Futebol Feminino: os jogos com campo reduzido não permitiram alcançar estímulos de alta intensidade similares aos de jogos internacionais.

O Futebol Feminino que tanto nos orgulha desde 1986, participando de todas as edições da Copa do Mundo e dos Torneios de Futebol dos Jogos Olímpicos. Coroando isso tudo, temos a Rainha Marta, a melhor jogadora do mundo de todos os tempos, nossa camisa 10 foi eleita por 5 anos consecutivos pela FIFA (de 2006 a 2010) como a melhor jogadora de futebol do planeta, conquistando agora em 2018 o título pela sexta vez (1). Outra grande conquista para nossas atletas, a partir de 2019 todas as equipes que disputam as competições da Conmebol terão suas equipes femininas, o que levou aos clubes Brasileiros a ampliarem o investimento ou até mesmo a criarem as suas equipes femininas (2).

Na área científica também estamos em crescimento, onde podemos destacar 2 estudos publicados pelo grupo liderado pelo Fisiologista da Seleção Brasileira Principal, o Prof. Dr. Guilherme Passos Ramos, que verificaram o perfil de atividades (3) e o padrão de movimento (4) de atletas das Seleções Brasileiras Femininas. No estudo que verificou o perfil das atividades das atletas, os dados foram coletados por GPS em partidas oficiais internacionais das categorias Sub17, Sub20 e Principal. Neste estudo foram analisadas as seguintes variáveis: distância total percorrida, distâncias percorridas em alta intensidade (15,6 – 20 km/h e > 20 km/h), número de acelerações (> 1 ms2), desacelerações (> -1 ms2) e o Player Load. Os autores reportaram que  geralmente ocorreram aumentos na magnitude das variáveis analisadas com o aumento das faixas etárias (resultados da Sub17 foram menores em relação a Sub20 que por sua vez, foram menores que da Principal). No segundo estudo, mais uma vez utilizando GPS foi analisado o padrão de movimento das atletas (agrupadas por posição) durante o Campeonato Sul-Americano Sub20. Os autores verificaram que as atletas percorreram em média 8675 ± 663 metros durante os jogos internacionais, sendo que as laterais e as atacantes percorreram uma distância total e as distâncias em alta intensidade maior do que as zagueiras e as meio-campistas. Desta forma, esses achados podem ser utilizados para estabelecer exercícios de condicionamento específicos de acordo com categorias (faixa etária), bem como das posições das atletas (3, 4).

Dando continuidade ao tema que apresentamos na semana passada, temos um estudo realizado com atletas australianas de elite onde investigaram o padrão de movimento de treinamentos realizados com jogos em campo reduzido e compararam esses com jogos em competições de nível regional, nacional e internacional (5). O padrão de movimento analisado foi composto pela demanda de sprints repetidos em relação à duração dos sprints, número de repetições de sprint, duração da recuperação e intensidade da recuperação. Os jogos em campo reduzido foram de três contra três e cinco contra cinco, os jogos regionais contra times masculinos (n = 10), os jogos da liga nacional australiana (n = 9) e os jogos internacionais (n = 12). Os resultados deste estudo demonstram que o treinamento com jogos em campo reduzido podem ser usados para simular efetivamente os padrões gerais de movimento da competição nacional, nacional e internacional. No entanto, o treinamento com jogos em campo reduzido não simularam as demandas de alta intensidade e sprints repetidos da competição internacional. De uma perspectiva prática, o treinamento com jogos em campo reduzido devem ser complementados com treinamento específico para que simule as demandas de alta intensidade e sprints repetidos da competição. Ressaltando que embora o treinamento com jogos em campo reduzido utilizado neste estudo não tenha alcançado as demandas de alta intensidade e sprints repetidos conforme solicitado em jogos internacionais, deve ser reconhecido que o treinamento com jogos em campo reduzido (aplicados neste estudo) foram projetados especificamente para desenvolver habilidades técnicas e uma maior compreensão e consciência tática, ou seja, captura, passagem e manutenção de posse em pequenos espaços de trabalho e compreensão tática, sendo que várias bolas poderiam utilizadas para garantir a continuidade do jogo. Os autores sugerem ainda que os treinadores podem modificar o conteúdo e a natureza do treinamento com jogos em campo reduzido (por exemplo, modificando as dimensões do campo e regras, números de jogadores e número de bolas) para aumentar as demandas fisiológicas e mecânicas do estímulo de treinamento. Além disso, o uso de “um-contra-um” e de estratégias em que os defensores marcam continuamente o mesmo atacante podem aumentar as exigências de sprint repetidos no treino, levando os jogadores a correrem na defesa, se recuperem rapidamente e, em seguida, montarem um contra-ataque efetivo (5).

Continuemos ampliando essa discussão e para finalizar, vamos dar um salve para o nosso futebol feminino…

 

REFERÊNCIAS:
  1. https://pt.wikipedia.org/wiki/Sele%C3%A7%C3%A3o_Brasileira_de_Futebol_Feminino
  2. http://www.conmebol.com/pt-br/futebol-feminino
  3. Ramos GP, Nakamura FY, Penna EM, Wilke CF, Pereira LA, Loturco I, Capelli L, Mahseredjian F, Silami-Garcia E, Coimbra CC. Activity profiles in U17, U20 and senior women’s Brazilian National soccer teams during international competitions: Are there meaningful differences? J Strength Cond Res 2017 Jul 31. doi: 10.1519/JSC.0000000000002170.
  4. Ramos GP, Nakamura FY, Pereira LA, Junior WB, Mahseredjian F, Wilke CF, Garcia ES, Coimbra CC. Movement patterns of a U-20 National women’s soccer team during competitive matches: influence of playing position and performance in the first half. Int J Sports Med 2017 Sep;38(10):747-754.
  5. Gabbett TJ, Mulvey MJ. Time-motion analysis of small-sided training games and competition in elite women soccer players. J Strength Cond Res 2008 Mar;22(2):543-52.

Fonte: Load Control por João Gustavo Claudino

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Bullying no futebol de formação

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O bullying é um problema sério e bastante frequente no desporto jovem, nomeadamente no futebol de formação.  Antigamente, os treinadores, e até os pais, encaravam o bullying como “coisas de miúdos”. Felizmente, os tempos mudaram e, hoje em dia, todos concordam que não há lugar para tal, no desporto.

O que é o bullying?

Bullying é o comportamente agressivo, intimidativo e repetido, entre crianças, e jovens, de idade escolar, que envolve um desequilíbrio de poder, real, ou percebido, tendo como finalidade causar um dano físico, ou psicológico, a outra pessoa.

Existem três tipos principais de bullying. No futebol de formação, e no desporto jovem, em geral, as formas mais comuns de bullying verbal são o insulto, chamar nomes e ameaça de violência a outro jogador. O bullying social inclui a exclusão de outro atleta, de forma propositada, boatos, conversas que prejudicam e magoam, e envergonhar o atleta, em frente aos outros. O bullying físico inclui murros, chapadas, tropeções, bater na cabeça, bater com a toalha, cuspir, roubar e fazer gestos com as mãos.

Quais os efeitos do bullying?

Independentemente da forma como acontece, o bullying tem um impacto físico, e emocional, terrível nos mais jovens. As vítimas de bullying sentem-se magoadas, zangadas, com medo, isoladas, envergonhadas e sem esperança.

As vítimas de bullying correm um risco maior de desenvolver problemas de saúde mental, como depressão e ansiedade. Além disso, as cicatrizes causadas pelo bullying podem persistir durante muito tempo, no futuro, e podem predispor um jovem a desenvolver problemas psicológicos, na vida adulta.

Quem são as vítimas de bullying?

Imagem: http://feszulos.blog.hu/2017/08/29/ne_sportoljak_mert_kover_vagyok

Alguns fatores colocam as crianças num risco maior, mas nem todas, com essas características, sofrerão bullying. Geralmente, os jovens jogadores que sofrem bullying são encarados como diferentes dos seus colegas de equipa (por exemplo, com excesso de peso, ou abaixo do peso, uso de óculos ou orientação sexual) e são percebidos como fracos ou incapazes de se defenderem. Eles também tendem a ter baixa auto-estima, são menos populares, do que os outros, têm poucos amigos, não se dão bem com os outros e são vistos como irritantes ou antagónicos.

Quem são os autores de bullying?

Nenhum fator isolado coloca uma criança em risco de se envolver no bullying, mas alguns jogadores, que são mais propensos a intimidar os outros, estão bem ligados aos seus colegas de equipa, têm poder social, estão excessivamente preocupados com a sua popularidade e gostam de dominar, ou comandar, os outros. Outros, são mais isolados dos seus colegas de equipa, têm baixa auto-estima e não se identificam com as emoções, ou sentimentos, dos outros. Tendem a ser agressivos, ou facilmente frustrados, têm problemas em casa, ou na escola, têm dificuldade em seguir regras, vêem a violência de maneira positiva e têm amigos que intimidam os outros.

O que os treinadores devem ensinar aos jovens jogadores, sobre o bullying?

Imagem: http://www.vancourier.com/sports/pledge-to-stop-bullying-in-sport-1.8547826

Como parte das suas responsabilidades de segurança desportiva, os treinadores devem assumir um papel proativo na redução da probabilidade de ocorrência de bullying. Além disso, os treinadores devem dedicar tempo, e esforço, para educar os jovens jogadores sobre o bullying o que inclui ensinar-lhes:

(a) o que é o bullying,

(b) o que fazer, se eles forem alvo de bullying

(c) o que fazer, se eles forem testemunhas de bullying

As reuniões de equipa, que geralmente são curtas e realizadas regularmente, oferecem uma excelente oportunidade para a educação. Nas reuniões, os treinadores podem implementar as recomendações para promover o entendimento dos atletas sobre o bullying, o que acabará por ajudar a sustentar os esforços de prevenção ao longo do tempo.

É aconselhável proporcionar uma oportunidade para os atletas se expressarem promovendo, por exemplo, discussões sobre o bullying através de perguntas abertas, como as seguintes:

  • O que é, para ti, o bullying?
  • Já tiveste medo de ir a um treino, ou jogo, porque estavas com medo do bullying? O que fizeste para tentar mudar as coisas?
  • Tu, ou os teus colegas de equipa, deixaram outras crianças de fora das atividades, de propósito? Achas que isso foi bullying? Porquê ou porque não?
  • Já assististe a jogadores da tua equipa a serem intimidados? O que sentiste?
  • O que costumas fazer, quando assistes a situações de bullying?
  • Já tentaste ajudar alguém que estava a ser intimidado? O que aconteceu? O que farias se acontecesse outra vez?

Ao liderarem as discussões, os treinadores devem garantir aos jogadores que estes não estão sozinhos, ao abordar quaisquer problemas que possam surgir.

Os jogadores devem ser incentivados a falar com o treinador, se sofrerem de bullying, ou virem outros a serem intimidados. O treinador pode dar conforto, apoio e conselhos, mesmo que eles não consigam resolver o problema imediatamente.

Ajudar os jogadores, a lidarem com o bullying:

Falar sobre como enfrentar os bullies. Dar dicas, como:

  • Olhar para o bully e dizer “pára” com uma voz calma e clara
  • Tentar usar o humor e rir, o que pode fazer com que o bully seja apanhado desprevenido
  • Se a fala parece muito difícil, ou não é segura, a vítima não deve reagir. Em vez disso, deve ir embora e ir ter diretamente com o treinador

Falar sobre estratégias para se manterem em segurança. As estratégias podem incluir:

  • Falar com os treinadores sobre o problema, para que eles possam ajudar os jogadores a fazer um plano para parar o bullying
  • Evitar situações em que o bullying ocorra
  • Ficar perto dos treinadores, já que a maior parte do bullying acontece quando os adultos não estão por perto

Incentivar os jogadores a ajudarem outras pessoas que sofrem bullying. A assistência pode envolver:

  • Deixar o bully saber que tal comportamento é uma violação da política de tolerância zero do treinador
  • Criar uma distração ou concentrar a atenção noutra coisa
  • Ajudar o jogador, que está a ser intimidado, a escapar da situação
  • Encontrar o treinador, ou pedir a um colega para encontrar o treinador, o mais rapidamente possível
  • Ser gentil com o jogador intimidado, o que ajuda muito para que ele saiba que não está sozinho

Fontes:

Rosinski, Allan, 4 Ways to Prevent Bullying in Youth Sports

Smoll, Frank, What to teach young athletes about bullying, Psychology Today, 2017

Smoll, Frank, Disciplinary Problems and Bullying in Youth Sports, Psychology Today, 2015

Fonte: Futebol de Formação por Vera Moreira

O Talento no Desporto – Da Identificação à Qualidade da Exposição

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Bom dia caro Leitor,

O desporto é o reflexo da sociedade em que estamos inseridos. No contexto social de hoje, onde o imediatismo predomina, muitas são as vezes em que utilizamos a palavra “talento” para classificar um individuo que demonstra um conjunto de aptidões para o desenvolvimento de uma atividade especifica. A própria sociedade parte em busca desse talento – vejamos por exemplo, os mais diversos programas de “caça talentos” que encontramos nos écrans da televisão – querendo que o mesmo seja de rápida identificação, pois a cultura do “aqui e agora” não permite esperas.

Vivemos, portanto, num contexto de procura por um resultado rápido e de uma orientação motivacional que também nos leva nesse sentido, onde o fator tempo nem sempre é respeitado como deveria ser. Será que essa pressa não poderá condicionar o desenvolvimento do talento, ou mesmo precipitar a sua identificação?

Direcionando a atenção para o contexto desportivo, percebe-se desde logo, que esta atividade torna-se num reflexo de representação da sociedade em geral. Encontramos por vezes nas páginas dos jornais, crianças (de 8/10 anos) a serem alvo de destaque, tendo como manchete “O novo Messi”, ou como sendo uma garantia de futuro para o clube, onde com a idade que tem, ainda deveria apenas estar a brincar á modalidade, que de facto tanto adora.

Outro aspeto a ter em consideração é a origem do talento. Será inato? Será desenvolvido mediante um conjunto de fatores em que o contexto e as suas condições também terão de entrar nesta equação?

E em relação ao tempo. Devemos partir em busca do talento e rotular desde cedo os mais aptos? Ou permitir o máximo de exposição á prática por parte da criança?

Qual o papel dos diferentes agentes desportivos, como treinadores, pais e dirigentes neste processo de identificação e desenvolvimento do talento?

Vamos então debruçarmo-nos sobre o tema.

O Talento

Coyle (2012), num dos seus livros sobre a temática associada ao talento, destaca um fator que na atualidade é consensual para o desenvolvimento do talento – A motivação. Referindo que o talento começa em pequenos e poderosos encontros que estimulam a motivação e vinculam a nossa identidade a uma pessoa ou grupo de alto desempenho. Isso é chamado de ignição, e consiste num minúsculo pensamento de mudança do mundo e que ilumina a nossa mente inconsciente dizendo-nos: eu poderia ser eles.

Este momento de pertença por parte do individuo ao contexto onde está inserido e a correta perceção das suas habilidades, indicam que poderá então caracterizar-se como a tal ignição que promoverá uma visão de futuro e um compromisso ajustado com o nível de exigência necessário para que o talento se desenvolva.

Porém esta visão do individuo como ser biopsicossocial, onde as suas habilidades são resultado das suas características biológicas,mas também das suas capacidades psicológicas e sociais – Isto é, a relação entre o individuo e todo o contexto onde está inserido – nem sempre esteve presente nos estudos que se fizeram no decorrer do tempo.

Vamos então perceber como foi a evolução do pensamento sobre tema…

Recorrendo a uma breve pesquisa sobre a palavra “talento”, pode perceber-se que esta palavra tem origem na Grécia antiga, sendo uma palavra para designar uma unidade de moeda. Á posteriori foi integrado no sistema monetário romano, sendo esta composta de ouro ou prata. Ou seja, esta palavra sempre esteve associada a valor, a algo distinto e com substrato de significância, mantendo sempre consistente este significado que desde a Grécia Antiga lhe foi atribuído.

Já no decorrer do Sec. XX, entre as décadas de 50 a 70, o talento era identificado e justificado pela grande influencia da genética, favorecendo exclusivamente as determinantes biológicas, Esta linha de pensamento veio a concluir-se como ineficaz, pois este fator não permitia predizer com a precisão desejada que os atletas no futuro obteriam desempenhos de destaque.

O final do seculo XX constituiu uma mudança de paradigma no que ao estudo e aplicação de programas de deteção de talento diz respeito. Deixou-se de parte a exclusividade do fator hereditário, onde o talento era considerado inato e começou a considerar-se o fator “contexto”. O contexto onde ocorre a exposição da prática, sendo este essencial para o desenvolvimento da performance do individuo.

Neste período já percebemos a lógica do desenvolvimento, da evolução, da importância dos programas de treino e de todo o contexto ambiental que está como base no desenvolvimento do talento.

Mais do que negar a existência de eventuais influências genéticas, destacava-se, nesta fase,  um papel determinante para o contexto onde ocorre o desenvolvimento para explicar as diferenças intra-individuais no desempenho.

Esta linha de pensamento foi decisiva na forma como se passou a perceber e conceber o talento, sendo que as variáveis, contexto (treino e prática), social (influência de pais, treinadores, colegas, entre outros) e psicológica (ex. tipo de motivação), ganharam claro destaque nesta temática.

Após esta breve viagem sobre as linhas de pensamento traçadas no decorrer do tempo vamos a algumas questões práticas que estão associadas ao talento, nos nossos contextos de atuação prática

Talento: Inato ou Adquirido

Para começar, destaco a frase de Garganta (2006) , cada individuo é diferente dos demais, sobretudo na forma como responde aos processos de formação. Ao acreditar-se no inatismo do talento põe-se em causa o papel da aprendizagem, do treino e da capacidade transformadora que, por definição, os qualifica.

Vamos então colocar isto na prática. Apesar da objetividade da frase, nem tudo o que se encontra cientificamente validado tem o devido transfere para o contexto prático nas atividades que realizamos. Por isso, no contexto desportivo, ainda é muito usual ouvirmos de treinadores, dirigentes e demais agentes expressões como “O talento? Ou tem ou não tem.”. Conduzindo-nos de novo para as décadas de 50 a 70. Todo este pensamento base irá sem dúvida influenciar a qualidade de exposição da criança á pratica desportiva, bem como na sua motivação, confiança e compromisso, colocando-os  precocemente com o rótulo do mais ou menos apto.

Esta linha desajustada de pensamento pode fazer com que  muitos jogadores ou candidatos a jogadores vejam as suas possibilidades comprometidas ou reduzidas quando os treinadores não lhes reconhecem talento suficiente e não apostam confiadamente neles.

O Fator Tempo

Vivemos numa sociedade com pressa de resultado, de rotular e categorizar elementos essencialmente ligados ao sucesso, não só no desporto como em outra qualquer área de atividade. Será esta pressa propulsora ou limitadora no que concebe o desenvolvimento e exposição adequada da criança em contexto de treino?

Vamos de novo ao pensamento de Garganta (2009), que refere que numerosos programas de deteção de talentos, baseados na ideia de que as competências para jogar consistem na presença ou ausência de determinados atributos inatos ou aptidões naturais, esgotam-se no esforço de identificação precoce dos mais capazes, na esperança de que os melhores de hoje sejam também os mais aptos no futuro. Tais práticas têm levado a que, não raras vezes, se negligencie o processo essencial de desenvolvimento dos praticantes ao longo da sua vida desportiva.

O que poderemos e retirar daqui? Sem duvida que esta  é uma abordagem considerada imutável, desacreditando-se nas respetivas possibilidades de evolução e menoriza-se a importância da imprescindível atualização de habilidades e competências através do processo de formação.

Com esta rotulagem, os considerados mais aptos terão consequentemente acesso a uma estimulação superior, influenciando também os seus níveis de motivação compromisso e confiança.

Cada individuo tem a sua individualidade e deveremos ter isso em consideração, pois a função dos treinadores é ter perceber os conteúdos dos modelos teóricos em cima enaltecidos. Enriquecendo o contexto e as tarefas, de modo a que a exposição á pratica seja o mais rica possível. Sempre com o fator tempo como base.

Desenvolvimento do Talento

Enriquecer o contexto de prática com conteúdos e tarefas que favoreçam a evolução do atleta, tendo em consideração a linha do tempo e o princípio da individualidade. Onde a qualidade de conteúdos promovam no atleta uma exposição enriquecedora, ajudando no seu processo de crescimento com algumas competências essenciais ao desenvolvimento do talento.

Competência – Assimilação e acomodação de padrões comportamentais que permita ao atleta desenvolver a sua percepção de competência e habilidades para fazer face aos estímulos do jogo… o tal aprender o jogo, aprender a jogar.

Autonomia – Indicar caminhos mas essencialmente expor o atleta numa busca pelas tomadas de decisão mais eficazes para aquilo que o contexto pede no momento.

Relacionamento – Promoção de habilidades de integração, adaptação e envolvimento humano dentro do contexto desportivo.

Falamos então do enriquecimento do contexto que envolve as várias áreas do treino, sendo esta capacidade de desenvolvimento de habilidades estimulada por um conjunto de técnicos que, planeiam, avaliam e monitorizam o processo de treino. Numa abordagem que deve ser multidisciplinar.

Fonte: Futebol de Formação por Luis Parente

A composição corporal e o tipo de treino na ocorrência de lesões musculares no jovens futebolistas

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A composição corporal dos futebolistas é diferente comparativamente aos não futebolistas e dentro dos futebolistas a composição corporal também varia de acordo com a posição em campo. Neste sentido e por se reconhecer que o alto IMC e a reduzida %MG representam um perfil padrão de risco de lesão em jovens futebolistas, surge a pertinência da análise séria desta questão.

O futebol de formação, quer queiramos quer não, exige, cada vez mais, resultados desportivos e quanto mais abrangente for a monitorização dos fatores inerentes, mais perto se tornará o percurso até esses mesmos resultados. Muito se tem falado acerca da dissociação da prática do exercício físico no futebol com a saúde dos praticantes, certo é que as lesões são recorrentes e a preocupação da avaliação da composição corporal sistemática e rotineira ao longo da época é vista como um suporte ao desempenho e à promoção de saúde dos praticantes.

As lesões no futebol representam um entrave nos resultados dos jogos, sendo diretamente proporcional ao aumento dos golos. Destacando-se entre as lesões mais frequentes, as lesões musculares, nomeadamente as contusões.

Associando as lesões musculares no futebol com o treino, sugere-se que, uma melhor compreensão de como as cargas de treino se relacionam com as lesões podem auxiliar no tratamento dos lesionados.

A Composição Corporal, representa, por sua vez, uma associação direta ao rendimento do jovem futebolista, havendo cada vez mais preocupação no perfil padrão ideal de composição corporal dos praticantes, associando-se aos clubes diversos agentes “externos” com vista, por exemplo, ao controlo alimentar adaptado ao exercício de alto rendimento.

Relacionando a composição corporal, as lesões e o treino, será pertinente perceber que as diferenças na simetria muscular são precursoras de lesões e na recuperação das lesões, a avaliação permanente da composição corporal indicia a fase de recuperação e pode estimar o tempo da própria recuperação. Com o treino ao longo da época desportiva verifica-se que, é no último terço da época que, os futebolistas aumentam e diminuem a %MM e a %MG, respetivamente, de uma forma significativa, podendo estar relacionado com o maior número de lesões ocorridas nesta fase da época desportiva, ou seja, as lesões musculares podem estar relacionadas com a composição corporal dos futebolistas e/ou com o tipo de treino relacionado, sendo que, a composição corporal, por si só, pode estar relacionada com o tipo de treino realizado e o tipo de treino realizado pode estar relacionado com as lesões ocorridas e/ou com a composição corporal dos futebolistas.

Na análise de jogo, a importância do registo dos golos, da % de posse de bola, dos remates enquadrados, das substituições, etc., é, naturalmente, importante para a evolução performativa da equipa e dos praticantes, contudo, o registo das lesões, o tipo, o momento de jogo (minuto) e a forma como ocorreu, aliado à posição em campo, à idade, ao estilo de vida e à composição corporal, permitiria uma analise mais direcionada ao bem-estar do praticante e eventual minimização de lesões musculares não traumáticas.

O transfere de todas esta preocupações para o futebol de formação é emergente. Não se pode querer crescer rapidamente nos aspetos técnicos, táticos e físicos sem os monitorizar constantemente e, sobretudo, sem perceber o impacto que a “exigência” que se impõe para os treinar terá na constante ocorrência de lesões musculares, implicando a médio/longo prazo na vida adulta do atual jovem futebolista.

Referências Bibliográficas

Bune, V., Hráský, P., & Skalská, M. (2015). Changes in Body Composition, During the Season, in Highly Trained Soccer Players. The Open Sports Sciences Journal , 18-24.

Dengel, D., Bosch, T., Burruss, P., Fielding, K., Engel, B., Weir, N., et al. (2013). Body Composition and Bone Mineral Density of National Football League Players. Journal of Strength and Conditioning Research , 1-6.

Gerosa-Neto, J., Eduardo, F., Buonani Silva, C., Zapaterra Campos, E., Araujo Fernandes, R., & Forte Freitas Júnior, I. (2014). Body composition analysis of athletes from the elite of Brazilian soccer players. Motricidade , 10, 105-110.

Kemper, G., van der Sluis, A., Brink, M., Visscher, C., Frencken, W., & Elferink-Gemser, M. (2015). Anthropometric Injury Risk Factors in Elite-standard Youth Soccer. Sports Med , 1-6.

Lima, C., Martins, M., Liberali, R., & Navarro, F. (2009). Estudo Nutricional e Composição Corporal de Jogadores de Futebol Profissional. Revista Brasileira de Nutrição Esportiva , 562- 569.

Ryynanen, J., Junge, A., & Dvorak, J. (2013). The effect of changes in the score on injury incidence during three FIFA World Cups. Br J Sports Med , 47: 960-964.

Windt, J., & Gabbett, T. J. (2016). How do training and competition workloads relate to injury? The workload-injury aetiology model. Br J Sports Med .

Professor/Treinador André Santiago

Fonte: Futebol de Formação por André Santiago

Tempo! O fator chave para as equipas de sucesso.

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Olá caro leitor!

Como agentes ligados direta ou indiretamente ao desporto, conseguimos desde logo perceber que a principal diferença entre um grupo de trabalho – onde os indivíduos partilham um espaço em comum, apresentam objetivos definidos, papeis distribuídos, regras e estratégias – e uma equipa de alto rendimento desportivo se centra no fator tempo! Tempo para conhecer, partilhar momentos, partilhar experiências, criar ligações de interdependência, essencialmente na execução da tarefa mas também fora dela.

Sei que a coesão de tarefa terá sempre prioridade e maior enfoque na produtividade, mas quando a essa interdependência juntamos a coesão social (os elementos fora do contexto de trabalho interagirem, saberem das vidas extra laborais dos seus pares, preocuparem-se com o outro), há um plus… pois se eu me preocupo contigo fora das quatro linhas, garantidamente que me irei superar numa transição defensiva para te ir ajudar no corredor lateral, por exemplo.

Sérgio Conceição na última entrevista grande entrevista que deu á comunicação social destacou aspetos fundamentais para a construção da equipa coesa na tarefa e socialmente.

Como base tenho de destacar esta citação “Não admito que um capitão não tenha conhecimento que um colega seu foi pai há três meses, isto para mim não é possível“. Essa e outras situações fizeram com que o treinador do FC. Porto desenvolve-se um conjunto de normas que privilegiassem o coletivo, o seu crescimento de tarefa e social e a sua estabilidade.

Destaco aqui apenas uma:

  • Não permitir a utilização de telemóveis em zonas associadas á tarefa desportiva“. Com esta medida, para além da componente do rendimento – pois utilizar e aceder a informação fora do contexto de tarefa em momento de tarefa desfocaliza do trabalho, penso que o Sérgio aqui também pretendeu que houvesse mais proximidade, comunicação, partilha e conhecimento entre os jogadores.

É com esta norma que o treinador do FC. Porto criou, tendo como medidor a sua observação inicial da equipa, que partimos na linha do tempo… esse fator-chave que um grupo de trabalho necessita para ser uma equipa de alto rendimento desportivo de sucesso. Vamos perceber quais a fases pela qual um grupo passa e qual a abordagem do treinador nesses mesmos momentos.

A Psicologia do Desporto, no seu vasto trabalho de investigação sobre equipas e as suas lideranças, destacam quatro fases pelas quais um grupo de atletas passa no decorrer de uma época desportiva, até se tornarem equipas de alto desempenho, sendo as mesmas:

  • Formação
  • Turbulência
  • Normalização
  • Rendimento

Formação

Esta fase corresponde ao inicio da época desportiva, essencialmente no período da pré-época. Estamos naquele momento em que há atletas novos, que procuram integrar e dar-se a conhecer. Muitos de países e culturas diferentes, com objetivos e expectativas distintas para o projeto que se inicia. Tudo novo, muita ambição, muito desconhecimento.

Vamos destacar aqui algumas características base da fase de formação:

  • É a fase dos atletas se darem a conhecer e estabelecerem as primeiras interações;
  • Os atletas tentam perceber se de facto começam a pertencer ao grupo e qual o papel que lhes é atribuído;
  • Depois de cada atleta encontram o seu lugar no grupo, começam a colocar-se á prova as relações interpessoais construídas. Mesmo aquelas formadas entre os lideres ( atleta-atleta) ou inclusive atleta-treinador);
  • Os atletas menos identificados com os grupos e os valores que começam a ser construídos, poderão começar a achar complicado criar relações positivas com os outros atletas;

Papel do Treinador na fase de Formação

Nesta fase o treinador tem a responsabilidade de ajudar a criar vínculos sólidos entre os atletas. Promover estratégias de caráter social (convívios, almoços…) e de tarefa (atividades de TeamBuilding), poderão ser boas estratégias a adoptar.

Destaco aqui também dois erros que por vezes são comuns nesta fase, sendo determinante o treinador evitar comete-los:

  • Ignorar a equipa (é essencial o treinador manter as vias de comunicação abertas. Perceber nesta fase quais as motivações e expectativas dos atletas e da equipa. No sentido de recolher informação e perceber as necessidades a trabalhar nesta, e nas fases seguintes)
  • Procurar ser adorado em vez de respeitado (quanto a este aspeto ressalvo um ditado antigo que levo comigo para a vida “mais vale cair em graça do que ser engraçado”). Criar empatia, desenvolver trabalho e criar a distancia necessária para o efetuar com eficácia.

Turbulência

Esta é uma fase que se caracteriza pelo conflito. Surge quando o treinador já analisou as características de cada atleta e possui já uma ideia geral do que será o seu papel dentro da equipa.

Por vezes catalogamos o conflito como uma palavra distante do crescimento de uma equipa. Porém, estes momentos são essenciais para a sua evolução. Choque de ideias, confrontações e posicionamentos distintos são essenciais para manter o grupo alerta, atento e fora de uma linha de conforto que por vezes nos distrai do essencial.

Características base da fase de turbulência:

  • Esta segunda fase tem como ponto-chave o choque de posições entre os atletas e o treinador;
  • Fase dos conflitos internos, depois do treinador e os atletas terem estabelecidos os seus papeis e status dentro de grupo;
  • Em muitos casos, poderão surgir mesmo conflitos corporais em contexto de treino, devido á competição entre os atletas pelos papeis e status dentro do campo;

Papel do Treinador na fase de turbulência

  • Comunicar de forma direta, honesta e objetiva com os atletas, acerca das avaliações que fazem ás suas características (aspetos a manter, desenvolver, eliminar e acrescentar), bem como ao papel que executam dentro da equipa. Essa informação permanente ajuda a reduzir incertezas no atleta, visto que essa incerteza é a principal fonte de stress nesta fase.

Normalização

A fase da turbulência acaba com a compreensão e aceitação dos papeis estabelecidos aos elementos do grupo. Começa a criar-se um clima de pertença e identidade á equipa.

Características base da fase de normalização:

  • Durante esta fase a cooperação e solidariedade são as palavras-chave;
  • Ao contrario das fases anteriores em que o enfoque do atleta estava no bem-estar pessoal, na fase de normalização os atletas – mesmo tendo os seus objetivos pessoais – trabalham juntos para alcançar os objetivos coletivos.
  • A coesão de grupo é desenvolvida nesta fase, quando os atletas apresentam o coletivo como prioridade;
  • Os papeis atribuídos aos atletas conferem estabilidade, sendo que os mesmos devem ter um valor de contribuição para que o atleta se sinta útil e valorizado durante a época;

Papel do Treinador na fase de normalização

  • Normas definidas, papeis distribuídos e a equipa a funcionar estavelmente… a caminho da consolidação. Nada melhor para que nesta fase o treinador se preocupe também com os aspetos de coesão social e de tarefa. É a fase essencial para promover ações pois o grupo está orientado para o alcance dos objetivos coletivos, estando totalmente receptivo para esse tipo de atividades e conteúdos.

Rendimento

Esta é a fase onde a cereja está no topo do bolo. É o ponto máximo da evolução de um grupo para uma equipa de alto rendimento desportivo. O grande desafio desta fase é mesmo… permanecer nesta fase e não retroceder!

Características base da fase de Rendimento:

  • Corresponde ao estado ideal no que diz respeito a níveis de desempenho desportivo;
  • Os atletas, nesta fase, encontram-se totalmente coesos depositando todas as energias no sucesso da equipa. Sentem-se parte dela… veem a equipa como uma unidade!;
  • Neste momento não há conflitos nem estruturais (papeis), nem interpessoais (sociais);
  • Os jogadores ajudam-se uns aos outros, dão opiniões, partilham feedback, superam-se e são solidários em campo. O sucesso da equipa é o principal objetivo;

Papel do Treinador na fase de Rendimento

Aqui estamos perante duas preocupações que o treinador deve ter na gestão desta fase. Proporcionar a cada atleta feedback sobre o seu jogo e garantir que todos os elementos da equipa se sintam integrados e parte ativa do grupo.

Fonte: Futebol de Formação por Luis Parente