“Prefiro treinadores estrategistas”, afirma Alex ‘Cabeção’.

Há uma enorme discussão no futebol brasileiro a respeito do treinador de futebol. Temos o estrategista, o contador de histórias, o ex-jogador que conta sua história no dia a dia, o motivador, aquele que não quer semana aberta de treinos… Enfim, as classificações são variadas.

Eu, sinceramente, prefiro o estrategista. Aquele que te oferece opções e você ganha no domingo em cima do que se treinou e foi imaginado ao longo da semana.

Fora qualquer classificação, o treinador tem de ir além do trabalho com a bola, tem de se preocupar também com a relação humana, com o sentimento dos atletas pelo jogo, pelo treino, pela profissão. Procurar conhecer o grupo dele e sentir ali no ambiente como esses jogadores vão lidar com dirigentes, imprensa, torcedores e, hoje, as redes sociais.

Aí estamos falando de um grupo de pessoas com várias misturas. Podemos ter nordestinos, gente do centro do país, do interior do Brasil, de metrópoles… São várias educações e perspectivas diferentes dentro do mesmo ambiente. E o treinador tem de ter uma belíssima leitura daquele quadro que se desenha à frente dele. Às vezes uma palavra no meio de um discurso lindo acaba se perdendo e o contexto todo vai embora. O treinador tem de ter um pouco de PSICÓLOGO ao lidar com tantas cabeças diferentes dentro de um mesmo vestiário.

Uma vez, estávamos com um time muito desorganizado e nosso treinador reuniu o grupo no meio do campo e disse assim: “Estou cansado de treinar uma coisa na semana e chegar no jogo e ver meu time como kamikazes. Não suporto mais isso”. Aí o treinador virou as costas e começou o burburinho. “O que esse louco acabou de dizer? Quem são esses?”.

O treinador, então, separou os dez que iriam jogar. Aí eu pedi a palavra e disse ao treinador: “Explique o que é kamikaze porque esse treino não vai render. Muitos aqui não conhecem a história”. A partir daquele dia, ele sempre perguntava no final se todos sabiam e tinham entendido o que ele acabara de dizer.

O treinador também precisa de muita disposição física e, principalmente, mental para lidar com palpites de todos. A linha de equilíbrio dele tem de ser fantástica. Porque ele ouvirá de esposa, pai, mãe, irmão, da comissão, daquele amigo de infância que bebe cerveja com ele, do torcedor com quem ele cruzar por onde andar… Todos entendem mais do que ele, todos sabem de bola mais do que ele, todos mexem com o time e no time melhor do que ele. Ainda terá de dar a sorte no domingo de que, ao mexer no time, as trocas sejam positivas. Correndo o risco de pegar aquele comentarista que diz: “Se eu fosse o treinador, tirava o volante e abria o time”. Ou: “É momento de tirar o fulano que não está bem e fechar o time”.

O que não sabemos do lado de fora é que o volante citado é aquele líder por natureza. Que mesmo mal no dia exerce uma liderança tão grande e natural que apenas a presença dele causa um rendimento maior de outros jogadores. Que aquele fulano citado é um jogador tão confiante que emana isso ao time e o time acredita naquilo. E isso faz com que mesmo mal no jogo o treinador o mantenha porque ele é importante de qualquer forma.

Para chegar ao ponto de ter esse feeling de olhar para seu time e ver que muitos fazem um trabalho invisível mais importante do que muitos que têm uma visibilidade maior, leva bastante tempo e vários contragostos. Porque quem está fora não observa isso.  A observação é simplória. Linha de quatro, de três, quatro em um meio mais pesado, mais leve ou ainda três, e aí abrem dois com velocidade, fazemos dois em cima de um e está criada a superioridade numérica, e em cima dessa  situação nosso time será melhor e ganhará o jogo. Em cima da frieza, é assim o futebol.

Mas, no calor do jogo, da semana, das expectativas criadas pelo clube, pelos sonhos de crianças que se tornaram adultos e hoje são jogadores de futebol, não é tão simples e frio assim. E ainda temos de lidar com dirigentes que acham que sabem de bola e, porque gastaram de maneira desequilibrada, cobram sem razão algum resultados, sem olhar o trabalho da semana. Só por gastar acham que formaram uma boa equipe. E ainda lidar com torcedores e a imprensa, que tratam muitas vezes uma equipe de futebol como um robô de última geração que tem um botão de liga e desliga. Quem dera fosse simples assim.

O treinador tem de lidar todos os dias com essas expectativas de todos os lados e ainda lidar com uma situação que, para mim, é a pior coisa em um vestiário: a alienação do grupo.

Convivi com vários jogadores que não sabiam o regulamento da competição que jogavam. Com “atletas” que não tinham a mínima preocupação em melhorar, em buscar se aprimorar no dia a dia. Aqueles que na quinta-feira estão ligando para a família e para os amigos dizendo assim: “O filho da puta do treinador não vai me levar de novo pro jogo. Mas tá legal! Sábado à tarde tô aí e fazemos aquele churrasco”. Sem imaginar que na semana seguinte ele poderia ser decisivo. E o treinador fica de mãos atadas porque tentará vender uma ideia, mas, sem o conhecimento e a perspicácia para lidar com esse desejo individual, e mostrar ao jogador que ao colocá-lo a favor de um coletivo realmente o objetivo individual será alcançado, torna-se cada vez mais complicado.

Independentemente da característica principal do treinador, ele tem de lidar bem com o ser humano, e fazer disso um bom pedaço do seu trabalho diário. E, no mundo de hoje, onde o virtual vale mais do que qualquer coisa, o trabalho desses treinadores aumentou um pouco. Os grandes nomes do nosso futebol sempre tiveram um relacionamento pessoal com seu grupo muito bem feito. Nada era perfeito, mas era muito bem feito.

Fonte: Chuteira F. C. por Alex