Esquema tático e suas variações: até onde os números do esquema são mesmo representativos no campo?

Desde o boom da análise tática na internet no Brasil, o primórdio de tudo era achar o esquema tático do time e continuar a análise através dos “números de ônibus”: “O esquema tático da equipe é 3–5–2, defende 5–3–2 e ataca 2–3–5. Ah, e agora mudou para o 4–1–4–1”. Mas esses números realmente acontecem nessas fases de jogo? Como que realmente define o esquema tático? Essas numerações em ação defensiva e na ofensiva representam mesmo o que acontece no campo?

Em suas primeiras temporadas no City e assim como foi no Barcelona e no Bayern de Munique, os times de Guardiola eram muito conhecidos por atacarem no 3–2–5 ou 2–3–5. Mas, afinal, isso realmente existia em campo ou era para facilitar a transmissão da mensagem? E seguindo a ideia do texto, no fim dele, falarei sobre a tal linha de 6 que apareceu no Brasil faz um tempo.

Antes de partir sobre, por exemplo, o 2–3–5 de Guardiola, precisamos ir para a base teórica do texto todo: como se define o esquema tático de um time? É a partir desta resposta que teremos o conceito de tudo.

Esquema tático já foi o tema central de dois textos daqui (se você perdeu, estão este e este), mas eu mesmo percebi que faltou um fator primordial para que o leitor não tivesse mais dúvida de como definir o esquema tático da equipe. O esquema tático de uma equipe é definido por quem tal jogador se interage mais dentro da partida. Essa interação é relacionada com a movimentação de quando o jogador e o time estão sem a bola, enquanto que a equipe e o jogador estão com a bola, o termo mais adequado seria associação. Mas como é essa tal interação?

Essa interação é relacionada com quem tal jogador se movimenta de acordo com o movimento ofensivo e defensivo da equipe. De maneira mais simples: se um jogador se movimenta de acordo com o movimento do outro do mesmo time, esses dois jogadores estão se interagindo! E maneira ainda mais simples e colocando com um exemplo: se um volante vai e o outro fica, e ambos se movimentam juntos e alinhados na maior parte do tempo, eles estão se interagindo e, assim, o esquema tático da equipe há, pelo menos, um “2” nele. Isso é interação!

Hoje em dia, a interação mais fácil de perceber é na linha defensiva: facilmente se nota que há uma linha com quatro defensores, e todos eles se movimentam de acordo com o outro defensor. Com isso, há uma interação entre quatro jogadores e, assim, há um número “4” dentro do esquema tático da equipe.

E é a partir desta definição, temos como definir todos os esquemas táticos possíveis que forem aparecer no futebol! Se um time que tem quatro jogadores que se interagem mais no meio do campo do que com o seu centroavante, temos que um número “4” no esquema e, se a equipe tiver uma linha defensiva com quatro jogadores, o esquema tático do time é provavelmente o 4–1–4–1 e não o 4–3–3 (para mais detalhes sobre as diferenças do 4–1–4–1 e do 4–3–3, veja aqui) E assim segue.

Neste momento do texto cabe uma reflexão: então como se define o esquema tático da equipe com quem os jogadores mais se interagem entre si, hoje em dia, os esquemas com três zagueiros são todos começados com um número “5”, certo? Quase isso.

O Chelsea de Antonio Conte é um dos exemplos mais clássicos de estudo para uma linha de 5. Mas, afinal, o esquema tático da equipe era o 3–4–3 ou o 5–4–1?

Por definição, se define as “linhas” de um esquema tático da maneira com quem os jogadores mais se interagem dentro da partida. Diante disso, temos que o mesmo time e com os mesmos jogadores diante de dois diferentes adversários pode apresentar dois esquemas táticos diferentes, no entanto, os esquemas são bem próximos. Veja em exemplo.

Peguemos, novamente, o Chelsea da imagem acima de Antonio Conte. Diante de um time que se defende muito mais do que ataca, os Blues teriam com que Moses e Alonso se interagindo muito mais com Kanté e Drinkwater do que com Azpilicueta, Christensen e Rudiger, já que o Chelsea pouco entraria em ação defensiva e poucas vezes o time teria de fato cinco defensores flutuando de um lado para o outro e se interagindo. Contra este adversário, o esquema tático dos Blues seria, sim, o 3–4–3. Já o pensamento contrário teria o resultado inverso: como Moses e Alonso iriam se interagir mais com Azpilicueta, Christensen e Rudiger do que Kanté e Drinkwater, o esquema tático seria o 5–4–1. Viu como a palavra “mais” faz diferença? E ela faz muita diferença para todas as reflexões seguintes!

“Ah, mas o esquema tático do Cruzeiro é o 4–2–3–1!”. “Não! O esquema mesmo é o 4–4–1–1!”. Os dois estão completamente errados? Não. Depende de quem os jogadores mais se interagiram dentro da partida.

Com esta linha de pensamento, a gente vai para um próximo levantamento: e aquelas situações de que o comentarista fala de que tal time joga em um esquema, defende em outro e ataca num terceiro? Isso realmente existe? Sim, eles de forma para elucidar e de demonstrar de maneira mais rápida realmente funcionam, mas para você que já viu de que para definir um esquema tático de uma equipe se considera com quem os jogadores mais se interagem, todos esses números existem? Seguindo, esta linha de pensamento, todos esses números não existem e, mais: só existe o número do esquema tático!

O Real Madrid de Zinedine Zidane joga no 4–3–1–2, se defende no 4–4–2 e ataca no 4–3–3. Quais desses números realmente existe no campo? Aquele no qual os jogadores mais se interagiram na partida!

Mas, ah, o time ataca sim no 2–3–5 porque os pontas abrem e os meias centralizam, e, assim, forma um 5 na frente junto com o centroavante”. É, mas, em ação ofensiva, o desenho tem que ser necessariamente este em todo o momento? Ninguém pode “desmanchar” os números? Sim, claro que pode! E aliás, em ação ofensiva, deve-se desmanchar os números! Uma vez que há adversários e esses querem neutralizar o ataque, a movimentação e a ocupação dos espaços vazios são fundamentais para poder atacar. E com isso, até em ação ofensiva, o tal “o time ataca em tal número” pouco existe e os jogadores pouco se interagem entre si! Mas entendo que é para elucidar e passar a mensagem mais rapidamente, porém, o número em si não existe de fato no campo! Não tem como um jogador se interagir mais com diversos e em várias fases do jogo! Ele só se interage mais com alguns na média geral da partida!

“Ah, o Paulinho no Barcelona avançava tanto que virava atacante e mudava o esquema tático do time”. Mudava? Se Paulinho interagiu mais com Suarez do que Rakitic e Busquets naquele jogo, o esquema tático era um, mas como Paulinho só avançava na fase ofensiva e nas demais ele se interagia com Rakitic e Busquets, o esquema tático do Barcelona tinha três no meio, sendo um deles, o brasileiro.

Com o exemplo de Paulinho no Barcelona, já matamos muitas situações das quais, como por exemplo: “Ah, mas o lateral avançou tanto pelo meio que ele fez o time mudar de tal esquema para outro”. Não! “Ah, mas o volante se enfiava entre os zagueiros quando o seu time era atacado e isso fazia o time ter uma linha de 5”. Não! “Ah, mas o centroavante recuava tanto para buscar a bola que fazia que o seu time passasse a não ter atacante”. Não! Você percebeu que em todas essas situações caem na mesma situação de Paulinho no Barcelona? Em todas, tal jogador só se movimentava em uma fase do jogo enquanto que nas demais não! Como temos quatro fases de jogo, logo, na maior parte do tempo, o jogador se interage mais com outros, o esquema tático não foi alterado!

E a linha de 6?

E por fim, uma situação que apareceu em tempos recentes no Brasil: afinal, o time se defende com uma linha de 6? Esta situação vai envolver os conceitos de interagir mais e a interação.

Isso que o Corinthians de Fabio Carille era uma linha de 6?

Vamos por partes antes de responder a pergunta. Partindo de que com quem os extremos se interagiram mais dentro de um jogo e, se caso, o time que usasse os extremos voltando até o fim fosse muito mais atacado do que atacando, poderia se dizer que sim, existe a tal linha de 6, mas não, a linha de 6 não existe! Voltemos para a definição de interação:

Essa interação é relacionada com quem tal jogador de acordo com o movimento ofensivo e defensivo da equipe. De maneira mais simples: se um jogador se movimenta de acordo com o movimento do outro do mesmo time, esses dois jogadores estão se interagindo!

Agora pense nas equipes que teoricamente se defende com uma linha de 6: com quem os extremos que voltam até o fim se interagem com relação a outro companheiro do seu time? Eles flutuam e se movimentam lateralmente junto com a linha defensiva ou só estão lá atrás por causa dos laterais adversários que subiram muito e simultaneamente? Os extremos se interagem junto com o meia central ou os seus defensores? Aqui nem entra a questão de interagir mais, mas sim o conceito de interação! Como os extremos só estão lá por causa dos laterais adversários que subiram juntos e não flutuam e nem se relacionam junto com os seus defensores, a linha de 6 não existe! Não tem nem sequer interação entre eles para começar a cogitar um número para eles!

No mesmo jogo do flagrante anterior, vejam com quem Romero e Léo Jabá se interagiam de fato: com o seu meia! Diante disso e dependendo da partida, poderia se dizer que havia uma linha de 3 no meio de campo do Corinthians, mas não havia e não há uma linha 6!

Por fim, antes de definir qualquer “linha de ônibus” de tal equipe, sempre lembre dos conceitos de interação e com quem o jogador se interage mais na partida. Com esses conceitos bem claros, pode-se definir qualquer esquema tático em qualquer jogo de futebol.

Fonte: Medium.com por Caio Gondo

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Processo seletivo – Auxiliar Técnico – Categorias de Base – Ferroviária (SP)

Nesta terça-feira última (18/09/18), a Associação Ferroviária de Esportes (SP) abriu um processo seletivo para Auxiliar Técnico das categorias Sub-15, Sub-17 e Sub-20.

Aqueles que tenham interesse, enviar o currículo até sexta-feira (21/09/18) para o endereço na imagem abaixo:

Planejamento: razão ímpar na abordagem tática

A importância do planejar taticamente aquilo que executamos.

Bira Arruda*

Desempenhar uma atividade natural dentro de um campo de futebol com a finalidade de cumprir um sistema ou esquema tático, não é uma atividade tão simples como muitos imaginam. Estamos falando aqui de combinações diversas dentro de um corpo humano: físico, mental, social e propriamente o entendimento tático.

Treinar com um planejamento estudado para atingir os objetivos é muito importante, seja ele para formação ou para competição, uma vez que embora possamos caminhar com estes objetivos separados, também podemos unificá-los.

Quando o treino é específico para competição, treinar aquilo que pretendemos realizar no jogo é um processo mais próximo do real e os resultados poderão ser de melhor valia.

O objetivo de uma equipe em competição é ganhar e para isso no futebol tem que fazer o processo tático resultar em gols. Portanto, a bola é um elemento muito importante dentro deste esporte e ficar com a bola, ou em nossa linguagem, termos a posse da bola é muito importante, porém com esta posse da bola devemos nos organizar para que possamos fazer a mesma chegar e adentrar ao gol adversário.

Assim sendo, encontraremos oportunidades de realizarmos as transições defensivas e ofensivas durante a partida e de maneira organizada podemos estar aptos a realiza-las. Quando perdemos a bola, rapidamente devemos recuperá-la e quando estamos com a posse da bola devemos nos posicionarmos rapidamente para atacarmos nosso adversário e chegarmos ao objetivo intermediário que é o gol.

Desta forma podemos conceituar este artigo como um planejamento, onde previamente idealizamos, desenhamos e executamos taticamente de forma planejada em treinamentos tudo aquilo que queremos utilizar no próximo compromisso ou partida, assim trabalhamos de maneira prévia, para que no momento do jogo nossos futebolistas possam de maneira bastante clara realizar o que devem fazer e quais objetivos devem cumprir no jogo para alcançarmos o melhor resultado.

*Treinador categoria de base do Desportivo Brasil / SP. Professor Universitário Faculdade Tecnologia Porto das Monções. MBA em Gestão pela Fundação Eurípides Soares da Rocha.

Bibliografia

GARGANTA, Julio; MESQUITA, Isabel; TAVARES, Fernando. Olhares e Contextos da Performance nos Jogos Desportivos.  Faculdade de Desporto da U. Porto (FADEUP), 2008

ANDERSON, Chris; Sally, David. Os números do Jogo. Por que tudo que você sabe sobre futebol está errado. São Paulo: Paralela, 2013

JONATHAN, Wilson. A pirâmide invertida: A história da tática no futebol. São Paulo: Empório do Livro, 2016.

Formar não é só ganhar

Semana após semana vemos treinadores e pais obcecados com vitórias, isto seria natural se tivéssemos a falar de alta competição, mas nos escalões mais baixos da formação isto faz algum sentido?

Apenas devem jogar os 7 melhores e apenas meter os teoricamente mais “fraquinhos” quando o resultado está feito?

Quando temos um miúdo que é exímio na marcação de um livre ou de um penalty, deve ser esse miúdo a executar todos esses lances?

Devemos passar o jogo a dar indicações aos nossos atletas ou devemos deixar que eles errem mesmo que isso traga um mau resultado á equipa?

Os atletas, desde muito novos apercebem-se se são ou não importantes num grupo,e se constantemente virem os mesmos a serem escolhidos acabam por desmotivar e por criar um complexo de inferioridade com os colegas que são “escolhidos”.

Todos têm o direito de participar em todos os momentos do jogo, não faz qualquer sentido durante uma época serem sempre os mesmos a marcar os lançamentos, cantos, livres. Por muito fraquinho que seja o seu remate qualquer miúdo deve ter a oportunidade de marcar um livre, mesmo que o resultado esteja “apertado”, muitas das vezes os miúdos que têm menos oportunidade hoje daqui a um ano ou dois são os melhores daquela equipa.

Às vezes durante os jogos dou por mim a pensar se sou o único que me esqueci do comando da “Playstation” em casa, é tanta mas tanta gente a dizer aos miúdos “passa…cruza…remata…corre…acorda”, que eu chego ao ponto de pensar se estou a ver um jogo de miúdos, futuros homens que vão ter de tomar decisões sozinhos e que a idade de errar é aquela, ou se o que estão ali a jogar Robots que têm de fazer tudo aquilo que os treinadores/pais querem.

O grande problema que vemos diariamente no futebol dos mais pequenos é que vemos os clubes e os seus treinadores a falar constantemente em valores, respeito, formação, e essas palavras bonitas todas, mas quando a bola está a rolar a historia é outra, e na maioria dos casos o sucesso pessoal e a sede de vencer falam mais alto.

Será que a maior felicidade no fim dos jogos dos nossos miúdos é o facto de terem vencido o jogo?

Podem ter a certeza que se todos eles tiverem um momento, basta um momento de sucesso em toda a partida e se este for valorizado no fim do jogo, tanto pelo treinador como pelos pais o miúdo vai ficar contente e motivado para voltar aos treinos na semana seguinte, mesmo que o resultado tenha sido negativo.

Fonte: Futebol de Formação por André Castro

O problema dos clubes amadores na formação

… A DIFICULDADE DOS SEUS DIRIGENTES DE PERCEBEREM A MUDANÇA …

Antigamente, havia os chamados mecenas do futebol, que acabaram; depois, pensou-se que seriam as câmaras e juntas de freguesias (figura estado) a resolver os problemas financeiros dos clubes. Como não foi possível, os clubes viraram-se para a formação, escolas/academias de futebol, onde com a mensalidade dos atletas arranjam verdadeiras fortunas para manter as equipas de futebol sénior em escalões onde não podem estar, com custos insuportáveis para as suas realidades, com a agravante de não darem à formação e aos seus financiadores (pais dos atletas) o mínimo de condições de treino, de equipamento desportivo e formadores à altura.

O tempo dos mecenas, que vêm do tempo dos “contos” $$$, era fácil de estar no futebol, o dinheiro aparecia de todo o lado, os recibos saiam do clube e entravam nas finanças, o saco azul era a moda, agora, depois das alterações legais, tudo mudou.

Grande parte dos clubes amadores com futebol de formação prescinde de massagistas (quantos menos e mais baratos melhores), preparadores físicos, treinadores de guarda-redes, treinadores adjuntos, chegam a casos de ter um treinador para 15 / 20 atletas, treinadores sem qualificação. Tudo isto para amealhar o máximo de dinheiro para gastar no futebol sénior. Não conseguem perceber que é um investimento a fundo perdido, sem retorno e que estão a dar cabo do melhor que os clubes têm: as crianças, os jovens que querem praticar desporto, jogar futebol e divertirem-se no clube da sua terra ou região, onde jogaram os avós, os pais, familiares e amigos, isto numa 1ª fase, a fase do lúdico e da animação.

Os clubes têm de ser parte integrante e ativa na sociedade, têm que acompanhar as crianças que são o futuro e ajudá-las a crescer a ver o desporto como uma coisa boa e não como um problema ou um negócio.

Temos de voltar à velha história do amor à camisola, o futebol tem de ser defendido pelos seus verdadeiros amantes, através da formação e de equipas com elementos da sua terra/região, para atraírem mais pessoas, mais famílias aos campos de futebol. A grande meta do futebol amador, é exactamente esta, tem de ser amador.

Não há lugar para Dirigentes “paraquedistas”, que não conhecem a realidade da terra/região e do(s) clube(s), que só querem tirar dinheiro das mensalidades dos pequenos e jovens atletas, para manterem em alta os seus “egos” e “excentricidades” em jogar em divisões que são financeiramente incomportáveis.

Não há lugar para Dirigentes ditadores, a lei do quero posso e mando, Dirigentes de clubes que só pensam no seu bem-estar  e destroem tudo quanto o clube construiu em anos de vida, não só deixam o clube mal financeiramente quando saem (pois esta é a grande realidade, quando as coisas correm mal, são os primeiros a sair), com os maus actos de gestão originam o fim dos escalões de formação ou mesmo do clube em si.

É inadmissível hoje em dia um clube de futebol amador pagar ordenados como se pagam, orçamentos anuais na casa das dezenas ou centenas de milhares de euros (surreal !!!) para isto acontecer alguma coisa têm de ficar para trás: ficam os fornecedores de bares, material médico, equipamentos (existem clubes que todos os anos mudam de marca, a conta fica do lado do fornecedor), acabam por ficar também os jogadores seniores, dificilmente os compromissos são honrados, as equipes técnicas e os treinadores da formação que são os principais responsáveis pela angariação do dinheiro (via mensalidade dos seus atletas, das suas equipas e do seu trabalho diário).

As grandes questões que devem estar presentes na formação, como a Política Desportiva a seguir, definida para o mandato da direção nunca é definida, os transportes dos jogadores para os jogos, é inexistente e por vezes “criminosa”, pois usam carrinhas sem condições, sem obedecer à legislação e rezando para que não aconteça nenhum acidente.

Antigamente, o futebol sénior dava para pagar as camadas jovens, hoje passa-se exatamente o contrario. Se aumentarmos os custos do futebol sénior, temos de aumentar o do futebol jovem (que antes nem pagava) para equilibrar as contas.

Hoje um departamento de futebol de formação, bem organizado, é auto-sustentável (não nos podemos esquecer que os pais pagam todo o custo, desde inscrições a equipamentos) e que parte da verba recebida tem de ser reinvestida na própria formação na ordem dos 70% ficando os restantes 30% para o clube.

Devem ser realizados eventos como forma de obter receitas extraordinárias para o clube de modo a garantir os orçamentos apresentados no início de cada época e incluídos no plano de atividades.

As escolas/academias de formação / departamentos de formação são uma realidade, os técnicos hoje têm de ter formação, seja universitária, seja em cursos de especialização, os massagistas têm de ter formação, os treinadores de guarda redes e preparadores físicos têm de ter formação.

Para quando passar a ser obrigatório os Dirigentes (Presidentes, Diretores, Delegados) a terem também formação?

As escolas de formação / departamentos de formação, clubes com formação, academias vieram para ficar, aqui vai haver a separação do trigo e do joio, hoje só há lugar para quem trabalha bem, quem dá condições aos atletas, sejam físicas, humanas, matérias, etc. Estamos perante uma realidade nova, os pais pagam para os filhos jogarem à bola, treinarem, fazerem desporto, primeiro no futebol animação, lúdico, depois no futebol de competição.

Os pais de hoje são pessoas informadas, presentes, não aceitam os golpes dos clubes / dirigentes, onde têm os filhos, são pessoas pagadoras, na prestação de um serviço por parte dos clubes, querem saber onde está a ser aplicado o dinheiro, não aceitam as faltas de condições e o mau serviço prestado provocando o abandono ou uma  mudança de clube nas idades mais baixas entre os 5 e os 12 anos, mesmo existindo a este nível etário valores de transferências regionais de acordo com a regulamentação da FPF/Associações Distritais de Futebol.

Os dirigentes desportivos têm que ter formação, têm de ser pessoas capazes de perceber a mudança e interagir com as novas tecnologias, áreas de comunicação e Gestão.

Com isto deixo duas perguntas aos Presidentes e Diretores de clubes que se revêm neste texto, para que possam pensar e reflectir:

Até quando vão andar “cegos”, a achar que estão certos?

Quando vamos num autoestrada e vêm todos os carros contra nós, nós é que vamos no sentido correto ou serão os outros que estão em contra-mão?

“Há muito tempo que o Futebol deixou de ser apenas um jogo para se transformar, cada vez mais, num negócio. E como todos os negócios, a constante modernização e sofisticação da Indústria em que está inserido, cria a necessidade de uma Formação contínua que adeqúe as tecnologias e os conhecimentos à realidade.”

Fonte: Futebol de Formação por Paulo Vaz

A obsessão pelo resultado

Hoje o resultadismo é moda, inclusivamente na formação e é uma tristeza quando as pessoas se agarram só ao resultado final, aos dígitos que estão em cima, e mesmo quando as equipas perdem, não olham como as equipas jogam.

Imaginem que a gente hoje não ganha este jogo aqui, porque falhámos 3 ou 4 golos, não tivemos bem na finalização, mas estivemos muito bem na construção, estivemos quase sempre muito bem nos equilíbrios, mas imagine que nós empatamos aqui o jogo ou que até perdemos por 1-0, por exemplo. O que é que se ia dizer destes jogadores e do trabalho do coletivo que está aqui a ser feito? Porque os dígitos é que mandam. E na formação os dígitos não mandam e enquanto as pessoas não meterem isto na cabeça… as pessoas pensam que o Diogo Gonçalves, o Rúben Dias, o Bernardo Silva, o Gonçalo Guedes, entre outros, chegam à 1ª equipa como? Só ganhando? Só pensando em ganhar? Não é nada disso. Portanto, aquilo que eu me agarro enquanto treinador de formação é a qualidade que estes jogadores aqui demonstraram contra o Sporting Clube de Portugal que é Campeão Nacional neste escalão.

Sem medo de assumir, sem medo de ter a bola, é verdade que estávamos em casa, mas o fator casa na formação vale pouco. Temos os nossos adeptos que valem muito. E nós jogaremos assim sempre, porque achamos que é assim que formamos melhor os nossos jogadores, é desta forma, assumindo, jogando por vezes no risco, colocando muita gente em zonas de finalização, colocando muita gente nos corredores para que possamos jogar no coração e no centro da equipa adversária…é esta a forma que nós temos de preparar jogadores para o alto nível. E eu não sei preparar jogadores de outra forma.

É evidente que se nos expomos mais, se assumimos mais, obviamente, às vezes, como aconteceu hoje, o Sporting num ou outro lance que foi à baliza, e não foram muitos, e se o Benfica mete aqui as oportunidades que tem, secalhar tínhamos feito um resultado, de certa forma, volumoso, histórico e não muito normal para um dérbi.

Eu vou para casa com isto, porque esta é a mesma equipa que perdeu com o Estoril, e esta é a mesma equipa técnica, e esta é a mesma equipa que teve 10 jogos consecutivos a ganhar e a jogar bem e que perdeu o jogo com o Estoril. É a mesma equipa que fez aqui esta demonstração de jogo, de qualidade e de poder frente ao Sporting Clube de Portugal que é campeão nacional de sub-17.

Enquanto olharmos para os dígitos e estivermos agarrados aos dígitos na formação, o processo está completamente invertido.

Volto a dizer e repito, hoje é um prazer brutal ver o Rúben Dias, o Diogo, o Renato, o Guedes e muitos outros na nossa primeira equipa. Não chegam lá se nós pensarmos só em ganhar. E eu quando penso no Benfica, sinceramente, desde os meus 6/7 anos, se quiser arranjar um sinónimo para a palavra Benfica, o meu sinónimo é ganhar.

Nós queremos todos ganhar, ninguém sai de casa para querer perder, temos é que perceber que isto é um jogo de 80 minutos e há processos a serem trabalhados e que por vezes, com o processo bem feito, podes não ganhar. E muitas das vezes, quando o processo não é tão forte, podes perder. Enquanto as pessoas não fizerem avaliações estruturadas sobre aquilo que é o processo e viverem do resultadismo, na formação, completamente errado! Pelo menos, grandes exemplos da Europa dizem perfeitamente o contrário.” Fonte Entrevista: BTV

A entrevista transcrita em cima, foi protagonizada por Renato Paiva, atual treinador dos Sub-17 do Sport Lisboa e Benfica e retrata para um paradigma muito questionável hoje em dia no futebol de formação, assente no princípio de formar ou ganhar. Quero com isto dizer que estamos inseridos numa sociedade muito resultadista, que olha para a vitória numérica como “bom trabalho realizado” e para a derrota numérica como “mau trabalho realizado”, “o treinador que não percebe nada”, “o clube que não presta”, entre outras críticas.

No entanto, e na minha perspetiva enquanto treinador da formação, penso que uma derrota não signifique que o trabalho não esteja a ser bem feito, aliás, qual é a verdadeira importância de em 20 jogos nos Traquinas ganhar os 20 e ser campeão desse escalão, por exemplo? Não quero também com isto dizer que a vitória não é algo importante na formação, porque tal como Renato Paiva disse, “nós queremos todos ganhar, ninguém sai de casa para perder”. A vitória é o principal objetivo aquando a realização de um jogo, mas há outros fatores adjacentes ao jogo, fatores esses que passam pela formação do atleta, pela vivência de experiências que irão dar bases para o futuro e, sobretudo, pelo prazer que o jogo transmite.

Há uma velha expressão que diz: “Algumas vezes tu ganhas e, algumas vezes tu aprendes”. Tentando perceber a lógica desta afirmação, penso que seja mais fácil trabalhar sobre vitórias consecutivas e constantes, pois o ambiente é mais motivador, e parte-se do pressuposto que se há vitórias, há bom trabalho a ser feito e, por vezes, a vitória não significa que o trabalho esteja a ser bem feito. No entanto, trabalhar sobre derrotas há muita aprendizagem, aprendizagem esta por parte dos treinadores, dos atletas e de todo o meio envolvente, pois a derrota vai permitir corrigir situações que estão a potenciar a mesma e vai permitir aos atletas desenvolverem uma capacidade de superação e resiliência perante esta derrota. E a derrota não significa que o trabalho não esteja a ser feito ou bem feito, significa que há aspetos a melhorar e outros a corrigir.

Se formos realizar um estudo à maioria dos atletas dos campeonatos profissionais, pouco ou nenhuns serão aqueles que foram campeões nos escalões de formação, no entanto, chegaram à elite através do bom trabalho realizado pelas equipas técnicas, pelos conhecimentos adquiridos e pelas experiências vividas. Portanto, pais, apoiantes, dirigentes, amigos, não julguem uma equipa ou um treinador por perder todos os jogos na formação, pois o mais importante nestas etapas de desenvolvimento é a aquisição de conhecimentos e a aquisição de bases para potenciar o desenvolvimento dos atletas para que estes cheguem mais bem preparados ao futebol pré-sénior ou sénior.

Com isto não quero dizer que não se deva tentar sempre ganhar, ou que não se deva formar para ganhar. Quero é dizer que nos escalões iniciais da formação, o resultado numérico não será tão importante como a formação integral do atleta.

O ideal será formar os atletas sobre vitórias, pois o ambiente será mais apetecível e motivador, no entanto, se isto não for possível, o importante será dar aos atletas as bases necessárias para se tornarem melhores jogadores e melhores pessoas no futuro. Dando-lhes estas tais bases, acredito que as vitórias numéricas vêm por acréscimo.

Fonte: Futebol de Formação por Pedro Pinho

Jogadores entre linhas: Qual é o objectivo?

Fala-se hoje e cada vez mais da importância de ter jogadores por dentro, leia-se entre a linha defensiva e linha média, bem como entre a linha média e a primeira linha de pressão.

São crescentes os treinadores no topo, que vencem, que optam por uma forma de estar e jogar com vários jogadores entre linhas a receber para assim jogar no momento ofensivo. Mas porquê? Qual é o objectivo disso?

Tendo uma forma de pensar própria, aceito visões diferentes sobre o jogo, porque afinal de contas nada é exacto. Mesmo no futebol.

Jogar e receber entre as linhas adversárias, para quê?

• Criar instabilidade no sector defensivo adversário. Receber com espaço dentro do bloco adversário torna-se desconcertante para quem está a defender. Terá que reagir ao estimulo adversário, sendo que o adversário estará de frente para a baliza.

• Aumentar a probabilidade de sucesso, deixando jogadores fora do lance. Ou seja, por exemplo, frente a um adversário que jogue em 4-4-2 no momento defensivo, ao conseguir receber entre a linha média e primeira linha de pressão, fará com que os dois jogadores da primeira linha sejam ‘queimados’, ou seja, ultrapassados. Para desmontar organizações defensivas, o objectivo é ultrapassar adversários.

Na imagem em baixo, um pouco daquilo que é e será o Chelsea de Sarri. Quatro jogadores entre a linha média e primeira linha de pressão – Laterais que dão largura e opção entre linhas ao mesmo tempo; Jorginho e Kanté em espaços interiores, entre linhas. Além disso, entre a última linha e linha média, indo ao encontro do que foi dito, Hazard, Morata e Pedro (que não é visível na imagem)

No vídeo seguinte, aquilo que referia em cima, posto em prática. O local onde Kovacic irá receber, entre a linha média e linha defensiva, fará com que sejam eliminados adversários.

Fonte: Raciocinar o Futebol por Leandro Silva

Como podemos identificar um modelo de jogo?

INTRODUÇÃO

A importância do Modelo de Jogo no Futebol é incontestável e objeto de muitos estudos acadêmicos. Qualquer comissão técnica possui um modelo próprio, independente de sua complexidade, efetividade ou sua estruturação, pois em muitas ocasiões o MODELO não é construído de modo sistemático (organizado por etapas), mas sim de modo intuitivo, onde os padrões (coletivos ou individuais) à serem adotados são definidos para cada situação do jogo sem a utilização de uma visão mais sistêmica (global).

Quem acompanha futebol, sabe que não podemos definir um estilo como CERTO ou ERRADO. Praticamente tudo que está relacionado ao futebol será subjetivo, onde ora será positivo e ora será negativo. Em quantas ocasiões, presenciamos equipes com modelos “simples” e capacidade individual limitada, vencerem adversários com modelos mais complexos e elencos valiosos? Exatamente, nem sempre os MODELOS ROBUSTOS/ESTRUTURADOS serão os mais indicados e nem sempre os MODELOS INTUITIVOS serão desprezíveis:

Para construção de um Modelo de Jogo, além de considerar os Princípios Táticos Gerais e Específicos, é importante considerar a Cultura do Clube (caso exista e esteja sendo cultivada recentemente). Na imagem à cima, confrontamos alguns benefícios e alguns prejuízos em cada um dos métodos utilizados para construir um modelo de jogo. Por demandar muito tempo de consolidação, a Construção Estrutural de um Modelo muitas vezes fica difícil de ser plenamente implantada, principalmente em cenários onde há muita insegurança e instabilidade das comissões técnicas: nestas ocasiões, é extremamente recomendável utilizar uma abordagem mais direta para construção do modelo.

Segundo José Guilherme Oliveira, “o treinador transmite as ideias, que serão interpretadas de forma diferente pelos jogadores e a respectiva interação vai fazer com que sejam recriadas, contudo, essas ideias terão sempre a cor azul e nunca amarela, vermelha ou verde. É um processo que na Periodização Tática se denominou auto-eco-hetero. Como tal, o modelo de jogo é um processo dinâmico e não linear, em permanente construção, que parte sempre das ideias que o treinador tem para resolver os problemas que o jogo levanta.”

José Guilherme ainda se utiliza de uma analogia com as cores, para ilustrar esse fenômeno: “por vezes, para melhor explicitar este conceito, costumo utilizar uma analogia com cores. Imaginemos que as ideias de jogo do treinador eram manifestadas pela cor azul. Quando a transmitimos aos jogadores, eles vão captá-las, mas essa percepção está condicionada pelos seus gostos, pelas suas experiências e por muitas outras coisas vivenciadas com a cor azul. Como tal, cada jogador assumirá a cor azul com uma tonalidade que pode ser distinta. Quando essas diferentes tonalidades interagem vai emergir uma nova tonalidade, que também de certa forma poderá ser desconhecida, contudo, será sempre azul.

Segundo Garganta (1997), “é possível, observando equipes e jogadores ao longo de vários jogos, encontrar padrões de organização, que permitem tirar conclusões sobre o comportamento de jogo de jogadores e equipes. Esse comportamento tem relação com as características do jogo construído pela equipe, especialmente com o seu sistema organizacional. Este comportamentos e suas relações, caracterizam o chamado “modelo de jogo”.”

Já Rodrigo Leitão (2009) afirma que “da mesma forma que elementos surgem do modelo, o modelo. Os elementos que surgem do modelo ganham características de subsistemas que se relacionam com o sistema “modelo organizacional do jogo”, e esse por sua vez interage como subsistema do sistema “jogo e sua lógica”. Em outras palavras o modelo assume papel fundamental para cumprimento da lógica do jogo.”

Enquanto o treinador José Mourinho afirma que o Modelo de Jogo ideal não deve sofrer alterações em função do adversário, para Leitão uma equipe deveria ter seu modelo corrigido e ou alterado sempre que necessário além de ser capaz de operacionalizar modelos de jogo distintos (de maneira que seu modelo seja uma integração sistêmica de modelos).

O assunto é realmente complexo, e para refletir melhor, devemos ler mais o que esses pensadores citados à cima falam sobre o tema.

OBJETIVO

Este artigo buscará propor uma metodologia para observar, analisar e identificar características do modelo de jogo de equipes.

METODOLOGIA

TÁTICO

Formatação/Plataforma/Sistema de Jogo: como é realizada a distribuição/posicionamento dos atletas em campo, conforme as fases do jogo?

Padrão: sistema utilizado predominantemente;

Variações: variações de sistema conforme ocasiões, ou fases do jogo (variação ofensiva ou variação defensiva);

▪ Exemplos: Equipe atua no 4231, porém conforme situação do jogo, pode se defender no 4141 e atacar com 433.

Proposta de Jogo: como a equipe costuma se portar durante as partidas? Esta proposta varia conforme o nível dos adversários ou mando de campo?

▪ Exemplos: Equipe costuma Propor as ações do jogo (mentalidade ofensiva) em casa. Quando não possui o mando, equipe atua de modo Equilibrado (mentalidade neutra) em caso de placar empatado e passa para uma mentalidade Reativa (defensiva) quando possui vantagem no placar.

Organização Defensiva: como a equipe se comporta quando não possui a posse da bola? Quais são os princípios trabalhados?

Transição: jogadores recompõem ao posicionamento defensivo imediatamente pós perda da posse ou pressionam a bola para depois recompor? Quais jogadores possuem atribuições de participar da transição/recomposição defensiva? Goleiro trabalha mais adiantado, para oferecer proteção às costas dos defensores?

Marcação: como a marcação é realizada pela equipe? De forma zonal, mista, encaixe individual ou encaixe por setor? As perseguições são curtas, médias ou longas? Como funciona a estruturação das linhas (mais rígidas ou flexíveis)? Linhas defensivas basculam conforme setor onde encontra-se a bola?

Pressão: a equipe costuma trabalhar com qual altura seu bloco pressionante (alto – campo de ataque, médio – faixa central, ou baixo – campo defensivo)? A equipe trabalha mais com perde-pressiona ou perde-recompõe?

Bola Parada Defensiva: como a equipe dispõem seus defensores durante as bolas paradas (escanteios, cruzamentos, faltas diretas, faltas indiretas, etc.)? Qual a marcação utilizada (individual, zonal ou mista)?

Construção Ofensiva: como a equipe se comporta quando possui a possa da bola? Quais são os princípios utilizados de modo padrão?

Transição: por qual zona a equipe prefere iniciar suas transições (pelas pontas ou por dentro)? Como os jogadores se posicionam para gerar opções de linhas de passe?

Estilo de Construção: como a equipe faz a circulação da bola (de modo paciente ou mais veloz)? Trabalha com passes mais curtos, diretos ou equilibrados? As jogadas são iniciadas desde a defesa ou iniciam apenas na faixa central? Quais os jogadores chaves para a criação? A equipe trabalha com amplitude? A amplitude é gerada por laterais ou extremas? Em qual altura do campo?

Conclusão: como a equipe costuma concluir suas jogadas ofensivas? Equipe costuma trabalhar com bolas alçadas para a área? Os cruzamentos são antecipados ou na linha de fundo? Cruzamentos rasteiros para trás ou cruzamentos altos para o meio da área? Equipe trabalha com finalizações de longa distância (em qual zona, quais jogadores possuem essa característica, como os espaços são gerados)? Como equipe explora/ataca o funil adversário? Quais jogadores mais trabalham no terço-final?

Bola Parada Ofensiva: como a equipe dispõem seus atacantes durante as bolas paradas (escanteios, cruzamentos, faltas diretas, faltas indiretas, etc.)? Quais os jogadores responsáveis pelas bolas paradas (características das cobranças e zonas preferidas)? Escanteios são curtos, primeira trave ou na segunda trave?

Funções: como é realizada a distribuição das funções da equipe? É possível notar características individuais ou coletivas?

Individuais: É possível notar as atribuições táticas de cada atleta? Quais as características táticas (atribuições táticas definidas pelo treinador) ou individuais (jogadas características de cada atleta)?

OBS: Segue abaixo um quadro proposto para identificar Posição x Função x Características

*Veja mais sobre função no excelente texto da colega Camila Aveiro (aqui) ou nesse do blog O Analista de Futebol (aqui)

Coletivas: os grupos que atuam em setores próximos possuem funções coletivas? Como é feita essa interação?

TÉCNICO

Características Ofensivas: quais são as principais características individuais ofensivas da equipe? Quais jogadores se destacam nestas características?

Características Defensivas: quais são as principais características individuais defensivas da equipe? Quais jogadores se destacam nestas características?

FÍSICO

Características:

Condicionamento: qual altura média da equipe? Jogadores mais altos ou mais baixos? Qual a resistência física do elenco? Há muito desgaste físico durante os jogos? Equipe apresenta muito histórico de lesões?

Força/Explosão: equipe apresenta força para duelos e disputas no chão? Qual o nível aparente de explosão durante os movimentos?

Velocidade: equipe apresenta velocidade com ou sem a bola?

Impulsão: equipe apresenta sucesso durante as disputas aéreas?

Orientação Corporal: jogadores trabalham de modo sincronizado referente à orientação corporal em cada uma das situações do jogo? Linha de impedimento, marcação, fintas sem bola, etc.

MENTAL

Características:

Concentração: equipe costuma falhar com frequência? Em qual ocasião as falhas costumam ocorrer com mais frequência?

Tomada de Decisão: equipe costuma apresentar erros em tomadas de decisão simples? Jogadores conseguem ler e analisar os problemas que surgem durante cada lance da partida?

Segurança/Confiança: a equipe costuma se abalar quando inicia perdendo? Equipe demonstra “desespero” em quais situações? Jogadores demonstram confiança para agredir/investir (ofensivamente) contra o adversário? Equipe costuma arriscar? Como equipe trabalha com os riscos?

Liderança: quem são os líderes da equipe? Como é realizada a comunicação entre os jogadores?

Disciplina: equipe trabalha de modo disciplinado (fair-play)? Jogadores respeitam decisão da comissão técnica? Há muitos conflitos aparentes no grupo de jogadores ou na comissão?

PROPOSTA DE FORMULÁRIOS PARA A COLETA DE INFORMAÇÕES

A utilização da metodologia proposta neste artigo poderá aumentar consideravelmente as chances de se analisar o modelo de uma determinada equipe, pois leva em consideração diversos fatores e possui um considerável nível de detalhamento. Obviamente que um MODELO DE JOGO REAL, estabelecido pela comissão técnica em um clube, contém inúmeras especificações além das mencionadas neste texto, que ficam difíceis de serem identificadas por quem observa as partidas.

Seguimos no árduo e fascinante caminho de análise futebolística, buscando sempre melhorar nossas análises agregando novas práticas e novos conhecimentos!

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

• Entrevista de José Guilherme à Universidade do Futebol (2015) (link)

• Artigo “How to create a game model” do site Spielverlagerung (2016) (link)

• LEITÃO, Rodrigo Aparecido Azevedo. O jogo de futebol: investigação de sua estrutura, de seus modelos e da inteligência de jogo, do ponto de vista da complexidade. 2009.

• • GARGANTA, J. Modelação táctica do jogo de futebol: estudo da organização da fase ofensiva em equipas de alto rendimento. 1997. 302f. Tese (Doutorado em Ciências do Desporto e de Educação Física)-Faculdade de Ciência do Desporto e de Educação Física, Universidade do Porto, 1997.

Fonte: MW Futebol Por Rafael Maciel

Propor o jogo ou jogar em transição

Ainda não consegui digerir as alegações que construir um jogo de contra-ataques é mais fácil e seguro que o jogo de posse de bola!

Temos a equivocada impressão que jogar com proposição é atacar sempre e com total domínio do jogo, enquanto em transição só se defende à espera de um lance para decidir. Nem uma coisa, nem outra! Pode-se impor ao adversário com jogos de proposição, transição ou outro qualquer. Além do mais, quase sempre, as equipes apresentam alternância de posturas, por mais que uma domine a outra.

Ao falar neste assunto estamos nos atentando para um míope olhar do futebol brasileiro que, não raro, apresenta soluções infundadas a respeito das ideias de construção do jogo.

No Brasil, praticamos o verdadeiro “samba do crioulo doido” nas escolhas e demissões dos nossos treinadores e só por isso já não seria justo esperar do nosso jogo respostas táticas consistentes em meio a tantas dificuldades.

É fato, na construção do jogo, qualquer modelo necessita de tempo para ser implantado. Se se quer propor o jogo ou jogar em transição será preciso tempo e competência.

Costumamos acreditar que na construção do jogo de proposição é necessário mais tempo de trabalho que no jogo de transições. Ainda que um tenha mais ou menos detalhes que outro, não devemos considerar apenas o tempo como condicionante.

Além disso, erroneamente consideramos que no jogo de transições basta ficar recuado – com o bloco defensivo baixo – e esperar que “uma bola” surja em ação ofensiva para que tenhamos a vitória. Isso não é jogo de transição é jogar “retrancado”. Que pode ser uma opção. Não tenho nada contra!

Aqui, cabe citar lições que este lindo e complexo jogo nos traz todos os dias: no Grêmio 2X1 Estudiantes, jogo do último 28 de Agosto, o time argentino “abdicou de jogar por” quase 90 minutos. Ficou muito na defensiva. Esta nunca será uma proposta de jogar em transição. O Estudiantes esteve entregue à “sorte” e ao massacre gremista por opção ou imposição adversária, não posso afirmar. Mas que isso não é jogo de transição, aí sim, posso fazer! Loteria, talvez!?

Praticar o jogo de transições leva em consideração muitas variáveis táticas a serem treinadas e praticadas. A equipe que se propõe a utilizar essa forma de jogar tem de treinar e fixar conceitos táticos que a permita fazê-lo. Eu diria até que, praticando um jogo de transição, pode-se ter o controle do jogo também. Pensem nisso!

Jogar com proposição de jogo significa jogar com imposição sobre o adversário. Mais ou menos ofensivo, com verticalidade ou horizontalidade no jogo, vai depender de muitas circunstâncias. Sob domínio do oponente, resta à equipe acuada reagir às ações da equipe dominante – vide como reagem os adversários dos times do Guardiola.

Para não ser injusto e parecer mais um tiete deste grande gênio do futebol no século 21, outras equipes pelo mundo têm praticado também o jogo de imposição com muita eficiência. Sejam eles com transição ou proposição de jogo. Costumamos gostar mais do jogo de posse de bola como forma de dominar o adversário. O Guardiola nos ensinou isso também.

Um grande elemento a considerar no jogo de proposição é a competência mental. Muitos esforços, individuais e coletivos, devem ser feitos neste sentido para manter por muito tempo o controle do jogo. Não há como se “desligar”!

Qualquer perfil de jogo demanda vários elementos na sua construção:

Elenco de jogadores vocacionado a desempenhar as ideias táticas propostas;

• Força mental;

• Método de treinos;

• Tempo para a construção do jogo;

• Ideia de jogo – jogo sem ideias é jogo reativo, “pelada”;

• Dentre muitos outros fatores…

O que poderíamos concluir é que jogar em transição ou com proposição requer alto grau de competência técnica e abrangência de conceitos para a construção de jogos de qualidade. Além do mais, muitos conceitos táticos do jogo são comuns às duas formas de jogar ou outra qualquer que se queira. São princípios táticos do jogo, sem os quais não se tem jogo!

Devido ao desmazelo de pretensos construtores de jogo, costumamos ver alguns jogos, que mais parecem outra modalidade esportiva, nunca o futebol. No Brasil mesmo temos desses exemplos.

Depois voltaremos a falar mais do assunto!

Até…

Fonte: Ricardo Drubscky

Como usar a substituição para não perder no jogo!

Hoje o tema que te vou apresentar é sobre os SUPLENTES e como eles podem fazer a diferença no jogo. E ainda vou partilhar contigo uma situação de treino prática:

Quantas e quantas vezes nós como treinadores fazemos substituições durante uma competição mas elas não funcionam?

E porque é que para elas funcionarem, tendencialmente está mais ligado com a capacidade do atleta que entra do que a “mão” do treinador?

E como fazem os treinadores de sucesso que fazem uma substituição e a equipa consegue dar a resposta certa?

Faz-me lembrar de quando um atleta entra e faz o movimento que depois vai dar assistência para se fazer um golo,

Ou quando esse mesmo atleta faz o golo e se ganha um jogo…

Aquilo a que me venho a aperceber é que nós como treinadores não temos o hábito de treinar os acontecimentos do jogo, temos sim uma preferência por treinar aquilo que achamos que deve ser o comportamento técnico-tático segundo um modelo de jogo ou segundo as ações que acontecem no jogo, mas não temos a tendência de treinar os acontecimentos do jogo.

Deixa-me ser mais claro:

Quantas vezes se treina a substituição do guarda-redes titular com o suplente?

É um acontecimento do jogo.

Mas os nossos objetivos normalmente estão virados para onde?

Por exemplo para o treino técnico-tático e a ligação dos princípios entre os centrais e o guarda-redes.

Mas quando não incluímos o treino da substitução do guarda-redes suplente com o titular, será que não estamos a treinar esses princípios em vão?

Será que se o guarda-redes acordar mal disposto, ou tiver uma diarreia durante a noite vamos ter uma equipa capaz de implementar a estratégia que treinámos na saída de bola?

E quem diz o guarda-redes, diz outra posição qualquer…

Quantas vezes treinamos o fator emocional de uma entrada em campo, quando estamos a perder?

E nós treinadores sabemos a importância do estado emocional do atleta que entra em campo.

Muitas vezes ele entra nervoso, entra já em stress quando a equipa precisa de calma,

Ou entra num estado tranquilo quando a equipa está stressada para dar a volta,

Ou a equipa está desanimada por estar a perder 2-0 e ele entra cheio de tesão que depois não serve em nada….

Talvez por isso muitos de nós, que não treinam estes pormenores no treino, usem a estratégia do grito com esse atleta depois de entrar, ou a estratégia manipuladora de dizer depois de um jogo, que se deu uma oportunidade ao atleta que entrou e ele não provou nada.

Mas o que podemos fazer nós treinadores sobre isto?

Como podemos nós treinadores ter mais controlo sobre as substituições a fim de ganhar?

O que pode um treinador fazer durante a semana para potenciar uma substituição que antecipa acontecer?

Existem várias possibilidades que partilho através da Periodização Situacional e Transformacional (designada por PST), um bónus do curso Profissão Treinador que facilito a treinadores que querem ganhar mais vezes, e vou dar-te uma solução simples para o futebol aqui que podes experimentar, e se fores de outra modalidade, podes adaptar para o teu contexto:

Solução SIMPLES:

1. Quando fizeres um treino com um exercício GR+8×8+GR com as condicionantes táticas que quiseres incluir, vais expulsar o GR de uma das equipas.

2. Esse guarda-redes pode ser o que normalmente é NÃO TITULAR.

3. Essa equipa terá que arranjar uma forma de reagir à EXPULSÃO, orientando-se na escolha de qual o ATLETA que assumirá ir à baliza.

(esta condicionante é uma condicionante situacional da PST e é baseada no acontecimento-situação em que já fizeste 3 substituições e não podes substituir o GR).

Solução EXTRA (bónus do post de hoje) + Aumentando a Complexidade Situacional (principio da PST):

1. O GR NÃO TITULAR que saiu, após 3 minutos, faz substituição com o GR TITULAR que estava na outra equipa (8+GR).

2. Colocando a condicionante emocional que cada golo que sofrer valerá por x3 (para o adversário que está em inferioridade numérica pela expulsão anterior (GR+7).

Na 1ª Solução Simples, estamos a treinar a capacidade de adaptação da equipa a um acontecimento negativo no jogo, representando a expulsão do GR.

Na 2ª Solução Extra, estamos a treinar a capacidade de resposta da equipa com uma substituição de GR, provocando as emoções que os centrais (ou que a equipa) sentem quando entra o GR SUPLENTE.

Existem variadas situações na PST (Periodização Situacional e Transformacional) que provocam um treino direccionado para a parte menos racional que foi instalada com a excessiva periodização tática, realizando uma adaptação na metodologia e integrando as questões emociono-mentais ligadas aos princípios de treino.

Estas foram duas situações de fácil entendimento da operacionalização desta metodologia.

Existem inúmeras que nós como treinadores temos de saber fazer em relação à mudança e às substituções se quisermos influenciar o jogo à procura de resultados, de vitórias,

fugindo à falta de controlo sobre as substituições e evitando o excesso de responsabilidade nos atletas que entram.

Espero que ao aplicar, possas ter vontade de aprender mais e melhor sobre a implementação de novas ideias na tua forma de jogar, num caminho de crescimento contínuo.

Fonte: Treinador PRO por Carlos MSilva