José Mourinho em exclusivo para a Men’s Health

No futebol a honestidade é uma má qualidade. Tenho que ficar calado, dizer apenas o que as pessoas querem ouvir e não o que realmente penso e não posso ir contra o sistema e as instituições

José Mourinho anda em maré de azar e acaba de ser despedido do Manchester United.

Sobre o treinador português já foram escritos oceanos de tinta, ditas algumas verdades e publicadas muitas mentiras. Agora chegou o momento da verdade: um frente a frente em exclusivo com a MH para falar de tudo… menos sobre futebol. Recorde esta entrevista exclusiva que o treinador português deu à Men’s Health na altura em treinava o Real Madrid.

– Costuma dizer que só as suas duas famílias (mulher e filhos e os seus jogadores) é que conhecem o verdadeiro José Mourinho. Qual a imagem que tenta passar para o resto do mundo?
Revelo a imagem que tenho de revelar: a face de treinador, de vencedor, de alguém que gosta de desafios e de competir. Estou num cargo tremendamente exigente, quer pelos adeptos, quer pelos adversários e a minha imagem é a imagem de um homem que tem de fazer o melhor que pode para ser bem-sucedido. Prefiro reservar as outras facetas para as minhas “duas” famílias, pois sei que elas sentem isso quase como um privilégio. Fora desse ambiente “familiar”, sou apenas um homem do futebol. Nada mais.

– Muitas vezes passa para os adversários a imagem de um treinador antipático. Sente que é necessário ter “inimigos” para fortalecer o grupo?
É melhor. Não é fulcral, mas é melhor. Especialmente quando estamos a ter sucesso, pois existe sempre a tendência para relaxar um pouco quando tudo está a correr bem. Assim, se ouvirmos os boatos à nossa volta, os murmurinhos e sentirmos que estão à espera que relaxemos para nos apanharem, isso nunca vai acontecer. O termo “inimigo” é algo que não faz sentido na minha vida pessoal, mas no futebol sim. Mesmo em crianças competimos uns com os outros, queremos ganhar e levar a melhor aos nossos amigos que, nesses breves instantes durante um jogo de berlinde, se transformam em “inimigos”, pois desejam o mesmo que eu: vencer. Esta sensação de competição no futebol é boa, faz-nos sentir vivos, com a adrenalina ao máximo que é algo que o nosso corpo precisa. É por isso que para mim é muito mais difícil preparar um jogo pequeno, pois nos jogos grandes todos querem dar o seu melhor e nos jogos menos mediáticos existe a tendência para encarar com maior facilitismo. É aqui que surgem as desagradáveis surpresas, pois ao contrário de nós os adversários estão sempre motivados e disputam cada lance como se fosse o último. E esta motivação extra faz toda a diferença.

– É fácil ser-se um líder?
É algo natural, algo que nasce connosco. E nesta profissão é essencial. Quando entro no campo de treinos sei o que sou e sei o que as pessoas esperam de mim. Assim, desde que começo a trabalhar que sei que tenho de liderar em diversos aspetos e a pressão é algo que não me assusta. A verdade é que quando estou de férias, sinto falta de tudo isto.

– É difícil dissociar a vida profissional da familiar?
É difícil para as outras pessoas. Quando vou jantar com a minha família, por exemplo, há países em que as pessoas nos deixam em paz e há outros em que as pessoas não se conseguem controlam e interrompem-nos o jantar para uma fotografia, um autógrafo ou um aperto de mão. Para mim é fácil afastar-me da vida profissional quando estou com a família, existem é pessoas que não me facilitam essa tarefa.

– Os planteis atuais são como inúmeras empresas: uma mescla de nacionalidades. Como se consegue reunir tantas culturas diferentes em torno do mesmo objetivo?
Para começar é preciso ter-se um pouco de sorte, pois não é possível mudar por completo a personalidade de uma pessoa. Desta forma, antes de enfrentar uma nova temporada tento saber o máximo sobre todos os elementos que vão pertencer ao meu grupo. E antes de se comprar um jogador o processo é exatamente o mesmo: saber tudo sobre a sua personalidade, maneira de ser, o seu caráter e tudo o resto. É por isto que digo que é necessário ter uma pontinha de sorte para poder liderar uma equipa que tem um objetivo em comum: ganhar. Quando estamos perante uma equipa de trabalho recheado de individualistas e egocêntricos que colocam os objetivos pessoais à frente dos coletivos torna o trabalho muito mais difícil.

– Considera-se então um treinador com sorte…
Tenho tido imensa sorte na minha carreira. No Chelsea, por exemplo, metade do meu plantel era africana, algo único que formava uma família incrível. De um lado estavam 12 jogadores provenientes de países africanos como o Gana, Costa do Marfim, Camarões ou Congo e, do outro, mais 12 jogadores que vinham do resto da Europa. As nacionalidades são diferentes, mas a vontade de vencer era mesma. Contudo, há aspetos que como treinador não posso descurar, tais como falar com eles no idioma local: se estiver em Espanha temos todos de falar Espanhol, se estiver em Itália terá de ser italiano, etc., pois o facto de não haver outro idioma no balneário coloca todo o plantel a remar na mesma direção. No meu caso, uma vez que trabalhei em vários países permitiu-me aprender outros idiomas que é o ideal para ter conversas privadas com eles, fora do grupo. Comunicar na língua deles nos diálogos mais sérios é muito importante para estabelecer outro tipo de relação e de proximidade.

– “Quem só percebe de futebol não sabe nada de futebol”. O que realmente quis dizer com esta afirmação?
Para sermos realmente bons na nossa profissão não nos podemos colocar limites. Quando disse esta frase, o que queria dizer é que, para além do futebol, é importante estarmos por dentro de outras áreas que complementam este desporto, como bioquímica, biologia, estatística, anatomia, liderança e outras mais. Sabendo um pouco sobre tudo conseguimos ser muito melhores no que fazemos e isso permite-me ganhar ainda mais o respeito dos meus jogadores. Demonstro-lhes que não me limito a dizer em que posição vão jogar no próximo jogo, mas sim que estou alguns níveis acima da simples cultura de jogo e que isso os vai ajudar a alcançar os objetivos coletivos e pessoais.

– A necessidade de ser o melhor aguça o engenho. O que faz para se reinventar?
Tenho um objetivo que é tentar ser o primeiro treinador a vencer a Liga dos Campeões com três clubes diferentes, conseguir ser campeão nos três campeonatos mundiais mais importantes (Inglaterra, Itália e Espanha) e, mais tarde, conquistar algo pela primeira vez com a Seleção Nacional. Todos estes objetivos estão relacionados com o futebol, mas todos eles são diferentes e difíceis de alcançar. Isto mantem-me concentrado e motivado.

– O que pensa de tantas tatuagens e mudanças de penteado dentro de um balneário de elite?
Prefiro não pensar, pois se me ponho a pensar fico maluco. (risos) A única coisa com que me preocupo é que isso não dificulte a tarefa dos meus jogadores. Se tiver o corte de cabelo mais estranho do mundo mas conseguir ver a bola, então tudo bem. O problema é quando os jogadores “inventam” demasiado e começam a jogar desconfortáveis. Quanto às tatuagens, há vinte anos eram raríssimos os jogadores que ostentavam tatuagens, mas agora são uma moda, mais ou menos como as redes sociais. Temos que nos adaptar às mudanças e, como treinador, não posso entrar nesta “guerra” com eles, pois já sei que vou perder. E se é para perder, mais vale nem tentar. É que eu nunca entro numa “guerra” para perder. Nunca!

– Qual a sua opinião relativamente à depilação masculina?
Tudo depende de pessoa para pessoa. Há quem o faça e quem não considere sequer essa hipótese. Pessoalmente, apenas desfaço a barba. Sou um homem que nasceu em 1963, por isso há muitas coisas que não consigo mudar na minha mentalidade. Mas também não critico nenhuma tendência, filosofia ou gosto pessoal, pois sei que o mundo mudou completamente e sou eu que tenho de me adaptar. Se daqui a uns anos o meu filho quiser fazer algo diferente do que eu faço, não sou eu que o vou criticar. Assim sendo, apenas vou continuar a barbear o rosto, nunca irei pintar o cabelo e as minhas pernas vão permanecer com pelos até ao fim dos dias.

– Atualmente, parece que a imagem de um treinador consegue ser mais importante que o currículo. O look é essencial para esta profissão?
Quantos treinadores mundiais existem que têm estilo que nunca mais acaba, usam penteados da moda e óculos de massa? Imensos! Parece que hoje em dia é tudo o que importa. Quantos deles ganharam alguma coisa? Zero!
O estilo, a maneira como nos vestimos, a idade e uma cara bonita ou feia nunca vão ganhar um jogo. É a nossa qualidade como treinadores e a qualidade dos nossos jogadores que ganham jogos. O futebol não está relacionado com a imagem, apenas com as qualidades e capacidades de cada um.

No museu do Chelsea F.C., ao lado de todas as taças e troféus conquistados pelo clube, está agora o seu “famoso” sobretudo. Orgulhoso?
Esta história é curiosa. Na última vez que o Chelsea foi campeão, foi feito um leilão com o intuito de angariar fundos para uma fundação de apoio ao cancro nas crianças e pediram-me para leiloar o sobretudo Armani que vesti durante essa época inteira. Houve um senhor que quis ficar com o sobretudo (e que pagou bastante por ele) mas que depois de o comprar, passado algum tempo, sentiu que o casaco não lhe pertencia, mas sim à história do clube do seu coração, e ofereceu-o ao museu para permanecer junto das botas de Frank Lampard e da camisola do Didier Drogba. Afinal de contas foi a primeira vez na sua história que o Chelsea foi campeão inglês.

É o conforto ou uma imagem que tem de transmitir que dita a roupa que escolhe para usar no dia-a-dia?
O conforto, sempre o conforto. Não me visto para que as outras pessoas digam que estou bem ou mal vestido, mas sim para me sentir confortável. É muito provável que um dia me vejam com um bom fato e os melhores sapatos como, horas a seguir já esteja vestido com um fato de treino. Qualquer que seja a minha opção, a regra é uma: sentir conforto. Apenas e só.

– Se tivesse que escolher o outfit ideal da cabeça aos pés, quais seriam as suas escolhas em termos de marcas?
Antes de mais, quanto é que essas marcas me pagam para responder a esta pergunta? (risos) Contudo, não tenho qualquer problema em dizer que em termos desportivos que vestiria adidas da cabeça aos pés. Já o fazia quando era miúdo, fazia-o quando tinha de pagar para isso e gastei bastante dinheiro nesta minha “mania” antes de ser patrocinado pela marca, por isso agora acho bem que sejam elas a pagar-me. E com juros! (risos). Em termos sociais, sou um homem Armani, pois como encontro facilmente o que gosto nas lojas desta marca, escuso de andar às voltas nas outras lojas à procura do que quero.

– Existe algum luxo que o José Mourinho não dispense?
Relógios. Acredito que é a joia masculina por excelência. Mas como estou à espera de fechar um negócio, não posso revelar a minha marca preferida.

– Provavelmente deve ser uma das pessoas que passa mais tempo em aviões e hotéis. Que dicas dá em termos de cuidados pessoais masculinos em viagem?
Hotéis, aeroportos, estádios de futebol… conheço-os todos à volta do mundo. Posso dar as melhores dicas sobre tudo isto, agora sobre cuidados pessoais é muito mais complicado. Tal como a maneira como me visto, o importante é sentir-me confortável. Ainda para mais tenho a vida facilitada, pois não gosto de perfumes. Nunca uso. Tomo vários duches por dia, até demais! De resto, levo sempre na minha mala um champô, um bom creme hidratante para o corpo, outro para o rosto e como uso máquina de barbear nem preciso de levar gel e lâminas. Mais simples seria impossível.

– O que é mais complicado: treinar ou educar os seus filhos?
Nenhuma das duas tarefas é fácil. Mas é óbvio que sinto muito maior responsabilidade com os meus filhos, mas sinto-me um privilegiado, pois como não passo muito tempo em casa fico com a melhor parte deles. A mãe é que tem de lidar com a educação e as tarefas mais complicadas, é o meu grande apoio. Sinto que que sou mais o pai que brinca do que o pai que educa. No Real Madrid é diferente, digamos que sou mais o pai “mauzão” para os meus jogadores.

– Quais os valores que o José Mourinho faz questão de lhes incutir?
Eu a e a minha mulher apenas desejamos que sejam um bom rapaz e uma boa rapariga. É importante fazer-lhes ver que o mundo não é apenas o micromundo em que vivem. Tentamos ao máximo dar-lhes as melhores condições para serem o que quiserem ser, nada mais. Não desejo que sejam desportistas de elite apenas porque estou ligado ao desporto, nada disso. Pretendo exatamente o contrário, que estudem e que sejam o mais honestos, educados e simpáticos possível. Infelizmente, existem pais que pensam que a escola é um obstáculo para os filhos, uma vez que acreditam que estar na escola os impede de passar mais tempo a jogar à bola. No meu caso, é exatamente o oposto: se gostam de jogar à bola que o façam o mais que puderem, mas a escola virá sempre em primeiro lugar.

– Qual o seu maior defeito enquanto treinador?
Ser honesto. No futebol a honestidade é uma má qualidade. Tenho que ficar calado, dizer apenas o que as pessoas querem ouvir e não o que realmente penso e não posso ir contra o sistema e as instituições. Por tudo isto, a minha honestidade é o que me causa mais problemas como treinador.

Fonte: Men’sHealth

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