pare para pensar. Com o jogo de futebol cada vez mais rápido, um sistema defensivo deve se desenvolver quanto à velocidade das coberturas, pois assim dificulta a progressão do adversário até a sua meta. Com isso, que tal então se houvessem menos espaços horizontais entre os defensores para facilitar a cobertura pelo lado e menos espaços verticais entre os defensores para acelerar a cobertura à frente? Isso não aumentaria a velocidade com que as coberturas fossem realizadas?

Sim! E é exatamente por causa disso que atualmente os sistemas defensivos estão cada vez mais compactados nos sentidos verticais e horizontais em relação ao jogo de antigamente! E digo mais: a posição líbero não existe mais exatamente pelo mesmo motivo! Como o líbero se posiciona atrás da linha defensiva, ele aumenta o campo de jogo do adversário e, assim, diminui a velocidade com que as coberturas verticais possam acontecer!

Acima um exemplo que corriqueiramente acontecia na Seleção Brasileira de 2002: os dois volantes iam para onde a bola estava e os três zagueiros atrás dos dois atacantes adversários. Havia um grande espaço entre os volantes e os zagueiros a ponto de demorar com que uma eventual cobertura que os zagueiros possam fazer caso Gilberto Silva ou Kleberson sejam desvencilhados.

O desenvolvimento do modo se joga futebol está tão grande que um lance de um jogo em 2002 é um exemplo já antigo. Pela imagem acima, temos Gilberto Silva já próximo para fazer a cobertura no defensor que está pressionando o portador da bola, mas quem faria a cobertura de Gilberto Silva caso o adversário se desvencilhe dele pelo lado? Lembra de que a cobertura é só de quem está entre a bola e o gol? Assim, Ronaldinho Gaúcho, que é o jogador mais próximo de Gilberto Silva, não está de fato fazendo uma cobertura.

E se o portador da bola se desvencilhe da pressão na bola para frente? O jogador mais próximo da bola é Roberto Carlos, sendo que está posicionado no lado do campo. Quem estaria mais próximo de fazer uma cobertura, caso o adversário fosse em progressão ao gol, seria Roque Júnior e, no frame acima, olha onde ele está: praticamente alinhando aos atacantes alemães e bem distante de seus volantes. Ou seja, as linhas estão afastadas e, assim, a cobertura vertical iria demorar a ser feita. Devido à velocidade que o jogo está tomando, por isso que os sistemas defensivos de hoje em dia estão cada vez mais deste modo:

Para o portador da bola chegar até o gol, ele iria se desvencilhar primeiramente de Messi e todos os demais jogadores do Barcelona que poderão realizar a cobertura muito rapidamente no portador da bola. Mal daria tempo do drible se concretizar que rapidamente já teria um defensor chegando para fazer a cobertura.

Agora, você, leitor, pare e reflita uma situação: como conseguir conciliar um líbero e um sistema defensivo compacto para que as coberturas sejam feitas rapidamente?

Pois é, não tem como! Um líbero, ao natural, se posiciona atrás dos seus defensores, aumentando assim o campo de jogo do time adversário. Com um campo aumentando, as coberturas verticais passam a ser mais demoradas a serem feitas. Com coberturas mais demoradas, há mais espaço para o adversário e, assim, maior a chance de sofrer gol. Por isso que os sistemas defensivos atuais que jogam com três zagueiros não utilizam mais de líbero! O líbero aumenta o campo do adversário e aumenta a sua própria distância para o portador da bola e, assim, lerdeando a sua própria e eventual cobertura.

Seleção da Itália em 2016: com uma linha de 5, com todos próximos e entre a bola e o gol. Para onde quer que o portador da bola fosse, haveria uma cobertura rápida para o defensor que está pressionando a bola.

Fonte: Medium por Caio Gondo

Novo perfil: sete dos 20 treinadores da Série A não foram jogadores

Levantamento mostra que quase metade dos treinadores da Série A do Campeonato Brasileiro não teve carreira como jogador profissional.

Para se tornar treinador de futebol é preciso ter passagem pelos gramados como jogador? Por muitos anos essa foi a principal realidade no futebol brasileiro, mas isso vem mudando nas últimas temporadas.

Atualmente, sete dos 20 treinadores que comandam equipes na Série A do Campeonato Brasileiro nunca jogaram futebol profissionalmente.

Para Carlos Cereto, comentarista do SporTV que participou do Redação SporTV desta sexta-feira (25), o futebol brasileiro passou por diferentes fases na relação de trabalho com os treinadores.

Houve um fase no futebol brasileiro em que não se dava muito valor ao técnico, que os jogadores faziam a diferença. Depois houve um período que os treinadores foram supervalorizados, surgiram os supertécnicos. Agora é uma nova fase em que o perfil dos técnicos é o da análise de desempenho.

Márvio dos Anjos vê uma valorização da comissão técnica nessa processo e, por isso, a busca por de perfis menos centralizadores como comandantes na beira do campo, diferentemente do que acontecia em outros tempos.

A comissão técnica hoje é um ambiente cheio de profissionais. Depende muito da conexão que eles têm. Você pode ter um cara boleiro que tem ao lado dele um auxiliar com excelente leitura de análise de desempenho e que isso se completa. Acho que o perfil desses novos treinadores, os “estudiosos”, digamos assim, tem a ver com menor vontade de dizer que o time é deles. Esse autoritarismo que a gente via nos técnicos das antigas.

Fonte: SporTV.com

Mas não é simples ficar formando triângulos de passe?

Quando o Barcelona da temporada 2008/09 venceu muitos títulos, alguns aspectos táticos daquela equipe ficaram em evidência para os comentaristas e analistas táticos. Entre esses aspectos, tem um que é bem fácil de notar: a formação de triângulo de passe. Essa formação de triângulo nada mais é a aparição de duas possibilidades de passe para o portador da bola.

Triângulo de passe formado entre Sidcley, Nikão e Hernani: como Rafael Marques irá pressionar Sidcley? Há duas vias de saída para a bola.

Vendo essa formação, parece até simples formá-la em campo, não é? No entanto imaginemos a situação de que o time formou um triângulo de passe conseguiu realizá-lo no sentido da faixa central do campo, como se no caso da imagem acima, Sidcley conseguisse passar para Hernani. Como faria para que Hernani pudesse realizar outro passe? Sim, outro triângulo de passe. E para que esse jogador que recebesse a bola passasse novamente? Sim, outro triângulo de passe. E assim sucessivamente. Parece que a coisa deixou de ser tão simples assim, não?

Para facilitar à visualização, assim como no caso do flagrante do Atlético-PR, a bola saiu do lateral-esquerdo do time através de um triângulo de passe, e o passe foi com sentido da faixa central do campo, ou seja, para o volante.

Com a bola estando com o volante, a formação de outro triângulo de passe é facilmente realizada com o meia e o centroavante do time. E então a bola foi para o meia.

E agora? Como haverá a formação de outro triângulo de passe, se ninguém se aproximar do meia? Ah, então a formação constante de triângulo de passe é um aspecto coletivo.

É, uma vez que a formação de um triângulo de passe envolve três jogadores, é conclusivo que ele é um aspecto coletivo. Mas como formá-lo constantemente? Já que pela sequência de imagem, nota-se que uma hora, fica impossível de se formar. Não é tão impossível assim.

A formação constante de triângulos de passe requer três aspectos táticos que se misturam: a consciência tática, a movimentação e o balanceamento ofensivo. Uma vez que a consciência tática é o modo como cada jogador se comporta para que a proposta de jogo da equipe seja realizada, de que a movimentação é se deslocar do seu posicionamento inicial e que o balanceamento ofensivo é o movimento ofensivo de acordo com a movimentação da bola, nota-se que todos esses aspectos colaborarão para a formação constante de triângulos de passe. Agora veja a mesma sequência anterior, mas com a consciência tática, a movimentação e o balanceamento ofensivo acontecendo.

Os jogadores do lado oposto irão compor triângulo futuros porque eles teriam consciência tática, realizarão movimentações e o balanceamento ofensivo para o lado da bola.

Devido à consciência tática, eles se movimentarão e estão balanceando ofensivamente para o lado da bola.

Já quando o meia recebe a bola (lembra que na outra situação, ele não tinha uma 2ª opção?), o extremo 11 formou o triângulo de passe devido a sua consciência tática, movimentação e o balanceio ofensivo.

E quando o extremo 11 recebe a bola, o volante 8 e o lateral 2 já estão para formar outro triângulo de passe devido às suas consciências tática, movimentações e o balanceios ofensivo.

Toda essa explicação pode parecer óbvia e natural, mas dificilmente os times brasileiros realizam tantos triângulos assim em sequência. Pode ser devido às propostas de jogo que não pedem isso. Deve haver falhas na consciência tática, na movimentação e no balanceamento ofensivo, e, por consequência disso tudo, de querer enxergar o ponto futuro. Enfim, a formação constante de triângulos de passe não é tão simples assim.

Além de não ser tão simples assim, a constante realização de triângulos de passe aumenta a chance de o time se manter com a posse da bola. Ademais, é importante ressaltar que se podem formar triângulos de passe com três jogadores qualquer. No caso desse texto, os posicionamentos iniciais de cada jogador foram meramente exemplificativos, já que era para facilitar a compreensão da essencial do triângulo de passe. Assim sendo, qualquer trio de jogador pode formar um triângulo de passe, basta estar próximo e ser uma linha de passe para o portador da bola.

Fonte: Medium por Caio Gondo

O que seria linha de passe e quais as suas abrangências

Após termos passado por anos valorizando o sistema defensivo e a transição ofensivas de equipes brasileiras, desde o ressurgimento de Renato Gaúcho no Grêmio e, bem recentemente, Fernando Diniz no Atlético-PR, estamos falando mais da complexidade do sistema ofensivo. No entanto qual é a base para que um sistema ofensivo aconteça? Há alguma situação tática que é referência para todos os aspectos táticos ofensivos que procure um passe curto e/ou médio para sair jogando?

Abraços na foto e abraços em muitos aspectos táticos ofensivos, mas o que há em comum nos dois técnicos?

Para um sistema ofensivo, uma situação tática é fundamental: a criação de linha de passe. Linha de passe não é aquele programa da ESPN Brasil, mas, sim, um aspecto tático ofensivo fundamental para tudo em um sistema ofensivo. Criação de uma linha de passe é a movimentação de um jogador onde ele poderá receber a bola sem uma possível interceptação de um adversário. Vejamos isto em exemplo:

Na imagem acima, o jogador tem cinco opções de passe, mas quais delas são realmente linhas de passe?

No exemplo acima do último jogo entre Grêmio e Atlético-PR, o jogador acima tem cinco opções de passe. Entretanto, somente as opções 1, 2 e 3 são realmente linhas de passe, já que somente nelas os jogadores se movimentaram no espaço onde eles poderão receber a bola sem uma possível interceptação de um adversário. Já as opções 4 e 5, durante o trajeto da bola, o defensor gremista tem tempo para poder interceptar a bola enquanto que ela está em seu trajeto.

Portanto a criação de linha de passe é fundamental para que um jogador passe a bola para um outro jogador! Se não haver um passe, não é possível nada em um sistema ofensivo. Sim, nada! Vejamos em outro exemplo. Quem, hoje em dia, nunca ouviu que um time precisa triangular para jogar? Oras, mas o que seria triangular?

Triangular é aquele já velho jargão do futebol: é quando o time consegue formar um triângulo para o portador da bola. Mas qual é a base para formar um triângulo? Sim, a base disso é a formação de linha de passe! A formação de um triângulo nada mais é do que a criação de duas linhas de passe ao mesmo tempo para o portador da bola. Veja como isto é na imagem:

Tendo a bola, Jailson tem duas opções de passe clara e sem algum adversário ter a possibilidade de interceptar o passe, ou seja, os dois jogadores criaram duas linhas de passe para Jailson e, assim, formou-se o tal famoso triângulo.

E mais recentemente ainda, um termo tático passou a ser mais falado após Tite começar a falar muito em suas entrevistas coletiva. O que seria o tal jogo apoiado? Em poucas palavras, o jogo apoiado é quando o time consegue formar um triângulo de passe para o portador da bola e outro(s) jogador(es) está(ão) em projeção para que o time forme outro triângulo logo em seguida. Veja como é sensivelmente diferente de um triângulo de passe:

Pela imagem do Cruzeiro de Mano Meneses, veja como Rafinha e Mayke estão se projetando para serem opções de passe assim que um do jogador do triângulo receba a bola.

Oras, o jogo apoiado envolveu triângulo e opção de passe. O jogador que está em projeção seria realmente opção de passe se movimentasse por movimentar ou se ele movimentasse para ser linha de passe para o jogador do triângulo? Sim, para ser real opção de passe, a criação de linha de passe é fundamental para que o jogador seja mesmo uma opção de passe! Ou seja, a linha de passe é novamente a base para o jogo apoiado.

A linha de passe tem uma abrangência ainda maior: como ela é gerada através da movimentação de um jogador onde ele possa receber a bola sem ter alguma interceptação do adversário, a linha de passe pode ser curta, média ou até mesmo longa. Sim! Uma vez que é só ir onde o adversário não consegue cortar a bola, qualquer espaço onde a bola consiga chegar é linha de passe!

O jogador com a bola tem três linhas de passe reais para passar a bola: a verde, a mais perta; a amarela, à meia distância; e a vermelha, a longa. Em todas, os jogadores se posicionaram em um espaço onde a bola consegue chegar sem ter alguma possível interceptação do adversário, ou seja, foram criadas três linhas de passes com três diferentes distâncias.

E digo mais: a amplitude, a entrelinha e a profundidade também têm a linha de passe como uma das bases para serem ainda mais efetivas. Basicamente, a amplitude é formada pelos os dois jogadores mais abertos do time que está atacando, a entrelinha é a região entre duas linhas defensivas do adversário onde algum jogador que está atacando consegue se posicionar sem ter alguém muito próximo, e a profundidade pelo jogador mais longe da meta que está defendendo. E agora imaginem se a amplitude, a entrelinha e a profundidade fossem geradas e, também, sendo linha de passe para o portador da bola? Isso não aumentaria ainda mais as chances da equipe de, pelo menos, manter a posse da bola?

Na imagem da Seleção Brasileira de 2002, temos Roberto Carlos gerando a amplitude pela esquerda e gerando linha de passe para Edmilson. Além de RC, temos, também, Ronaldinho Gaúcho na entrelinha e gerando linha de passe para Edmilson.

Uma vez que um passe não é simplesmente o gesto técnico de como realizar o passe, mas, também, tem a influência da movimentação de um ou mais jogadores em um espaço onde realmente possa receber a bola, ou seja, no passe também há ação tática. E mais: um sistema ofensivo onde procura-se atacar através de passes curtos e/ou médios, a criação de linha de passe é a base para todos os demais aspectos táticos do sistema ofensivo (triângulo, jogo apoiado, amplitude, profundida, entrelinha…). A linha de passe é um aspecto fundamental neste momento da análise brasileira dos jogos de futebol.

Fonte: Medium por Caio Gondo

#RespeitaOProfessor: o caso Carille visto por outra perspectiva

Todo mundo tem necessidade de um professor na vida. A torcida corinthiana, representada pela população brasileira, também tem.

Este texto terá como tema o professor/treinador.

Por que?

Porque ninguém passa pela vida sem aprender, ninguém passa pela vida sem inspiração. Muitos de nós fomos inspirados por professores. E precisamos enxergar o futebol dentro de algo maior, a Educação.

Para isso, é preciso parar de pensar só em futebol e fazer uma simples reflexão sobre uma figura que está globalizada em todas as áreas, o Professor.

Quantas vezes você foi catapultado a patamares superiores de consciência por algum professor? Quantas vezes foi instigado a pensar para conseguir compreender um ponto de vista interessante de algum professor? Ou foi convencido por uma argumentação inteligente sobre determinado problema? Quantas vezes já viu no comportamento de algum professor um exemplo a seguir na sua própria vida?

Se reconheceu nessas reflexões/experiências da própria vida. Como podemos responder a seguinte pergunta:

Por que não respeitam o Professor? Difícil explicar, não é?

Para iniciar essa série, vou comentar um caso que aconteceu há semanas atrás, quando colocaram a seguinte mensagem no outdoor do estádio do Corinthians:

Gostei da reação da torcida do Corinthians ao reconhecer no Carille “O Professor” e sentir empatia pela situação que ele passou. Não me importa se no caso o treinador do São Paulo estava bem ou mal intencionado. O que me importou foi ver os jogadores e a torcida respeitarem o profissional, o Professor Carille.

O Corinthians tem um histórico interessante quanto ao perfil de treinadores que teve nos últimos anos. Mano, Tite e Carille parecem, por algumas vezes, a antítese do estereótipo do próprio torcedor corinthiano. Os três são tranquilos, de fala mansa e persuasiva, bons gestores do ambiente, serenos nas decisões na maioria das vezes, possuem comportamentos que servem de exemplo para qualquer pessoa comum e, que além disso tudo, ensinam os jogadores a conviverem e não só a jogar bola.

Todo mundo tem necessidade de um professor, a torcida corinthiana também tem – os brasileiros de forma geral tem essa necessidade. A torcida corinthiana representa uma parte da sociedade, mais de 30 milhões. Parte destes torcedores têm necessidades comuns à população brasileira, neste caso, relacionada à Educação. Isso porque as oportunidades de educar-se ainda são privilégios no Brasil e não direitos de fácil acesso, como deveria ser, conforme a Constituição.

O ambiente do futebol é oportuno à Educação e ao desenvolvimento de pessoas – quando dirigidos por bons professores, evidentemente.

Nos últimos cinco anos, ouvi alguns relatos de jogadores que treinei com relação a vida escolar e penso que podem representar parcialmente a população brasileira. A maioria desses relatos em São José dos Campos, onde trabalhei com jogadores de futebol que participavam de um programa municipal de Esportes chamado atleta-cidadão, no qual o acompanhamento e o incentivo ao estudo eram parte da filosofia do programa.

Embora a cidade tenha indicadores de qualidade educacional (Ideb) acima da média do estado de São Paulo, percebi o ambiente escolar pouco atrativo para os jovens jogadores de futebol, segundo alguns relatos. No ensino público, com estruturas e organizações precárias. No ensino privado, muitas vezes com uma rotina massacrante e inibitória da autonomia e criatividade dos alunos, geralmente voltada para o sucesso em aprovações em provas e exames vestibulares.

Por essa razão comecei a entender o porque de tanta dedicação no sentido de ser esportista, jogador de futebol. E por essa razão comecei a me valorizar pelo caminho que escolhi.

Sendo assim, para mim há muito mais sentido na mensagem corinthiana. Todo mundo tem necessidade de um professor na vida. A torcida corinthiana, representada pela população brasileira, também tem. Os professores/treinadores de futebol, e de esportes em geral, são importantes para a transformação de pessoas. Principalmente por que eles contam com algo importante, que ainda não se perdeu, a vontade dos alunos de aprender. O futebol ainda é atrativo para eles e pode ser um importante ambiente de aprendizagem, do jogo e para a vida.

Portanto: #RespeitaOProfessor.

Fonte: Universidade do Futebol por Bruno Pasquarelli

Onde estão os treinadores negros?

Mesmo com inúmeros craques negros na história do futebol nacional, o cargo de treinador ainda é um tabu para os afro-brasileiros.

Pelé, Garrincha, Paulo César Caju, Rivaldo, Ronaldinho Gaúcho, Neymar. Se por um lado a lista de craques negros é infinita, a de treinadores pretos é quase inexistente. A figura responsável por decidir a tática do time e os jogadores que entrarão em campo é dominada por brancos. Desde rostos consagrados como os de Luiz Felipe Scolari e Telê Santana, a nomes questionados como o de Dunga, o atual comandante da seleção, a maioria dos técnicos brasileiros tem um fator em comum: a pele clara.

Dos 20 treinadores da série A do campeonato brasileiro, apenas um é negro, Roger Machado, do Grêmio. Os números do torneio deste ano não destoam das estatísticas das demais edições e explicam uma situação inusitada para o Brasil, apenas um treinador negro se sagrou campeão nacional. Em 2009, Andrade, ex-jogador de Flamengo e Vasco da Gama, levantou o caneco pela equipe rubro-negra. Antes, enquanto jogador, Andrade já havia saboreado o título nacional quatro vezes pelo Flamengo e uma pelo Vasco.

A quebra do tabu e a vitória de um treinador preto não estavam, porém, nos planos do Flamengo. Andrade era auxiliar-técnico de Cuca, então comandante da equipe da Gávea. Depois de uma péssima sequência no campeonato brasileiro, 3 pontos conquistados de 12 disputados, sendo 9 deles em casa, Cuca foi demitido. Depois da sua queda, Andrade assumiu o cargo de modo interino e com o bom desempenho que teve, manteve-se no posto. Com a mudança do esquema tático da equipe do 3-5-2 para o 4-2-3-1 e com aproveitamento de 73% dos pontos disputados, o troféu veio, assim como o título de melhor técnico do campeonato brasileiro daquela edição.

Nada, porém, que o mantivesse frente à equipe carioca. 5 meses depois da conquista, Andrade foi demitido. Osmar de Souza Jr., doutor em Educação Física pela UNICAMP e professor da UFSCar, explica que os treinadores negros estão mais vulneráveis aos resultados negativos e às oscilações de desempenho da equipe. Para ele, é como se existisse uma “pressão externa e interna no clube apenas aguardando um momento de instabilidade para concretizar o desejo coletivo de substituí-lo por um branco, que também será cobrado por resultados, mas terá um limiar de tolerância muito maior por parte da torcida, da imprensa e de outros agentes do universo do futebol. É lamentável”.

Desde a demissão, Andrade nunca mais conseguiu espaço entre os grandes clubes do país. Os seus seguintes trabalhos foram feitos em times de menor expressão, como o Brasiliense (2010), Paysandu (2011), Boavista (2012) e o São João da Barra (2014), este último da segunda divisão do campeonato carioca.

O boicote a treinadores pretos e as barreiras raciais dentro do futebol vão além do caso de Andrade. Lula Pereira, ex-treinador de equipes como Flamengo, Bahia e Ceará, disse em entrevista à Revista Placar que já ouviu de empresários que “o pessoal do clube gostou do seu perfil, mas, me desculpe, você é preto”.

O pentacampeão do mundo Roque Jr. também sentiu na pele o racismo dentro do futebol. Depois de estágios em equipes no Brasil e no exterior, curso de treinador e MBA na área de gestão esportiva, Roque Jr. recebeu o convite para dirigir o XV de Piracicaba-SP durante o campeonato paulista de 2015.

Antes mesmo do primeiro jogo, a mídia local tratava Roque Jr. como uma má opção para comandar a equipe. Durante a campanha, depois de atritos entre o ex-jogador e a imprensa, parte dos veículos de comunicação do interior de São Paulo o rotularam como arrogante. O ex-treinador do XV de Piracicaba ficou 6 jogos a frente da equipe, o necessário para ser considerado pela imprensa regional como o pior técnico da história do clube.

Racismo Inercial

Hélio Santos, um dos precursores da política de cotas no Brasil e presidente do Instituto Brasileiro de Diversidade, destaca como é bom observar que “os treinadores (ex-jogadores) brancos não são nenhum ‘intelectuais’ do futebol. Muito pelo contrário. É racismo inercial: negros jogam futebol, mas não são capazes de ‘pensar futebol’”. Se Andrade e Roque Jr. são lembrados por ótimas passagens em Flamengo e Palmeiras, respectivamente, e mesmo assim tiveram poucas oportunidades, ex-jogadores brancos, independente da qualidade que tinham, foram premiados com ótimas chances. Paulo Roberto Falcão e Dunga são bons exemplos disso. Ambos tiveram as suas primeiras experiências enquanto treinadores como dirigentes da seleção brasileira.

A naturalidade com que os fanáticos por futebol enxergam a falta de negros no posto de coordenador das equipes é vista por Hélio Santos, como face do racismo inercial. Para ele, “treinar equipes sugere ‘racionalizar’ técnicas futebolísticas. Ou seja, infere-se que para treinar há que pensar e refletir. Tudo aponta para uma síndrome racista que não vê o negro nessa posição, mesmo sendo ele exímio craque”.

Seria o mesmo que dizer “que o treinador branco representaria o cérebro da equipe e os jogadores predominantemente os músculos”, de acordo com Osmar de Souza. Ele ainda pontua como essa divisão não se restringe ao esporte.

O futebol apenas reproduz a lógica da divisão social do trabalho, onde brancos coordenam e negros executam. Osmar expõe que “nesta lógica podemos assumir que os treinadores ocupariam a posição que tem como referente, no mercado, o gestor, o patrão, enquanto o jogador, grosso modo, poderia ser entendido como o operário, o ‘peão’”.

As pesquisas comprovam. Conforme se sobe a escala dentro de qualquer empresa, diminui-se a quantidade de negros, distantes dos espaços de decisão e de definição de estratégias. De acordo com uma pesquisa realizada em 2010 pelo Instituto Ethos e pelo Ibope, os negros ocupam 25,6% dos cargos de supervisão, 13,2% dos cargos de gerência e 5,3% dos cargos executivos nas empresas brasileiras, embora, segundo o IBGE, 53% dos brasileiros sejam pretos e pardos.

Seleção Brasileira

Símbolo nacional, a seleção brasileira não foge à regra dos clubes do país. Em toda a história, a equipe foi dirigida em apenas 6 partidas por negros. Em 11 de setembro de 1991, Ernesto de Paulo comandou o país na derrota para País de Gales. Ernesto ocupou o cargo de forma interina depois da saída de Paulo Roberto Falcão.

Gentil Cardoso teve mais oportunidades do que Ernesto de Paulo. Em 1959, Gentil organizou um combinado entre as equipes de Pernambuco para disputar um torneio sul-americano. A seleção terminou em 3° lugar e Gentil foi demitido depois de 5 partidas e 23 dias a frente do cargo. Gentil até o fim da sua vida dizia que “só não me chamaram porque eu sou preto”, em referência a não ter tido uma real oportunidade enquanto treinador da seleção.

Mesmo sem oportunidades reais na seleção e nos principais clubes nacionais, alguns treinadores negros obtiveram sucesso em outros países. Um nome a ser destacado é o do craque Didi. Campeão do mundo em 1958 e 1962 ao lado de Garrincha, Didi sagrou-se campeão peruano enquanto treinador pelo Cerveceros, em 1968. O bom trabalho o possibilitou a condição de dirigir a seleção peruana em 1969, quando o país se classificou via eliminatórias pela primeira vez para a Copa do Mundo com uma surpreende vitória sobre a Argentina.

No mundial, Didi levou a seleção peruana às quartas de final, quando o país foi eliminado justamente para o Brasil, campeão daquela edição. Didi, até os dias de hoje, mesmo passados anos da sua morte, é tido como ídolo no Peru. O craque chegou a treinar clubes como River Plate da Argentina, Fernerbache da Turquia e os brasileiros Cruzeiro, Fluminense e Botafogo. Nunca, contudo, foi convidado a dirigir a seleção brasileira.

Os gênios em campo

O não reconhecimento da inteligência do negro faz com que muitos craques não recebam o convite para serem treinadores. Mesmo distante dos gramados, jogadores como Djalminha, Rivaldo, Carlos Alberto Torres e Pelé não seguiram no meio futebolístico enquanto técnicos. As lentes racistas brasileiras impossibilitam que se enxergue competência mental e cognitiva no futebol praticado pelo negro. A técnica e o drible não são vistos como frutos da inteligência.

As duas últimas duplas de destaque do Santos evidenciam essa diferença. Enquanto Robinho e Neymar foram vistos como talentosos e técnicos, Diego e Paulo Henrique Ganso foram entendidos como jogadores cerebrais.

Osmar de Souza entende o caso como um exemplo clássico e por isso problematiza. Ele lembra como diversos jogadores negros também tinham essa qualidade e eram vistos como cerebrais, casos de Didi, Domingos da Guia, Djalminha, Alex, entre outros. Em segundo lugar, pontua que existem diferentes inteligências, como a técnica e tática. Enquanto Neymar e Robinho se destacam pela primeira, Ganso, Diego, Alex e Didi pela segunda, “desconstruindo a tese de que as diferenças de inteligência ou competência teriam raízes em marcadores raciais”, na sua visão.

Exemplos de luta e mudança

Independente das diferentes realidades de Brasil e EUA, os americanos buscaram soluções para o problema. Em 2003, foi criada a lei de Rooney na NFL, a liga de futebol americano. Desde então, para toda e qualquer seleção e entrevista para algum cargo de treinador ou de direção das equipes, é necessário que pelo menos a metade dos entrevistados sejam negros.

Nas ligas americanas como a NBA e a NFL, onde há uma presença de destaque de atletas negros, há um problema similar. Na NBA, assim como na NFL, há uma supremacia de treinadores brancos. Hélio Santos confirma a existência do mesmo problema no esporte americano, mas ressalva. “Nos EUA se veem mais comentaristas e técnicos negros do que aqui”.

Para Hélio Santos, a resolução do problema passa por um maior enfrentamento da situação por parte dos treinadores negros. “Os ex-jogadores negros sabem-se discriminados e ficam calados. Ativistas, como eu, podem falar e escrever, mas seria diferente se Jairzinho, Mengálvio, Lima, Zé Maria, Wladimir, Careca e Pelé reclamassem”.

* A reportagem do Alma Preta não conseguiu localizar Cristóvão Borges, enquanto Andrade preferiu não se pronunciar sobre o tema. Depois de semanas em contato com a assessoria de Roque Jr., a reportagem não conseguiu uma resposta.

Fonte: Alma Preta

Nas brincadeiras é que se dizem as verdades?

Ter a possibilidade de se comunicar com milhares e até milhões de pessoas instantâneamente é uma de uma responsabilidade sem tamanho. Para o jornalista, informar, apresentar algo como fato ou verdade, deve ser produto de um cuidadoso processo de apuração e também de reflexão. Nas palavras do segundo artigo do código de ética da área:

“a liberdade de imprensa, direito e pressuposto do exercício do jornalismo, implica compromisso com a responsabilidade social inerente à profissão”

Isso se aplica à todas as frentes de atuação jornalísticas, tanto na política, economia, assim como, no esporte. Porém, o jornalismo esportivo sempre foi, historicamente, uma área de menor prestígio em que, muitas vezes, regras distintas imperam no que se refere ao rigor de sua produção. O ambiente informal, descontraído até demais, dos programas de rádio e televisão, acaba permitindo com maior facilidade manifestações e discursos discriminatórios, aqueles que não necessariamente se tem por convicção, mas que estão no nosso inconsciente, fruto da nossa história e se expressam de maneira involuntária. Nessa brecha, o racismo, ainda não resolvido no Brasil, o machismo e a homofobia, preconceitos que andam juntos, podem dar as caras. Assim, o esporte que deveria promover a confraternização, fraternidade e competição sadia, acaba se tornando um ambiente assustadoramente hostil. Até que ponto o jornalismo pode ajudar a mudar, ou não, esse cenário é o ponto de partida dessa reportagem.

O jornalismo esportivo de entretenimento

Nos últimos anos, a maior flexibilidade do rigor jornalístico no esporte ganhou ainda mais força com a priorização do “jornalismo de entretenimento”. Hoje, tudo é motivo para piada. O jogo e seus aspectos mais relevantes ficam sempre em segundo plano, também, não há muita preocupação com as consequências das frequentes brincadeiras. Para o experiente goleiro Deola, ex-Palmeiras, Fortaleza e Vitória, em muitos casos, o jornalismo esportivo “virou um stand up. Hoje em dia você vê que os programas de esportes estão próximos a programas humorísticos. São sátiras, piadas e, infelizmente, é a notícia ruim que vende. É o que as pessoas estão esperando, que os caras falem mal, façam alguma gracinha. Vi vários casos em que o peso acaba ficando maior para determinado jogador, acabam pegando mais no pé”, conta. Para o jogador, as muitas horas de programas de debate ajudam a piorar o cenário, “o povo está carente de risada, de diversão. Você vai assistir política, ouve falar de corrupção, vai ver cidades, só tem violência, as notícias são todas desanimadoras. O futebol, por outro lado, traz notícias divertidas. Só que para isso, o jornalista tem que depreciar, falar mal, caçar assunto, e, às vezes aí acaba extrapolando. O programa esportivo tem uma, duas, três horas, como você vai conseguir achar assunto para falar todos os dias? Você acaba, até de maneira inconsciente, passando do ponto”, analisa

E, como já diria a sabedoria popular, nas brincadeiras acabam aparecendo as verdades. Nas infindáveis horas de debate, ou no texto engraçadinho, preconceitos enraizados em nossa cultura encontram espaço para se disseminar. Para o professor e jornalista Juarez Xavier, “até mesmo os melhores jornalistas acabam reproduzindo isso. O Milton Leite, por exemplo, usa aquela expressão, ‘agora eu se consagro’, quando um jogador erra um gol”, a frase, segundo o pesquisador, demonstra como a visão estereotipada do jogador de futebol se faz presente no discurso do jornalismo esportivo.

Conversamos com o narrador e, também, jornalista, Milton Leite, que contrapõe, “é só ver o que já fiz em minha carreira para perceber que não estou reforçando estereótipo nenhum, nem humilhando ninguém. Se fizesse essa brincadeira só com jogadores de futebol, ou só com alguns jogadores de futebol, talvez se pudesse falar isso, mas essa mesma brincadeira já fiz com comentarista, torcedor, já fiz até comigo. Em uma situação muito legal da minha vida, disse para mim mesmo, ‘e o narrador pensou: agora eu se consagro’. Não estou reforçando estereótipo de que todo jornalista é ignorante, que todo torcedor ignorante, assim como não estou reforçando que todo jogador é ignorante. Acho que as pessoas levam muito a sério algumas coisas que a gente faz. Sei que na televisão estamos expostos, somos alvo de muita crítica, mas não entendo que seja reforçar estereótipo nenhum, não concordo com essa análise”, argumenta.

Jornalista branco e de classe média, jogador preto e pobre

A ridicularização sistemática de jogadores foi criticada há alguns meses pelo jornalista Tim Vickery em uma de suas participações na programação do canal pago SPORTV. O britânico reprovou tal postura, lembrando ter presenciado o mesmo cenário na Inglaterra, décadas atrás, quando jogadores, de origem operária, sofriam com ridicularizações de jornalistas, majoritariamente de classe média. Na visão dele, é o preconceito social invadindo as transmissões esportivas, tanto aqui como lá. “Um cara como o Tim ajuda nesse debate”, afirma Juarez, “ele viu o posicionamento e o reposicionamento na mídia na Inglaterra, podendo ter uma visão privilegiada para fazer essa crítica. Mesmo porque, a imprensa de lá tem um viés abertamente racista contra jogadores não europeus”, conclui.

No Brasil, os jornalistas esportivos da chamada grande mídia, são, assim como descrito por Tim no caso inglês, em sua maioria homens, brancos e escolarizados. Por outro lado, o jogar futebol, é o espaço da tentativa de ascensão social, do uso do corpo e não do intelecto, lugar do pobre e do negro. Aqui, a questão social se confunde de maneira muito mais significativa à de raça. Serve para ilustrar o cenário a dificuldade em encontrar representantes negros não só nas bancadas dos programas, mas também em outros cargos de direção no mundo do futebol, como o de treinador, coordenador, diretor e presidente.

Infográfico retirado do texto “O racismo além das 4 linhas”. Texto: Gabriel Paes e Maria Tereza/O Contra-ataque. Arte: Lucas Camanho. Números à esquerda referentes a qualquer cargo de comando no futebol e à direita a técnicos, diretores executivos e presidentes.

Situação semelhante acontece nas bancadas dos programas esportivos.

Milton Leite relativiza, em seu entendimento, o discurso preconceituoso, quando ocorre, é algo pontual, “pode acontecer, mas não vejo isso como regra geral, como média, para que se considere algo recorrente. Que um ou outro possa fazer é claro, até porque o preconceito acontece em qualquer lugar, mas, pelo menos nas coisas que leio, vejo na televisão, ouço no rádio não me parece ser regra. Considerar isso uma característica dos jornalistas por terem tido uma vida privilegiada ou porque estudaram mais é uma análise superficial. Acho que seria necessário um grande levantamento de situações que aconteceram para poder considerar como regra, como um comportamento de jornalistas que estudaram mais com relações aos jogadores. Não vejo nada disso, convivo com um monte de gente da área, jornalistas, jogadores, técnicos e nunca vi isso”, analisa. A visão é compartilhada pelo goleiro Deola e por Leandro Costa, jogador de 32 anos, que defende atualmente o Central de Caruaru, “não vejo que aconteça por racismo ou preconceito, vejo que é mais direcionado a jogadores de times grandes que dão ibope e que repercutem. Acho que as vezes há exageros, mas mais por conta disso. Podem até existir os preconceitos, racismo, mas não acho que seja o que mais transparece”, afirma o jogador.

Para o professor Juarez Xavier, são nas frequentes brincadeiras que se reforçam estereótipos, “é como se todos os jogadores de futebol fossem semialfabetizados, incapazes de pensar de forma racional seus atos, suas ações e sua perspectiva política”. Quando analisadas outras modalidades, tais ridicularizações ocorrem com menos frequência em esportes mais elitizados, nas quais os praticantes não se encaixam nesses estereótipos, “é algo que a gente acha difícil de acontecer, por exemplo, na fórmula 1, ou no hipismo. Às vezes até brinco com alguns colegas que gostaria de ver um programa de jornalistas que ridicularizasse seus próprios jornalistas”, observa o professor Marcel Tonini, autor da tese de doutorado Dentro e fora de outros gramados: histórias orais de vida de futebolistas brasileiros negros no continente europeu. “Acho que isso acontece mais no futebol primeiro por conta do espaço da mídia e, sem dúvida, por causa da origem dos jogadores”, afirma o pesquisador.

No Brasil, com relação aos estereótipos, também observamos a associação entre a prática de alguns esportes e a pouca inteligência. Não são poucas, nem raras as anedotas e as piadas feitas com jogadores de futebol. Não se observam os mesmos estereótipos com os jogadores de vôlei ou basquete ou, ainda, natação. Parece que, quanto mais popular o esporte, ou seja, mais pessoas das classes baixas estiverem envolvidas, mais o esporte tem seus jogadores estereotipados” — José Jairo Vieira

Xenofobia

O discurso preconceituoso no jornalismo esportivo se dá também em relação a esportistas de outros países. Marcel Tonini lembra de passagens ocorridas nos históricos duelos entre as seleções de vôlei de Brasil e Cuba no final dos anos 90, quando as adversárias do Brasil eram frequentemente ridicularizadas por seu país de origem e cor de pele, e, mais recentemente com o paraguaio Romero, que chegou a ficar sem dar entrevistas durante alguns meses em 2017.

Consequências fora das quatro linhas

O goleiro Deola conta que já observou situações nas quais a atuação da imprensa teve consequências que extrapolaram as quatro linhas, “eles incitam a própria torcida a começar a falar mal do jogador. Já tiveram casos de perseguição de torcida, de agressão ao jogador, por conta de notícias que, às vezes são verdadeiras e outras são falsas. Mas por mais que sejam verdadeiras, a hora que começa a incitar a violência aí passou do ponto”, analisa. Para Juarez Xavier, são essas consequências que devem ser o centro das preocupações na atuação dos jornalistas, “o problema não é o que pensa o jornalista, e sim quando ele usa os meios de comunicação para poder dar vazão ao sentimento e à percepção preconceituosa. O mais importante é o impacto que isso tem. Se você não tem o controle da informação, com a qualidade necessária, acaba reproduzindo um ato que tem consequências sociais. Em São Paulo, por exemplo, morre um torcedor a cada clássico praticamente. Acho que essa violência é fruto da despolitização, que tem ajudado a criar um clima de preconceito e discriminação que divide, por um lado, os chamados comentaristas brancos de classe média, e, por outro, os jogadores de futebol, objetos e foco da violência racial nos estádios, na mídia e na rua. A ação da mídia é muito forte e muito séria no combate à violência nos estádios. Seria muito importante que existisse, por parte de seus agentes, essa consciência”, defende o pesquisador. A campanha #DeixaElaTrabalhar, de repórteres mulheres cansadas do assédio e violência sofrido por elas nos estádios que explodiu no último final de semana é um exemplo de como discursos violentos são inaceitavelmente frequentes no ambiente do futebol e, por outro lado, da importância da representatividade no combate de discursos preconceituosos. É possível, por exemplo, imaginar um comentarista assumidamente gay nas bancadas de programas esportivos?

Os piores jogadores do seu time

Para a realização dessa reportagem, pedimos a 48 torcedores do estado de São Paulo que tentassem mencionar de cara os piores três jogadores que viram no seu clube de coração. Dos 6 mais lembrados, 5 são negros. O levantamento, que tem um caráter apenas ilustrativo, pode servir de alerta sobre como o discurso midiático tem a capacidade de influenciar a percepção de desempenho individual de jogadores, o que impactaria inclusive na carreira esportiva dos respectivos.

Logo, “é necessário que o jornalismo compreenda as suas responsabilidades sociais e o impacto que ele tem e possa efetivamente assumir a sua responsabilidade social como segmento importante do jornalismo em especial em países como o Brasil”, como argumenta Juarez Xavier e explicita o código de ética da profissão.

Existe ainda um longo caminho a percorrer na busca por uma sociedade mais humana, porém, se por um lado ainda não nos desvencilhamos de muitas atitudes preconceituosas, é possível perceber avanços. Para o pesquisador Marcel Tonini, “hoje, já existe uma certa crítica com relação a isso, há uma noção de que o futebol não pode ser diferente da sociedade. Se a discriminação acontece na sociedade, de alguma maneira, isso vai se reproduzir dentro do futebol, e se ele se reproduz de alguma de maneira, não podemos ser condescendentes”. Marcel usa o exemplo do caso do zagueiro argentino Desábato, preso em campo por ofensas racistas ao atacante do São Paulo Grafite durante uma partida da Libertadores em 2005, para mostrar a evolução do discurso jornalístico de lá para cá, “existe uma diferença bem grande da abordagem da mídia. Na época, muitos comentaristas como o Tostão e Juca Kfouri diziam ‘ah isso faz parte do futebol’, ‘não deveria ser assim’, ‘o delegado foi oportunista’. Hoje existe uma unanimidade em tratar o assunto de uma maneira mais certa do meu ponto de vista”, analisa.

É fundamental que o jornalismo seja tratado com a seriedade que merece. Nas palavras de Milton Leite, “quem é jornalista, bem-humorado ou não, tem a missão de se aproximar da verdade, de fazer um comentário baseado em fatos e dados. Isso vale para qualquer área, esporte, economia ou política. Acho que tem muita polêmica em cima de jornalismo esportivo porque, efetivamente, a maior parte dos veículos estão encaminhados um pouco para essa coisa do entretenimento. Aí muito jornalista acaba confundindo, achando que a piada vem antes da informação, e com isso não concordo”, argumenta.

Por isso, apesar dos avanços, é preciso que quem atua como jornalista esteja ainda muito atento. A ridicularização sistematica que vem a reboque do jornalismo de “entretenimento”, cada vez mais presente na cobertura esportiva, deve ser vista com extrema cautela para que não ameace o direito de todos de se divertir, genuinamente, com o esporte.

Não conseguimos contato com o jornalista Tim Vickery até a conclusão dessa reportagem.

Principais referências

A crônica do futebol que encara racismo e xenofobia como piada. El país. 10 de março de 2018.

A janela de vidro. Mauro Betti. 1997

Além dos gramados: história oral de vida de negros no futebol brasileiro (1970–2010). Marcel Diego Tonini. 2010.

Código de ética dos jornalistas brasileiros. FENAJ. 2007

Considerações sobre preconceito e discriminação racial no futebol brasileiro. José Jairo Vieira. 2003.

Dentro e fora de outros gramados: histórias orais de vida de futebolistas brasileiros negros no continente europeu. Marcel Diego Tonini. 2016.

Esporte na mídia ou esporte da mídia? Mauro Betti. 2001

Mídia esportiva e a profissão de treinador de futebol: estudo de caso sobre o mundial de clubes da FIFA. Roberto Nascimento Braga da Silva. 2014.

No futebol, a face mais explícita do racismo que “faz parte do jogo”. El país. 20 de novembro de 2017.

O racismo além das quatro linhas. O contra-ataque. 14 de março de 2018.

Onde estão os treinadores negros? Alma preta. 19 de outubro de 2015.

Sobre a televisão. Pierre Bourdieu. 1997

Fonte: Ludopédio por Arthur Sales

A viagem de carro – No caminho para o jogo! O regresso a casa!

Um dos momentos que pode ter maior impacto em termos de pressão sobre as crianças e jovens que praticam desporto são as viagens de carro no caminho para o treino ou jogo e depois no regresso a casa, neste artigo vamos analisar alguns desses potenciais danos que podem ser provocados durante essas viagens.

O ritual habitual em dia de jogo ao fim de semana é cheio de emoção na maioria dos lares para as crianças/jovens e pais e com razão, é uma oportunidade para os adultos escaparem do stress da vida semanal e entrar num novo mundo, que tem a ver com o estar envolvido, assistir e participar na prática desportiva dos filhos. Para mostrar o quão poderosa a experiência em dia de jogo é para os pais basta ver quantos telemóveis e câmaras fotográficas estão a ser usadas durante a partida para filmar ou tirar fotos? É um momento definitivamente diferente de qualquer dia da semana de trabalho normal. A participação na pratica desportiva e o desporto é também a sua “fuga ” à vida quotidiana!

Mas como isso pode afetar a criança/jovem e o seu desempenho? Bem, pode haver um risco de que o pai/mãe esteja mais entusiasmado e animado do que a própria criança/jovem para a competição desportiva e todas as conversas e comentários estão relacionados com o jogo:  “Hoje vai ser um grande jogo!”,”Estás preparado e confiante”, “Hoje espero que faças um grande jogo”.

É realmente um grande jogo? É provavelmente um jogo desportivo normal de uma criança/jovem e eles vêem isso de forma muito diferente dos adultos. As crianças/jovens provavelmente não vêem os jogos como grandes jogos, a menos que os adultos compartilhem essas informações com eles..

As crianças naturalmente ficarão nervosas no dia do jogo, desesperadas para fazerem tudo bem, desesperadas para agradar aos seus pais e desesperadas para deixar o seu treinador feliz. Muitas crianças só verão a vitória como uma forma de satisfazer a exigência dos pais e obter a sua aprovação e respeito.

Algumas crianças são perfeccionistas e são muito conscientes das suas falhas, erros e sucessos.

Os pais devem evitar adicionar essa pressão ou stress.

A VIAGEM DE CARRO PARA O JOGO COMEÇA …

Tens o teu equipamento de jogo? Não te esqueceste das botas e das caneleiras?

Eu estava pensar no treino da semana passada em que tu deverias estar colocado junto ao poste num canto, foste lento e fizeste marcação ao homem.

Além disso, quando tinhas a bola no meio campo deverias ter sido mais rápido para mudar o jogo de flanco, tenho pensado nisso até hoje.

Não te esqueças que o avançado que hoje que vais marcar é bom, tenta não lhe dar muito espaço.”

Espero que o nosso guarda-redes hoje esteja em dia sim.

Qualquer conselho sobre como melhorar o desempenho vindo do pai/mãe para a criança/jovem durante a viagem no carro aumenta a pressão em relação ao treino ou ao jogo. As mensagens constantes do pai/mãe para a criança/jovem leva a um aumento da ansiedade. Isso não importa, porque o pai/mãe se sente muito melhor depois de dizer as suas ideias como forma de aliviar os seus próprios nervos e ansiedade.

As crianças/jovem conseguem perceber a linguagem corporal dos seus pais e mudanças de humor perceptíveis. Se você estiver se comportando de maneira diferente do normal eles vão perceber. Você está quito e nervoso? Se assim for, eles podem começar a sentir o mesmo!

Você está agitado e falador? Outro sinal de que você pode estar nervoso e ser um pouco exagerado eles vão perceber.

Temos um papel importante como pais para manter os nossos comportamentos consistentes, bem como a nossa linguagem corporal. Tratar os treinos, os jogos e os chamados jogos grandes da mesma maneira, tratando toda a experiência da mesma forma não importa o que mais está acontecendo. Isto irá ajudar a fornecer um ambiente confortável para a criança/jovem que já lida com o seu próprio stress e pressão antes do jogo.

Algum stress ou pressão pode ser benéfico para a criança/jovem, eles já sentem isso, não é preciso por mais carga. Podem ajudá-los a se prepararem para fazer o melhor possível. À medida que o stress/pressão aumenta, eles podem aumentar a sua capacidade de enfrentar o desafio, enfrentá-lo com maior atenção, foco e força… No entanto, há um ponto de inflexão e os pais e treinadores precisam estar cientes disso quando o stress/pressão se torna um obstáculo para um bom desempenho. Muita pressão e exigência torna-se difícil de gerir, lidar e pode levar a criança/jovem a se sentir exausta mental e fisicamente antes mesmo de dar um passo em campo.

Os pais devem garantir que a viagem de carro antes do jogo permita que o stress seja gerido de uma forma positiva por cada criança/jovem à sua maneira. Assegurar que durante a viagem de carro o comportamento é tão normal quanto possível, assim como seria numa ida ao cinema e lembre-se que a principal razão porque as crianças brincam é por diversão e praticam desporto para se divertirem. Pode não ser a sua motivação, mas há muitas evidências que sugerem que, se você quiser que o seu filho tenha um bom desempenho, talvez queira ir levá-lo ao jogo e seguir o seu caminho!

A VIAGEM DE REGRESSO A CASA COMEÇA …

A viagem de carro para casa é quando a criança/jovem quer apenas deixar o jogo em segredo – seja uma vitória ou uma derrota.

Eles sabem se jogaram bem ou mal. Você não precisa dizer nada.

É o jogo deles e é o convite deles para você fazer parte da sua vida desportiva. Divirta-se a ver o vídeo a seguir…..

“THE RIDE HOME – O REGRESSO A CASA”

“Então não foi o teu melhor jogo, estamos de acordo!?”

“Parecia que não querias jogar, que querias sair do jogo, do que jogar com os teus amigos!”

“Mas tudo bem, se é isso que queres fazer, mas diz-me porque podes fazer isso a qualquer momento”

“Talvez, possamos não vir ao próximo jogo, hummmm!”

“Porque escolheres perder o teu tempo é uma coisa, mas fazeres perder o meu tempo e o tempo do teu treinador é outra coisa, és um egoísta, tu não te importas com as outras pessoas, tu não queres saber de trabalhar no duro, tu não queres saber do trabalho em equipa, e é por isso que quase sempre estás no banco de suplentes sempre que é importante.”

“Então se queres continuar a jogar, precisas de olhar para ti mesmo, e pensa sobre isso.”

Uma elevada percentagem das crianças e jovens abandonam o desporto antes do ensino secundário. Como falamos com os nossos filhos sobre o desporto é como mantemos os nossos filhos no desporto.

As crianças/Os jovens querem que você seja um(a) pai/mãe quando terminarem de jogar e não um segundo treinador!

Talvez mesmo assim ainda sinta a necessidade de falar com o seu filho depois de um jogo,  talvez possa fazer algumas perguntas que permitam à criança refletir sobre o jogo / actividade em que estiveram envolvidos.

Quais foram as melhores partes do jogo para ti hoje?

O que achaste que fizeste melhor?

Houve alguma coisa com que não estavas satisfeito?

O que achas que precisas treinar para melhorares?

Isto, pelo menos, permite que vocês tenham uma conversa, permite que a conversa seja conduzida pela criança e gerida por si. Não mais do que isso, só porque o seu filho deixou entrou na conversa não significa que você tem que transmitir todo o seu conhecimento, analise e visão para eles.

Ou talvez todos devamos dar um passo atrás, ter orgulho do que os nossos filhos fazem e simplesmente dizer a eles:

“Eu adorei ver-te a jogar!”

Fonte: Futebol de Formação

“Ser profissional no amador”

Existem no mercado inúmeros livros técnicos de futebol, todos eles virados para o Alto Rendimento e nenhum para o Futebol dito Amador, e a verdade é que em Portugal entre 85% a 90% dos clubes de futebol (com equipas seniores) são amadores.

Nesse sentido, um grupo de colegas de diferentes áreas reuniu-se para realizar esta obra com o intuito de ajudar os treinadores e todos os agentes desportivos que exercem funções no futebol amador, de modo a fornecer a estes uma ferramenta essencial no seu dia-a-dia e ajudá-los no cumprimento de objetivos. Uma obra de cariz técnico onde são abordadas áreas essenciais para as suas funções – treino, scouting, coaching, fisioterapia e gestão desportiva. Uma ferramenta de trabalho absolutamente indispensável para os treinadores que irá acrescentar valor e potencializar ao máximo o alcance de resultados.

Ser Profissional no Amador” foi lançado no final do mês de Outubro 2016. Pode ser adquirido nas principais livrarias do país e na editora Prime Books.

Cinco autores (…) explicam na FPF360 porque escreveram um livro com ajudas preciosas para os clubes amadores do futebol português.

A revista oficial da Federação Portuguesa de Futebol ajuda a difundir as ideias destes cinco autores. Podem ler na íntegra no site da FPF…

Fonte: Futebol de Formação