Não matem a criatividade de nossos jovens futebolistas

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A criatividade é uma característica psicológica importante para se chegar ao topo. O desenvolvimento do pensamento criativo é reconhecido como um recurso essencial para atingir e manter um desempenho superior no futebol, existe, no entanto, pouco conhecimento do seu papel no campo desportivo. Os resultados de alguns estudos mostram que os desenvolvimentos desportivos e recreativos num ambiente de resolução de problemas são benéficos para o desenvolvimento do pensamento criativo. Além disso, parece que a chegada ao alto nível está positivamente associada à criatividade.

Hoje em vários terrenos de futebol espalhados por esse mundo fora, vemos muitos treinadores com atletas de tenra idade a dar demasiadas instruções para dentro de campo. Algumas equipas de sub-10/11 parecem os seniores em termos de conceito tático.

Será este o futuro do jovem jogador? Será isto o futuro do jogador português? Quem não têm saudades de um Figo ou de um Ronaldinho?

Não será mais importante para uma criança de 11,12,13 anos ter um desenvolvimento de criatividade que lhe permita realizar situações de 1×1 quando se encontrar em dificuldades, conseguindo resolver essas situações sozinho.

Alguns treinadores quando vestem essa pele obrigam as suas equipas a jogar a um 1 ou 2 toques, no entanto quando toca a parte de recrutar, escolhem sempre aquele que se destaca, pelos seus dribles e arrancadas.

Não será então isto uma contra-evidência que o mesmo treinador que obriga a sua equipa a jogar a um toque, escolha posteriormente os jogadores que precisam de ser criativos para ultrapassar um adversário.

Será que estamos a caminhar para um futebol previsível? Que podemos fazer para mudar isto?

Alguns artigos, dizem-nos que a criança tem de ser estimulada e desenvolvida a nível cognitivo e criativo, pois este processo irá trazer inúmeras vantagens para resolver situações no contexto do jogo. Por isso treinadores, não descurem essa parte, deixem se de ser tão pragmáticos com a crianças, deixem as divertir-se (de maneira planeada e com objetivos criativos concretos) mas sobretudo deixem as experimentar um leque variado de situações.

Não mecanizemos o treino em tão tenra idade, senão daqui a uns anos teremos jogadores robotizados no campo.

Memmert e Roth, 2007. The effects of non-specific and specific concepts on tactical creativity in team ball sports, 2007.

Fonte: Futebol de Formação por Filipe Alves

Momentos e sub-momentos do jogo… uma proposta

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Como prometido no passado, publicamos a nossa interpretação do jogo de futebol e proposta para a sua sistematização.

Em primeiro lugar poder-se-á questionar a relevância de sistematizar o jogo de e interpretá-lo teoricamente. Apesar do próprio jogo mostrar caminhos e promover a auto-aprendizagem, potenciar essa aprendizagem com outras ferramentas, é para nós fundamental, nomeadamente no papel de treinador. Neste sentido, um modelo simples que explique os momentos do jogo e a sua ligação, garantirá uma enorme ajuda à compreensão do jogo e ao seu ensino aos jogadores.

Isto, independentemente da idade e nível de jogo em que trabalhamos, uma vez que vão surgindo diversos exemplos de alto e baixo conhecimento do jogo em todos os escalões etários e níveis competitivos. Porém, o jogador não se constitui como o único destinatário deste trabalho. Todos os que gostam do jogo, e desejam compreender um pouco mais a sua complexidade e dinâmica, acreditamos que vão encontrar nesta sistematização um caminho acessível.

Para o próprio treinador, não só permite, a partir daqui, uma organização mais complexa das suas ideias de jogo (princípios, comportamentos, acções, etc.) dentro de cada sub-momento do jogo, como também lhe permite categorizar exercícios de treino face à interpretação da sua dominância. Consequentemente, esta proposta, possibilita ainda ao treinador ou ao analista catalogar videos de acções de jogo da sua equipa ou de terceiras de forma acessível. Este tem sido um trabalho que temos desenvolvido, o qual já nos possibilitou uma biblioteca que ultrapassou o milhar de vídeos, e que entre outros objectivos, servirá para ilustrar os comportamentos de jogo defendidos no tema do nosso projecto, a publicar futuramente – Modelo de Jogo Idealizado.

A sistematização do jogo de Futebol já leva uma considerável história. Desde o momento em que outras modalidades contribuíram para o desenvolvimento da teorização do jogo, destacando-se os trabalhos de Friedrich Mahlo,  Leon Teodorescu e Jean-Grancis Grehaigne, passando pelo contributo fundamental em Portugal de Carlos Queiroz e Jesualdo Ferreira, quando em 1983 apresentaram uma proposta de sistematização do jogo de Futebol, à actual visão do jogo sob quatro momentos fundamentais: Organização Ofensiva, Transição Defensiva, Organização Defensiva e Transição Ofensiva, que entretanto se generalizou.

Momentos do jogo

A nossa proposta surge, não só de uma necessidade de desconstruir os momentos de organização para que sejam mais facilmente entendidos e treinados, como principalmente explicar os momentos de transição, os quais, apesar de actualmente aceites e reconhecidos pela sua importância capital no jogo, geram no entanto, ainda muitas dúvidas e por vezes interpretações erradas.

Explicando-a concretamente, a partir dos quatro grandes momentos de jogo, criámos três sub-momentos para cada um deles. Nos momentos de Organização, sentimos que a proposta de Queiroz e Jesualdo continua a garantir resposta para as necessidade desses momentos do jogo. No entanto, necessitámos de distingui-los de forma mais objectiva, uma vez que nos fomos apercebendo de visões muito díspares do que seriam a construção, criação, finalização e em oposição, o impedir a construção, impedir a criação e impedir a finalização.

Assim, no momento de Organização Ofensiva, identificado pela cor verde, entendemos os três sub-momentos:

  1. Construção: quando ambas as equipas se encontram dentro da sua organização para atacar e defender e quando a bola se encontra fora do bloco da equipa que defende.
  2. Criação: quando a equipa que ataca consegue penetrar no bloco da equipa que defende e surge perante a última linha adversária ou a última linha e mais um médio em contenção. A excepção é quando a equipa que ataca procura um jogo mais directo, de ataque à profundidade, ou seja, de passe directo para o espaço entre a última linha de quem defende e o seu Guarda-Redes, o que acaba por se configurar como uma situação de último passe, independentemente do grau de dificuldade superior da acção. Neste sub-momento, integram-se também todas as situações de bola parada ofensivas que poderão permitir um último passe ou cruzamento e finalização. Devemos referir que compreendemos as opiniões que distinguem as situações de bola parada como um quinto momento do jogo, porém a nossa interpretação é que, independentemente do jogo estar parado ou em movimento, se uma equipa está organizada para defender essas situações e a outra para atacar, então estarão dentro da sua Organização Defensiva e Organização Ofensiva, respectivamente.
  3. Finalização: todas as acções que visam o momento final de ataque à baliza adversária, portanto, a acção individual ofensiva de remate, independentemente da superfície corporal envolvida. Aqui também se integram as situações de bola parada ofensivas que poderão permitir um remate directo à baliza. Importa ainda referir que a finalização pode até surgir quando a equipa que ataca tem pela frente todo o bloco adversário ou parte do mesmo. Contudo, se quem ataca conseguiu chegar ao remate, esses momentos de organização defensiva adversários falharam de alguma forma.

Em oposição o momento de Organização Defensiva, identificado pela cor vermelha, sub-divide-se em três sub-momentos que irão procurar garantir oposição aos anteriores comportamentos ofensivos:

  1. Impedir a construção: os momentos em que a equipa que defende procura não permitir a entrada da bola no interior do seu bloco. Os comportamentos de pressing, quer seja alto, médio ou baixo, são um bom exemplo para este sub-momento defensivo.
  2. Impedir a criação: quando a equipa que defende não consegue impedir que a bola entre no interior do seu bloco e a sua última linha é a penúltima barreira entre si e a sua baliza. Ou então as acções que visem impedir ou interceptar um passe longo e directo para o espaço entre a última linha da equipa e o seu Guarda-Redes.
  3. Impedir a finalização: quando toda a equipa, menos o Guarda-Redes, foi ultrapassada. Portanto, contrapondo ao sub-momento ofensivo de Finalização, aqui, a última barreira é o Guarda-Redes e os seus comportamentos de defesa da baliza.

Esta proposta de distinção entre os momentos de construção e criação, parece-nos altamente pertinente. Durante muito tempo apercebemo-nos que muitos autores e treinadores identificavam estes sub-momentos / fases pelo espaço do campo onde as equipas atacavam e defendiam. Essa interpretação parece-nos errada, uma vez que uma equipa pode estar em construção junto à sua área ou perto da área adversária, pois nos dois casos, perante por exemplo adversários que respectivamente defendam com o seu bloco, posicionado alto ou baixo no campo, poderá estar com todos os jogadores adversários ainda por bater. Por outro lado, uma equipa que posicione a sua última linha alta no campo, um momento de ruptura ou último passe de quem ataca pode surgir ainda no meio-campo de quem ataca. Deste modo, a correlação dos sub-momentos ofensivos e defensivos com espaços no campo está para nós desfasada da realidade que é o jogo. Então, a relação entre as duas equipas, e se quem defende ainda está usar toda a sua organização defensiva ou apenas parte da equipa, e se ao contrário, quem ataca ainda tem duas / três linhas adversárias para ultrapassar ou apenas uma, parece-nos uma visão mais aproximada da interacção e realidade dinâmica que o jogo promove, e assim um melhor caminho para distinguir esses sub-momentos ofensivos e defensivos do jogo.

Mas será nos momentos de transição que a nossa proposta pretende ir mais longe. Independentemente da interpretação dos sub-momentos / fases, da Organização Ofensiva e Defensiva, já Carlos Queiroz e Jesualdo Ferreira procuraram sistematizar essas estruturas complexas do jogo. Há cerca de 15 anos atrás, com a difusão e aceitação dos momentos de transição, surgiram então mais dois momentos do jogo para compreender. Neste âmbito tem surgido alguma confusão de conceitos, e simultaneamente sentimos a necessidade de interpretar a Transição Defensiva e a Transição Ofensiva de forma a encaixar-lhes comportamentos e acções, para posteriormente explicar a sua lógica aos jogadores e trabalhá-los pelo Modelo de Jogo que cada treinador idealiza. Neste sentido, sentimos ainda a necessidade de lhes atribuirmos uma lógica sequencial teórica, tal como sucede nos dois momentos de Organização.

Desta forma, para o momento de Transição Defensiva, para nós representado pela cor amarela, propomos os três sub-momentos:

  1. Reacção à perda da bola: os instantes, ainda no centro de jogo, imediatos à perda da bola. Os comportamentos defensivos a adoptar nessa situação. Para a maioria dos treinadores, o objectivo fundamental será não só tentar de imediato a recuperação da bola, mas não permitir ao adversário a possibilidade de contra-atacar. Portanto, impossibiltá-lo ou atrasá-lo em sair com a bola dessa zona de pressão e procurar espaços para desenvolver o contra-ataque.
  2. Recuperação defensiva: na tal lógica sequencial, se o adversário conseguiu sair da zona de pressão, independentemente dos jogadores fora do centro de jogo (primeira zona de pressão) já deverem está a fechar a equipa e a recuperar o seu posicionamento defensivo, neste sub-momento, torna-se ainda mais importante a recuperação do máximo número de jogadores, contemplados pela organização defensiva da equipa, para trás da linha da bola. Alguns poderão até estar a compensar companheiros, mas a urgência é não permitir espaço nem número vantajoso ao adversário para desenvolver situações de contra-ataque. A própria falta táctica pode ser contemplada neste sub-momento do jogo.
  3. Defesa do contra-ataque: se ambos os sub-momentos anteriores da transição defensiva falharam, então, antes das acções de defesa da baliza do Guarda-Redes, a equipa tem ainda a possibilidade de defender o contra-ataque adversário. Perante relações numéricas diferentes, poderão ser adoptados comportamentos que poderão reduzir as possibilidades de sucesso de quem ataca. Tal como, em oposição, o contra-ataque, estas são situações muito trabalhadas no Futsal, dada a quantidade de situações deste género que surgem nesse jogo. Porém, se no Futebol elas não só surgem, como são decisivas nos desfechos dos jogos, porque não devem também ser alvo de treino?

Em oposição ao momento de Transição Defensiva, surge então o momento de Transição Ofensiva, para nós representado pela cor azul, e ao qual propomos três sub-momentos:

  1. Reacção ao ganho da bola: em oposição à reacção à perda da bola, surgem neste sub-momento os comportamentos e acções de quem recuperou a bola, e a procura de sair da primeira zona de pressão adversária. Seja ela realizada por um jogador ou por mais. Se possível, alcançá-la no sentido da baliza adversária, porém, em muitos momentos, esses espaços encontram-se fechados e portanto será necessário garantir outras soluções e uma boa decisão do jogador com bola. A eficácia na reação ao ganho da bola e na saída da zona de pressão influenciará os sub-momentos seguintes da transição ofensiva, que aqui, provavelmente, já não surgem numa lógica sequencial, mas sim como alternativas de decisão.
  2. Contra-ataque: se a equipa conseguiu sair com eficácia e rapidamente da zona de pressão, poderá encontrar espaço e / ou uma relação numérica com o adversário interessante para optar pelo contra-ataque. Nesse caso, é nosso entender que deverá explorá-lo na larga maioria das situações, procurando as suas vantagens, pois parece-nos mais difícil ultrapassar uma boa organização defensiva adversária. As excepções irão surgir por influência da dimensão estratégica. Neste caso, por exemplo, quando uma equipa se encontra com uma vantagem mínima no resultado ou numa eliminatória, está a poucos minutos do final do jogo, e não lhe interessa explorar uma situação de contra-ataque, que em caso de insucesso irá, provavelmente, lhe retirar na resposta do adversário alguns jogadores da sua organização defensiva, e mais importante, porque privilegiando a posse de bola, não só poderá descansará com bola, como retirará a possibilidade de atacar ao adversário.
  3. Valorização da posse de bola: se após a saída da zona de pressão a equipa não encontrar espaço e / ou uma relação numérica interessante para atacar a baliza adversária, deverá evitar a decisão de contra-atacar numa situação desvantajosa e possivelmente perder a bola. Ao invés, deve assim garantir a sua posse, ganhando tempo para se reorganizar para atacar, procurando esse momento seguinte do jogo para criar desequilíbrios na organização adversária.

Pelas ideias apresentadas, propomos a seguinte representação gráfica dos momentos e sub-momentos do jogo:

Momentos e Sub-Momentos do jogo.

Interpretando o jogo desta forma, para nós não faz sentido catalogar uma equipa como “uma equipa de contra-ataque” ou uma “equipa de ataque organizado“. Todas as equipas têm de saber jogar em todos os momentos e sub-momentos, para que possam responder às necessidades circunstanciais que o jogo lhes vai apresentando. Contudo, partindo deste modelo, cada treinador, acreditando nas suas ideias, procurando uma adaptação à qualidade, cultura e características individuais dos jogadores com quem irá trabalhar, poderá desenvolver o jogo idealizado, de forma a responder a estes momentos e sub-momentos, o que consequentemente potenciará o seu jogo para mais ou menos tempo nalguns destes momentos e sub-momentos. Assim, procurando ir aos extremos, acreditando num jogo curto e apoiado ou longo e directo, na defesa zona ou na defesa individual, todas as ideias podem ser concebidas a partir deste modelo.

Sentimos ainda que a nossa proposta não se esgota no jogo de Futebol e que poderá ter transfer para outros desportos colectivos, nomeadamente os com características de invasão do meio-campo adversário.

Fonte: Futebol de Formação por Ricardo Ferreira

Estão os pais preparados para acompanhar o filho no desporto?

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É notório que as crianças estão a começar cada vez mais cedo a praticar futsal. Clubes e academias, estão mais abertos a receber crianças ainda de muito tenra idade, o que no meu entender não sendo uma garantia, é sem dúvida nenhuma, uma ajuda para que apareçam mais praticantes de qualidade no futuro.

É importante e desejável, que os pais quando decidem inscrever o seu filho no futsal, tentem entender qual terá de ser o seu papel na vida desportiva do seu filho e ao mesmo tempo tentar entender o contexto do futsal nessa idade especifica. Deve no meu entender, haver essa preparação, para que os pais possam corresponder ao que o filho espera e que vai necessitar, ter os pais próximos, a apoia-lo e encorajar para trabalhar, para aprender, para evoluir.

Naturalmente, que um praticante erra algumas vezes e numa idade baixa, porque a fase é de primeiros contactos com a modalidade e de aprendizagem, os erros aconteçam com mais frequência.

É necessário ter a consciência, que muitas vezes o impacto do erro na criança será muito grande, porque há um constante desejo de querer fazer tudo bem, e quando não o conseguir pode sentir que não é capaz, que comprometeu a sua equipa e/ou até que desiludiu os seus pais. Comportamentos como choro, como o silêncio podem acontecer e nestes momentos os pais podem e devem ajudar.

Não é dizer ao filho que agiu bem, porque ele sabe que falhou, é antes encoraja-lo para continuar, fazendo-lhe ver que haverá outra oportunidades para ele demonstrar que é capaz.

Defendo pais de tipo “encorajador”, e nunca pais que lamentem e que estejam constantemente a “bater” nos erros cometidos pelo filho. Muitas vezes, tal é a frustração que sentem pelo erro do filho que se esquecem de dar importância à evolução nem que seja ela mínima, porque se ela acontece o caminho está a ser correcto.

Importante é também, que os pais tenham a noção das qualidades e das debilidades técnicas do seu filho, tendo a coragem de assumir que pode haver crianças da mesma idade ou até mais novas com maior habilidade. Árbitros, colegas, adversários, treinadores e até adeptos, não têm qualquer culpa de haver crianças com mais habilidade que o seu filho. Inscrever um filho numa atividade é acreditar também que o seu filho está a aprender e vai evoluir com treino e com tempo.

Como já referi, as crianças querem acertar sempre, querem ser sempre bem sucedidas, querem mostrar o que aprenderam, querem mostrar que são “boas”, querem fazer o melhor, atingir as vitórias e muitas vezes querem agradar os pais para depois sentir o carinho e o apoio dos mesmos.

Repito, os pais tem que em todos os momentos encorajar o seu filho a trabalhar para melhorar, mostrando sempre que é possível melhorar e fazer sempre melhor, esse é, no meu entender, o caminho.

Os pais precisam também de ter a noção do papel do treinador, uma pessoa que entra nesta fase na vida do seu filho. Não quer isto dizer que os pais se afastem, bem pelo contrário, os pais devem ser uma figura presente, devem tentar sempre que possível e/ou necessário dialogar com o treinador, mostrando total confiança no seu trabalho e até tentar perceber de que forma deve encarar a vida desportiva do seu filho, por exemplo, entender a importância que é dada à vitória, entender que deve haver tolerância com o erro, entender que são sempre importantes as pequenas demonstrações de evolução que o seu filho vai mostrando, etc., e depois perceber onde pode ajudar ambos, o seu filho e o treinador.

Devem os pais também, ter atenção à sua conduta na bancada. Quer para com o seu filho, quer para com um outro elemento qualquer.

É verdade, que um simples abanar de cabeça após uma acção menos conseguida do seu filho durante o jogo, pode deitar abaixo o seu filho, sim porque acontece muitas vezes as crianças olharem para a reacção do pai na bancada, e era ideal que logo aqui pudessem receber um gesto de incentivo e nunca de desilusão, de critica.

Devem ter igualmente em atenção, que qualquer comportamento através de injurias, agressões etc., para com adversários, árbitros, adeptos, além do mau ambiente que cria no pavilhão, vai deixar o seu filho embaraçado, podendo ver o seu filho optar por desistir do futsal ou até assumir o comportamento do pai e fazer igual.

É por tudo isto importante que os pais pensem, se informem, porque sai beneficiado o jogo, a modalidade mas acima de tudo o seu filho. Os pais não podem querer usar o seu filho como um meio de se afirmarem, o seu filho tem as habilidades que tem, pode desenvolve-las com maior ou menor dificuldade pode ter colegas com mais habilidade, mas nada disso impede a criança de ter o direito de praticar futsal, de aprender e de ter o apoio dos pais.

Os pais, têm que ser antes de tudo amigos presentes, sempre que possível, aquele que encoraja e valorizar o seu filho quando o vê a trabalhar para se superar, quando vê o seu fllho dedicar-se para ser amanhã melhor que hoje e quando vê o seu filho assumir uma postura de desportista mantendo um relação saudavel com árbitros, colegas, treinadores e adversários.

Não poder estar presente fisicamente na bancada em todos os momentos, como seria ideal, não significa que não possa manter conversas com o filho até com o objetivo de perceber como está o seu filho a viver o desporto e encoraja-lo a trabalhar sempre mais.

Acreditem todos os pais, que vale a pena, para não dizer que devia ser obrigatório, deixar muitas outras coisas para trás para poder acompanhar de perto a vida desportiva do seu filho, seguindo sempre comportamentos adequados, relembro de encorajamento, e nunca de super protecção ou de critica excessiva…

Todos sabem que são capazes e todos querem ajudar… eu sei disso!

Fonte: Futebol de Formação por Gonçalo Mendonça

O modelo de jogo: eixo nuclear do processo de treino em futebol

Autores

Valter Pinheiro, Bruno Baptista – Instituto Superior de Ciências Educativas/Metodologia TOCOF

Introdução

Nos primórdios da periodização do treino de futebol, a dimensão física assumia grande relevo, relativamente às restantes vertentes do jogo.

Os inícios de época baseavam-se no desenvolvimento das capacidades condicionais, porque se acreditar que estas eram a base para o restante desenvolvimento dos atletas. Por isso, era usuais os treinos na praia e em pinhais, locais descontextualizados da realidade do Jogo. Vivia-se à base do conhecimento científico produzido pelos autores dos desportos individuais, pelo facto de não existir investigação que servisse de suporte aos jogos desportivos coletivos. É por isso que acreditamos não ser lícito criticar negativamente o que se fazia outrora, porque a informação disponível era parca.

Todavia, uma nova forma de pensar o treino foi surgindo, dando cada vez maior destaque à dimensão tática do jogo, sem esquecer as demais dimensões, porque todas elas são vitais para o jogo. Rapidamente se compreendeu que a dimensão física é apenas mais um contributo na melhoria do rendimento dos atletas, mas que todavia, deveria levar em conta a lógica organizacional do jogo.

O Modelo de jogo, ou seja, os princípios que organizam a equipa durante a partida, passou a assumir-se como o eixo central e nuclear na organização de todo o processo de treino.

Com este artigo, procuraremos abordar o que é, em nosso entender, o Modelo de Jogo, quais os seus constituintes e como se constrói.

1. Qual é a nossa concepção de Modelo de Jogo?

A este respeito, Carlos Carvalhal, conceituado treinador português, refere que Modelo de jogo é um conceito muitas vezes utilizado no futebol, mas a esmagadora maioria das pessoas que o utiliza não sabe verdadeiramente do que está a falar. Há ainda quem confunda Modelo de Jogo, com Sistema Tático ou até mesmo Esquemas táticos, revelando uma grande confusão conceptual.

Quando falamos em Modelo de jogo referimo-nos a um conjunto de princípios (comportamentos) que resultam na organização de uma equipa dentro do contexto do jogo, ou seja, um conjunto de pautas que ajudem os atletas a saberem o que devem fazer em cada um dos quatro momentos do jogo de futebol (organização Ofensiva, Transição Defensiva, Organização Defensiva e Transição Ofensiva). Significa que com este conjunto de princípios, cada atleta estará preparado para saber com exatidão o que deve fazer e como fazer a cada momento, expressando uma Unidade Coletiva de pensamentos.

A expressão máxima do Modelo de Jogo atinge-se quando num dado momento do jogo, todos os atletas “pensem” da mesma forma, agindo em conformidade com aquilo que pensaram.

Atentemos no seguinte exemplo de uma equipa que joga em contra ataque: – após a recuperação de bola pelo jogador da posição 6,  os atletas mais adiantados, procurarão dar linhas de passe em profundidade, permitindo ao jogador 6 realizar um passe em rutura;

Pensemos noutro exemplo de uma equipa que utilize a zona pressionante para defender:

-ao entrar em transição defensiva, o atleta mais próximo do portador da bola deve realizar contenção ao seu portador, e os seus companheiros mais próximos deverão pressionar o espaço circundante, para que o comportamento de pressão seja uma expressão coletiva e não um ato individual.

Estes dois exemplos ilustram bem que quando existe um Modelo de Jogo definido, quando existe uma forma de jogar que é pensada coletivamente, as equipas revelam um potencial que é capaz de as estimular para melhores resultados desportivos.

Tomando como exemplo o funcionamento do corpo humano, podemos entender o Modelo de Jogo como sendo o cérebro e os atletas como os músculos, ou seja, para que os movimentos sejam fluidos e coordenados é necessário que haja uma boa indicação do Sistema Nervoso Central e uma correta entreajuda entre os diferentes grupos musculares, em que para se efetuar um movimento é necessário que alguns se contraiam e outros se alonguem.

Pensemos na seguinte analogia:

  • Para que haja uma flexão do antebraço é necessário que num dado momento o sistema nervoso central dê indicação ao bíceps para se contrair e ao tríceps para se alongar. Se este trabalho for coordenado, o movimento resultará fluido.
  • No caso de uma equipa que jogue em ataque posicional, para que este movimento surta efeito é necessário que num dado momento, o atleta que tem a posse da bola, tenha um colega a dar cobertura ofensiva (linha de passe segura) e outros colegas em mobilidade. Quando mais coordenados estiveram os atletas, mais fluida sairá esta movimentação.

Deste modo, o Modelo de Jogo deve expressar a forma como as equipas querem atacar e defender, o que pretendem fazer em cada um destes momentos.

Quando atacamos: 

-procuramos chegar à baliza adversária com paciência através de muita posse de bola?

-ou após a recuperação de bola, procuramos chegar rapidamente à baliza adversária, através de um passe em ruptura?

E quando defendemos?

-procuramos recuperar rapidamente a bola, pressionando o portador da bola e os espaços circundantes?

-ou após perder a posse da bola, pressionamos o portador, apenas para que a equipa se possa organizar num bloco baixo?

É esta organização coletiva que potencia a qualidade da equipa, bem como, de todos os atletas, de modo individual.

1.1 O Modelo de Jogo e a Criatividade individual

Tudo o que se escreveu anteriormente pode levar o leitor a pensar que o Modelo de Jogo é uma “Lei castradora” da criatividade de cada atleta.

No entanto, acreditamos que o Modelo de jogo, ou seja, o jogar organizado de uma equipa, “abre” mais espaço para o desenvolvimento da criatividade dos atletas. É sabido que o ato criativo comporta uma série de riscos. Por exemplo, uma tentativa de drible por parte de um atleta, pode acarretar uma perda de bola. No entanto, se a equipa jogar de modo organizado, e se existir uma cobertura ofensiva ao atleta que tentou o drible, a possibilidade de se recuperar rapidamente a bola é maior. Logo, quanto melhor for o modelo de jogo (entenda-se, organização da equipa), maior a possibilidade dos atletas criativos poderem expressar a sua individualidade, sem que a mesma prejudique o coletivo.

A criação do Modelo de Jogo deve respeitar a criatividade individual de cada atleta.

2. Constituintes do Modelo de Jogo

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Figura 1 – (Elaborado por Pinheiro e Baptista, 2013)

A figura 1 representa os diferentes constituintes do Modelo de Jogo. Já referimos anteriormente que o mesmo se deverá assumir como um conjunto de princípios que deverão orientar os atletas nos diferentes momentos do jogo de futebol, expressando esta forma uma lógica de pensamento unitário.

Deste modo, o Sistema Tático assume também um papel importante na definição do Modelo de Jogo. É importante não confundir estes dois conceitos que aparecem muitas vezes como sinónimos.

O Sistema Tático é a estrutura organizacional da equipa no campo, construção estática, normalmente identificável no início do jogo. O Sistema Tático faz parte do Modelo de Jogo, no entanto não deve ser castrador do mesmo.

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Figura 2 – Sistema Tático 1:4:3:3

Outro dos aspectos que faz parte integrante do Modelo de Jogo é a definição dos esquemas tácticos. Estes, são situações de bola parada, como por exemplo, os livres, os pontapés de canto, os lançamentos de linha lateral ou as grandes penalidades. Cada vez mais este tipo de situação assume particular relevância ao nível do Alto Rendimento, não devendo, por isso, ser descurado.

Quando falamos em Esquemas Táticos, não nos referimos apenas aos ofensivos, ou seja, à maneira como vamos marcar os pontapés de canto ou os livres a nosso favor. É também importante o treino dos Esquemas Táticos defensivos, ou seja, como abordar uma situação de pontapé de canto contra a nossa equipa.

3. Como construir um Modelo de Jogo?

A construção de um Modelo de Jogo é uma tarefa complexa que exige conhecimentos teóricos e práticos. Por isso, na hora de abordar a sua elaboração, os treinadores deverão ter em atenção os seguintes aspectos: a sua Ideia de Jogo, os jogadores disponíveis, a cultura do clube e a opinião da equipa técnica.

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Figura 3 – Construção de um Modelo de Jogo (por Pinheiro e Baptista, 2013)

3.1 A Ideia de Jogo do Treinador

Cada treinador representa uma Ideia de Jogo, um pensamento concreto sobre a forma de organizar a equipa em campo.

Esta Ideia de Jogo do treinador resulta das múltiplas experiências que vai acumulando, ora como ex jogador, ora como treinador.

A experiência como jogador não se assume como condição sine qua nom para se poder “abraçar” a carreira de treinador. Contudo, é bem verdade que as experiências acumuladas enquanto praticante, influenciam o treinador, quer seja de modo positivo ou negativo. É por isso que ao construir uma Ideia de Jogo, o treinador arrastará consigo todos os conhecimentos provenientes da sua prática desportiva, quer seja para incorporá-los, ou até mesmo para rejeitá-los.

A experiência acumulada enquanto treinador assume também grande importância, pois a forma como se encara o jogo no início da carreira, não será certamente a mesma, depois do avolumar de anos de prática. Por isso, toda a experiência prática, torna o treinador mais capacitado para a elaboração de um Modelo de Jogo. No entanto, nem só de experiência vive o treinador, mas também de todo o conhecimento científico publicado em livros e revistas da especialidade. Por isso, o treinador deverá procurar estar constantemente actualizado, fazendo sucessivos up grade.

A participação em colóquios e debates deverá assumir-se como uma prática corrente na vida do treinador.

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Figura 4 – Ideia de Jogo do treinador (por Pinheiro e Baptista, 2013)

3.2 Jogadores Disponíveis

O treinador de futebol é como um chefe de cozinha, devendo procurar construir a melhor receita (equipa), com os ingredientes que lhe são disponibilizados (jogadores).

Em alguns casos o treinador pode escolher alguns dos jogadores que pretende para dar corpo ao seu Modelo de Jogo, no entanto a maioria deles são lhe impostos, por já se encontrarem na estrutura do clube.

Assim, se lhe for dada a possibilidade de contratar jogadores, o treinador poderá escolher aqueles que reúnem as características tácticas, técnicas, físicas e psicológicas que melhor se enquadrem com as suas ideias de jogo.

Caso contrário, cabe ao treinador analisar as qualidades e defeitos de todos os seus atletas e relacionando esse potencial com a sua ideia de jogo, criar um Modelo.

No fundo, compatibilizar as suas ideias com os atletas que tem à sua disposição. Não compreendemos que se possa construir um Modelo de Jogo à priori sem levar em linha de conta o “material humano” que se tem. As ideias do treinador devem “casar-se” com os atletas que tem à sua disposição, sob pena de o Modelo de Jogo se assumir como uma “arquitectura teórica” incapaz de ser reproduzida em campo.

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Figura 5 – Plantel Possível

Logo, o treinador deverá partir do campo das possibilidades na hora de elaborar o seu Modelo de Jogo, partindo dos atletas que de facto tem à sua disposição.

3.3 Cultura do Clube

Concordemos ou não, a grande verdade é que ao integrarmos a estrutura de um clube de futebol, transportamos a nossa ideia e filosofia de jogo, mas, no entanto, o clube tem um historial que importa ter em consideração.

Em alguns clubes, existe mesmo um historial de sucesso associado a uma determinada forma de jogar, que desta forma assumiu uma relevância inimaginável na massa associativa. Por isso, é certamente uma tarefa hercúlea entrar dentro de uma estrutura e procurar impor um estilo de jogar diferente daquele que em anos anteriores conduziu ao sucesso. No entanto, não nos pareceu um erro metodológico procurar impor uma forma de jogar completamente diferente da preconizada anteriormente, desde que tenhamos em consideração tudo o que poderá comportar essa decisão.

Se procurarmos implementar uma Filosofia de Jogo diferente e se não tivermos sucesso no imediato, o risco de sofrer a pressão da massa associativa é muito maior. No entanto, acreditamos que o treinador deverá ter a capacidade de correr riscos, até porque a vida é um contrato de riscos.

Normalmente, os treinadores de sucesso são aqueles que têm a capacidade de assumir riscos, impondo um processo de liderança com um impacto tão forte que levam os liderados a aceitarem facilmente o que lhes é proposto.

Apesar disso, continuamos a acreditar que ao chegar a um clube, o treinador deverá ser capaz de entender o historial do clube, as potencialidades da sua massa adepta e analisar os pressupostos que levaram o clube a ter sucesso em determinadas épocas desportivas.

4. Quem deve participar na elaboração do Modelo de Jogo

Partindo do princípio que as equipas técnicas são constituídas de forma pluridisciplinar, onde intervêm técnicos com diferentes valências e competências, acreditamos que o Modelo de Jogo deverá ter a participação de todos.

É bem verdade que o processo de construção do Modelo de Jogo deverá sustentar-se na figura do Treinador Principal, pois é este o rosto da equipa técnica.

Todavia, parece-nos despropositado que na hora de decidir a forma de jogar, não sejam ouvidos todos os elementos da equipa técnica.

Repare-se na situação do treinador de guarda-redes: se uma equipa desejar jogar em contra ataque, a função do Guarda Redes é de suma importância, quando é este que faz a transição ofensiva. Por isso, acreditamos que faz todo o sentido o treinador de guarda-redes ter uma voz activa na definição da Ideia de Jogo. Contudo, voltamos a referir que deverá ser o treinador principal a tomar a decisão final, sem no entanto deixar de dar voz aos seus adjuntos.

5. Conclusões:

Não gostaríamos de terminar este artigo sem tecer alguns comentários em jeito de conclusões:

-O Modelo de jogo deverá potenciar os aspectos positivos de cada um dos elementos que compõem a equipa. Assim, se temos um lateral direito que é rápido a subir com a bola, deveremos potenciar esse tipo de situações. Se temos um atleta fantástico na cobrança de livres à entrada da área, devemos exponenciar o aparecimento de situações dessas.

– Todavia, o nosso modelo de jogo também deverá ser capaz de “esconder” as debilidades de alguns dos elementos da equipa. Deste modo, se temos um guarda redes com dificuldades em jogar fora da baliza, não devemos permitir cruzamentos para a nossa área. Se temos um defesa central com dificuldades na progressão com bola, deveremos evitar iniciar o ataque na sua zona.

O modelo de jogo não deverá ser uma construção teórica imposta à partida, mas antes, um conjunto de comportamentos que são aprendidos e apreendidos de forma ativa e consciente por parte dos atletas.

6. Bibliografia Consultada

Garganta, J.; Cunha e Silva, P. (2000). O jogo de futebol: entre o caos e a regra.

Revista Horizonte: Revista de Educação Física e Desporto,16, (91),5-8.

Greco, P.J. (2007). Tomada de decisão nos jogos esportivos coletivos: o conhecimento táticotécnico como eixo de um modelo pendular. Revista Portuguesa Ciências do Desporto, 7,16-16.

Greco, P.J. & Souza, C.R.P. (1999). Iniciação esportiva universal e o treinamento da percepção. Em: Silami, G.E.; Lemos, M.L.K. e Greco

Gréhaine, J.F.; Godbout, P. e Bouthier, D. (2001). The Teaching and Learning of Decision Making in Team Sports. Quest, 53 (1), 59-76.

Tavares, F.( 2002). Análise da estrutura e dinâmica nos jogos desportivos. In: Barbanti, V. J.; Bento, J. O.; Amândio, A. C. (Org.) Esporte e atividade física:

interacção entre o rendimento e saúde. São Paulo: Manole.

Fonte: Futebol de Formação por Valter Pinheiro