Meu filho vai “chegar lá”?

Não é incomum encontrar pais preocupados com o futuro do filho praticante de um esporte popular como o futsal. É compreensível. Além de os pais, naturalmente, preocuparem-se com os filhos, por amá-los, há certa expectativa, ao menos entre parte, de que, no futuro, seus rebentos “cheguem lá”, ou seja, sejam bem-sucedidos, como outros jogadores que se iniciaram nas quadras e se consagraram no futebol ou mesmo no futsal. Evidentemente que isso não pode se transformar num estresse, de modo que se perturbe o processo de formação do jogador que está em curso. Os pais, e isso é inegociável, não podem ser fonte de esgotamento para os filhos!

Nesse quadro, reportado minimamente até aqui, sou confrontado, modo geral, com duas perguntas: “Meu filho vai “chegar lá”?, “Vale a pena investir tempo nisso?”. Responderei ambas. Neste texto, a primeira. Em outro texto, a segunda. Mas o farei ao meu modo, é claro. Significa dizer que não quero ter razão, mas apenas expressar a vista que enxergo do ponto em que estou assentado.

Quem vai “chegar lá”?

Não sei. Não se sabe. O que se sabe? Que é multidimensional os fatores que explicam a trajetória esportiva de um atleta de alto rendimento. Ou seja, há uma série de fatores que, conjugados, explicam, numa visão retrospectiva, o processo que o fez “chegar lá”. Num livro extraordinário, chamado “O gênio em todos nós”, seu autor, David Shenk, reporta ao menos cinco fatores (misturados!) que contam para isso: a exposição precoce, a prática constante, uma formação excepcional (qualidade do treino), o encorajamento dos pais e a vontade intensa de aprender. Eu adicionaria um sexto fator: o local onde se está inserido. Em síntese, o que se sabe é que o processo e as boas oportunidades fazem a diferença.

Significa dizer, então, que bastaria mergulharmos o jovem praticante nesse “caldo” e ele “chegaria lá”? Ou seja, bastaria que se começasse cedo no esporte, que se demonstrasse paixão em aprender, que boas oportunidades fossem ofertadas, que houvesse um bom volume de treino, um ótimo treinador e pais que apoiassem, para que se tivesse, ao final e ao cabo, um (a) jogador (a) de excelência? Não. Não? Não. Por quê? Porque não é possível controlar o desfecho. Ele é incontrolável. Logo, se por um lado, muito provavelmente, não dá para se “chegar lá” sem a combinação desses fatores, por outro lado ter esses fatores combinados não é garantia de se “chegar lá”. Não poderia ser diferente: para um contexto imprevisível, um desfecho imprevisível.

O acaso

 Por “incrível que pareça”, o acaso conta muito, mesmo que muitas pessoas não aceitem, não acreditem, não queiram; mesmo com todas as evidências em contrário. O acaso é o aleatório, o que não pode ser previsto, uma característica de um sistema complexo como o de formação de esportistas. E mais: o acaso é para o “bem” e para o “mal”. É sorte e azar. É ganho e perda. O acaso, por exemplo, surge quando um garoto vai completar um treino da categoria acima, por não ter sido relacionado para o jogo da sua, e nunca mais retorna, porque o treinador gostou dele. O acaso se manifesta quando o jogador, numa decisão municipal, atrai a atenção do “olheiro” do Barcelona que se encontrava de férias na cidade da namorada brasileira. Mas o acaso também significa precisar trabalhar para ajudar na casa porque o pai perdeu o emprego. Ou ser preterido quando de uma mudança de treinador. Ou enfrentar lesões. Observe: não é a sorte ou o azar que definem o desfecho, mas eles têm peso tanto quanto os seis fatores anteriormente elencados. De qualquer forma, o acaso é uma prerrogativa para quem está no processo. Para quem está envolvido. Em quadra. E não tem como desconsiderá-lo.

Como se responde ao acaso faz a diferença

 Outro ponto que fará diferença é como os envolvidos responderão ao acaso. Por exemplo, conta-se uma história, confirmada por Pelé na sua biografia (Editora Sextante), de que ele, após perder um pênalti na categoria juvenil, preparou-se para abandonar o Santos e, somente não o fez, porque a fuga deu errado (alguém o impediu porque ele não tinha autorização por escrito para viajar). Já imaginou se essa fuga dá certo? Edson não seria Pelé.

Os melhores hoje serão os melhores amanhã?

Embora eu compreenda a tendência de se dizer que os melhores hoje serão os melhores amanhã, isto é, de que quem hoje está em evidência será mais bem-sucedido no futuro, preciso afirmar que não acredito nessa linearidade. E não acredito porque o processo é dado à incerteza. Pode ser que sim, ou seja, que um jogador com 12, 13 anos de idade, considerado o melhor agora, “chegue lá”. Mas pode ser que não! Portanto, pode acontecer de um outro jogador da mesma idade, que não é considerado o melhor, seja, no futuro, o jogador de excelência. Ainda mais: pode ser que nenhum dos dois chegue e também que os dois cheguem. As possibilidades estão abertas para todos os que estão no processo. Este é longo e incerto. Quer ver?

Yazid, aos 14 anos, não era Zidane

Depois do torneio de Cannes, ele cresceu. E progrediu. Está com 14 anos e já é dono de uma grande sutileza  técnica. Mas nenhum recrutador ainda se interessou por ele. E, durante os raros estágios ou partidas seletivas de que participou, sua atuação não foi das mais notáveis. Por ocasião do torneio de Roux, depois de ter jogado contra o Azure como lateral ofensivo, ele se revezou como lateral direito e esquerdo em todas as partidas seguintes (…) Depois desse torneio, Zidane ainda não faz parte dos titulares incontestáveis do selecionador provençal. Segundo a orientação desse selecionador, dez dos onze postos da equipe estão selecionados, mas ainda se mostra hesitante quanto à escolha do décimo primeiro, o lateral que possa jogar na esquerda ou na direita – o número 8 (p. 16 de Zinedine Zidane, a biografia do craque escrita por Jean Philippe e Patrick Fort – Sá Editora).

Isso mesmo, o craque francês, que foi campeão mundial com dois gols na final, recebeu da FIFA por três vezes o prêmio de melhor do mundo como meio-campista e que ocupa, segundo a World Soccer, a vigésima oitava posição entre os 100 maiores jogadores de todos os tempos, já foi um lateral preterido no começo da sua carreira.

Efeito prático

Na prática, o que isso tem a dizer para os treinadores: de que é preciso garantir uma boa quantidade de prática, mas com qualidade. Ou seja, o volume da qualidade. Também de que é preciso investir nas relações, educando as atitudes dos jogadores e ajudando a criar uma mentalidade baseada no empenho e na busca diária de aprendizado. Importa como se joga mais do que quanto foi o jogo. Para os gestores (e aqui, muitas vezes, colaboram os pais!): oferecer boas oportunidades. Aos pais: de que é preciso encorajar os filhos, investir nas relações e desfrutar do processo.

Fonte: Pedagogia do Futsal por Wilton Santana

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O papel de um clube desportivo na formação de uma criança

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Um pai ou mãe quando decide oferecer a prática desportiva a uma criança e procura um clube desportivo, há muito mais valor acrescentado do que um jogo ao fim de semana.

Hoje um clube não se faz representar apenas pela equipa que está presente em cada jogo. Como parte da sua missão de clube de formação, os clubes têm vindo a crescer a nível de recursos humanos para acompanhar outras áreas complementares à prática desportiva melhorando os seus processos na formação de atletas, como por exemplo a certificação de entidades formadoras no futebol e futsal.
Áreas que asseguram um equilíbrio entre a modalidade e as restantes partes da vida do atleta começaram a ter um papel tão importante como a performance desportiva.
Mas porque razão este acompanhamento complementar é tão importante?

FORMAR MELHORES ATLETAS, ALUNOS E PREPARAR PARA O FUTURO
Para além de que a saúde física, psicológica e emocional é importante na vida de qualquer pessoa, a percentagem de atletas na formação de um clube que seguirá a carreira profissional é muito reduzida. Por isso é fundamental incluir um outro acompanhamento na formação do atleta. Um acompanhamento para assegurar que os clubes estão também a formar melhores alunos, a preparar as crianças para o futuro e promover um estilo de vida mais saudável.
E não é uma realidade só nos clubes de topo. Hoje é possível encontrar na estrutura de muitos clubes pessoas que permitem um acompanhamento multidisciplinar aos seus atletas. Pessoas que estão acessíveis quando os pais entregam os seus filhos para a prática da modalidade desportiva.

ESTRUTURA ORGANIZACIONAL DE UM CLUBE DE FORMAÇÃO
Em maior ou menor dimensão, existe uma coordenação e colaboração entre várias pessoas para proporcionar a melhor formação aos seus atletas. Entre estes destacamos alguns:
Treinadores
Para além do ensino da modalidade, consoante a idade que se encontra o atleta, um treinador procura ajudar em aspectos individuais como a coordenação, responsabilidade, motivação, definição de objectivos, espírito sacrifício, superação, entre outros. Como também aspectos coletivos: trabalho em equipa, camaradagem, entreajuda. Aspectos fundamentais que o ajudarão em idade adulta.
Fisioterapeutas
Não estão lá apenas para quando o atleta se lesiona ao serviço do clube. Estão lá sempre que um atleta precisa de uma apoio a nível clínico. Podem acompanhar a fase imprevisível no crescimento ósseo e dos músculos, detecção precoce de problemas, orientação na prevenção de lesões ou necessidade de treino específico.
Psicólogos
O estado psicológico de uma criança/jovem pode ser muito inconsistente. Ter uma pessoa que possa orientar e aconselhar é sempre uma mais valia. Hoje em dia muitos clubes já têm na sua estrutura profissionais dedicados a esta área. Para além de um maior controlo emocional e preparação psicológica a nível desportivo, um acompanhamento psicológico ajuda as crianças em outras áreas da vida: maior força mental na superação de desafios, gestão do fracasso, do stress, ou mesmo problemas mais graves, como a separação de pais, dificuldades sociais/financeiras ou perda de um familiar próximo. Um acompanhamento enquanto pratica um desporto que gosta e está num meio com um sentimento de pertença.
Nutricionistas
Mais uma área que pode resultar numa vantagem competitiva a nível desportivo, contudo a nutrição é importante em qualquer fase da vida de uma pessoa. Pode ser apenas um acompanhamento regular, com algum objetivo específico como um melhor desempenho a nível físico ou mesmo resolução de casos mais críticos. Num clube desportivo também é possível encontrar pessoas dedicadas a esta área complementar à parte desportiva.
Coordenadores e diretores
Pessoas que asseguram, coordenam e apoiam os intervenientes anteriores para que possam executar o seu trabalho com a melhor qualidade. São também responsáveis para acompanhar a relação entre o clube, atletas e os pais.
Todo este acompanhamento e muitos outros benefícios enquanto uma criança se diverte, aprende um desporto, cria amizades e reforça a sua responsabilidade, trabalho em equipa, entre muitas outras oportunidades.

MUITO MAIS QUE UM CLUBE DESPORTIVO
É uma frase muitas vezes referenciada pelas entidades desportivas, mas é verdade que o que podemos encontrar num clube é muito mais que um jogo. É todo um conjunto de pessoas que estão presentes com objectivo de proporcionar as melhores condições para a prática de desporto e formação dos seus atletas.
No software EMJOGO sabemos da importância de cada uma destas pessoas e o que o seu trabalho representa na missão de um clube de formação. Por isso mesmo desenhamos uma ferramenta de gestão de atletas para ajudar no trabalho diário de cada um e que pode ser facilmente coordenado com os atletas e respectivos pais.
Fale conosco e saiba como também podemos ajudar na organização e gestão dos atletas no seu clube.

Fonte: Em.Jogo.PT

Il calcio del futuro passa dal futsal? 🇮🇹

In India c’è un Falcao che da anni segna e fa divertire i tifosi ogni volta che scende in campo. Non è il centrocampista con un passato nella Roma degli anni ‘80, non è nemmeno il centravanti del Monaco. È Alessandro Rosa Vieira, e le magie le fa in un campo indoor 40×20, con un pallone piccolo e pesante: Falcao, nonostante i 40 anni di età, è una delle più grandi star del futsal (o calcio a 5) nel panorama internazionale. D’estate gioca nel torneo Premier Futsal, in India, insieme ad alcune ex star del calcio mondiale (Ronaldinho, Giggs, Scholes, Salgado), ma durante l’anno gioca in patria nel Magnus Futsal. In una recente intervistarilasciata al portale online Goal, Falcao ha parlato della popolarità del futsal in Brasile, di Neymar e di come il futsal sia stato fondamentale nel trasformare il talento paulista in un top player del football mondiale. «Neymar, un mio grande amico, come tutti i ragazzini brasiliani ha giocato a futsal a scuola da bambino. Questa è una chiave del suo successo come calciatore di calcio».

L’idea che il futsal – che sta per fútbol de salón, o fútbol sala – sia uno strumento per far crescere i migliori calciatori di calcio a 11 non è una convinzione del solo Falcao. In un’intervista alla Bbc, Peter Sturgess, l’uomo della Football Association deputato a monitorare la crescita dei più giovani calciatori inglesi – quelli dai 5 agli 11 anni –, ha detto: «I giocatori che hanno iniziato a giocare a futsal da piccoli sono quelli che poi nel calcio fanno più strada. È una conseguenza logica, perché è uno sport veloce, rapido, basato su tecnica e tattica, e allena qualità fondamentali per il football». La correlazione tra le qualità di campioni come Neymar, Messi, Kakà, Xavi e Iniesta, e le ore che hanno speso da bambini sui campi indoor di futsal, hanno aperto gli occhi anche alla FA. Le difficoltà nel trovare un giocatore con le qualità dei talenti brasiliani o spagnoli nel Regno Unito hanno convinto la Football Foundation – un organo fondato dalla Premier League, dalla FA e dal governo britannico, che riceve fondi dai vertici del football inglese e dal dipartimento di Cultura, Media e Sport – a stanziare 300mila sterline da destinare alle scuole, ai college e alle leghe giovanili per costruire 200 campi dedicati al futsal dove far giocare fino a 12.000 ragazzini ogni anno.

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L’Inghilterra è solo un puntino sulla mappa del futsal mondiale, al 56esimo posto del ranking Fifa, dietro anche al Mozambico e alle Isole Salomone. Ma vuole invertire la rotta. Il ct della Nazionale inglese, Michael Skubala, è stato recentemente intervistato dal Guardian: «C’è bisogno di incrementare il calcio a 5 nelle scuole. Fin quando non miglioreremo, la Nazionale inglese di calcio non vincerà mai un Mondiale. Il futsal dà grandi ritorni nel calcio: il primo è quello di migliorare sensibilmente i ragazzi nella capacità di prendere decisioni in frtta, perché costretti a ragionare in spazi e tempi ristretti».

Un campo piccolo, infatti, aiuta a controllare la palla negli spazi stretti, a migliorare i passaggi e gli 1-contro-1 sia in attacco sia in difesa, e forma giocatori tatticamente più duttili, costringendoli a muoversi in maniera fluida per il campo. Poi ci sono alcune peculiarità del calcio a 5, come controllare la palla con la suola, spostarla sempre con la suola per cambiare direzione, o tirare di punta – come ha fatto Dybala contro il Sassuolo, sabato 16 settembre – che nel calcio possono servire come armi sorprendenti e molto vantaggiose. E poi c’è la palla, più pesante e più piccola, che allena il passaggio rasoterra e soprattutto il controllo, perché nel futsal, uno sport in cui la partita si consuma in 40 minuti di ritmo altissimo, proprio il controllo è un’arma letale.

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La cultura sportiva inglese è parte integrante della questione e non può rimanere fuori da un discorso di questo tipo. Partendo da lontano, in Inghilterra l’autunno è sinonimo di pioggia pressoché costante ogni giorno, e freddo, e quindi campi da calcio rovinati. E l’inverno è anche peggio. Il futsal – che non deve essere preso come la panacea di tutti i mali, ma uno strumento da usare saggiamente – vuole trovare una soluzione anche a questo: uno sport indoor non risente delle condizioni atmosferiche, e i ragazzi potrebbero praticarlo dodici mesi all’anno senza preoccupazioni. Ma la cultura sportiva britannica poggia – ancora – su uno stereotipo machista, come dimostrò il divieto, da parte di Alex Ferguson, di utilizzare calzamaglie e scaldacollo negli allenamenti. Negli ultimi anni, tuttavia, è diventata meno impermeabile. Si è fatta ammaliare dalle qualità di talenti “latini” sbarcati in Premier League come Juan Mata e David Silva, e sente il desiderio di mettersi al passo. D’altra parte il futsal nasce in America Latina negli anni ‘30, più precisamente in Uruguay, e con il mondo anglosassone ha pochi legami. Non è un caso che le Nazionali più forti in questo sport siano Brasile, Spagna, Portogallo, Argentina.

Solo gli Stati Uniti, nel mondo anglosassone, hanno raggiunto buoni livelli, e grazie a una programmazione attenta che ha portato alla costruzione di un’architettura radicata nella geografia locale. In un articolo del 2016 su Goalnation, il portale dedicato al soccer giovanile, si descrive la suddivisione su più livelli del calcio giovanile statunitense: «La Us Youth Futsal ha stilato un programma in cui i giocatori provenienti da tutto il Paese si riuniscono in piccoli Camp regionali, poi i giovani più talentuosi avanzano ai nazionali. Lì, i migliori vengono scelti per rappresentare gli Stati Uniti a livello internazionale». Recentemente anche la Germania sta raggiungendo buoni risultati nelle competizioni internazionali di futsal. Passi avanti che hanno il 2012 come data di riferimento: anno in cui la federazione calcistica tedesca ha deciso di rivoluzionare il calcio a 5 del Paese. I calciatori del futuro, a quanto sembra, cresceranno anche nei campi indoor.

Fonte: Rivista Undici – Lettera 43 por Alessandro Cappelli

Manuel Sérgio: “O treinador devia ser um educador e muitas vezes não o sabe ser”

Filósofo, professor catedrático, ativista e ex-deputado, Manuel Sérgio é licenciado em Filosofia pela Universidade Clássica de Lisboa e doutor em Motricidade Humana pela Universidade Técnica. Provedor da Ética no Desporto, desde 2013, é ainda autor e co-autor de mais de 50 livros, e de inúmeros artigos e ensaios.

Em 1986, apresentou os fundamentos de uma nova ciência social e humana, a ‘ciência da motricidade humana’, que viria a inspirar a designação da Faculdade de Motricidade Humana onde hoje se lecionam os cursos de Ciências do Desporto, Dança, Ergonomia, Reabilitação Psicomotora e Ciências da Nutrição, entre outros.

A um mês de completar 86 anos, Manuel Sérgio viu o seu nome dado a uma nova cátedra na Universidade Católica Portuguesa (UCP). A cátedra “Manuel Sérgio – Desporto, Ética e Transcendência” é promovida pela Faculdade de Teologia da UCP, com apoio do Instituto Português do Desporto e Juventude, e pretende responder à necessidade de estudar e investigar esta área, superando o discurso simplista e mesmo violento que muitas vezes domina o setor.

Em entrevista à Renascença e à agência Ecclesia o filósofo lembra que o desporto “é um espaço de transcendência” e não existe “sem ética”. Fala do exemplo que atletas, dirigentes e treinadores deviam dar, e de como o espaço de comentário desportivo está cheio de gente que “não sabe o que é o desporto”. Aos portugueses que estão a fazer cada vez mais exercício físico, lembra que “para ser feliz não chega correr”.

Como é que se sente perante a criação de uma cátedra com o seu nome, ‘Manuel Sérgio – Desporto, Ética e Transcendência’, na Universidade Católica Portuguesa?

Francamente nunca esperei ter uma cátedra com o meu nome. Mas, o que há a fazer é estudar, analisar se as minhas ideias, de facto, têm valor para tanto. Eu fiz um corte epistemológico com o físico do cartesianismo – como sabe, a expressão ‘Educação Física’ é um cartesianismo, educação do físico -, e digo que na educação física, o que se tem de estudar não é só o físico, é o homem, que é o corpo, alma, desejo, natureza, cultura, sociedade. Tudo isto, toda esta complexidade, a caminho da transcendência.

Até por causa desse olhar de complexidade sobre o fenómeno desportivo, tem algum significado especial para si que a cátedra seja na Universidade Católica Portuguesa, com o apoio do Governo?

Encontrei na Universidade Católica o espaço ideal para estudar a transcendência, que para mim é fundamental. A transcendência é o sentido da vida, quem não se transcende, verdadeiramente não vive.

E no desporto isso também deve existir?

O desporto, de facto, é um espaço de transcendência. Quem não se transcende não pode fazer, por exemplo, alta competição. A alta competição é também um espaço de transcendência. O ser humano tem também de caminhar para o Absoluto.

Eu costumo dizer que a vida sem Deus é um absurdo, com Deus é um mistério. Uma pessoa não pode falar destes problemas da transcendência como fala de um fenómeno físico-químico, não é? É uma coisa interessante, se nós mandarmos uma lágrima para o laboratório, a lágrima é água e cloreto de sódio. Ora, uma lágrima é mais do que isso: este mais do que isso, a ciência não explica…

É por isso que esta cátedra pode ser importante para que haja várias visões sobre o fenómeno desportivo, que em Portugal tende a ser muito simplificado?

Normalmente simplifica-se o desporto para qualquer pessoa poder falar dele. Nós reparamos nalgumas estações televisivas, radiofónicas, na realidade qualquer pessoa fala. Se for de cardiologia, se for de direito do trabalho, vão os especialistas, aqui não. Qualquer pessoa entra, qualquer pessoa fala, qualquer pessoa quer esclarecer…

No colóquio inaugural desta cátedra, na Universidade Católica, defendeu que há muita gente a falar de desporto, que parece muito fácil, mas que há necessidade de estudo e de investigação no desporto. Referia-se aos vários painéis televisivos de comentário desportivo, sobretudo de futebol?

Sim, principalmente do futebol. E falam de desporto como se fosse uma coisa menor, sabe? Uma coisa de que se pode falar assim…

Há um cientista português que diz que uma pessoa só é especialista no fim de 10 mil horas de estudo. Ora, eu julgo que as tenho. Vou fazer em breve 86 anos e desde 1968 estudo muito o desporto, trabalho a esse nível, sempre com o objetivo da transcendência.

É preciso mudar, sabe? Em todas as áreas. Nós estamos a aproximar-nos da quarta revolução industrial, estamos a aproximar-nos de um mundo novo, temos de preparar-nos para o novo. O triste não é mudar de ideias, o triste é não ter ideias para mudar. Há necessidade de o desporto se preparar para este mundo novo. O desporto, atualmente, designadamente o de alta competição, reproduz e multiplica as taras do sistema capitalista: a alta competição, o recorde, a medida, a performance…

O valor monetário dos atletas…

Ficamos ao nível do quantitativo. A Universidade Católica, por exemplo, estuda o quantitativo e o qualitativo, a razão e a fé, estuda fenómenos que normalmente, noutras instituições, não se estudam. Pode acolher as minhas ideias e eu posso beneficiar, porque também eu tenho muito que aprender.

Na sua reflexão há muito a perceção que os valores do desporto estão muito para além da perseguição da vitória como um fim absoluto – mesmo com recurso ao doping ou a métodos menos próprios por parte de dirigentes desportivos.

Isto é uma prova de que algumas pessoas que estão no desporto não sabem o que é o desporto. O desporto é também uma atividade física, só que é uma atividade física com ética, com valores, e as pessoas esquecem isso. Não há desporto sem ética. Não há desporto sem aqueles valores sem os quais se torna impossível viver humanamente.

E que valores é que hoje o desporto em geral passa?

São os valores da sociedade capitalista. O capitalismo transforma tudo em mercadoria e o desporto é mais uma mercadoria, até os jogadores aparecem como mais uma mercadoria. Por isso tantos jogadores, quando deixam de jogar, sofrem bastante com isso. E há muitos antigos jogadores na miséria, porque Ronaldo, Messi, ganham milhões, mas a maioria ganha pouco. Depois, não lhes ensinam o sentido da vida.

Um dia li uma frase de um célebre neurologista, Viktor Frankl, que eu gosto de repetir: “Nós, médicos, passamos a vida a dizer aos doentes que façam exercício físico, que não comam açúcar, que evitem o sal, etc. Esquecemo-nos de lhes dizer que o primeiro fator de saúde é que a vida tenha sentido para nós”.

Há diferença entre durar e viver. A gente vai ao médico para durar, ora a gente devia aprender a viver, que é mais do que durar.

Muitos destes atletas são estrelas globais, mas estão ou não treinados para que a sua figura seja inspiradora destes valores e deste sentido de vida?

Não, de maneira nenhuma. Eles são treinados, dizem-lhe muitas vezes: “pá, trabalha, porque tu é que te safas, tu é que vais ganhar dinheiro”, aquela linguagem do desporto. A pessoa é empurrada, logo de garoto, para o reino do argentário, para o reino do quantitativo, quando a felicidade está noutro lado. Há muita gente cheia de dinheiro e que está sempre a dizer que não é feliz. A felicidade vem disto: quando encontramos o sentido da vida.

Muitos atletas são ídolos para as novas gerações. Deviam ter uma responsabilidade acrescida, na forma como são no exercício da profissão e na condução da vida pessoal? Isso nem sempre acontece…

Não, é difícil. A vida deles é mediaticamente escancarada pelas revistas cor-de-rosa. Vemos que eles estão longe do sentido da vida.

Não nos devemos esquecer que vivemos num tempo do espetáculo, em que o que não é espetáculo, não é, não existe. Há necessidade do espetáculo, há necessidade de aparecer como ator. Portanto, temos de ouvir muito o Papa Francisco, aquela frase que ele diz sobre a infraestrutura que nos governa, económica, ele diz ‘esta Economia mata’.

E esta economia pode matar o desporto, também?

Claro, pode matar o desporto, esta economia mata tudo. Nós não temos, no desporto, uma preparação ética igual à preparação que se quer dar… Mesmo isso que se espalha por aí, que correr dá saúde. Só correr não dá saúde, o que dá saúde é o sentido, porque é que eu vivo, as grandes perguntas.

Essa paixão pela corrida parece ter apanhado os portugueses nos últimos anos. Nas grandes cidades crescem as ciclovias, e há cada vez mais gente a andar de bicicleta e a correr…

E fazem bem.

Mas, isso só tem um lado positivo?

Não chega. Para ser feliz, não chega correr, para ser feliz é preciso estar o homem todo, como diz o poema do Fernando Pessoa [Para ser grande, sê inteiro: nada/Teu exagera ou exclui].

Há dois grandes autores, que eu li, muito importantes para conhecer tudo, inclusivamente o desporto: Emmanuel Mounier e o padre Teilhard de Chardin. Dizem que o homem é integralmente corpo quando é integralmente espírito, e é integralmente espírito quando é integralmente corpo. Portanto, a gente não pode separar uma coisa da outra.

Quando defino a motricidade como ‘movimento intencional e solidário da transcendência’, ponho o ‘intencional’. Não é preciso dizer psicomotricidade, porque já o digo.

Na sua reflexão há sempre uma ideia de unidade, que vai em sentido contrário a uma tradição de separação corpo-espírito. De que forma é que isso pode ajudar quem começa numa prática desportiva, percebendo que não basta a dimensão técnica?

Eu até estou convencido de que uma pessoa que tenha o sentido da vida é melhor atleta, está mais confiante. E até a oração, que aliás há muitos jogadores que a fazem. Podemos falar da dimensão religiosa na alta competição, designadamente no futebol. A oração, falarmos com Deus, faz-nos bem, até psicologicamente.

Portanto, também é importante ajudar os portugueses a fazer melhor exercício físico, tendo em conta estas questões?

A saúde não depende só do exercício físico, depende de um exercício físico onde há valores, onde eu sou tão bom do ponto de vista físico, como do ponto de vista moral. Tudo isso tem a ver com o desporto, tudo isso tem a ver com a vida toda.

Essa sua visão influenciou uma geração de treinadores, com a ideia de que não basta só saber de futebol para ser bom treinador. De que forma é que vê o sucesso de pessoas de quem foi próxima, como José Mourinho ou Jorge Jesus?

Todos nós temos defeitos, é por isso que somos seres humanos, não somos perfeitos. Mas, esta geração entra num mundo… Sabe, eu não posso andar num caminho com lama e dizer que não sujo os pés. Aquele mundo é de dinheiro, de ganhar de qualquer maneira, de vitória, tem determinados defeitos.

Se a sociedade é de determinada maneira, o desporto reproduz e multiplica. A gente tem de assumir: se discorda dos valores predominantes na sociedade, tem de fazer uma rutura. A seguir, vem o profetismo: um projeto de sociedade diferente. Eu, cada vez mais, acredito em Deus. Talvez seja da própria velhice.

Hegel tem uma frase de que eu me lembro, às vezes, agora que cheguei a velho: ‘a ave de Minerva’ – ou seja, a ave da sabedoria – ‘só levanta voo ao entardecer’. Eu reparo que é mesmo assim: envelheci e tenho a sensação que sei mais, que sei melhor, que conheço melhor o ambiente que me rodeia.

Os treinadores têm responsabilidade no exemplo que dão aos outros? Quando um treinador, no final de um jogo, não cumprimenta um adversário, isso é um mau exemplo?

Com certeza. O treinador devia ser, simultaneamente, um educador, e muitas vezes não o sabe ser. Muitas vezes sabe que, para agradar a determinados dirigentes, tem que vestir aquele fato de indivíduo que não liga ao adversário. Eu sem o adversário não posso praticar desporto, não é? É imprescindível à minha prática desportiva. O adversário é alguém com quem eu devo competir, evidentemente, mas que devo respeitar.

A questão da violência no futebol é um fenómeno que o preocupa?

Preocupa-me. Se a sociedade é violenta, é evidente que o desporto tem também violência. Agora, atenção: o desporto tem violência, não é violento. É uma coisa completamente diferente.

Fazem-no violento?

Fazem-no violento. Mas acho que esta frase, passe a imodéstia, diz tudo: o desporto não é violento, tem violência.

Outra faceta do seu percurso tem a ver com a sua experiência política, como deputado. Até que ponto é que a atenção mediática sobre os reformados, que se criou com o PSN, o Partido da Solidariedade Nacional, se perdeu na atualidade?

Há uma coisa que eu quero chamar a atenção: eu entrei de forma idealista na política, porque não escolhi os partidos do arco do poder, criei um partido e depois fiz política. Isto quer dizer alguma coisa.

E que foi um fenómeno, na altura…

Foi. Mas depois reparei no seguinte: um deputado na Assembleia da República… é melhor não estar lá, sabe? É que não faz nada. Bom, uma pessoa deixa qualquer coisa, conheci pessoas de muito valor, que se deram comigo, que foram meus amigos. Estou a lembrar-me do doutor Almeida Santos, que foi uma pessoa que sempre me acompanhou, fomos muito amigos. Depois também tive um companheiro de curso, amigo de toda a vida, o José Medeiros Ferreira. Estou a lembrar-me do Raúl Rego, que gostava muito de falar comigo e que me convidou a escrever no ‘República’, antes do 25 de Abril. Portanto, ganhei conhecimento com algumas pessoas…

Mas, sente que há um espaço político para medidas e um olhar específico sobre a terceira idade, que ficou por preencher?

Há mais pessoas que trabalham pelos mais velhos, os mais idosos. Agora, era preciso fazer mais. Mas, isto também é uma sociedade – a gente não pode desligar nada da sociedade, de onde brotam as instituições -, a própria sociedade deita fora o que não presta, deita fora o que está velho. O maior drama, talvez, que encontrei neste país, foram os idosos sós. Encontrei tanta senhora viúva, com os filhos em Paris, na Austrália… Totalmente sós. O que não deve sofrer esta gente.

E esse fenómeno continua, tantos anos depois de ser deputado (1991-1995)…

O deputado pode pouco. Faz o que pode. Eu acho que também tem de haver mais respeito pela Assembleia da República. O deputado é um mal-amado e ele não tem assim tanto poder como se julga.

Fonte: Renascensa

Manuel Sérgio: “O treinador devia ser um educador e muitas vezes não o sabe ser”

Filósofo, professor catedrático, ativista e ex-deputado, Manuel Sérgio é licenciado em Filosofia pela Universidade Clássica de Lisboa e doutor em Motricidade Humana pela Universidade Técnica. Provedor da Ética no Desporto, desde 2013, é ainda autor e co-autor de mais de 50 livros, e de inúmeros artigos e ensaios.

Em 1986, apresentou os fundamentos de uma nova ciência social e humana, a ‘ciência da motricidade humana’, que viria a inspirar a designação da Faculdade de Motricidade Humana onde hoje se lecionam os cursos de Ciências do Desporto, Dança, Ergonomia, Reabilitação Psicomotora e Ciências da Nutrição, entre outros.

A um mês de completar 86 anos, Manuel Sérgio viu o seu nome dado a uma nova cátedra na Universidade Católica Portuguesa (UCP). A cátedra “Manuel Sérgio – Desporto, Ética e Transcendência” é promovida pela Faculdade de Teologia da UCP, com apoio do Instituto Português do Desporto e Juventude, e pretende responder à necessidade de estudar e investigar esta área, superando o discurso simplista e mesmo violento que muitas vezes domina o setor.

Em entrevista à Renascença e à agência Ecclesia o filósofo lembra que o desporto “é um espaço de transcendência” e não existe “sem ética”. Fala do exemplo que atletas, dirigentes e treinadores deviam dar, e de como o espaço de comentário desportivo está cheio de gente que “não sabe o que é o desporto”. Aos portugueses que estão a fazer cada vez mais exercício físico, lembra que “para ser feliz não chega correr”.

Como é que se sente perante a criação de uma cátedra com o seu nome, ‘Manuel Sérgio – Desporto, Ética e Transcendência’, na Universidade Católica Portuguesa?

Francamente nunca esperei ter uma cátedra com o meu nome. Mas, o que há a fazer é estudar, analisar se as minhas ideias, de facto, têm valor para tanto. Eu fiz um corte epistemológico com o físico do cartesianismo – como sabe, a expressão ‘Educação Física’ é um cartesianismo, educação do físico -, e digo que na educação física, o que se tem de estudar não é só o físico, é o homem, que é o corpo, alma, desejo, natureza, cultura, sociedade. Tudo isto, toda esta complexidade, a caminho da transcendência.

Até por causa desse olhar de complexidade sobre o fenómeno desportivo, tem algum significado especial para si que a cátedra seja na Universidade Católica Portuguesa, com o apoio do Governo?

Encontrei na Universidade Católica o espaço ideal para estudar a transcendência, que para mim é fundamental. A transcendência é o sentido da vida, quem não se transcende, verdadeiramente não vive.

E no desporto isso também deve existir?

O desporto, de facto, é um espaço de transcendência. Quem não se transcende não pode fazer, por exemplo, alta competição. A alta competição é também um espaço de transcendência. O ser humano tem também de caminhar para o Absoluto.

Eu costumo dizer que a vida sem Deus é um absurdo, com Deus é um mistério. Uma pessoa não pode falar destes problemas da transcendência como fala de um fenómeno físico-químico, não é? É uma coisa interessante, se nós mandarmos uma lágrima para o laboratório, a lágrima é água e cloreto de sódio. Ora, uma lágrima é mais do que isso: este mais do que isso, a ciência não explica…

É por isso que esta cátedra pode ser importante para que haja várias visões sobre o fenómeno desportivo, que em Portugal tende a ser muito simplificado?

Normalmente simplifica-se o desporto para qualquer pessoa poder falar dele. Nós reparamos nalgumas estações televisivas, radiofónicas, na realidade qualquer pessoa fala. Se for de cardiologia, se for de direito do trabalho, vão os especialistas, aqui não. Qualquer pessoa entra, qualquer pessoa fala, qualquer pessoa quer esclarecer…

No colóquio inaugural desta cátedra, na Universidade Católica, defendeu que há muita gente a falar de desporto, que parece muito fácil, mas que há necessidade de estudo e de investigação no desporto. Referia-se aos vários painéis televisivos de comentário desportivo, sobretudo de futebol?

Sim, principalmente do futebol. E falam de desporto como se fosse uma coisa menor, sabe? Uma coisa de que se pode falar assim…

Há um cientista português que diz que uma pessoa só é especialista no fim de 10 mil horas de estudo. Ora, eu julgo que as tenho. Vou fazer em breve 86 anos e desde 1968 estudo muito o desporto, trabalho a esse nível, sempre com o objetivo da transcendência.

É preciso mudar, sabe? Em todas as áreas. Nós estamos a aproximar-nos da quarta revolução industrial, estamos a aproximar-nos de um mundo novo, temos de preparar-nos para o novo. O triste não é mudar de ideias, o triste é não ter ideias para mudar. Há necessidade de o desporto se preparar para este mundo novo. O desporto, atualmente, designadamente o de alta competição, reproduz e multiplica as taras do sistema capitalista: a alta competição, o recorde, a medida, a performance…

O valor monetário dos atletas…

Ficamos ao nível do quantitativo. A Universidade Católica, por exemplo, estuda o quantitativo e o qualitativo, a razão e a fé, estuda fenómenos que normalmente, noutras instituições, não se estudam. Pode acolher as minhas ideias e eu posso beneficiar, porque também eu tenho muito que aprender.

Na sua reflexão há muito a perceção que os valores do desporto estão muito para além da perseguição da vitória como um fim absoluto – mesmo com recurso ao doping ou a métodos menos próprios por parte de dirigentes desportivos.

Isto é uma prova de que algumas pessoas que estão no desporto não sabem o que é o desporto. O desporto é também uma atividade física, só que é uma atividade física com ética, com valores, e as pessoas esquecem isso. Não há desporto sem ética. Não há desporto sem aqueles valores sem os quais se torna impossível viver humanamente.

E que valores é que hoje o desporto em geral passa?

São os valores da sociedade capitalista. O capitalismo transforma tudo em mercadoria e o desporto é mais uma mercadoria, até os jogadores aparecem como mais uma mercadoria. Por isso tantos jogadores, quando deixam de jogar, sofrem bastante com isso. E há muitos antigos jogadores na miséria, porque Ronaldo, Messi, ganham milhões, mas a maioria ganha pouco. Depois, não lhes ensinam o sentido da vida.

Um dia li uma frase de um célebre neurologista, Viktor Frankl, que eu gosto de repetir: “Nós, médicos, passamos a vida a dizer aos doentes que façam exercício físico, que não comam açúcar, que evitem o sal, etc. Esquecemo-nos de lhes dizer que o primeiro fator de saúde é que a vida tenha sentido para nós”.

Há diferença entre durar e viver. A gente vai ao médico para durar, ora a gente devia aprender a viver, que é mais do que durar.

Muitos destes atletas são estrelas globais, mas estão ou não treinados para que a sua figura seja inspiradora destes valores e deste sentido de vida?

Não, de maneira nenhuma. Eles são treinados, dizem-lhe muitas vezes: “pá, trabalha, porque tu é que te safas, tu é que vais ganhar dinheiro”, aquela linguagem do desporto. A pessoa é empurrada, logo de garoto, para o reino do argentário, para o reino do quantitativo, quando a felicidade está noutro lado. Há muita gente cheia de dinheiro e que está sempre a dizer que não é feliz. A felicidade vem disto: quando encontramos o sentido da vida.

Muitos atletas são ídolos para as novas gerações. Deviam ter uma responsabilidade acrescida, na forma como são no exercício da profissão e na condução da vida pessoal? Isso nem sempre acontece…

Não, é difícil. A vida deles é mediaticamente escancarada pelas revistas cor-de-rosa. Vemos que eles estão longe do sentido da vida.

Não nos devemos esquecer que vivemos num tempo do espetáculo, em que o que não é espetáculo, não é, não existe. Há necessidade do espetáculo, há necessidade de aparecer como ator. Portanto, temos de ouvir muito o Papa Francisco, aquela frase que ele diz sobre a infraestrutura que nos governa, económica, ele diz ‘esta Economia mata’.

E esta economia pode matar o desporto, também?

Claro, pode matar o desporto, esta economia mata tudo. Nós não temos, no desporto, uma preparação ética igual à preparação que se quer dar… Mesmo isso que se espalha por aí, que correr dá saúde. Só correr não dá saúde, o que dá saúde é o sentido, porque é que eu vivo, as grandes perguntas.

Essa paixão pela corrida parece ter apanhado os portugueses nos últimos anos. Nas grandes cidades crescem as ciclovias, e há cada vez mais gente a andar de bicicleta e a correr…

E fazem bem.

Mas, isso só tem um lado positivo?

Não chega. Para ser feliz, não chega correr, para ser feliz é preciso estar o homem todo, como diz o poema do Fernando Pessoa [Para ser grande, sê inteiro: nada/Teu exagera ou exclui].

Há dois grandes autores, que eu li, muito importantes para conhecer tudo, inclusivamente o desporto: Emmanuel Mounier e o padre Teilhard de Chardin. Dizem que o homem é integralmente corpo quando é integralmente espírito, e é integralmente espírito quando é integralmente corpo. Portanto, a gente não pode separar uma coisa da outra.

Quando defino a motricidade como ‘movimento intencional e solidário da transcendência’, ponho o ‘intencional’. Não é preciso dizer psicomotricidade, porque já o digo.

Na sua reflexão há sempre uma ideia de unidade, que vai em sentido contrário a uma tradição de separação corpo-espírito. De que forma é que isso pode ajudar quem começa numa prática desportiva, percebendo que não basta a dimensão técnica?

Eu até estou convencido de que uma pessoa que tenha o sentido da vida é melhor atleta, está mais confiante. E até a oração, que aliás há muitos jogadores que a fazem. Podemos falar da dimensão religiosa na alta competição, designadamente no futebol. A oração, falarmos com Deus, faz-nos bem, até psicologicamente.

Portanto, também é importante ajudar os portugueses a fazer melhor exercício físico, tendo em conta estas questões?

A saúde não depende só do exercício físico, depende de um exercício físico onde há valores, onde eu sou tão bom do ponto de vista físico, como do ponto de vista moral. Tudo isso tem a ver com o desporto, tudo isso tem a ver com a vida toda.

Essa sua visão influenciou uma geração de treinadores, com a ideia de que não basta só saber de futebol para ser bom treinador. De que forma é que vê o sucesso de pessoas de quem foi próxima, como José Mourinho ou Jorge Jesus?

Todos nós temos defeitos, é por isso que somos seres humanos, não somos perfeitos. Mas, esta geração entra num mundo… Sabe, eu não posso andar num caminho com lama e dizer que não sujo os pés. Aquele mundo é de dinheiro, de ganhar de qualquer maneira, de vitória, tem determinados defeitos.

Se a sociedade é de determinada maneira, o desporto reproduz e multiplica. A gente tem de assumir: se discorda dos valores predominantes na sociedade, tem de fazer uma rutura. A seguir, vem o profetismo: um projeto de sociedade diferente. Eu, cada vez mais, acredito em Deus. Talvez seja da própria velhice.

Hegel tem uma frase de que eu me lembro, às vezes, agora que cheguei a velho: ‘a ave de Minerva’ – ou seja, a ave da sabedoria – ‘só levanta voo ao entardecer’. Eu reparo que é mesmo assim: envelheci e tenho a sensação que sei mais, que sei melhor, que conheço melhor o ambiente que me rodeia.

Os treinadores têm responsabilidade no exemplo que dão aos outros? Quando um treinador, no final de um jogo, não cumprimenta um adversário, isso é um mau exemplo?

Com certeza. O treinador devia ser, simultaneamente, um educador, e muitas vezes não o sabe ser. Muitas vezes sabe que, para agradar a determinados dirigentes, tem que vestir aquele fato de indivíduo que não liga ao adversário. Eu sem o adversário não posso praticar desporto, não é? É imprescindível à minha prática desportiva. O adversário é alguém com quem eu devo competir, evidentemente, mas que devo respeitar.

A questão da violência no futebol é um fenómeno que o preocupa?

Preocupa-me. Se a sociedade é violenta, é evidente que o desporto tem também violência. Agora, atenção: o desporto tem violência, não é violento. É uma coisa completamente diferente.

Fazem-no violento?

Fazem-no violento. Mas acho que esta frase, passe a imodéstia, diz tudo: o desporto não é violento, tem violência.

Outra faceta do seu percurso tem a ver com a sua experiência política, como deputado. Até que ponto é que a atenção mediática sobre os reformados, que se criou com o PSN, o Partido da Solidariedade Nacional, se perdeu na atualidade?

Há uma coisa que eu quero chamar a atenção: eu entrei de forma idealista na política, porque não escolhi os partidos do arco do poder, criei um partido e depois fiz política. Isto quer dizer alguma coisa.

E que foi um fenómeno, na altura…

Foi. Mas depois reparei no seguinte: um deputado na Assembleia da República… é melhor não estar lá, sabe? É que não faz nada. Bom, uma pessoa deixa qualquer coisa, conheci pessoas de muito valor, que se deram comigo, que foram meus amigos. Estou a lembrar-me do doutor Almeida Santos, que foi uma pessoa que sempre me acompanhou, fomos muito amigos. Depois também tive um companheiro de curso, amigo de toda a vida, o José Medeiros Ferreira. Estou a lembrar-me do Raúl Rego, que gostava muito de falar comigo e que me convidou a escrever no ‘República’, antes do 25 de Abril. Portanto, ganhei conhecimento com algumas pessoas…

Mas, sente que há um espaço político para medidas e um olhar específico sobre a terceira idade, que ficou por preencher?

Há mais pessoas que trabalham pelos mais velhos, os mais idosos. Agora, era preciso fazer mais. Mas, isto também é uma sociedade – a gente não pode desligar nada da sociedade, de onde brotam as instituições -, a própria sociedade deita fora o que não presta, deita fora o que está velho. O maior drama, talvez, que encontrei neste país, foram os idosos sós. Encontrei tanta senhora viúva, com os filhos em Paris, na Austrália… Totalmente sós. O que não deve sofrer esta gente.

E esse fenómeno continua, tantos anos depois de ser deputado (1991-1995)…

O deputado pode pouco. Faz o que pode. Eu acho que também tem de haver mais respeito pela Assembleia da República. O deputado é um mal-amado e ele não tem assim tanto poder como se julga.

Fonte: Renascensa

Fútbol Base. Metodología para una Escuela de Fútbol

La metodología en el fútbol base es una parte decisiva para la mejora del educación en los jovenes futbolistas.

Denominamos escuelas de fútbol a aquellas instituciones encargadas de enseñar y transmitir no solo conocimientos en materia de fútbol, sino también en aquellos aspectos relacionados con la motricidad del jugador, principios tácticos comunes a otros deportes, al propio fútbol, así como también valores morales y sociales.

¿Que papel cumplen las escuelas de fútbol?

La realidad es que las escuelas de fútbol y en el fútbol base actuales se encuentran bastante alejadas de esta realidad. Salvo aquellas que se dedican a un modelo deportivo basada en el rendimiento donde generalmente suelen tener equipos en competiciones de élite.

La mayoría de las nuevas denominadas escuelas de fútbol, muestran una realidad más bien diferente, donde lo habitual es encontrar sistemas de trabajo descontextualizados entre las diferentes categorías y donde se prima el rendimiento por encima de la educación.

Hemos analizado este tema en profundidad en este artículo, donde hablamos sobre la coherencia educativa entre las diferentes etapas. En la presente entrada hablaremos a un nivel más general, describiendo una propuesta de trabajo amplia que implique a todos los estamentos que componen la formación de una escuela de fútbol o club.

Para esto nos basaremos en lo que propone Martin Mackey, experto en rendimiento y formación de fútbol base, y que actualmente dirige como director general las categorías de formación de Newells Old Boys de Argentina.

El papel de la estrategia en los clubes

Es necesario  tener clara una visión de futuro. En muchos casos las estrategias planteadas no van más allá de un año / temporada vista. Estos objetivos a corto plazo solo provocan que sea cada vez más común que en categorías inferiores se prime el rendimiento por encima del proceso y de la educación, buscando por ejemplo que categorías de 5 y 6 años, el objetivo sea ganar el campeonato.

La estrategia a largo plazo plantea cuestiones totalmente diferentes.  Por un lado a nivel educativo, donde el jugador experimente un proceso rico en contenidos y bien secuenciados, coordinados a lo largo de su etapa de formación. Por otro lado a nivel del club, se busca un camino definido hacía donde se quiere llevar el club, y dependerá de la filosofía de cada uno, puesto que algunos abogarán por tener el mayor número de equipos en categorías altas y otros buscarán que sus clubes sean una escuela de buenos jugadores. Todo dependerá del objetivo.

Esta estrategia de futuro generará un camino hacia donde se quiere ir, con un rumbo claro y donde se puedan establecer indicadores para evaluar el proceso de los jugadores y de los recursos humanos del club.

Buscar una idea de juego

Una vez más vuelve a aparecer la idea de juego como nucleo, que hemos analizado en la periodización táctica. En este caso, la estrategia que hemos analizado anteriormente debe respetar una idea de juego general a todo el club, donde exista un lenguaje único en toda la institución que ayude a coordinar la estrategia.

Este modelo de juego es una guía, y no será igual al sistema o esquema de juego de cada categoría, ya que cada equipo será diferente y las circunstancias de cada competición también los serán. El esquema de juego de cada equipo será independiente a cada equipo y a cada entrenador, pero debe respetar la idea de juego central o patrón  del club.

La idea de juego dará unas pautas a la hora de enseñar un modelo de juego general, desde las categorías más inferiores hasta las más altas, y hará en primer lugar, que los entrenadores tengan una referencia a la hora de jugar y en segundo lugar que los jugadores al pasar de una categoría a otra en el proceso de aprendizaje no noten diferencia en la forma de jugar entre categorías.

Un ejemplo claro se puede apreciar en el FC Barcelona, o Athletic de Bilbao, donde los jugadores de la base, entienden la idea de juego general del equipo desde categorías inferiores.

La metodología de trabajo

Se propone buscar una forma común de trabajar en el club. Es común que tanto en los equipos más modestos, que cuentan con poco recursos humanos, así como aquellos que cuentan con más personal, la metodología de trabajo sea propia de cada entrenador, preparador físico o nutricionista.

La forma de trabajar de los diferentes profesionales que componen el club, trabajen bajo una misma metodología, que sea común al club y donde el objetivo sea generar un modelo de trabajo conjunto y coordinado entre las diferentes disciplinas que lo componen.

En este caso, Mackey, explica que se trata que entrenadores y preparadores físicos de diferentes categorías trabajen con un metodología común, así como las diferentes áreas que existen alrededor en muchos clubs, como el área de nutrición, fisioterapia o recuperación, de manera que todas trabajen de forma coordinada en busca de ayudar y unir fuerza para mejorar el rendimiento de los jugadores. En palabras de Mackey, todas estas disciplinas diferentes impactan siempre sobre la misma persona, el jugador, por lo que no tiene sentido que el preparador físico proponga un trabajo descoordinado al del entrenador y que el nutricionista no se adapte a las exigencias que se están planteando en el entrenamiento y en la competición.

La metodología de trabajo, es lo que provee de herramientas para construir un camino a corto y a medio plazo. Será necesario por parte del club, establecer una metodología de trabajo en las diferentes área que hemos mencionado anteriormente.

Esta metodología nos hará tener claro cual es el método de trabajo en cada día, donde el objetivo es poder dotar de diferentes herramientas al jugador para que crezca en su rendimiento deportivo y personal.

Por lo tanto, a partir de la metodología se generará un sistema de trabajo, que dará como resultado un organigrama con directores deportivos, coordinadores y entrenadores especializados en sus diferentes áreas.

El papel de la formación

La formación juega un papel importante en estas escuelas, no solo a nivel deportivo sino a nivel personal.

Debemos tener en cuenta la gran cantidad de horas que pasan al año los niños y niñas en los entrenamientos y la competición, y la importancia de transmitir valores y una buena educación.

Aquí es donde entra el papel del entrenador como educador o docente y no como un mero entrenador que dirige y manda. El entrenador de fútbol, al igual que en otros deportes es un docente que debe saber como, cuando y de que manera impartir los conocimientos propios y no propios del deporte.

Centrándonos en los puramente deportivo, el entrenador será el encargado de hacer que los jugadores entiendan, asimilen y ejecuten los conceptos de juego que implica el fútbol y las ideas de juego del entrenador. Se debe abogar por un sistema que integre y haga que lo jugadores sean participes del aprendizaje y no solo ejecutores. El saber lo que se hace sobre el hacer que diría Xavier Tamatit.

Los tipos de conocimientos

Martin Mackey distingue dos tipos de conocimientos que se pueden dar por parte del jugador:

– El Conocimiento declarativo

– Conocimiento procedimental

A través de la conjunción de estos será como el jugador aprenda e interiorice los conceptos que el entrenador quiere transmitir. Poniendo un ejemplo del propio Newells, estos envían deberes a lo jugadores, es decir disponen de una plataforma interactiva donde los jugadores pueden aprender sobre sistemas, ideas y conceptos de fútbol, así como también deben ser capaces de transmitir y explicar estas ideas a sus compañeros.

Esto por un lado hace que el jugador que explica sea capaz de comprender y asimilar los conceptos explicados (conocimiento declarativo) lo que su vez ayudará a ejecutar y realizar los conceptos de forma práctica en el entrenamiento y la competición (conocimiento procedimental).

Ya se sabe que la mejor forma de aprender es enseñando a otros.

Otro ejemplo de este importante papel del entrenador y de la interiorización y de la importancia del ‘’saber hacer’’ lo encontramos recientemente en el torneo LaLiga Promise, donde pudimos ver un ejemplo claro sobre interiorización de conocimientos que os dejamos en este enlace.

Resumen

El fútbol base  debe tener una estructura y estrategia que defina los valores e ideas de juego comunes a todas las categorías del club.

A partir de la estrategia será necesario definir la metodología de trabaja común y específica a cada categoría y dotando de un lenguaje común para todos los departamentos que componen el club (rendimiento y de fútbol).

La formación en fútbol base cumple un papel fundamental en todas las etapas y categorías del club, siendo el entrenador la persona encargada de saber hacer llegar de forma pedagógica estos conocimientos, siempre, como expresa el maestro Paco Seirul-lo, centrados en la formación del jugador como individuo.

Fonte: Efficient Football