Modo de marcação: os seus tipos, perseguições e referências

Com o desenvolvimento do futebol, está sendo possível notar de que as equipes têm realizado diferentes tipos de marcação. Além disso, para se referirem à marcação, estão usando diferentes nomenclaturas, como “por encaixe”, “com perseguições” e com “referência do espaço”. O que seriam esses termos? Aliás, há diferentes tipos de marcação, de perseguição e de referência? Mas não é só marcar o adversário? Pois é, estamos num ponto que está “em desenvolvimento” para compreensão dos brasileiros.

Marcação por encaixe no setor? Mas Roberto tem que marcar Jadson e por isso perseguiu o jogador corintiano, oras.

A frase acima é repetida inúmeras vezes aqui no Brasil. Onde quer que você vá, sempre vai ouvir uma frase desse tipo. No entanto só há um tipo mesmo de marcação? Vou começar pelo começo. Para marcar há tipos de marcação (por encaixe, zonal ou individual), distância da perseguição realizada (curta, média ou longa) e a referência da marcação (espacial, a bola ou jogador). Para facilitar o entendimento, a tabela abaixo foi realizada:

Acima estão os modos de marcação. Parece que não é simplesmente marcar.

Para ser o mais didático possível, irei começar pela primeira colocada na tabela acima: o tipo de marcação. Vale notar de que o tipo de marcação pode-se variar dentro da mesma equipe, pois pode haver jogadores marcando por zona enquanto que outros marcando por encaixe e, ainda assim, o time como um todo se entender. O tipo de marcação, geralmente, é o um dos modos que pode variar dentro de uma mesma equipe.

1) Por encaixe: quando a marcação é por encaixe, a equipe ou o jogador encosta no adversário para marcá-lo que aparece próximo a ele. Esse tipo de marcação normalmente é usado nas “peladas”. Normalmente, a marcação por encaixe vem com o termo “por setor” em algumas análises, o que significa a mesma coisa: encosta no adversário que estiver dentro do seu setor.

No caso da imagem acima, que é do Atlético-PR de Cristóvão Borges, percebe-se praticamente todos os jogadores do Furacão e todos realizando a marcação por encaixe no setor (representada pelos traços azuis), pois quase todos se aproximaram de algum jogador do Fluminense.

2) Zonal: essa é marcação que funciona com relação à zona que o jogador que está defendendo está. Nesse tipo de marcação, a troca do marcador geralmente ocorre rapidamente, pois como o jogador atacante está constantemente em movimento e o defensor vai marcá-lo quando ele aparecer na sua zona, quando o atacante vai para a zona de seu companheiro, há troca de marcador.

Na marcação por zona, o time defensor se posiciona para que as zonas fiquem claramente separadas, como é o caso do Atlético-PR de Cristóvão Borges no fim de sua passagem pelo clube paranaense.

3) Individual: aqui o mesmo jogador defensor encosta no mesmo adversário e o persegue para todo o canto. Esse tipo de marcação está ficando cada vez mais raro no futebol, mas foi possível notar na semifinal da Copa do Mundo de 2014.

De Jong marcou individualmente Messi na semifinal da Copa do Mundo FIFA 2014. Veja o holandês marcando o argentino em campo defensivo.

Aqui em campo ofensivo.

E aqui, mesmo com Messi “fora do jogo”, De Jong estava ao seu lado. Era marcação individual!

Nos tipos de marcação, normalmente as pessoas estão confundindo os tipos de marcação por encaixe e por individual, apesar de haver diferenças. No caso da marcação por encaixe, encosta-se no jogador adversário que estiver mais próximo, podendo assim ser qualquer adversário. Já no caso da individual, é sempre o mesmo defensor perseguindo o mesmo adversário. Não há muita brecha para mudança no caso da individual e, por isso, se chama individual.

Agora continuando os modos de marcação, vamos ao tópico das perseguições.

1) Curta: na perseguição curta, o defensor persegue o adversário por curta distância. Esse tipo de perseguição normalmente é usado na marcação zonal, pois persegue-se o adversário por curto espaço para que haja a troca de marcador na próxima zona.

2) Média: na perseguição média, o defensor persegue o adversário por uma distância não tão curta, mas também não tão longa. A perseguição média normalmente não faz com que o defensor troque de faixa de campo enquanto realiza a perseguição ao adversário.

Acima as faixas do campo. No caso da perseguição média, os defensores não acabam trocando de faixa durante a perseguição, pois acabando trocando de marcador quando estiver bem próximo de acontecer a mudança de faixa.

3) Longa: na perseguição longa, o defensor persegue o jogador adversário onde quer que o atacante vá. Nesse tipo de perseguição, há trocas de faixas, mas não se troca o marcador até que a jogada “morra”. Essa perseguição é normalmente usada nas peladas.

Aqui um exemplo de perseguição longa: Lucas, o lateral-direito do Palmeiras, encaixa em Hernandez, o extremo esquerdo do Atlético-PR, e vai realizar a perseguição longa. Repare onde ele inicia a perseguição.

E veja aqui onde ele termina: no lado esquerdo do seu campo! Mesmo ele sendo o lateral-direito alviverde, ele acabou perseguindo o adversário que correu até o outro lado do campo, mudando de faixa de campo. Isso é perseguição longa.

No caso das perseguições, normalmente, é difícil de notar quando é uma perseguição média ou longa e, por isso, acaba-se denominando como perseguição média/ longa. Como aqui se trata somente da perseguição do defensor em relação à trajetória do atacante, esses tipos de perseguição podem aparecer em todos os tipos de marcação (por encaixe, zonal e individual).

Para terminar os modos de marcação, há também a referência para quais os defensores irão se movimentar.

1) Espacial: aqui a referência é o espaço do campo. Desse modo, a marcação será mais intensa quando o adversário entrar no espaço do defensor. Normalmente, a referência espacial é utilizada no modo de marcação zonal e quando há uma organização de posicionamento defensivo.

2) Bola: aqui a referência é a bola. Assim sendo, pressiona-se o adversário que estiver com a bola independentemente se o defensor está na sua zona de posicionamento defensivo ou não. Pois se a bola está com o adversário, deve-se pressioná-lo até recuperá-la.

O Chile de Sampaoli realizava como referência a bola para marcar o adversário. Veja que pela imagem, Vidal está fora do seu posicionamento inicial, mas mesmo assim está pressionando o adversário com a bola.

3) Jogador: aqui a referência é o jogador. Desse modo, para onde o jogador for ou ficar, o defensor irá se posicionar de acordo. Assim sendo, quando a referência é o jogador, a equipe defensora pouco apresenta um posicionamento defensivo organizado, pois o adversário pode levar os defensores para onde ele quiser.

Fonte: Medium por Caio Gondo

Reflexões sobre o momento de transição defensiva e posse de bola

A transição defensiva é hoje um dos momentos-chave, sobretudo para as equipas que procuram ter bola, com os seus jogadores mais projectados, oferecendo largura, procurando a profundidade e garantindo jogadores entre as linhas adversárias.

Sendo a transição ofensiva o momento de jogo onde se marca mais golos, fruto de uma Organização Ofensiva que deixa mais espaços nas costas, pela equipa estar mais aberta na procura do golo, é no momento da perda de bola que as equipas devem ter especial atenção. Sobretudo quando se comanda uma equipa que é constantemente obrigada a ter que assumir o jogo com bola. Por exemplo, equipa x baixa no terreno, a equipa y é obrigada a projectar-se. Mas para se projectar, para assumir, deverá ter em conta o momento em que perde a bola.

Uma reacção à perda de bola deverá ser treinada, tal como todos os outros momentos de jogo. No entanto, o factor psicológico do jogador é claramente diferente. Tenho a bola? Estou concentrado para atacar a baliza adversária. Perco a bola? Será que vou estar tão concentrado para rapidamente reagir a essa perda? No alto rendimento vemos imensas situações onde a perda de bola, a transição defensiva é feita com pouca intensidade. Intensidade leia-se a reacção e posterior  ocupação de espaços.

(RINUS MICHELS E JOHAN CRUYFF)

Noutros tempos, para mim a melhor equipa de sempre, ou aquela que tive oportunidade de presenciar, o Barcelona de Guardiola, apresentava uma qualidade incrível no seu momento de organização ofensiva. No entanto, e não menos importante era de realçar, sublinhar e anotar, o momento de perda de bola, transição defensiva, por parte dos homens de Pep. A rápida pressão ao portador da bola e também às linhas de passe tornava o jogo muito complicado para os adversários. Com percentagens altíssimas de posse de bola, e quando o adversário tinha a bola em sua posse era sobretudo no momento de transição ofensiva, que rapidamente era abafado pela equipa do Barcelona…Dava um total controlo sobre o jogo e sobre o adversário pelos homens da Catalunha.

E esse controlo vai ao encontro da importância, que eu dou no meu ponto de vista pessoal, ao facto dos jogadores serem obrigados a jogar juntos. A jogar perto. A oferecer linhas de passe ao portador da bola num espaço não muito grande. Ou seja, se no momento de Organização Ofensiva tenho vários homens na zona da bola para a manter e procurar o caminho para o golo, o que acontece quando perco a bola? Terei vários homens onde a bola foi perdida, e se todos reagirem pro-activamente após a perda, as probabilidades de sucesso serão necessariamente maiores.

(GUARDIOLA E SARRI)

O jogar em posse, o procurar controlar o jogo com a bola é também procurar defender.  Porque com a bola sou eu que escolho os caminhos a seguir. Sou eu que determino onde – provavelmente – poderei perder a bola. E se garantir superioridade numérica no momento onde tenho a bola, essa superioridade manter-se-à no momento em que a irei perder. Engane-se aqueles que pensam que ter a bola é o objectivo. Não é! Ter a bola é o caminho a seguir. O caminho a seguir para vencer e controlar os diferentes momentos de jogo. E por fim, ter a bola, porque todos aqueles que jogam, cresceram a querer ter a bola, a quererem ser protagonistas. Todos podem ser. Em todas as posições. E quanto mais tiver a bola, mais prazer darei aos jogadores de jogar o jogo. O prazer de criança que nunca deveremos apagar de um jogador, aliás – e repito, numa visão pessoal – deveremos sim exponenciar essa criança dentro de um conjunto de regras e organização.

Fonte: Raciocinar o Futebol por Leandro Silva